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abril 30, 2005

PEREGRINANDO

Efemérides

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1. Decorreram 60 anos desde que Hitler encomendou a alma, que se calhar nem tinha!, não se sabe a quem. O passamento merece celebração de alívio.

2. Há trinta anos foi dada por finda – e perdida pelos star and stripes – a guerra do Vietname.

- Paul Auster, cujo nome está inscrito na história da literatura do nosso tempo, está em Portugal.
Diz de Lisboa: “cidade assombrada por sugerir regresso ao passado quando percorro o núcleo medieval intacto. De efeito magnético e misterioso em mim.”

Não admira tê-la escolhido para cenário inicial da sua última obra. Confirma, além do mais, o bom gosto.

PEREGRINANDO

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Autor que não foi possível identificar

Era o tempo, julgado sem tempo, de todos os (re)começos numa alvorada macia de Verão. Nunca quisera fazer de Roma destino. Tenho lugares mitificados – passo direito à desilusão, sei! – que reclamam conjugar momento e companhia. Contigo cumpri as condições. Acedeste, malgré tantos regressos que de Roma contavas. Também isso espevitou o apetite. Queria um teste mais. Assegurar a impossibilidade das tuas memórias emudecerem o nosso presente.

Sabia dos ocres, da patina que os esfarrapa, de Bernini e das fontes, da vivacidade das piazzas e do trânsito. Do Tibre fantasiava o vaguear ondulante como anca de mulher desfilando na Via Del Corso. Ignorava o recorte doce dos pinheiros mansos na safira do céu. A moleza da tarde nos pátios das villas. A nobreza do museu imenso e destelhado. O aroma de um “vero capuccino” numa esplanada sombreada.

Vagabundeámos, perdidos, até à rendição na paz florida da trattoria na Via Veneto. Ao atirar, com fé que não te contei, à fonte a moeda, a Piazza di Trevi não se ateve ao riso em que me abandonei. Entreteci propósitos e certezas. Incertas como todas. A predição cumpriu-se: amontoei regressos a Roma. Mas o tempo, rápido como pardal, fugidio como peixe, tudo mudou. É Veneza que hoje adio. Irei negá-la até um Big Bang emotivo a impor. Momento zero de um caldo de novas vidas.

Publicado por Teresa C. às 11:04 AM

abril 29, 2005

TELEGRAMA

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Armando Huerta

Notícia: loira norueguesa violou um pobre coitado(?!). Ele, a vítima, dormia.

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David W Kaskins

Ela foi para a prisão e ele arrecadou uns milhares de euros. Prevejo que daqui em diante haja muitos homens afirmando-se violados!

Publicado por Teresa C. às 09:02 PM

IN & OUT

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Bo Bartlett

É sabido que o Inverno arrasta gripes, despesas insanas – o Natal será feito de amor, mas a factura pesa! -, canseiras destemperadas e desperdícios vários. Vai-se a energia de sobra duma vaga memória de férias. Evapora-se a paciência com tanto familiar de pouco ouvido, esticando-nos a voz até picos rivais do Everest. Desaparece a capacidade de ingerir miolo de rabanada que seja. Esfuma-se na ressaca a euforia do Fim de Ano.

Pelas primícias primaveris, julgamos que o pior passou. Ledo engano... Arriba à consciência o pesadelo dos impostos. Desbastam-se recibos e documentos até ao esqueleto seco e peco que contabilistas pressurosos declaram e assinamos. Sem réstia de piedade no calafrio final: o montante da bula.

Remediado o que não tem remédio, é inaugurada a pré-época balnear. Mas não, não é! A Primavera envergonha-se ou tem dislates de teenager inconsequente. Não bastando o que já basta, começa o pessoal a casar. Num repente, descobrimos que o André já não usa «babete» e teve a péssima ideia de nos informar. Que a intrépida Niná decidiu, finalmente!, assentar. A cada mês, engrossa o molho de convites e compra de presentes e quintas e salgadinhos e fatiotas e sapatos estragados na gravilha do chão. Já resignados a tamanha penitência, arriscamos num suspiro – “Se o Beato não tivesse ardido, sempre poupava biqueiras e saltos...”

Publicado por Teresa C. às 08:38 AM

abril 28, 2005

TELEGRAMA

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Jenifer Janesko

Se o Sporting ganhar hoje, juro sair à rua assim, qual Lady Godiva reciclada.

Publicado por Teresa C. às 04:16 PM

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Will Kramer

Um homem, uma tarde de arranjos caseiros. Entre o tilintar das ferramentas e o zumbido das brocas, deslizou a fala. Económica. Pelo meio do trabalho, propus uma pausa. No ruído, na tarefa, na tarde. Aceitou um café. O sol entrava a rodos e subia à janela o odor da terra grávida.

Cereja após cereja que as palavras sempre são, chegámos à mais carnuda: felicidade. “Sou feliz!”, disse com o olhar perdido na colina relvada. O meu silêncio encorajou-o - “Não tenho o que desejo, mas gosto do que tenho e do que quero” Esboçou um sorriso como se o aroma do café e os afagos do sol lhe sussurrassem o «abracadabra» de um reduto íntimo.

Há muito me interrogava de que é feita a felicidade dos simples. Desde sempre sabendo que da mesma massa lêveda dos demais, por muitos complicada na metafísica de oníricas beatitudes. Distantes do real. Não reconhecendo a felicidade, sem, contudo, legitimarem o estatuto de infelizes. Peregrinos ignorando os mosteiros e santuários da caminhada.

Aquele homem conhecia a serenidade. Genuína. Encostei-me ao parapeito, omiti a cacofonia, e senti no meu o pulsar da Terra. Feliz.

Publicado por Teresa C. às 08:31 AM

abril 27, 2005

Trocas e Baldrocas

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Guy Powers

Ao que é fashion não me nego. Se me adivinhar o gosto corro risco de falências: do cartão e de reservas a um «banho de loja» (luxo que o ócio não prodigaliza).

Tenho cavernas de Ali-Babá a que não faltam os quarenta ladrões que marcam o preço das peças. O “abre-te Sésamo” é raro e veloz - gosto de despachar em menos-de-um-fósforo o que, como prazer, não pode vir atravessado pelo cansaço, desconforto de multidões e gabinetes de prova exíguos. Se somar o secreto apetite pela diferença, os redutos que me atraem são poucos. Vantagens: aceitam, sem pestanejar, a mania por deambulações isentas de assistente de loja, não esquecendo a informação de ter chegado “a tal peça que só pode ser sua” (descarada mentira que relevo).

