maio 17, 2008
TEXTURAS POLPOSAS E SUCULENTAS

Chris Beaumnont
Os entendidos prevêem que as cerejas da Beira Baixa fiquem pela “hora da morte”. E se a expressão popular a cada dia adquire consistência no sentido – cangalheiro, urna, coroas floridas que somente consolam os vivos, velas e panejamentos originam contas caladas que os defuntos não pediram. De volta à carestia das cerejas do Fundão e arredores, a culpa cabe inteira às bátegas de água deste Maio indeciso.
Eu, que adoro mordiscar texturas polposas e suculentas, entre elas as das cerejas, conformei-me, não sem íntima revolta – até na fruta o cidadão comum, cada vez mais pelintra, fica condenado à compra de espanholadas. Ora bolas!
Porque as palavras são como cerejas, temo que dumas e doutras Maio não me traga abastança. Apetecem-me palavras novas, doces e rijas, que me encham a boca e apeteça experimentar. Nas quais me lambuze e ouse a rendição. E não temo capitular pelo provimento de audácia que os genes e o histórico pessoal construíram. Pela liberdade do pensamento que as atitudes dita, somente rejeito ajoelhar perante causas cobardes ou tirânicas.
O escritor António Lobo Antunes subscreveu hoje a petição em linha Manifesto em Defesa da Língua Portuguesa Contra o Acordo Ortográfico - assinatura nº 27223.
A petição está em linha em http://www.ipetitions.com/petition/manifestolinguaportuguesa e continuará aberta a receber assinaturas.
Às 18h00 de ontem ultrapassou as 28.000 assinaturas.
Publicado por Teresa C. às 10:12 AM
maio 16, 2008
CHARUTO TEMPERADO A FÊMEA

Alberto Vargas
Entre o aumento do preço dos combustíveis e as desgraças terrestres, nos dias dos portugueses paira o cinzento que a meteorologia acentua. Pinga água do alto, escorrem notícias tristes das televisões. Seja pela violência no Líbano que já matou sessenta pessoas, pelo desabamento de número inusitado de escolas na China que soterraram milhares de crianças, ou pelo atentado atribuído à ETA que causou a morte de um polícia e fez quatro feridos em Espanha, o desânimo encharca a hora do jantar.
A fumaça aérea do Primeiro Ministro interrompeu o desgraçado ciclo. Há coisa mais divertida, e que exemplarmente caracterize o espírito insubmisso português, do que ver o Chefe do Governo furar a lei que ele próprio impôs? Gostei, confesso. É refrescante constatar que ainda não nos amalgamamos com o obediente espírito dos outros europeus. Andava macambúzia com o nosso estar bovino que em tudo contradizia a lusitana tradição de fura-leis. Estávamos a ficar um tédio porque certinhos, aceitando num encolher-de-ombros os aguaceiros governamentais. Com uma fumaça clandestina, o Engenheiro José Sócrates repôs os usos tradicionais: proibições, sim, cumpri-las, não. E depois, pela irreverência, veio provar que não ficamos aquém dos americanos. Se o Clinton fumou charuto temperado a fêmea na sala oval, porque carga de água devia o nosso Primeiro prescindir de uma cigarrada aérea?
Publicado por Teresa C. às 11:13 AM
maio 15, 2008
ESTAVAM NA MESA DO CANTO

Beryl Cook
Estavam na mesa do canto. Passada a maré-cheia de fregueses pela hora do almoço que as empresas de serviços comandam, o sítio fica tranquilo. Altura em que me esgueiro para disciplinar o falho apetite. Na breve espera da posta de corvina grelhada e do feijão-verde cozido, eles chegaram. Sentaram-se pesadamente, como quem descarrega no assento arrobas de batatas. Que vieram, fritas, em pratos cheios. Ninhos de alheiras com ovo em cima. Nem ponta verde à vista.
Debicando as vagens do feijão aparado, foi audível o pedido de condimentos. Chegou o infeliz galheteiro ladeado de sal e pimenta. Caída na indiscrição que suavizei como pude – olhar intervalado e fugido –, registei os gestos síncronos. Sal, muito sal sobre as batatas, pimenta em seguida. Pelo silêncio harmónico era denunciada a longa conjugalidade. Entre a corvina e o café, registei da mulher os pés inchados que prendiam chinelas rasas de bom-tom. Obesa, concluí. Ele, abdómen como bola, pediu café e digestivo. Em três penadas, ela engoliu sucedâneo de leite-creme.
Matutei se compreenderiam as consequências do crime ingerido. Dois obesos emudecidos. Sem outra glória que a de trincarem colesterol na mesa do canto, repousando nos assentos os carregos de batatas.
Publicado por Teresa C. às 08:18 AM
maio 14, 2008
QUANDO ELA TREME

