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abril 14, 2005

Acqua_r_Ellas

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Jenifer Janesko

Encarnado. Tempestuoso. Vibrante. Assim se via quando fossem dele os olhos que a viam. Saiu do banho. Não secou a pele. Adivinhava cada linha de água no leito sinuoso do corpo. Entreabriu a janela e, alcovitada por uma vela, deitou-se. Queria lenta a evaporação da água. O perfume suavizando-se com ela. Gucci Rush. Rubro. Excessivo. Rosas - vermelhas, porque não? - apimentadas por madeira e âmbar.

Usaria vermelho imperial. Voluptuoso, imponente, tom profundo de adensado mistério. Nunca o vira. Porém, do pouco falado e muito intuído, identificara-lhe a perspicácia, a (des)ilusão, o (des)encontro, a avidez que escondia sob o registo négligé. Ao novo, estava adicto. Simulava não ouvir os próprios passos na busca do inédito - corromperia a imagem que de si fornecia - que, finalmente, lhe detivesse o cansado calcorrear de carreiros. Como descrente aguilhoado pela fé que a renega por medo ou cobardia. No caso dele, medo. Do engano. Da dor. Da rejeição de si próprio. Do vazio. Pela sobranceria distanciando a esperança que, tão somente, o movia.

Ao verem-se seriam rosas, como veludo encarnado, que o olhar dela ao dele estenderia. Se as não vislumbrasse, se no rosto dela mais não visse que o fácil – aventura, oportunidade, apetite –, recolheria uma a uma as pétalas esmorecidas. Juntaria duas, como lábios, e demoraria na face dele um beijo. Num silêncio de veludo, sairia.

Publicado por Teresa C. às abril 14, 2005 08:26 AM