O que vem ao caso é, contudo, diferente. Chegada a Primavera que a moda inventou em tons vibrantes ou pastel, ao procurar lingerie mimando a cor do trapinho exterior, pouco mais há que os estafados pretos, pérolas, tons de pele e notas coloridas do costume. Um desânimo! Ora, os imperativos femininos encrespam com tal limitação. Verde lima por fora, verde lima por dentro. Fúcsia à vista, o mesmo escondido. Ressalvo o objectivo do contraste, cujo mérito nem discuto.

Senhores industriais do ramo: se no importado a escolha é múltipla, e existindo marcas nacionais que nada lhe devem, não será altura de seguir, sensatamente, as tendências de moda dos criadores? Depois queixem-se que a produção nacional não tem procura... Porque será?

Publicado por Teresa C. às 08:32 AM

abril 26, 2005

VENENO

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Boris Vallejo

O Fernando Nunes Vicente reflectiu, de modo leve e agradável, sobre um estudo inquietante do qual cito a parte sumarenta: “as meninas que em pequenas se deliciaram com os contos de fadas têm mais possibilidades de virem a ser maltratadas em adultas.” Direi, dando préstimo a termos ali adquiridos, que a revisão da «atitude textual» relativa aos contos de fadas não é nova. Desde há trinta anos que as histórias de princesas compassivas, pele branca, olhos azuis e lábios de rubi têm sido chicoteadas. Não à toa, pese embora a dívida de gratidão pelos doçura dos sonos e sonhos da infância.

No anterior blog alinhei ideias sobre as representações subjacentes a tanta princesa adormecida, gatas borralheiras passivas e Rapunzeis pacientes. A escandalosa complacência das vítimas perante bruxas e madrastas opressoras, príncipes ou monstros que o amor transfigurava, não podia ser bom presságio para meninas embaladas em partes iguais por fadas, biberões e papas lácteas. Tinha de dar no que deu – mulheres confinadas à subserviência face à família e aos ditames sociais.

Preocupante, é também o conceito, ainda hoje enraizado, de o que o amor transfigura quem toca. Beberrão, mulherengo, leviana, irresponsável, ou perverso, virará beatífico se tocado pela varinha-de-condão do amor. O pior é que muitas – mais elas que eles, convenhamos! – caem na ratoeira. “Ah, ele muda, verás, só precisa de uma oportunidade!” Uma, duas, três, «n» oportunidades. Gemem por volta da décima, quando a dor se sobrepôs ao orgulho. Aí, já as úlceras do espírito são mais profundas que as da carne.

Depois disto, os cyborgs resultam de um chiclete demasiado esticado e obediente ao princípio da acção-reacção. Logo, previsíveis.

Publicado por Teresa C. às 08:39 AM

abril 25, 2005

AÇÚCAR

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Autor que não foi possível identificar

É tempo de tocar todas as Primaveras. De rebolar em todos os prados. De recolher cada pérola de chuva. É Abril! Por isso te digo:

fala-me de liberdade,

deixa que encastele ilusões,

traz-me sonoridades do futuro,

vem revisitar o que plantámos noutras Primaveras,

renova a água que absorvíamos sequiosos,

abre as mãos em concha para nelas aninhar os meus sonhos,

lembra-me melodias do passado,

tira a máscara que agora te esconde,

não deixes secar as fontes que nos saciaram,

escuta comigo todos os silêncios e sente os ecos,

solta as canções de Maio que trazes nas veias,

e corre comigo, de mãos dadas, por um tempo esquecido.

Publicado por Teresa C. às 10:07 AM

abril 24, 2005

IN & OUT

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Jenifer Janesko

Vinte e cinco anos. Sem terem galgado o tempo num «ontem» próximo. Antes recuado. Longínquo. A distância insinuou-se, afastando-os. Primeiro, na partilha do sofá. Já sentada entre eles, cobriu-os com um manto frio. Dobraram assentos e silêncios. A economia da fala e da partilha pretextou, depois, a divisão de serões. Cumprido o ritual do jantar, ela voltava à sala, ele escapulia-se para o escritório. A banalidade conjugal adormecia com eles. Em silêncio.

Bodas de prata. Marcantes. Dolentes. Num impulso, ele largou tudo e saiu. Uma jóia, talvez. E flores como há vinte e cinco anos atrás. Mas não. Seria despropósito. Queria clivagem. Ruptura com erros e rotinas. Um recomeço. Optou por um vestido. Branco a condizer com uma nova união, diferente, virginal na acidez das memórias. O tamanho era o dela, sabia-o, sentia-o nas mãos – não esquecera as fronteiras do corpo que desejara, desejava e ambos negavam. Desencontrando frieza e dissimulando o amor.

Ela experimentou o vestido. Viu-se de branco, o corpo bem delineado surgindo do viés da seda. Gostou. Mirou-se num sorriso – não distava assim tanto da mulher que fora! – e voltou-se. Deu-lhe um beijo grato e feliz que não demorou. Sentia-se cansada. O trabalho do dia, naquele instante, pesou toneladas. Carga excessiva para reunir forças e ir jantar fora. Ficaram em casa. No silêncio do costume. Estropiaram ilusões. Como de costume.

Publicado por Teresa C. às 12:09 PM

abril 23, 2005

Corte e Costura

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Autor que não foi possível identificar

Lida a reflexão da Maria Manuel Leitão sobre a estafada relação falta de médicos/ numerus clausus, mandei às malvas a recorrência e decidi-me a (re)mordiscar o tema. Continuo sem entender a associação linear entre a escassez de clínicos no país e as elevadas notas de candidatura para Medicina. E não me falem em lobbies, pressões ou interesses neste domínio. Mal parecia não existirem! Perderíamos, de uma penada, atavismo entronado – jogo de bastidores. Estou em crer que, neste particular, nada aprendemos com a «estranja»; pelo contrário, temos licenciatura, mestrado, doutoramento e demais pós-graduações. Somos pequeninos, mas espevitados se o interesse nos move.

