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maio 31, 2005

TRETAS ESOTÉRICAS

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Bryan Larsen

O povão, a que tenho a honra de pertencer, ao adivinhar borrasca tudo revira para melhor se agachar. Nem se trata de dons divinatórios peculiares dos portugueses, antes esoterismo do tipo Código da Vinci – mensagens subliminares transmitidas de geração em geração por via da atávica categoria de mexilhão.

Ainda se ocultavam no gabinete de Sócrates as linhas para nos coser, e já eu havia decidido deixar de fumar. Uma coisa leva a outra e diagnostiquei-me como vítima da DDI – dependência diária inofensiva. Ao analisar o meu caderninho de merceeiro, constatei evidentes e básicos sintomas.

1. diários
- um maço de tabaco
- dois cafés
- duas garrafas de água
- Público
__________________

3630 euros/ano

2. semanais
- Expresso
- Sábado
- Visão
__________________

450 euros/ano Total – 4080 euros

Se a isto acrescentar os inevitáveis livros, CDs, limpezas de pele semestrais, ginásio, nuances trimestrais, pedicure e máscara mensal, manicure quinzenal, o rombo sobe a 13 500 euros. O «social» tem culpa nesta DDI não indentificada – como mencionar dinheiro é despropósito, acabamos por omiti-lo do nosso modo de estar. Quem pode, está visto!

O estado crítico é atingido quando nos comportamentos nefastos nada parece supérfluo. Passível de ser banido. Confundindo essencial com ocioso. Esquecendo que o prioritário não está à venda – saúde e afectos. Delegando no consumo miúdo a gratificação obtida numa viagem fantástica e na poupança do que restaria.

Ainda assim, a DDI é maleita que confirma vir o frio consoante a roupa. A maioria dos portugueses tem por salário de família as frivolidades de alguns. E nisto não ousamos pensar. Preferimos o entretém do próprio umbigo.

Publicado por Teresa C. às 10:32 AM

maio 30, 2005

MURMÚRIOS

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Autor que não foi possível identificar

Afastei o cabelo ao abrires o fecho do meu vestido. As tuas mãos deslizaram, escrevendo um poema na forma de carícia. Convocando a forma para reter o momento. Senti a mansidão das coisas no lugar e no tempo parado nas tuas mãos e na minha pele. Senti o silêncio molhado a definir os corpos que as sombras confundiam. O infinito medo de perder a irrealidade em que te converteras e converteras as minhas horas contigo.

Dispensámos vidraças e abrimo-nos às luzes e aos sons da cidade que a madrugada apagava. Tudo e um ao outro possuíamos. Nem o horizonte era limite ou o tempo ou a noite aos poucos recuada. Era nosso o grito enrouquecido como ruído do fogo reatado. E abraçámos pausas. Povoámos os olhos de visões, de espaços e tempos em aberto. Havia qualquer coisa de já vivido, de familiar nos apelos, nos lábios e sorrisos que um do outro bebíamos. Chegados, por fim, à Terra Prometida.

Estranho encontro de horas impossíveis. De palavras ciciadas. Um poema de murmúrios no eterno tempo de te amar.

Publicado por Teresa C. às 12:09 PM

maio 29, 2005

CORREIO SENTIMENTAL

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Sorayama

«A própria identidade, o clube e um emprego para a vida eram os vestígios da tradição conservadora, hoje desmantelada e substituída pela precariedade - dos afectos, dos compromissos, dos projectos, da vontade, dos ideais.»

O ser e o clube é o que permanecerá intocado para a metade XY da humanidade. No genoma da fracção marialva está escrito: “muda de fé, de carro e de mulher, nunca de clube!” E assim é, com acentuada relutância para o automóvel e maior displicência para a mulher.

As mulheres são pendulares – mudam bem de quase tudo excepto de marca de fond de teint. Por princípio rendem-se ao que é novo e mais sedutor. O clube depende. Iniciam-se nas lides por via do clube paterno. Sendo o pai castrador, mudam-se para o inimigo fidagal que reuna maior consenso no «grupo». Já adultas, o percurso clubístico depende da meteorologia amorosa - amor em alta e o clube dele é o máximo, nublado e “que se lixe!” andam a par, tempestuoso é o mesmo que dormir com o inimigo.

As mulheres fieis a um clube diferente daquele que anima o parceiro fazem-no, normalmente, como tributo a um outro amor: o pai, o irmão, o primeiro namorado, um amante. Sendo românticas, ficarão tão apegadas ao Nuno Gomes e à águia como à memória do perfume que ele usava. A qualquer deles reservarão suspiro mascavado. As adúlteras, em vez de datar ou nomear factos e amores, dirão com um sorriso enigmático: “Ah!, isso foi quando eu era da Académica...”