Daniel Bilodeau
Pode ser de quietude o estado. Parecer mansa e terna ou afadigada num dia comum. Acordar risonha. Entardecer dourada. Pode, num repente, mudar. Quando das entranhas vem o rugido, entra em convulsão. Sem que parto ou prazer húmido explica a doudice. Sendo feminino o género, não é mulher.
Que a Terra enlouquecemos, é certo. Mas quando ela decide o fragor, abre rasgos no que fora chão plano, destrói as obras dos humanos e estes com elas. Esgotada a energia que o grito causou, são gritos outros que ficam – dos feridos e daqueles que amavam os mortos. Milhões, porque a China é grande também em gente.
Há muito, pouco para quem a habita, que a terra portuguesa apenas solta vagidos e se esvai em tremuras suaves. Dela afirmam ser de risco o centro e o sul. Que as plataformas onde assenta se procuram. Que num amanhã, hoje?, talvez colidam e ralhem ou que venha do chão do mar a zanga. E se for? Será nosso o tempo do sofrimento. Antes que chegue previno-me: dos que amo cuido e conto-lhes do meu amor por eles.

Publicado por Teresa C. às 07:31 AM
maio 13, 2008
TELAS, PERNAS E PÉS NUS

AÇÚCAR
Pessoas, sol, silêncio, brisa suave, caminhar, neblina matinal, baixa-mar e maré-cheia, faróis, rugidos das ondas nas rochas e piados de gaivotas, these are a few of my favorite things.
Tela branca, pincéis e óleos, cheiro a aguarrás, lápis de carvão bem afiado, papel alvo, pátio sombreado por latada, cavalete e caixa de lápis-de-cor, these are a few of my favorite things.
Calor espesso do dia meio, pernas e pés nus, desarmonia das cigarras, rumorejar das folhagens, canto da água que salta, cerejas, violetas silvestres, pisar restolho, calcar caruma, inspirar fundo aromas de resina e pinheiro, these are a few of my favorite things.
Casa arejada, preservar livre o espaço, fotografias, os disformismos da Manuela Pinheiro, esculturas da Filhó, cartoons e os cavalos do Cid, cerâmicas do Carlos Oliveira, óleos do Ernâni, tapeçarias do Querubim Lapa, o erotismo cruzado entre a China e Portugal do Silva Palmeira, these are a few of my favorite things.
Noites longas abertas à vida, afectos, mãos, jeito de olhar, lábios cheios que um sorriso divide, mesa lenta e um bom vinho, cascatas de risos, corpos e sentidos espertos, these are a few of my favorite things.
VENENO
Sendo homem, talvez o arrazoado ficasse assim resumido:
Sex... hmmm… beer...
Cars... Football... sex
La dee da, la dee da,
La dee da, da,
These are my favorite things.
Publicado por Teresa C. às 07:50 AM
maio 12, 2008
INAUGURAÇÃO: PNET ARTES