Os jovens, nacionais e alguns espanhóis, que todos os anos terminam a licenciatura em Medicina, excedem as vagas disponíveis após o exame à especialidade (um ano depois dos cinco anos de licenciatura). Nos anos seguintes – número médio de cinco anos e variável para cada especialidade – terminam a terceira fase da sua formação. Decorre que, sendo raro nesta derradeira etapa alguém ficar pelo caminho, todas as vagas para colocação nos hospitais ou centros de saúde são ocupadas. Conclusão: não há mais médicos porque o sistema de saúde público os rejeita. Quadros anorécticos pela contenção financeira e de meios.

Que tem o numerus clasus a ver com tudo isto? Nada! O aumento do números de caloiros dos últimos anos nas diferentes faculdades de Medicina, apenas redundou em obesidade das turmas e no martírio do doente internado que terão de interrogar, palpar e fazer a história clínica. Portanto pior ensino. Logo piores médicos. Alterar a logística, contratar mais docentes e repensar os anos clínicos são aspectos silenciados. Apenas é chamado à colação o famigerado numerus clausus. Como se abatê-lo implicasse maior rácio doentes/médico desde Lisboa até Alguidares-de-Baixo.

Poeira, mera poeira. E, como de costume, lá vai o cerne de tudo (o mais difícil) para debaixo do tapete.

Nota: A reflexão acendeu os comentários. Esclarecem, também, imprecisões no texto. Confrontar ideias sempre abriu o leque das abordagens e dúvidas.

Publicado por Teresa C. às 12:17 PM

abril 22, 2005

Bon Chic, Bon Genre

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Autor impossível de identificar

Quem não namora está out. Namorar deixou de ser coisa de donzéis mal iniciados nos arrepios eróticos e tornou-se imperativo em qualquer condição. Namoram casados, amantes, adolescentes e serôdios. Namora quem vive uma relação de cariz sexual. Quem não o faz por ausência de parceiro, por estar pelos cabelos com o que tem, ou por desprezar lamechices de gestos e palavras, está fora da onda namoradeira onde é suposta a submersão.

A conjugação do verbo namorar nunca foi tão transitiva - basta reunir disponibilidade, atenção, partilha e proximidade. Envolvendo registos tão diferentes quanto a natureza dos afectos. Onde cabe, também, o amor romântico. Ou a paixão. O flirt, é limbo picante, solução quimicamente concentrada em «onas» e «inas». Adrenalina para o vulgo, que de fórmulas e estruturas moleculares pouco reteve além do H2O e H2SO4.

Muito antes do século passado se finar, foi alforriado o namoro. Porém, os portugueses ainda arredondam de espanto olhar, pintalgando-o de ferrugem corrosiva, quando a mulher se adiantou ao homem na idade. No inverso, o olhar observador reparte-se entre a lisonja ou aceitação, dependendo uma ou outra da escrupulosa medida de quão gostosa é a companheira. Com a mulher é injusta a diferença. Apresente-se ela como brasa candente, ou ele como tição inflamado, não se livram da estupefacção alheia - “Tem mais que idade para ter juízo!” Ela, está visto, que dele dirá a eloquência cuscovilheira: “Que verá ele nela, Santo Deus?”

Depois vem o publicitário glosar a tradição no anúncio do scottsh... Vai lá, vai!

Publicado por Teresa C. às 01:40 PM

abril 21, 2005

Correio Sentimental

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Greg Hildebrant

«Frases envenenadas. Não necessariamente providas de intenção dolosa. Apenas certeiras. Directas à fragilidade que tentamos ocultar. Palavras sentidas como aguilhão espetado fundo, onde tudo mais dói: o espírito.»

Fortalecer a auto-estima é meio-caminho-andado para fintar o ocioso e potenciador de mágoas. Como armadura onde comentários alheios, tidos como agressivos, fazem ricochete, deixando ileso o alvo. Porém, qualquer psiquismo, por mais trabalhado que seja, abre fendas. Portas de entrada ao que inquina a serenidade. E o espírito, uma vez contaminado, pode ulcerar e doer e picar e atormentar.

É usado da agressividade fazer arma de defesa. Retorquir, avaliando num ápice as coordenadas do mapa que no outro abrigam ferida mal sarada, onde bala certeira fará estragos. Infligir dor a quem nos magoou. Tão ociosa quanto a que nossa. Evitáveis, se entendermos como insegurança ou temor ou angústia mal resolvida o que nos afligiu. Porque não se trata de dar a outra face, antes analisar as razões que nos torturam, acobardam ou fazem gemer. Tornando de pouco préstimo a pistola emotiva que, pela cabeça perdida ou pelo despeito, apetece empunhar.

Publicado por Teresa C. às 08:35 AM

abril 20, 2005

Tretas Quase Esotéricas

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Boris Vallejo

O quiosque da D. Rosarinho – tratamento carinhoso dos muitos que há muito a conhecem – integra o ritual das manhãs ditas úteis. Tenho para mim, que o conceito de utilidade aplicado aos dias da semana nada tem de pacífico. A classificação é escrava de ideia redutora: utilidade idêntica a serventia laboral. Finda esta, os demais dias são... inúteis. O que rejeito. A cada ano confirmando o antes tido como certo: é na proveitosa gestão dos dias-não-úteis que pacifico o núcleo da cebola que sou. A rentabilidade dos outros decorre disto. Como se a precária abolição da ditadura útil permitisse (re)avaliar as camadas que me estruturam, ajustar as importantes e eliminar as mandrionas.

Era o falado a romaria ao quiosque, precedendo o café da manhã. Há saudações a lembrarem o arribar da vizinha ao fontanário da aldeia. O polimento é urbano, a substância remete a Júlio Dinis. Das capas das revistas e de alguns jornais faço download precário de frivolidades várias. Quem é a suposta barregã de quem, mudanças de amores, de narizes, enchimento de lábios, esvaziamentos celulíticos, auto-promovidos. O costume.