Publicado por Teresa C. às 06:06 PM

maio 28, 2005

IN & OUT

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Carlos Diez

Os debates blogosféricos em português são como o resto: o que debate um, debatem logo dois ou três. E antes que me afirmem prolixa ou que nem debato, nem saio de cima, vamos ao que esquenta as emoções reais e virtuais - uma dobradinha para disputar, bancarrota prevista, cinto afunilado, e o adeus ao emprego garantido. Por esta ordem.

Governantes e governados acordaram medidas de fundo para a crise. Tão fundas como o poço em que agoniza a solvência do estado português. Tão sérias que conseguiram substituir o futebol do prime time televisivo. Andavam as águias no pico da euforia e os dragões e leões lamentando a tirania futebolística na informação, quando Víctor Constâncio despejou um balde de água choca na festa benfiquista. Nela declarou o supracitado senhor aquilo que todos sabíamos há um ror de tempo.

Tragicómico é reclamarmos contenção, exemplo e dureza, abrindo a salvaguarda de jamais sermos tocados nos privilégios individuais ou corporativos que nos abrangem. Sejamos práticos – entre o farisaísmo social e a alienação que o futebol dizem representar, prefiro a última. Gratifica saber que alguma coisa há que fazemos bem e nos une. Dos governantes irresponsáveis só apetece uma notícia - grades das prisões comuns em vez da Galp como presente. Uma realidade implorando a ironia e o vernáculo do discurso vicentino. Entretanto, what a pain in the ass!

Publicado por Teresa C. às 10:36 AM

maio 27, 2005

(IN)CONJUGALIDADES

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Steve Hanks

- Querido…
- Sim…
- Adoro beijar-te.
- Eu também. Muito!
- Onde preferes que te beije?
- No Júnior.

Publicado por Teresa C. às 06:43 PM

maio 26, 2005

BON CHIC, BON GENRE

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Sorayama

Deixaram o país em cacos e ninguém se acusa. É feio, muito feio... Nem quero saber o destino do saque feito nos últimos anos a esta humilde escriba. Mas pago. Contrariada, mas pago. E pagarei mais IVA, e mais IRS, e mudarei várias dentaduras até a reforma chegar, e despedir-me-ei dos saltos comprando na farmácia aquelas inenarráveis coisas rasas e de elástico para acomodar os joanetes múltiplos. Tudo múltiplo por esse tempo: esclerose, dificuldades de audição, rugas, óculos. E joanetes. Resumindo: é preciso estar a cair da tripeça para ter tudo multiplicado numa base de quotidiano. Orgasmos múltiplos, também?

No entretanto, eu é mais praia. Os lábios, brincando com as palavras, trautearão a melodia:

Deixa-me rir
Essa história não é tua
Falas da festa, do Sol e do prazer
Mas nunca aceitaste o convite
Tens medo de te dar
E não é teu o que queres vender

Pois é, pois é
Há quem viva escondido a vida inteira
Domingo sabe de cor
O que vai dizer Segunda-Feira

Publicado por Teresa C. às 10:43 AM

maio 24, 2005

CORTE E COSTURA

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Lorraine Shemesh

A privação de nicotina deve ter bloqueado alguns dos meus sensores cognitivos. Uma evidência é a crescente insegurança ao referir coisa tão simples como um post. Defendem alguns que «posta» é o obrigado pelo luso linguajar, e, atentando na quantidade de postas de pescada que por aqui espalho, não me é difícil perceber a justeza do termo. Facto é estar instalada a polémica e inaugurada a conceptualização na blogosfera, postasfera ou trestasfera, como por bem quiserem.

Da reflexão aplicada às «postas» e «postantes», concluíram que o termo blogueiro ganharia se trocado por bloggard para os francófonos, ou blocker para honrar a cultura anglo-saxónica. «Bloguice» viraria «bloguismo», link passaria a «linque», «ligação» ou «elo». Enfim!, uma trapalhada quando o que está em causa é simples: o gosto de comunicar.

Teorizar o que para a grande maioria dos blogueiros, postantes, bloggards ou blockers é um prazer inconsequente, parece-me ocioso. E depois, que coisa é essa de designarem os humildes blogs como este por PMBs? Não me apetece muito virar Porta Moedas Blogosférico, postasférico ou o que mais vier a dar na realíssima gana! Será pedir muito que excluam de conceptualizações os blogueiros acidentais, «danados p’rá brincadeira» por opção e teóricos noutras vocações?

Publicado por Teresa C. às 11:53 AM

maio 23, 2005

TROCAS E BALDROCAS

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Autor que não foi possível identificar

Anda o país crescido mobilizado pelos «pipis» e «pilinhas» dos mais pequenos. Preocupa alguns pais de família que as escolas tenham papel mais activo no esclarecimento de questões que a sexualidade sempre coloca aos humanos, sejam eles meninos de bibe ou adolescentes com hormonas irrequietas desaguando em borbulhas.

