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maio 19, 2005
IN & OUT

Armando Huerta
Quando a tristeza ou a preocupação ou a nostalgia espessam, ergo a cabeça e sorrio. Deixo-me e aos outros na dúvida sobre que segredos me fazem rir. Impostura inocente, cujo préstimo só a mim serve. Arreda-me de solilóquios punitivos ou melancólicos, sem que de mim faça sujeito disfarçado ou deliberada falsificação.
A impostura é banal na vida em sociedade. Tem substância própria e, às vezes, é interessante; até importante. Quando alguém se converte em impostor, a impostura escolhida é reveladora – dela escorrem verdades íntimas. Basta atentar.
De impostores ocasionais não escapamos. Como eu, ao abafar o desânimo com sorriso arranjado. Ou se maquilho e alindo e elaboro o meu modo de estar. O arrojo masculino é, vezes demais, impostura. O homem, antes que o tomem por cobarde, emudece o raciocínio mais moderado e avança para rasgos agressivos ou destemidos. Ignora haver zonas intermédias, como a cautela, a prudência e o desdém. Rejeita o lado «cordeiro» que só na intimidade circunstancial traz à tona.
Os fingimentos femininos, que não ardilosos, unem insegurança e despeito. Sem que, as mais das vezes, a consciência tenha registo. Entram no automático as atitudes defensivas, e a verdade nua e crua – sinto-me vulnerável e descreio de mim! – é evitada como assunção de mau gosto.
Quando, sob a minha aparente serenidade, começa a gemer o desespero, convoco reservas sofistas - o sorriso, a maquilhagem, o que visto. Imposturas. Falácias. Arames que me seguram.
Publicado por Teresa C. às maio 19, 2005 08:25 AM