Na dispersão revisteira encontrei «gordas» preocupantes: “ A ciência ainda não chegou a acordo sobre a utilidade do sexo.” Em subtítulo: “Há fortes indícios que o sexo serve para combater parasitas(?) e eliminar mutações(??).” Isto, logo pela manhã, engasga o dia. Agora, com a festa no melhor, é que me avisam?! Posto assim, o sexo mais parece medicamento com literatura inclusa: dosagem, princípio-activo e contra-indicações. E tantos se esmeram em atletismos sexuais, desempenhos, criatividade e coisa-e-tal... Nada disto faz, então, sentido! Alguém valoriza a imaginação no acto de engolir uma Aspirina? Séculos até aprimorarmos a libertação sexual e o prazer (nosso, que o deles sempre esteve legitimado) quando, afinal, nos limitávamos a desparatisação de rotina.

Comprei e li o resto. Voou suspiro de alívio - o tratado era reprodução sexuada versus clonada. Do mal o menos!

Publicado por Teresa C. às 08:32 AM

abril 19, 2005

AÇÚCAR

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Spencer Williams

Bento XVI. Da eleição papal não sobrevem surpresa: venceu a linha conservadora e de continuidade, cujo expoente é o cardeal Ratzinger. Há muito, garantira apoios sólidos – cardeais eleitores, diplomacia americana e a Opus Dei. Tão sólidos como o monte Vaticano que alicerça a basílica. A surpresa, e foi magnífica!, reside na espiritualidade que uniu o mundo à agonia de João Paulo II e ao júbilo da eleição. O que globaliza e une é o espírito, não a economia ou os ardis políticos.

Bento XV – veio de Génova, defendeu a paz num mundo em guerra entre os anos vinte e quarenta, condenou heresias, abriu-se a continentes. Corrigirá o bávaro de igual nome pontifício os excessos de zelo de quem lhe herdou o nome? Irá abrir-se ao mundo e ao diálogo inter-religioso? Terá, então, de recuar no que tinha como verdade.

Discordo de Ratzinger quando afirmou: “Não há verdade ou redenção fora da Igreja.” Da interdição dos sacramentos aos divorciados e do mais que por aqui fui discorrendo. Ao conservar, a Igreja regride. Porque acelerou o ritmo dos tempos, preservar pode ser atraso. Distância aumentada. E o mundo ocidental católico contrai-se. Inexoravelmente.

Publicado por Teresa C. às 09:36 PM

LOOK

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Olivia de Berardinis

Bijutaria – pequena obra feita com perfeição e destinada a enfeite ou adorno. Do francês bijou. O dicionário não se alarga, mas qualquer mulher diria mais. Adornar é o pretendido, mas são a cor e o frívolo a enfeitiçarem. Missangas, pedra, osso, flores, conchas e plumas, tudo serve na certeza da originalidade e pormenor fashion. Basicamente, acessório certeiro, a par da fenda na saia ou do botão despejado da casa, pode ser arma poderosa que Patton não renegaria ou estratégia mais avassaladora que a blitzkrieg.

Camisa entreaberta, e lenço curto de algodão rematando o pescoço, sugerem resistência partisan, emboscada, esperança na “França Livre.” Colar de pérolas recortado no colo despido pelo decote de um tailleur, é batalha de Stalingrado – início de capitulação. De quem?

Jeans justos alcandorados em saltos, sem colar ou brincos étnicos, ficam tão desprotegidos como o Afrikakorps de Rommel. Já os bordados de duvidoso gosto nas honestas gangas, são kamikases (espatifam o requinte sem apelo nem agravo). É certo que o recheio dos jeans é tão decisivo quanto o talento do Montgomery. E é simples – existe ou não! Quando as curvas traseiras rematam pernas longas coladas ao tecido, lembram resposta ao ataque japonês à base havaiana de Pearl Harbor: declaração de guerra ao Eixo. Masculino, entenda-se.

As que pecam por excesso nos enfeites, se por um lado lembram abeto natalício tão decepcionante como um capilé morno, por outro são rés quotidianas do julgamento «nuremberguiano» das suas pares. E pior do que uma mulher a julgar outra, só mesmo um homem!

Nota – O sistema rejeitou o fundo musical de Jonh Addison - A Bridge Too Far. Melhor mesmo é assobiar.

Publicado por Teresa C. às 08:53 AM

abril 18, 2005

IN & OUT

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Julie Bell

Zorrilla debitou pérola que faz pensar: “Uns para as apaixonar, outros para as conseguir.” Mais parece adágio pelo empirismo e tino… A (des)propósito: em conversa com amigo avisado e de indesmentido sucesso nestas andanças blogueiras, referi, desiludida, o reduzido interesse que despertam os temas por aqui abordados. Avaliação fundamentada no feedback dos comentários. Meia dúzia de mui queridos e resistentes comentadores, e... mais ninguém. Curto e grosso: à maioria dos que me lêem, comentar é tarefa que nem o Menino Jesus arcaria - o da bendita atenção a tudo que, sendo vivo, respira. Pois o tal amigo aprestou-se a conselho – “Verbaliza isso mesmo.” Foi o que agora fiz.

Voltando a Zorrilla. Se a condição da mulher for a da virginal candura nos amores, ou modorra distraída, uma arrebatada paixão é tão natural como apetite por ameixas primícias – satisfeita a gula, deixa rasto. Ele, o deflagrador da gulodice afectiva, destaca-se no horizonte como valoroso pelejador, pintado como herói e outros improváveis atributos, pela certa, imerecidos. Estas alvoradas de paixão raramente chegam a manhã, deixando por vestígios coração escaqueirado e ilusões mais esboroadas que miolo de broa.

Não raro, é curto o luto, quase a roçar a indecência nos preceitos aldeões sobre os meses em que, pelo preto no traje, é medida a dor. Quem, depois, remoçar a alma e acordar o amor, não será já visto com a bruma das cataratas oftálmicas inerentes à paixão. Mas, de mansinho, nela depenicará reservas teimosas, até se tornar suserano amado e protector. Vai daí, nasce condado - relação duradoura engodada no matrimónio -, com direito a legítima descendência e demais regalias.

“Uns para as apaixonar, outros para as conseguir.” Será de Zorrilla a razão?

Publicado por Teresa C. às 09:15 AM

abril 17, 2005

Veneno

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Autor que não foi possível identificar

Identificar defeitos e virtudes está difícil. Falta uma lista exaustiva dos aspectos a banir e dos que merecem incentivo. Um catálogo de bons e maus comportamentos, boas e más pessoas, como apoio fácil para educar as crianças e interagir socialmente.