Recosto-me e sorrio, ao deparar com genuínas convicções paternais de que a sexualidade desabrocha e concretiza-se de modo tão airoso e natural como borboleta de crisálida, sob o olhar atento(?) e esclarecedor(?) dos papás. Papás de hoje - baralhados jovens de setenta - que peregrinaram pelos afectos e papéis e posturas e continuam, nalguns casos, tão baralhados como antes. Os mesmos pais que reclamam e esperam que a escola ensine os filhos a estudar, a perpetuar valores, a valorizar o empenho, a disciplina e responsabilidades pessoais. Porque não têm tempo, dizem, delegam na escola competências que à família cabem e seria suposto a escola preservar.

Que tal os curadores da tradição e ideais de antanho optarem pela coerência? Sentindo a escola usurpar domínios reclamados como familiares, sejam responsáveis e cuidem destes e dos outros. Mudem de vida, senhores! Terão de ser menos carreiristas e workaholics. Mais intervenientes na formação dos filhos. Mais presentes no tempo de vigília e não cingidos ao beijo de boa-noite quando a criança já dorme. O fim-de-semana terá de gratificar e, em simultâneo, respeitar como prioridade o acompanhamento escolar efectivo. Detectar dificuldades e procurar a colaboração da escola para que a criança se sinta amparada e confie no sucesso. Nisto, como no resto, a coerência é bonita e recomenda-se.

3º «Pronto» da Operação Cold Turkey

Boletim Clínico

Sinais - A paciente substituiu o chuchar do pau de canela e as inspirações profundas e ritmadas no terraço por vigilância da incipiente curva abdominal. O olhar fixo na barriga não augura nada de bom. Declara não ter sequer vestígio da vontade de fumar.

Sintomas - Foram as vespas e ficaram formigas passeando por cada meandro cerebral. Bebe litros de chá e na sessão do ginásio mostrou desapontamento pela burla dos folhetos anti-tabágicos. A (in)capacidade respiratória mantém-se rigorosamente na mesma. Mandou lavar o automóvel com instruções expressas para que lho devolvessem num brinco e bem-cheiroso (odor a tabaco residual seria penalizada com olhar assassino).

Sugestões complementares de diagnóstico - Continuação da vigilância pela passividade inesperada que revela.

Terapêutica - Dose reforçada de «bicas».

Publicado por Teresa C. às 10:25 AM

maio 22, 2005

TELEGRAMA

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Autor que não foi possível identificar

Enquanto o país festeja de Norte a Sul a vitória do Benfica como Campeão, no Porto os dragões assanharam o ânimo e os fácies. O bairrismo e clubismo no seu pior agudizam-se nos ferrenhos do Futebol Clube do Porto.

Publicado por Teresa C. às 11:20 PM

E DEPOIS, PRONTO! (II)

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Autor que não foi possível identificar

2º«Pronto da situação»

Boletim Clínico

Sinais - A energia que a fez arrumar gavetas e armários a ritmo de colibri abrandou. Por livre iniciativa suprimiu a «bica» matinal. A paciente manifesta comportamento dolente sem que revele qualquer fractura na determinação de deixar de fumar.

Sintomas - Afirma que um ninho de vespas assentou arraiais no cocuruto da cabeça. Que zumbem e zumbem e picam e voam. Mais adiantou que, não sendo infernal, lhe apetece exterminá-las uma a uma – cortar uma pata, depois outra, arrancar uma asa e por aí adiante.

Sugestões complementares de diagnóstico - Tendo em atenção o estado catatónico e de sadismo incipiente é sugerida vigilância apertada.

Terapêutica - Afastamento do habitat natural. Caminhada e almoço em que a entrada e sobremesa seja o mergulho do olhar no azul marítimo do horizonte. Pode ingerir peixe grelhado e vegetais, pois, pela primeira vez, corre risco de engordar.

Publicado por Teresa C. às 11:00 AM

maio 21, 2005

E DEPOIS, PRONTO!

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Keith Garv

Reavaliar o passado. Ponderar o hoje. Uma decisão. E depois, pronto!, como diz a Clara Pinto Correia. No caso vertente um acto de coragem, optimismo e lucidez. Os holofotes mediáticos ignoraram-no por manifesta desorientação de prioridades - não vejo que a falangeta Marques Mendes e sus muchachos, vomitada pelo ex-autarca-ex-ministro e puTativo candidato à Câmara de Oeiras, mereça tantas e abundantes rosnadelas. Roam então esta: deixei de fumar!

