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abril 08, 2005
BON CHIC, BON GENRE

Milhões. Tudo se resume a milhões. Euros ou dólares. Sempre muitos. O país precisa, nós precisamos. Andamos de cabeça no ar como se caíssem do céu. No Euromilhões a contribuição portuguesa revela necessidade e ganância em doses imoderadas. Até sexta-feira, há quem passe palavra: “O prémio é de dez milhões de «contos». Já meteste o boletim?” E quem não meteu vai a correr pôr cruzinhas no passaporte para a bem-aventurança. Afadiga-se, espera em fila, chega tarde a casa ou escapa mais cedo do emprego. Tudo vale a pena, quando a maquia não é pequena.
Na versão classe média, os projectos do candidato a sortudo excêntrico não variam – uma casinha, qual casinha?, uma mansão pá!, viajar e nunca mais pôr a vista em cima do c---ão do Arménio que não me larga no trabalho. Vai-se o emprego, “nunca mais faço a ponta de um c--no na vida!”, vão-se os vizinhos, quem sabe os amigos, mas venha de lá o dinheiro. E o pessoal vai entretendo a esperança até cada final de semana, para a ressuscitar no dia seguinte.
Na versão privilegiada, o encaminhamento da «massa» não é muito diferente, embora se evite a da casinha e tudo que cheire a possidónio. Afirmam que “ficar sem fazer nada, nunca!, que coisa antiga!”, enquanto fantasiam dias e dias de puro gozo e único esforço na selecção de uma extravagância genial. Existe introdução ao que fazer com o dinheiro. Sempre criativa, do tipo “Nem ia para longe! Metia-me com os amigos no primeiro avião para Paris, tal qual estou, só com a roupinha que trago em cima, pedia para a casa Chanel trazer umas «coisitas» decentes, e comemorava na Maison D´Alsace, ali ao lado, no Champs Elysées, com um champanhe e aquelas ostras fantásticas!”
Pois... só que as ostras vêm de Setúbal, e o prémio… de lado nenhum.
Publicado por Teresa C. às abril 8, 2005 08:10 AM