No passado, havia o rol de pecados que dava muito arranjo. Ainda por cima classificados e graduados por importância - veniais e capitais. Dos primeiros já ninguém se lembra e os segundos subdividiam-se nos cometidos contra o espírito e contra o corpo. Uns e outros banalizaram-se, e, agora, só os óbvios merecem crítica e penalização social, ainda que sob a alegação de doença ou de hedonismo menos adequado.

A lista dos pecados foi substituída por um código tácito sobre o que é suposto ou não fazer. Alguém que não saiba escapulir-se aos normativos sociais é um tédio. Um acabado pecado capital contra o espírito. Vieram as regras de boa educação que nos enformaram, saíram empobrecidas as regras básicas da identificação do defeito e de virtude. Para baralhar ainda mais, qualidades e defeitos são sócios de longa data e altamente promíscuos.

Indo a factos:
- ser teimoso fornece a perseverança para cumprir objectivos;
- saber mentir tanto desliza para a vigarice como para a diplomacia inteligente;
- ser compassivo tanto dá para a tontice de quem se limita a apanhar bonés do que o rodeia, como para santidade com direito a beatificação e imagens votivas.

O manto dos diáfanos defeitos e virtudes a todos abriga. Respiramos numa atmosfera de incorrecções menores. Tudo muito leve e sem contra-indicações.

Publicado por Teresa C. às 11:20 AM

abril 16, 2005

Telegramas

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Jay Anacleto

Medos - rastos que procuramos ocultar e partem galhos delatores no caminho.

Medos - fantasmas de memórias ou projecções (in)conscientes.

Medos - dedos de gelo que escrevem na pele arrepiada «Vós, que aqui entrais, deixai lá fora toda a esperança».

Medos - manipuladores; deixam-nos indefesos perante a perversidade de alguns ou a mera estupidez de quem julga tudo poder.

Medos - sombras que embaciam o olhar e espremem veneno na cor dos dias.

Medos - ladrões da confiança e dos atavios da vida.

Medos - arma e armadura.

Medos - monstros íntimos ou desculpas rotas.

Medos - desafio irresistível. Ao terem-me na conta de junco débil, esquecem que os vendavais não me derrubam; apenas inclinam.

Publicado por Teresa C. às 11:17 AM

abril 15, 2005

Trocas e Baldrocas

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Elvgren

Tenho remoído a pouca representação feminina no governo de Sócrates, as quotas em que nos perfilam, e o Dia da Mulher sem equivalente masculino. Como gota de água, vem a Clara Ferreira Alves realçar o nosso desalinho com os números, resumindo corrosiva: “continuamos a ter um problema. Somos mais estúpidas que os homens.” Do primeiro ao último facto, tudo me encaminha para a conclusão de néon - podemos trabalhar como condenadas, sermos independentes, dispensarmos o homem portas adentro, que são eles a dar cartas e a deliberar sobre as benesses que nos concedem. Assim seja!

Tempo atrás, peroraria empenhada. Não deixaria cair argumentos, encadeá-los-ia tentando levar ao tapete os ditames masculinos. Agora, não. Cansei, fartei, que se dane! Cada mulher que se vire e trate de si. Teimo no olhar solidário para a afirmação feminina, enquanto confio na realidade, por aí já descarada, para a impor. Contra factos, argumentar é ocioso.

Não tenciono prescindir do cavalheirismo masculino, do dia da Mulher e de todos os dias que tenham por intenção mimar-me. Mais declaro: nunca me importei, nem importo, que o condutor me abra a porta do automóvel – sim, sei que há fecho centralizado e comando, mas o simbólico conta, e muito! -, que convivas masculinos simulem levantar-se se sou obrigada a sair da mesa a meio de um jantar ou de uma reunião formal, que me sirvam o vinho. Não rejeito bouquets , presentes, mimos ou ajuda. Que, de resto, adoro retribuir em profusão. Não me abespinho por um qualquer gentil homem mudar o pneu quando este ousa o furo. Ao ficar sem o botão do casaco, não hesitarei no socorro, dando préstimo à agulha e linha. Aprovo a compreensão policial ao deparar-se com as minhas ingénuas(?) prevaricações e o sorriso cúmplice isento de multa: - “Não repita...”. Chamem-lhe vícios ou maus hábitos. Entre tantos que somo, mais um, menos um, que importa?

Publicado por Teresa C. às 01:49 PM

abril 14, 2005

Acqua_r_Ellas

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Jenifer Janesko

Encarnado. Tempestuoso. Vibrante. Assim se via quando fossem dele os olhos que a viam. Saiu do banho. Não secou a pele. Adivinhava cada linha de água no leito sinuoso do corpo. Entreabriu a janela e, alcovitada por uma vela, deitou-se. Queria lenta a evaporação da água. O perfume suavizando-se com ela. Gucci Rush. Rubro. Excessivo. Rosas - vermelhas, porque não? - apimentadas por madeira e âmbar.

Usaria vermelho imperial. Voluptuoso, imponente, tom profundo de adensado mistério. Nunca o vira. Porém, do pouco falado e muito intuído, identificara-lhe a perspicácia, a (des)ilusão, o (des)encontro, a avidez que escondia sob o registo négligé. Ao novo, estava adicto. Simulava não ouvir os próprios passos na busca do inédito - corromperia a imagem que de si fornecia - que, finalmente, lhe detivesse o cansado calcorrear de carreiros. Como descrente aguilhoado pela fé que a renega por medo ou cobardia. No caso dele, medo. Do engano. Da dor. Da rejeição de si próprio. Do vazio. Pela sobranceria distanciando a esperança que, tão somente, o movia.

Ao verem-se seriam rosas, como veludo encarnado, que o olhar dela ao dele estenderia. Se as não vislumbrasse, se no rosto dela mais não visse que o fácil – aventura, oportunidade, apetite –, recolheria uma a uma as pétalas esmorecidas. Juntaria duas, como lábios, e demoraria na face dele um beijo. Num silêncio de veludo, sairia.

Publicado por Teresa C. às 08:26 AM

abril 13, 2005

Açúcar

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Will Kramer

Nunca bastantes. A abundância é de escândalo no perfil em que as alinho. O arco-íris está inteiro, porém, as brancas dominam o resto do pelotão. Refiro-me à alvura tentadora das camisas que prefiro. Cetins, sedas engelhadas, algodões finos ou translúcidos. Trabalhados ou lisos. Punhos dobrados, simples ou com atilhos. Todas perfilo no armário e nunca sem préstimo. Se viajo, sem me ater à estação, são as que primeiro dobro e emalo.