Há anos ruminava a ideia. Cheiriscava-a e largava. Arribando à consciência cada dia mais nítida, recusava assinalar data no calendário. Não lhe queria dar ênfase, não fosse “ela armar-se em fina”, ou fincar-me eu na previsível rebeldia. O parto da decisão foi tão acidental como o dos infantes peritos em trocar voltas às luas – “aqui estou e agora amanhem-se!”

Estava a meio da função – seleccionar, eliminar ou arquivar publicações - quando deparo com mais uma das centenas de brochuras sobre tão aceso vício. Costumo encestá-las, após amarrotadas numa bola. Não desta vez. Recostei-me. Li de fio a pavio. Julgo não cumprir os quesitos para «piquena» dada a Manánices ou Jeovices, mas deu-se o milagre “Meus Irrrrrrmãos!!!” Encandearam-se-me os neurónios com a luz emanada daquele pedaço da pedra filosofal. Dei sumiço aos vestígios da tentação e publicitei o gesto a tudo quanto era vítima próxima, acautelando futuros buracos da vontade.

Se apontar luneta para os fiapos das razões, julgo ter feito do gesto uma mistura de peeling, lifting, aplicação de botox, seguro de vida, conta poupança-reforma, Avé-maria e Padre-nosso. Acto de contrição, nunca! Adorei cada cigarrinho. Mortum Est.

1º «Pronto da situação»:

20/05/05 - Sinais clínicos - Aspirada a última fumaça de nicotina pelas quatro da tarde, a paciente apresentou ligeiros vestígios de síndroma de privação. Não roeu unhas ou endereçou alguém a sítio menos adequado. Recusou a ingestão de bebidas alcoólicas. Até à hora da caminha... no problem!

Medicação - dose diária de vitamina C e chá verde duplicada (de 1,5l para 3l).

21/05/05 – Sinais clínicos - Aparente normalidade salvo as idas regulares ao terraço para respirar como quem fuma. As mãos permanecem desocupadas e não roeu o pau de canela posto à disposição.

Sintomas - Tendo trabalho para cumprir, levou as mãos ao cabelo nove vezes, acumulando em duas delas o escrutínio das pontas espigadas. Tem rumado às várias divisões, observando se as posições das almofadas e quadros se mantêm como há dez minutos atrás. Discurso normal. So far, so good!

Publicado por Teresa C. às 10:26 AM

maio 20, 2005

PEREGRINANDO

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Sonia Roji e autor desconhecido

Maio está a compor-se, Junho não tarda aí e com ele a época balnear (deliciosa expressão que me recorda, nos verões da minha infância, a «mudança» de casa e pucarinho para Vila do Conde).

Calor e praia acasalam na perfeição. Mares cálidos e noites longas, também. Desfrutar da perfeição da Costa Esmeralda na Sardenha, das cabanas de bambu abertas sobre jasmins com varandas suspensas sobre o mar na ilha de San José no Panamá, ou do exotismo do Caribe em Belize, são propostas difíceis de ignorar. Idílicos cenários que vão bem com o mergulho, sestas, surf e ritmos muy calientes. À fatia lisboeta dos dez milhões de pelintras nacionais, cujo senso não esturricou nas filas para a Caparica, resta a emoção das travessias até ao Montijo ou os cacilheiros para a Trafaria. Mais barato só bikini e ventoinha na varanda, com direito a molhar os pés num alguidar a jeito.

Em qualquer caso, põe-se o problema do rabo. Do peito não há muito a dizer: quem não o insuflou até ao limite do prazo para entrega do IRS já não vai a tempo – dizem as filas de espera maiores que para médico da Caixa. Nas barrigas é tarde para mexer sob pena de exibição de equimoses em serpentina. Resta o imbróglio dos rabos. Falam em pêras, maçãs, rabos nórdicos, brasileiros, negros. Nunca notei substanciais diferenças. Um rabo é um... rabo. O que os distingue é a extensão de área coberta e a cotação em vigor no mercado. Grande e vistoso se o tempo é de crise e ao cidadão pouco sobra a que se agarre, pequeno e petulante se a economia navega de feição e o consumo dispara.

Ficam dois para reflexão: o típico produto nacional e um de importação. Como pão cozido a lenha e pão de forma plastificado.

Publicado por Teresa C. às 08:18 AM

maio 19, 2005

IN & OUT

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Armando Huerta

Quando a tristeza ou a preocupação ou a nostalgia espessam, ergo a cabeça e sorrio. Deixo-me e aos outros na dúvida sobre que segredos me fazem rir. Impostura inocente, cujo préstimo só a mim serve. Arreda-me de solilóquios punitivos ou melancólicos, sem que de mim faça sujeito disfarçado ou deliberada falsificação.

A impostura é banal na vida em sociedade. Tem substância própria e, às vezes, é interessante; até importante. Quando alguém se converte em impostor, a impostura escolhida é reveladora – dela escorrem verdades íntimas. Basta atentar.