Manuela Pinheiro
Abre hoje o primeiro site português integralmente dedicado às Artes Plásticas. É uma galeria de arte online que pretende reunir artistas das áreas da pintura, cerâmica, escultura, cartoon, ilustração, tapeçaria, desenho e gravura. Nela figuram obras de nomes consagrados nas artes pictóricas nacionais:
Augusto Cid
Antonieta Roque Gameiro
Carlos Oliveira
Conceição Ramos
Ernâni Oliveira
Manuela Pinheiro
Silva Palmeira
Víctor Belém
No PNET Artes têm lugar todos os artistas que tenham carreira feita ou em construção, como é o caso da Isa Vasconcelos e do Nuno Miranda Ribeiro. Cada artista possui a sua página pessoal. Nela figura o currículo, e dali é possível partir para as galerias que os respectivos trabalhos abranjam. As exposições são divulgadas com destaque honroso, e não remetidas para cantos escusos como soe acontecer nalgumas publicações escritas.
Porque os amantes das artes pictóricas, artistas e observadores, merecem o espaço digno que, amorosamente, a PNET construiu, peço aos leitores que o ajudem a divulgar. Talvez, quem sabe, a visita venha a traduzir-se em viragem na difícil vida de um artista plástico em Portugal.
Nota: A partir das 15h de hoje, www.pnetartes.pt abre a janela que faltava. Um logotipo no blog e, caro blogger, nem imagina o bem que fazia!...
“O segredo mais bem guardado dos homens (e que não será aqui revelado, caso contrário deixaria de ser segredo) é os seus pensamentos (...)" Crónica de James Stuart
“Prolegómenos para uma metafísica presente dos Notáveis” -“Quando se fala de Notáveis a única certeza conhecida é que se trata de uma estirpe (...)” Crónica de André Carvalho
Publicado por Teresa C. às 07:45 AM
maio 11, 2008
A LILLY DOS CASOS GELADOS

Mati Klarwein
Passou há dois anos nos ecrãs portugueses. “Cold Case” ou “Casos Arquivados” é um enlatado americano com ingredientes conhecidos: os maus e os bons, sabujos e bonzinhos, detectives e crimes. O sumo da série é este: uma equipa do Departamento de Homicídios de Filadélfia reabre casos por solucionar e investiga-os utilizando as novas tecnologias. Entre peripécias várias de encher o olho e colar ao sofá o espectador, a equipa consegue o milagre da confissão voluntária dos acusados. Não fosse o peso do remorso e a manipulação dos indícios, os casos continuariam gelados na arca frigorífica do tempo.
Série de culto para muitos, não me deteria se em vez da detective Lilly Hora do Rush (Kathryn Morris) fosse protagonizada por um polícia careca próximo da aposentação. Neste particular, os produtores da série acertaram: a história de uma mulher, loira, de meia idade, solteira, que trabalha rodeada de homens e com um passado misterioso fideliza a curiosidade.
A vida pessoal de Lilly é desfiada no decorrer dos episódios. O sangue frio e a dedicação integral ao trabalho tentam encobrir a vulnerabilidade da mulher por detrás da profissional exemplar. Solitária, carinhosa na intimidade, vive os quarenta anos rodeada de gatos, tal como ela, no passado vítimas de violência patente em chagas. Como muitos humanos, sublima o drama pessoal através da entrega a uma causa, aqui simbolizada pela profissão.
Lilly é o tipo mulher comumente descrita de modo cruel e redutor – “loira solteirona, independente e com sexualidade indefinida. Por ter sofrido em criança abusos sexuais, escolheu ser polícia para se vingar dos homens maus. Do que precisa para curar a carência afectiva é de um homem que lhe dê uma boa queca companhia.”
Publicado por Teresa C. às 11:45 AM
maio 10, 2008
DOS TELHADOS ÀS CATACUMBAS DA CIDADE

Claude Théberge
Alcandorados, descem ao rio. Quando o há. No âmago das cidades, sendo planura o chão, os telhados ge(r)minam aboletados. Resguardam o casario e as gentes que dele fazem casa ou sítio de labor pago. Circula sangue vivo nas ruas cavadas pelos fossos entre telhados.
Amanhecem tranquilas as cidades. Enganador o vazio do alcatrão e das calçadas - no descompasso da hora que rege de cada um o dia, chegam caminhos apressados e a cacofonia. Pelo movimento do sol – porque assim percepciona quem, pregado ao chão, o vê acordar e morrer pela tardinha – chega a obscenidade dos roncos motorizados e dos guinchos das buzinas. Abafados, ficam sons outros que às cidades pertencem e dão vida: o saudável vozear dos humanos que entre si estabelecem pontes, a música tocada pelas folhagens ou o linguajar próprio dos cães e aves.
E, quando a cidade esgota pelo cansaço quem nela habita, fica por conta dos morcegos e daqueles para quem o dia é turno da noite. Nas horas de todas as sombras, as catacumbas sobem à superfície.
Nota: texto publicado hoje a convite da "Dobra do Grito"
Publicado por Teresa C. às 10:11 AM
maio 09, 2008
SÁCRISTIA DO ARCEPISPO