Jeans, saia e casaco ou qualquer outra base serve para complementar a finura branca do tecido da camisa. Permito-me envaidecê-las com acessórios improváveis. Favorecem arrojos, que, de resto, nunca abdico, provenham eles do espírito ou do que enfio. Alguns só eu entendo, que à excentricidade ostensiva, rude, digo não. São os discretos, das subliminares mensagens, dos quais maior prazer retiro. A lingerie, destacada levemente e em harmonia com a virginal camisa, é um deles.

Imaculadamente passadas, é rigor que prezo. No engomar nem sou maníaca, salvo camisas. Ao vesti-las, é o cheiro da infância que regressa. Lembro as férias de verão e os linhos cheirosos que forravam camas, de ver roupa corando para que o branco não fosse perdido. O alecrim em arbusto era o estendal que a avó impunha. Assim se fazia. E, ao colar a pele adoçada após o duche à macieza do tecido, é paz que visto. O perfume, como nuvem em que antes penetrei, não é o do alecrim, contudo, é deste o símbolo e dele o cheiro. Como antes.

Publicado por Teresa C. às 08:21 AM

abril 12, 2005

Peregrinando

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Autor que não foi possível identificar

Não quero varandas no mar Egeu. Esquece a villa de Santorini e o mar azul-turquesa. O casario branco e as cúpulas esparsas alcandoradas na falésia. Dispenso o peixe fresco, pescado à beira do restaurante, a praia de areia vermelha e o entardecer em Perissa, o Beach Bar onde aceleramos com a noite. É peregrinar na felicidade que desejo. E é tão fácil ser feliz!... Basta não pedir às coisas e às pessoas mais do que elas podem dar. Então, descobre-se que são diferentes, mais ricas; que são, até, tudo o que procuramos.

Um casal pode unir-se pelo desejo que incandesce sentidos. Pelo elo que os une e faz do acto de amor estação bendita só com bilhete de ida. Mas dois seres podem unir-se sem o menor apetite do prazer, só porque estão a viver em conjunto o que as palavras não descrevem. Experimentámos tudo isto. Como expoente inesperado. Em que curva do amor nos deixaremos abater?

Do desejo é dito correr para o mar como água de rio. Logo, sem liberdade. Necessariamente. Inevitavelmente. A vontade submissa ao imperativo obscuro da química(?), do sangue. Como se cada um agisse ao ditado de outro. E na dança lenta dos gestos, no escorrer do desejo fluidificado por um no outro, nos dois pelos dois, nos lábios e olhos acorrentados, o tempo esvai-se. Enquanto as bocas peregrinam, meticulosamente, no corpo que, não sendo nosso, é.

Publicado por Teresa C. às 08:31 AM

abril 11, 2005

Corte e Costura

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Meia-leca - Expressão intrigante. O que será uma leca inteira? Metro e noventa? Dois? Sendo assim o Maques Mendes não é meia-leca coisíssima nenhuma, mas sim quatro quintos da leca. Ou seja, quase leca inteira. E neste quinto da leca parece residir a questão. A totalidade da leca só nos jovens pujantes à força de Nestum foi atingida. Antes, a leca era mais curta. Sendo que os criados a papa de farinha Maizena, tal como o Marques Mendes, dele se elevavam por escassos centímetros, é injusta a medida feita. Até porque foi provado ser o desempenho indiferente à fracção da leca genital – a parte verdadeiramente excitante é a extremidade. Ora, sendo assim, mais leca, menos leca, não afecta a eficácia dos órgãos, nomeadamente o cerebral. E esse é que conta.

Copos-de-três - Direitos adquiridos não devem ser mexidos. Vendo bem as coisas, não parece correcto o atentado aos farmacêuticos com direito a alvará de farmácia. Ok, partilham alvará com taxistas, talhantes, drogarias e mercearias de bairro. Porém, distintos. Têm programas informáticos de última geração, vendem mais que pão quente e no estabelecimento tudo desliza: gavetas, funcionários e a máquina registadora. E não venham com coisas – lá por venderem perfumes, cremes de estética, bâtons, eyeliner, escovas de dentes e de cabelo, acessórios de moda, é tudo muito saudável e controlado. Bocas perversas insinuam venderem quase tudo excepto copos-de-três. Se lhes tirarem os medicamentos de venda-livre, como aguentarão o rombo e a contrariedade de não mudarem o Mercedes CL ou verem-se privados das férias no Burj al Arab do Dubai este Verão? Francamente... não se faz!

Coimas - Espera-me um saque se avançar num semáforo verde-tinto, deitar o cabelo caído na camisa pela janela, ou não memorizar os limites de velocidade em vias-rápidas, as menos rápidas e as que parecendo rápidas não são. Estou em vias de organizar post-it discriminado e colá-lo bem à vista. Pronto, reconheço ser possível que numa rotunda de onde parta via que ignoro quão rápida é, tenha de parar, ler o papel e depois continuar. O cabelo esparramado na camisa branca lá terá de ir para o cinzeiro, ou esperar que pare para lhe dar destino. Mas grave mesmo é o atentado à soberania dos vícios. As coimas do novo Código mais parecem tau-tau no rabiosque de quem apenas demonstra respeito pela tradição – claudicar sem culpa ou pena. Lá se vai o gostoso arremesso, tão português, do maço de tabaco ou da ponta do cigarro pela janela. O peso da tradição foi-se.

Publicado por Teresa C. às 09:01 AM

abril 10, 2005

Correio Sentimental


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Autor que não foi possível identificar

«Desejo adormecido, amor sonolento. Pouco o desperta se foi diminuído a sussurro o tanger da melodia sob a qual outrora explodia.»

O dia nasce, trepa ao cume previsto, suaviza-se pela tarde e põe-se de mansinho. Há dealbares impetuosos nos estios excessivos e ocasos precoces quando a tempestade arriba. Uns e outros entram com mais majestade que fragata no Tejo. O mesmo com os amores – paixões súbitas e amores intrincados como arabescos. Crescendo e pondo-se como o dia.