De impostores ocasionais não escapamos. Como eu, ao abafar o desânimo com sorriso arranjado. Ou se maquilho e alindo e elaboro o meu modo de estar. O arrojo masculino é, vezes demais, impostura. O homem, antes que o tomem por cobarde, emudece o raciocínio mais moderado e avança para rasgos agressivos ou destemidos. Ignora haver zonas intermédias, como a cautela, a prudência e o desdém. Rejeita o lado «cordeiro» que só na intimidade circunstancial traz à tona.

Os fingimentos femininos, que não ardilosos, unem insegurança e despeito. Sem que, as mais das vezes, a consciência tenha registo. Entram no automático as atitudes defensivas, e a verdade nua e crua – sinto-me vulnerável e descreio de mim! – é evitada como assunção de mau gosto.

Quando, sob a minha aparente serenidade, começa a gemer o desespero, convoco reservas sofistas - o sorriso, a maquilhagem, o que visto. Imposturas. Falácias. Arames que me seguram.

Publicado por Teresa C. às 08:25 AM

maio 18, 2005

VENENO

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< Sorayama
Há profissões às quais endereço o maior respeito e... piedade. Nem me disperso pela abundância de exemplos. Fico-me pela medicina. É suficiente atentar em quatro especialidades clínicas: psiquiatria, ginecologia, urologia e estomatologia. Todas com o mesmo denominador comum: limitarem o médico à mesma paisagem até que a reforma chegue.

Num decréscimo piedoso, a psiquiatria vem em primeiro lugar. Os profissionais deviam merecer cuidados próximos dos que selaram Chernobyl. Desfiam os dias olhando o umbigo emocional dos outros. À conta disso, descosendo-se a farda protectora enfiada mal pegam ao trabalho, é o próprio umbigo emotivo que expõem e contaminam. Daí a ficarem tão perturbados quanto os pacientes, vai um passo. Pior!, deparam-se com o material de trabalho para onde quer que vão – família, amigos, encontros sociais, jogos de futebol. Numa de copos e entre cada trago detectando esquizofrenias, depressões, tendências suicidas. O objecto de labor em cada rosto. Trágico!

Entre ginecologia e urologia há empate. Escrutinam, pedaço a pedaço, o que devia ser recreio eventual. Pacientes novos e bonitos não entediam quando a carreira começa... Após alguns milhares de genitais gastos, enrugados, e pestilentos, só forte apelo criador fará o milagre da ressurreição da carne e do apetite pela que é, no essencial, a ferramenta de trabalho. Configuro os respectivos parceiros, que das partes pudendas têm visão prazenteira, aplicando-se numa abordagem erótica e receberem como troco um «Bahh!» displicente.

Estomatologistas. Dentes partidos, podres, remendados, caídos, do siso, de leite, definitivos. Línguas com aftas, esticadas, pendentes. Cáries, dentaduras, desdentados. Hálitos bafientos, pivetes de agonia. Bocas abertas, sempre abertas, escancaradas até às goelas. Disgusting, really disgusting!

Publicado por Teresa C. às 08:24 AM

maio 17, 2005

ACQUA_R_ELLAS

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Olivia de Berardinis

“Eu sou do tempo...” era começo de frase que, no «meu tempo» tinha o exclusivo de avós e tias solteironas apoiadas em bengala encastoada com prata. À velocidade a que tudo agora acontece, antecipou-se a idade para a proferir e, pela acrescida esperança de vida, muitos irão repeti-la a cada passo mais cedo.

Sou então do tempo em que as senhoras usavam combinação. Menina pequena, encantavam-me as rendas finas e os cetins brilhantes e sedosos. Lavadas com extremo cuidado numa solução de suave sabão de sedas. Tudo a rigor e com tempo. Secavam, juntamente com outra roupa íntima, arredadas de olhares estranhos – não era de bom-tom exibir a olhos conspícuos tais mimos. Recato acima de tudo.

Na presença de pupilas inocentes emolduradas por caracóis presos com laços, as mães despiam-se até à combinação. Um beijo na bochecha e a sugestão com ordem implícita: “Não quer ir para o quarto brincar? A mãe vai arranjar-se para dormir.” E lá seguia eu, corredor fora, interminável como ao tempo o via, cogitando na razão que me proibia vislumbrar mais pele além da que a combinação revelava.

Na combinação lia o símbolo de limites inultrapassáveis. A percepção do proibido. O corpo como mistério que não convinha desvendar. Fonte de normativos constrangedores. Sussurros findando e silêncio nascendo, mal uns passos miúdos de criança eram ouvidos. Como se o longo fio das rendas imbricadas fosse medida da distância entre mães e filhas que só a ternura encurtava.