Autor que não foi possível identificar
Um novo espaço onde pontifica o Arcebispo.
Do templo, abriu sucursal.
BOGOSFERA

Samuel Bak
Publicado por Teresa C. às 02:43 PM
UMA INQUIETAÇÃO E UM DESMANDO

Jan Boallert
A inquietação
Perante factos, afirma o povo, diminuem os argumentos. Sofredora consciente da patologia da razão, mais que o precisado eivada de emoção, desgoverno a lógica perante algumas notícias. A última, aventava a hipótese da herança de traços da personalidade do doador em transplantados.
Li a história de um honesto cidadão, de seu nome Sonny Graham, que sofria de insuficiência cardíaca congénita e recebeu o coração de Terry Cottle que se suicidara com um tiro na cabeça. Cumprido um ano de receptor do novo órgão, procurou a família de Cottle para o agradecimento pessoal. Acabou por se envolver e casar com a viúva do seu doador, Cheryl Cottle. Passada uma dúzia de anos, o feliz contemplado com mulher e coração novo, o referido Mr.Graham, suicida-se com um tiro na garganta. A desgraçada Cheryl enviuva pela segunda vez devido à panca suicida dos respectivos.
Porque da lógica não desisto, quem garante não residirem os motivos últimos do uso da arma de fogo no comportamento da casada-viúva-casada-viúva, Cheryl Cottle? É que há cada um e cada uma...
O desmando
Um casal irlandês, de férias em Portugal, abusou dos copos na tépida noite algarvia e deu entrada no hospital em coma alcoólico. A polícia tomou conta dos três filhos deixados sozinhos e entregou-os ao cuidado do Refúgio Aboim Ascensão. Recobrada a consciência dos pais, foram-lhes devolvidas as crianças. Há gente incapaz de aprender com o sofrimento alheio. E depois, as inocentes Maddies deste mundo é que pagam a factura da neglicencia parental.
Publicado por Teresa C. às 07:50 AM
maio 08, 2008
SEM PRESERVATIVO QUE SE DANEM OS APETITES

O Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa divulgou, terça-feira, os resultados daquele que é considerado o maior estudo alguma vez realizado sobre a sexualidade dos portugueses. Objectivo: analisar os comportamentos “numa perspectiva de práticas, representações e identidades bem como de atitudes preventivas sobre a infecção HIV/Sida”.
As conclusões confirmam dados antigos. Os homens têm maior número de parceiras, traem mais, declaram maior frequência e gratificação nas relações sexuais que iniciam dois anos antes de nós (por volta dos dezassete anos). Nada de novo. Não ficou esclarecida a perplexidade das mulheres de ontem e de hoje: na horizontal, na oblíqua ou na vertical eles dão-se por contentinhos, independentemente do prazer obtido pela parceira.
Foi concluído que aproximadamente 60% dos portugueses não usam, não usaram e não tencionam usar preservativo. Penderia o queixo pelo espanto, não fosse atávica a lusitana rebeldia à mudança de costumes. Ainda lembra a dificuldade em interiorizar nos condutores a utilização do cinto de segurança. Cumprir limites de velocidade, ter seguro válido, documentos em ordem e automóvel afinado obrigou à fiscalização da polícia e multas. A entrega da declaração anual do IRS é feita sob a coacção de coimas e maçadas. Que tememos tanto, ou mais que a polícia.
Fossem os actos sexuais passíveis de policiamento e encargos onerosos, teriam mudado os usos. Mas não. Ora, sendo tirada à Monsieur de La Palice que são precisos dois para fundar império dos sentidos, e admitindo, malgré a óbvia falsidade da conclusão, que apenas 0,7% dos portugueses são homossexuais, as mulheres têm culpas no cartório. Vem a calhar sublevação feminina – sem preservativo que se danem os súbitos apetites! "Em vez de", um duche. Bem frio.
Crónica publicada ontem no PNET Mulher
Publicado por Teresa C. às 07:58 AM
maio 07, 2008
O (DES)GOSTO DOS GINÁSIOS