É pelo meio da tarde que, normalmente, tudo acontece. Ida a madrugada e o pico do meio-dia, o tempo é de sossego. E pode calar o desejo. A previsibilidade ronrona, as cigarras teimam na melopeia, o outro parece milho maduro do qual conhecemos os grãos, é costumado o pisar no restolho que forra o chão. Mal lembramos a brisa das glicínias elevando-se à janela pelo começo da manhã. Na moleza da tarde, há o conforto do certo e a nostalgia do incerto latejando na fundura íntima.

Apetece “sol na eira, chuva no nabal.” Conservar o histórico de um amor e aumentar a liberdade prometedora de colheitas novas com encantos viçosos. Ou prescindir da doçura do entardecer e fantasiar apenas e só madrugadas. Não impossíveis, mas improváveis. Espalmar o dia entre o nascer e o zénite solar. Dos amores querendo começos. A metade de sobra jazida no desdém.

De uma jornada quero tudo. E a renovação em cada amanhecer.

Publicado por Teresa C. às 10:03 AM

abril 09, 2005

Tretas Quase Esotéricas


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Sonia Roji

Chegam os dias cálidos e o amor rodopia «sem rei nem roque». “A culpa é da Primavera”, dizem, conquanto o apogeu das euforias amorosas arribe lá mais para o Verão. A culpa será então do Sol, da praia, do mar, dos corpos desnudos e das noites esticadas até ao amanhecer. Mas o denominador comum entre os arrobo primaveris e ao tropelias estivais é a luz derramada sem a timidez dos outros ciclos.

Não fora a teima científica de tudo fazer hipótese a carecer de prova, e nem levaria mais longe esta arenga. A luz é o que é – feixe de fotões isentos de massa e prenhes de energia electromagnética. Deslocam-se á velocidade que o respeitável Einstein declarou como limite, e são responsáveis, entre outras «minhoquices», pelo efeito fotoeléctrico, fenómeno de muito arranjo, mais não seja pelas miraculosas portas que abrem ainda mal nos adivinham. Descrição pouco romântica e sem nada a ver com beijos e frissons eróticos.

Que a luz nos põe bem-dispostos e dá aos latinos a genica extrovertida que surripia aos nórdicos, sabemos. Distribui energia positiva, é tónico para a saúde física e psíquica. Parece provado que dias ensolarados e tépidos expandem a afectividade e fazem de nós anjos batendo asas em voo directo ao paraíso dos múltiplos prazeres. Razão da luz ser olhada como adubo emotivo. Logo, fertilizante da paixão. Logo, réu no tribunal interior em que movem acções punitivas os desiludidos a quem a derradeira maré vaza levou o devaneio estival. O recente grande(?) amor. O estupor que mostrou ser depois (a ênfase dramática dá majestade a finais medíocres).

Publicado por Teresa C. às 10:39 AM

abril 08, 2005

BON CHIC, BON GENRE

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Milhões. Tudo se resume a milhões. Euros ou dólares. Sempre muitos. O país precisa, nós precisamos. Andamos de cabeça no ar como se caíssem do céu. No Euromilhões a contribuição portuguesa revela necessidade e ganância em doses imoderadas. Até sexta-feira, há quem passe palavra: “O prémio é de dez milhões de «contos». Já meteste o boletim?” E quem não meteu vai a correr pôr cruzinhas no passaporte para a bem-aventurança. Afadiga-se, espera em fila, chega tarde a casa ou escapa mais cedo do emprego. Tudo vale a pena, quando a maquia não é pequena.

Na versão classe média, os projectos do candidato a sortudo excêntrico não variam – uma casinha, qual casinha?, uma mansão pá!, viajar e nunca mais pôr a vista em cima do c---ão do Arménio que não me larga no trabalho. Vai-se o emprego, “nunca mais faço a ponta de um c--no na vida!”, vão-se os vizinhos, quem sabe os amigos, mas venha de lá o dinheiro. E o pessoal vai entretendo a esperança até cada final de semana, para a ressuscitar no dia seguinte.

Na versão privilegiada, o encaminhamento da «massa» não é muito diferente, embora se evite a da casinha e tudo que cheire a possidónio. Afirmam que “ficar sem fazer nada, nunca!, que coisa antiga!”, enquanto fantasiam dias e dias de puro gozo e único esforço na selecção de uma extravagância genial. Existe introdução ao que fazer com o dinheiro. Sempre criativa, do tipo “Nem ia para longe! Metia-me com os amigos no primeiro avião para Paris, tal qual estou, só com a roupinha que trago em cima, pedia para a casa Chanel trazer umas «coisitas» decentes, e comemorava na Maison D´Alsace, ali ao lado, no Champs Elysées, com um champanhe e aquelas ostras fantásticas!”

Pois... só que as ostras vêm de Setúbal, e o prémio… de lado nenhum.

Publicado por Teresa C. às 08:10 AM

abril 07, 2005

VENENO

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Autor que não foi possível identificar

Invade os escaparates das livrarias. Nome insistente nas mãos de todos. Delas, em abono do rigor. Desde que abdiquei, sem alguma vez ter provado, de anos de favas guisadas com chouriço e entrecosto, declarando “não aprecio, nem o cheiro!”, revi as minhas atitudes defensivas sob comando da intuição. Se favas bem cozinhadas são, afinal, deleite para o palato, por que não experimentar o produto que o homem tanto vende? E arrisquei. “Brida” e “ Alquimista” os livros, Paulo Coelho o autor.

Tenho de reconhecer que as compras não foram exactamente escolhas, antes falta de assunto num dia cansado. Li de fio a pavio. A cada passo espantando-me com a prosápia subjacente a uma pseudo inovação literária e a minha tolerância ao persistir. Entre os livros de viagens espirituais que afirma escrever e um guia do American Express, reconheço a eficácia do segundo e a falácia dos «Paulos Coelhos». Promiscuamente expostos em lojas de conveniência à mistura com livros de pensamentos (outro delírio do marketing) e cartões lamechas de ursos abafados em flores.

Como leitora não faço ao autor falta nenhuma - nos milhões de devotos contam-se Julia Roberts, Bill Clinton, Shimon Peres e Madonna. É campeão de best-sellers, caso típico do self made man que afirma que o seu «negócio» é o sonho. Nem contesto. O meu é mais a vida.