Publicado por Teresa C. às 12:09 PM

maio 16, 2005

BON CHIC, BOM GENRE

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Sorayama

“Pode uma mulher sentir prazer ao "levar à cena erótica" uma fantasia de submissão com um homem sem se tornar cúmplice da ordem patriarcal que rejeita e eventualmente combate?" A pergunta veio daqui e deixou-me boquiaberta. Pior, deu asas à imaginação. Sem recorrer a fantasias, chamo à colação o quotidiano.

Cenário: o homem que apetece, a mulher apetecida. Sentidos despertos. Beijos inquietos, nervosos, exigentes. Cresce o abandono lânguido, suave. Os corpos partem à conquista mútua. Sem reservas. Aflorados os seios, provado o sexo quente, ela mordisca-lhe os dedos, passeia neles a língua. Trocados os dedos pelo que é devido, e sentindo-o entumescer, inicia diálogo com a outra que nela habita e dali devia ter arredado.

-“Francamente! Aí estás tu, de cócoras, deleitada com suaves ou profundos sorvos do que ao masculino pertence, assim negando o teu voto de insubmissa.”
- “Não vejo que deitada mude a substância da questão!”
- “Humilhas-me ao aceitares o papel de criatura pronta a receber o que do homem transborda!”
- “Transborda? Qual torneira avariada?”
- “Como escrava do prazer alheio, sim.”
- “E o que sinto enquanto na boca o recebo? Atraiçoa-te também?”

Diálogo improvável. Louco. Mulher que é mulher e tem gosto de o ser, apaga regras e limites ociosos. Manda às malvas o que supostamente é ou não de bom tom. Uma feminista exacerbada, em tudo vendo submissão ou controlo masculino, faz do Kama Sutra um Borda D'Água de algibeira. Pode chegar para os gastos, mas quanta penúria...

Publicado por Teresa C. às 10:05 AM

maio 15, 2005

CORREIO SENTIMENTAL

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Steve Hanks

«Sedução no feminino. Sem receita unívoca. Desabrochando à luz da ocasião. »

Vinícius que me desculpe, mas beleza não é fundamental.
Mulher sedutora é rodopio dos sentidos,
Seduzida por condição,
Espírito desenovelado,
Corpo solto.
Sensual desde o raiar da manhã;
A água que escorre pelas colinas alcantiladas,
Os vales e o sopé da vida,
afagando as curvas de mulher.

Mulher sedutora precisa de amar.
Mais que ser amada, porque nos afectos é rainha.
Neles se sacia,
Deles nasce fome por mais e diferentes.
Pontes e gosto por travessias.
Ir além da margem dos outros.
Do regaço verter ternura como rosas,
Perfumando com elas os passos.

Seduzir um homem decorre do desejo pela vida.
Do gostar.
Do peito cheio,
Entumescido pelo colostro que sente latejar.
E que homem não confunda o gosto de gostar com paixão.
A sedução nem sempre tem endereço,
É a vida o mais comum.
Palpitante.
Ofegante.
Ousada e real.

Para seduzir precisa do cheiro almiscarado da tentação.
Do apelo: dela e dele.
Mais que de beleza precisa mistério.
Queimar sem tocar.
Dos milímetros de tecido que a cobrem fazer muro de paixão.
Que apeteça saltar.

Publicado por Teresa C. às 05:41 PM

maio 14, 2005

MURMÚRIOS

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Julie Bell

Homem que me perdoe, mas sedução é fundamental.
Precisa de carácter e verdade transbordantes como vulcão.
Que o olhar derrame lava e urgência.
Misturar nos gestos tango e valsa lenta.
Ter sorriso de que apeteça descobrir os mistérios, e rir com eles.
Possuir mais que órgãos e pele.
Que ao falar lembre poema de Larkin,
Água límpida brotando do espírito,
Fonte oculta de que apetece beber.
Espírito com olhos e nádegas.
E mãos. Nunca húmidas.
Serenas e ousando um regaço de mulher.

O olhar tem de ser corajoso e denunciar pitada de luxúria.
Puxar pontas da alma e passear no corpo da mulher.
Com vagar.
Postura erecta, jamais vergada ao peso da vida.
Queixo direito ascendendo de pescoço sólido, capaz de afrontar borrascas.
Costas largas sustendo manto invisível que envolva e inebrie a mulher.

Sedução é simplicidade.
Tem um quê de fugidia.
Enigmática.
É ave sem gaiola.
Quer largueza de espaço perfumado com hortelã e poejos.
Cheiro selvagem da terra vivo no corpo da mulher.
Aberto ao desejo.
Sujeito à lua e marés.
Arribando à praia e recuado, depois, ao mar.
Eterno e efémero.
Homem precisa ser revolto e fundear carícias,
suave ao lamber a pele.
Tem de ser barco, vela enfunada, âncora.
Embriagante como medronho.
Remar em vai-e-vem voluptuoso.