Mulher que se inscreva num wellness center – ginásio é termo out, dizem - julgando distrair-se com cópias do David de Michelangelo enquanto relaxa e combate o puxa-para-baixo da gravidade terrestre, desengane-se. Se o herói bíblico, postado em sossego na Academia di Bella Arte em Florença, tem cinco metros de altura, tudo no sítio e a dureza do mármore, os «davidzinhos» dos clubes de bem-estar são deploráveis. Dividem-se em duas categorias: os “Vs” (de)pilados que gemem enquanto os bíceps esticam, não arredando os olhos do incha-desincha como se a definição dos músculos fosse a essência da vida, e os “Outros”. Estes usam calções largos de onde sobram pernas, invariavelmente, desastrosas e têm pêlos onde é suposto – I guess!, que quem vê pernas ignora o que vai pelas áreas pudibundas. Subdividem-se nos escanifrados e nos valentes que guerreiam litros de cerveja, feijoadas e cozidos alojados nos abdómens proeminentes. Nesta divisão, o uso de meias brancas é recorrente.
Outro item que também distingue as categorias dos utentes masculinos é o respectivo comportamento perante as mulheres reveladas pela licra. Os “Vs”, ao olharem-nos, assestam monóculo invisível no grau de dureza da nossa curva traseira. Sem detença, progridem até à postura e à forma musculada dos ombros e antebraços. Os “Outros”, sendo heteros, são normais – vão do rabo às mamas, depois catam montes de Vénus que a justeza das calças exiba. Embasbacam, quando abrimos e fechamos as pernas no abductor sel, com a discrição de um sapo ao esticar a língua para caçar alimento. Os “Vs”, não - avaliam com sobranceria a nossa execução dos abdominais e o levantar dos pesos.
Abordar uma mulher entretida na Wave ou em exercícios pélvicos, culmina as diferenças entre os espécimes cujo habitat precário é o ginásio (sorry!, wellness club or center). O “V” pede licença, corrige o exercício e fundamenta tecnicamente a intervenção. O “Outro” dardeja olhar que pretende significante e só detém a mulher por estar convicta de poder assistir a uma apoplexia em qualquer instante.
Fossem os homens que connosco partilham os treinos como o sereno e belo David, e mais mulheres trocariam artifícios cirúrgicos pelo tranquilo desafio com o próprio corpo num ginásio (shame on me!, wellness club or center).
Publicado por Teresa C. às 07:40 AM
maio 06, 2008
OS ALEXANDRES DAS NOSSAS VIDAS

Steve Rosendale
São atentos, dedicados, cobrem-nos de mimos. Dizem amar-nos. Das mil maneiras, inventam mais uma para nos cativar. E cativam. Porque a ternura nunca é demais e pelo registo cúmplice, uma vez com eles envolvidas em lençóis comuns, chegamos a verbalizar a palavra amor. Que nem é mentira naquele instante preciso – a insanidade dos sentidos eleva a mil potência de base dez. Na teia docemente urdida, alojamos nostalgia do haver, o desejo de tudo ser mais do que é. Porque a razão é malvada ao intrometer-se nas acarinhadas ilusões, espicaça a verdade dos sentimentos e vai escasseando no verbo o “amo-te”. Ao dar por isso, já é tarde para colmatar o prejuízo ao outro e a nós feito. E não quereríamos ter dito o que dissemos. Experimentar o sentir dúbio do não é, mas podia ser. Arrependimento? Nem por isso. Houve momentos felizes, puros e sãos. Ambiguidades e incertezas? Trocar os «bês» pelos «vês»? Sim, é certo. Quem pelo mesmo nunca passou, não atire pedra. Não fossem os Alexandres, como identificaríamos a majestade dum grande amor?
A Leonor Barros é, doravante, a cronista das terças-feiras. Escreve, e que bem o faz!, aqui e “Na Curva da Estrada”
Publicado por Teresa C. às 05:46 AM
maio 05, 2008
MARIJUANA, REGGAE E MAIO DE 68