Publicado por Teresa C. às 11:44 AM

abril 06, 2005

TROCAS E BALDROCAS

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Olivia de Berardinis

"És bom demais para mim." Abundam relatos em que este dito pontifica. O olhar perplexo da vítima conserva a estupefacção inicial. E já revirou, dissecou, especulou sobre razão e significado de tão absurda classificação na escala da bondade. Entre quem disse e ouviu tudo parecia encaminhar-se para elo romântico, com direito a «amassos» e ternuras e mimos e seduções várias. Até um dia... O tal em que a guilhotina caiu sobre o afecto nascente. E o remate... o mesmo! Bondade a mais, faísca a menos.

Quando eles ou elas dizem frase de aparência tão banal e elogiosa, a descodificação é simples -"és uma excelente pessoa mas como isqueiro falta-te gás!" Ou então - "o que tivemos deu o que tinha a dar. Toca a «basar»!" Fica um remoendo e outro voando sem culpa à conta de, até no final, ter sido tão, mas tão bonzinho. Pois se até cuidou de não deixar na sarjeta a auto-estima do preterido...

Nos amigos vitimados por tal veredicto, constatei denominador comum: entregam-se com tal denodo aos retoques do amor idealizado, apaparicando o alvo do afecto, que este de duas uma - ou abafa sob tamanha devoção ou se atemoriza pelo retorno a que se sente obrigado.

Sem que fuja um angström da verdade, nunca tal fatídico dito ouvi ou me saiu da boquinha que, longe venha o dia!, engelhará como leque. Sou demasiado frontal para isso. Depois, há aquela mania de não alinhar em caridadezinhas oportunistas. A substância do que penso, se de afectos se trata, terá de ser coerente com o discurso. Poderei polir, mas não emboneco. E se amigo que muito prezo, substitui a verdade pela casca de banana da "bondade mal-empregue" como mandamento do happy end , é lá com ele. Rio, ao vê-lo discorrer sobre a receita. À prática digo não.

Publicado por Teresa C. às 08:55 AM

abril 05, 2005

LOOK

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Keith Garv

Se pessoas revelam indícios de cabeça furada e vazando mais que tacho de alumínio gasto e velho, o (ab)uso dos piercings tudo agrava. Nem me enredo em ociosa polémica sobre juízos de valor estéticos. Nada disso. Mas que os orifícios vagos, quando o enfeite caiu em desgraça, me lembram coador de cozinha que pouco retém, é verdade. Como se o corpo esburacado pudesse, a qualquer momento, esguichar fluidos inesperados. Pesadelo que evito alimentar.

Esteticamente, direi que alguns têm gracinha, outros são prometedores, e os que bailam na língua, argolam sobrancelhas ou narizes são obstáculos que não ultrapasso ao dialogar com o respectivo utente. Acto contínuo, a minha atenção centra-se na trajectória linguada ou na oscilação supraciliar do enfeite metálico. E lá se vai a consequência do que verbalizo.

Assumo cair na tentação de fazer brilhar o umbigo. Jeans descaídos e T-shirts subidas estão mesmo a pedir arrebique no dito - colo um brilhante de encher o olho e reflector da luz (arco-íris portátil e apetecível). O colante resiste a uns banhos, e mudo depois para outro de cor compatível com os trapinhos que enfio. Mas furar... nunca! Não furo, não mudo, não encho ou esvazio o património com que nasci. Está dito!

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Com as tatuagens o mesmo. Se em sítios estratégicos e só vislumbradas, reconheço afinarem a curiosidade de ao todo haver acesso. Mas sendo a moda volúvel e a dor mal que evito, arrepia-me a ideia de torturar a pele para lá dos registos fatais que o forno me inflige em cada nova assadura. Sendo que em zonas pudendas a dor é mais certeira, configuro o sofrimento dos que tatuam ou armadilham os genitais. Que apetite ou êxtases acrescentarão?

Publicado por Teresa C. às 08:25 AM

abril 04, 2005

Açucar

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Terry Rodgers

“Women’s talk.” Que tópicos preferem. Há muito que o cimento dos estereótipos endureceu. Afirmam eles que trapos, maridos, namorados, intrigas, empregadas e receitas culinárias esgotam os temas. Nada que valha a pena e longe da elevação que eles usam para descrever o golo do Liedson, as curvas da Sandra da contabilidade e o declínio do Pinto da Costa.

Não faço a mínima ideia do que lhes motiva gargalhadas entre copos de um bom vinho numa jantarada de «meninos», ou canecas de cerveja pelo final da tarde. Por vezes, acode-me o delírio de pairar, invisível, e ouvi-los soltos e livres. Adianto que só o faria em estado de comatoso tédio. Ainda assim, não sei se, em desespero, não preferiria esparramar-me no sofá engolindo publicidade a detergentes.

Conversa de mulheres. Variada, ao sabor do momento, e sim!, cumpre pontos do estereótipo. Quem, senão um concílio de amigas, para nos acalmar quando ele tem uma crise de ciúmes irreal ou nega uma ida ao Norte para compras inocentes num joalheiro que faz peças únicas e fantásticas? Baratíssimas, ainda por cima! Quem nos anuncia em primeira mão aquele talho ultramoderno de Telheiras, com um catálogo capaz de deixar picada de inveja a ementa do Eleven? Quem mais percebe o tesouro que é a «minha Cila», dona de mão invejável para bolos, capaz de reproduzir fielmente a receita transmontana do meu arroz de pato e distinguir, após duas estações consecutivas, as camisas cujas gelhas me custaram os olhos da cara e em que não deve nem tocar, das que requerem apuro? Quem mais entende o valor do café que me traz, os olhos de mar sorrindo, ao espreitar desânimo no meu rosto?

Pese embora a importância inatacável de tudo de que falamos, não omitimos as penosas realidades sociais do momento. Ficam para o fim, é certo, ou entretêm o atraso sistemático da Margarida. Uma questão de hierarquia. Nada mais.

Publicado por Teresa C. às 10:28 AM

Telegrama

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Greg Horn

O “Sem Pénis, Nem Inveja” está em mudanças - muda de casa e de visual. Este novo espaço será revisto, o espírito do antigo manter-se-á. Até breve! (Sem Pénis, Nem Inveja)

Publicado por Teresa C. às 10:27 AM