Sedução não vem nos manuais.
Não se alimenta de fantasias de catálogo.
Sedutor cria, não recicla o visto e feito.
Sedutor não é quem quer - não se aprende dom que a nascença esqueceu.
Pululam sedutores de pacotilha,
imitações, cópias de pérolas.
Fancarias para noites de verão,
desbotadas ao raiar da aurora.

Publicado por Teresa C. às 10:16 AM

maio 13, 2005

CORTE E COSTURA

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Olivia de Berardinis

Nóias - Sabia que me estavam metendo a mão no bolso, só não conhecia o montante exacto do rombo. A conversa de um terço do pré ser surripiado à cabeça do mês não indiciava nada de bom. Finalmente, boca caridosa anunciou que trabalhamos até Maio para o monstro tentacular e difuso chamado Fisco. Levando em conta o naco sorvido pelas bocas esfaimadas da autárquica, dos condomínios e seguros, estou em crer que até Agosto quase nos roem os ossos. A ser assim, restam quatro meses para alimento próprio. Resumindo, dois terços da nossa labuta anual vai «pr’ó galheiro». «Ganda nóia»!

Alfa - 24 de Abril. Data que assinala o caduco e antecipa o novo. À meia-noite desse dia foi o “Depois do Adeus” das últimas fumaças expiradas no lugar. A CP revolucionou os Alfa espalmando os fumadores em dois cubículos irrespiráveis – cada um extremando a composição - e com pontas de cigarro pendendo de receptáculo minorca chamado cinzeiro. Os aeroportos há muito exerciam a pedagogia anti-tabágica por via da exclusão do fumador. As smoking areas provam-no: um misto entre tasca de churrascos e WC público. Por estas e por outras, amigo tenho que não está de modas em viagens de longo-curso: comete o «crime» na casa de banho, ludibriando os censores de fumo. Como? Puxa o autoclismo, e manda as baforadas sanita abaixo. Preserva a dignidade(?) e o direito ao vício, sem incomodar ninguém. Ah!, claro, é português...

P.S. - Dizem desagradável uma mulher fumadora! Por que não trocar cigarros por bolos?

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Bruce Cegur

Publicado por Teresa C. às 08:39 AM

maio 12, 2005

LOOK

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John Kacere

Preto versus branco. Transgressão ou candura. Pós-graduação nas artes do sexo ou virgindade. Extremos do simbolismo erótico. Ambos estimulando a fantasia e, por consequência, o desejo.

Julgo predominante a opção pelo preto do gosto masculino, quando é corpo pecador o apetecido. O negro, ao absorver todas as cores, é a noite a escuridão, o mistério, o ignoto, o risco. Tudo condimentos da exaltação emotiva que aos sentidos agrada. Zorro, Batman, Catwoman, associaram ao negro heroísmo e aventura. O negro como máscara que liberta ao ocultar o «eu». A permitir arroubos, perpetuando devaneios infantis - sem devaneios ou ideais ou fantasias a vida seria, além de curta, pobre.

O branco é virginal. Promete iniciação. Desfloramento. A «primeira vez». E se da mais óbvia temos memória, as outras - a primeira desilusão, primeiro beijo, primeiro amor – não descartamos do património emocional. Diz a ciência que branco é recusa na absorção de luzes (fotões em trânsito). Ora não é o negado o mais apetecido e a deixar em brasa a fantasia? Como se, ao prodigalizar o que nega receber, incendiasse espírito e, por ele, os sentidos.

Entre o preto e branco oscilo sem omitir o resto da paleta cromática. Porque a cada dia há entendimento diverso do que somos. E a lingerie é o que primeiro nos forra e intimamente sussurra.

Publicado por Teresa C. às 01:21 PM

maio 11, 2005

IN & OUT

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Wojtek Sudmak

Há atavios fatais no discurso masculino. Não é à míngua de exemplos mas por contenção nos caracteres, que me detenho num: “elas ao volante são um perigo!” Garanto não assumir como minhas dores alheias e passar-me por Madre Teresa ou Lady Di caridosa. Nada disso! Aturem, por gentileza, três testemunhos pessoais.

Conduzo há muitos anos. Raramente tropecei em multas, coimas ou acidentes (o diabo seja cego surdo e mudo!). Porém, muitos homens perderam o bónus do seguro pelo facto de eu existir dentro de um automóvel. Pequenos «toques» urbanos que, percebi mais tarde, são rentabilizados ao máximo pelos culposos – declaração amigável para aqui e para ali, e lá fica escarrapachado o número do telefone. Inocências... Adiante. As duas vezes que o meu prémio – alguém me explica porque é chamado prémio à tortuosa conta do seguro? – aumentou, deveram-se a dois queridos que decidiram conduzir-me. Só podia!