Alain Aslan
No sábado, em 239 cidades do mundo houve Marcha Global pela despenalização do consumo das designadas drogas leves – haxixe e marijuana, entre outras. Portugueses manifestaram-se no Porto, em Coimbra e Lisboa. Miguel Portas caminhou, acompanhado de seiscentos cidadãos e ao ritmo do reggae, desde a rua da Escola Politécnica até ao Largo do Camões.
Segundo notícia da Lusa, um dos manifestantes declarou: "Queremos poder consumir sem termos de andar em sítios estranhos ou com pessoas perigosas a consumir cannabis com aditivos.” Manifestantes, crianças a adultos, dançaram, uns "mascarados" de folha de cannabis outros com tarjas e um "charro" gigante. O cheiro do haxixe esvoaçou o caminho da festa.
É certa a polémica que subjaze à reivindicação. Permaneço convicta da sabedoria do velho ditado: “o fruto proibido é o mais desejado”. E mais caro, acrescento. Mais vulnerável a adulterações. Pela venda no inferno das cidades, os traficantes depressa transformam o primeiro passo curioso em escarpa dolorosa que lhes encha os bolsos. Garantem a aniquilação das vítimas que prendem como tenazes. E se o movimento do Maio de 68 comemora trinta e nove anos, a frase de Conh-Bendit “Esqueçam 68, nós ganhámos” desmente outro dizer seu “É proibido proibir.” O amor livre, essa outra bandeira, continua tão livre como antes.
Publicado por Teresa C. às 08:11 AM
maio 04, 2008
A MINHA ORAÇÃO SERÁ VOSSA

J Honeil
Sete crianças portuguesas desaparecidas. Tragédia sem alívio pela condição de país do mundo que contabiliza menor número de casos destes. Há dois anos, sobressaltou as consciências o assassinato da Joana Isabel Cipriano Guerreiro, ou simplesmente Joana. Tinha oito anos quando desapareceu da aldeia da Figueira, Portimão. A mãe e o tio foram condenados pelo homicídio ainda que desaparecida a prova maior: o cadáver.
Continua incerto o futuro da pequena Esmeralda de quase cinco anos de idade. A (in)justiça fez dela bola de ping-pong. De um lado, o sargento Gomes e a mulher, pais adoptivos, do outro, o pai biológico que não lhe desejou o nascimento. Ontem, morreu um jovem de dezoito anos na praia fluvial do Mondego chamada dos Doutores. No feriado de 25 de Abril, foram três as vítimas mortais nas estradas portuguesas.
Não é possível a muitas mães celebrar em alegria o dia do amor maternal seja pela doença, desaparecimento, morte ou ausência - nalguns casos, mãe e filho em presença. Data sem festa. O coração definhado e dorido. Lágrimas e silêncio. Mães coragem que o não deixam de ser pela precariedade das vidas. Hoje, a minha oração será vossa.
Publicado por Teresa C. às 11:14 AM
maio 03, 2008
RAPIDINHAS

Carlos Diez
«Rapidinhas». Quantos não lhes conhecem delícias e incidentes picarescos? Classifico-as em duas categorias.
- «Rapidinhas» sem sal. Dietéticas. Estafadas. Remedeios. Passada a fase de nos despirmos para o amor e chegada a do pijama, o calor da cama mais o corpo ao lado despertam o desejo e acontece a «rapidinha». Instituição masculina na conjugalidade. Alinhamos do mesmo modo que comemos insípidos gelados de baixas calorias em reserva no congelador - sabem a pouco; apetece recorrer a uma gelataria para nos lambuzarmos com sorvetes dos mais calóricos que houver.
- «Rapidinhas» picantes. Apetitosas como chamuça acabada de fazer. Associadas ao frémito do proibido e à transgressão. Impetuosas ao desatinarem emoção e corpo. Aquele olhar que nos deixa loucas, enquanto fruímos da bebida num final de tarde na esplanada do Albatroz, pede sequência. Não pode passar impune. Tentamos ficar pela brincadeira dos lábios e língua na beira do copo, mas não dá. Por essa altura já os corpos se inclinam, e, antes que um dos dois vire a cadeira de pernas ao ar, viram-se para outro lugar. O mais à mão e que demita o mau senso de percorrer a Marginal até casa com os sentidos atormentados. Porque a segurança rodoviária merece, o Código da Estrada devia contemplar «rapidinhas» em trânsito.
Publicado por Teresa C. às 02:11 PM
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