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maio 03, 2005
CORREIO SENTIMENTAL

Chris Achileos
Houve tempo em que telefonema longo pedia honrado e forte cadeirão, cujo couro sentira o peso de ilustres nádegas de que as nossas não poderiam envergonhar-se. Dos fios que nos atam a comunicações por voz e à distância restam vestígios. Os telemóveis estão para os nossos dias, como a pílula para os anos sessenta.
Se donjuanear pela vida for objectivo, aceito a comparação. Porém, ao contrário da pílula, a comunicação de bolso pode viciar, impedir que o sujeito fale consigo antes de o fazer com outrem. E não se enxergar por dentro é esconjuro danoso.
Telemóveis versus pílula. Ambos libertam, podem causar dores de cabeça e insónias, requerem bateria, saldo e cuidado na utilização – um esquecimento pode merecer severa penitência. Explico: não eliminar SMS ou registos de chamadas antes de esfregar as solas no capacho de casa é desporto mais radical que rafting no rio Paiva. Do compromisso faltoso com o comprimido advém despesa certa e angústia, confirmada ou não por um chi-chi matinal e teste farmacêutico.
As diferenças fazem bailar o fiel da comparação. O telemóvel não causa celulite, permite socorro em caso de avaria ou furo, é generoso em imediatos deleites e boas notícias; a pílula funciona em silêncio, não pesa na mala, favorece êxtases que o telelé copia mal. Aparte o ridículo da voz melosa, paTatis e patatás perante plateias garantidas, declararia o empate. A vantagem sugerida pela imagem só seria exequível se o dito passasse a Gulliver e nós a liliputeanas.
Nota: não me acusem de dupla personalidade pelo veneno que sobre mim decidi aspergir nos comentários. Nada de preocupante - apenas uma vassourada.
Publicado por Teresa C. às maio 3, 2005 08:30 AM