abril 06, 2005
TROCAS E BALDROCAS

Olivia de Berardinis
"És bom demais para mim." Abundam relatos em que este dito pontifica. O olhar perplexo da vítima conserva a estupefacção inicial. E já revirou, dissecou, especulou sobre razão e significado de tão absurda classificação na escala da bondade. Entre quem disse e ouviu tudo parecia encaminhar-se para elo romântico, com direito a «amassos» e ternuras e mimos e seduções várias. Até um dia... O tal em que a guilhotina caiu sobre o afecto nascente. E o remate... o mesmo! Bondade a mais, faísca a menos.
Quando eles ou elas dizem frase de aparência tão banal e elogiosa, a descodificação é simples -"és uma excelente pessoa mas como isqueiro falta-te gás!" Ou então - "o que tivemos deu o que tinha a dar. Toca a «basar»!" Fica um remoendo e outro voando sem culpa à conta de, até no final, ter sido tão, mas tão bonzinho. Pois se até cuidou de não deixar na sarjeta a auto-estima do preterido...
Nos amigos vitimados por tal veredicto, constatei denominador comum: entregam-se com tal denodo aos retoques do amor idealizado, apaparicando o alvo do afecto, que este de duas uma - ou abafa sob tamanha devoção ou se atemoriza pelo retorno a que se sente obrigado.
Sem que fuja um angström da verdade, nunca tal fatídico dito ouvi ou me saiu da boquinha que, longe venha o dia!, engelhará como leque. Sou demasiado frontal para isso. Depois, há aquela mania de não alinhar em caridadezinhas oportunistas. A substância do que penso, se de afectos se trata, terá de ser coerente com o discurso. Poderei polir, mas não emboneco. E se amigo que muito prezo, substitui a verdade pela casca de banana da "bondade mal-empregue" como mandamento do happy end , é lá com ele. Rio, ao vê-lo discorrer sobre a receita. À prática digo não.
Publicado por Teresa C. às abril 6, 2005 08:55 AM