Coimas tive uma em Coimbra, na Avenida dos Combatentes. Alguém teve a ideia peregrina de colocar, de um mês para o outro, um sinal qualquer espetado no centro de dois pneus sobrepostos. Obviamente, não achei aquela escultura pós-moderna justificação razoável para salamaleques rodoviários. Pois... Já nem a Avenida subi naquele desértico domingo de Maio. Um apito deselegante deteve-me e, como desenfado de ocasião, fui vítima da pedagogia do polícia de giro. Ida a tribunal, carta suspensa, um ror de maçadas tudo à conta de atávico «desenrasca» (masculino!!!!) que plantou no meio da via tal grupo escultórico.

Fui responsável por um único «encosto». Sem a menor das culpas como se verá. Cenário e acção: ameno dia de Setembro com direito a sol, passarinhos e flores; eu... apaixonadíssima, ele, ajoujado pelas saudades de não me ver há horas, rouba-me para almoço. Um casal e dois carros, visto o «após» ter rumos diferentes. Ele à frente, eu atrás. A impetuosidade a que fui deliciosamente obrigada impediu-me o esmero que um almoço romântico impõe. Num semáforo, retoco os lábios, ajeito o cabelo e... o automóvel desliza, paulatinamente, só parando colado ao dele. Nada de especial, salvo um óculo traseiro estilhaçado e uns riscos imberbes, tudo em convergência apaixonada. Ao chegarmos, beijou-me, olhou de raspão os danos no «bichinho» importado com poucos irmãos no país, e seguimos enlaçados.

Publicado por Teresa C. às 09:28 AM

maio 10, 2005

TROCAS E BALDROCAS

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Olivia de Berardinis

O perímetro do buraco de ozono não pára de aumentar e a obesidade acentua-se para as bandas dos antípodas. Buraco anafado e à dimensão do continente australiano. As radiações à solta devem ter acelerado os neurónios dos nativos que não param de surpreender.

Concluíram investigadores australianos que pensamos melhor deitados do que em pé. A culpa é da noradrenalina, dizem, avessa ao stress e à acção da gravidade. O cérebro aquieta-se na horizontal. Finalmente, percebi a razão de tanta mulher e cada vez mais homens que singram na vida deitados. Eles lá sabem... Actuaram por antecipação, como o Mourinho

As autoridades australianas decidiram ser literais quando alguém está com os pés para a cova: enterram-no na vertical. Economizam espaço – julgava que o tinham de sobra! – e minimizam o impacto ambiental enfiando o defunto num saco de plástico a três metros de profundidade. Tudo simples e fácil de reciclar. O chamado «sono eterno» deixa de fazer sentido. De um passamento dirão «queda eterna» e de um falecido «sentinela funda». Mortos sem direito a sossego. Há pouco finados e de imediato pasto de famintos organismos. Nem após a morte há direito a tréguas, bolas!

TELEGRAMA

Perorei no último "Veneno" sobre «autor real», «autor implícito» e «narrador», designando-os respectivamente por «mulher», «Tati» e «narradora», e encontrei aqui, via JPT, a distinção perfeita. Faça o favor de ler quem se interessar por «bloguices».

Publicado por Teresa C. às 12:28 PM

maio 09, 2005

NOTA

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Terry Rodgers

Por falar em tentações...

CORREIO SENTIMENTAL

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Fajardo

«O silêncio. Aconchegado. Sem inspirar temor. O momento em que apetece esquadrinhar a consciência. Puxar uma ponta e desembaraçá-la até vislumbrar começo e fim. Ambos filtrados pela memória, alter ego ou recusa em ver.»

Aprimorei estratégias para lidar com dificuldades e frustrações. Aprendi a pôr freio à minha natural insubmissão. O que fazer em enredos. Como mostrar-me prestimosa, entediada, desconcertada; indiferente ou entusiasta. Sei quais os gestos e os trejeitos que vão bem com cada desempenho. Posso omiti-los, mas conheço-os. Empino o nariz, resolvo problemas, desbarato energia, arrecado dúvidas. Porém, rejeitar tentações é território pantanoso.

Um dia, as tentações a sério tocam à porta. Sem rótulos. Letreiros avisando “Perigo!” E posso ceder... Nunca sem balanço racional. As tentações podem ser pessoas, fugas ao quotidiano, encontrar, finalmente, a felicidade grandiosa - a simples está garantida - a que todos aspiramos. O perigo da tentação que faça jus ao nome é o de me enredar emocionalmente. Balançar as estruturas. Mesmo que a vida não mude e os dias continuem iguais aos de sempre.

Publicado por Teresa C. às 10:13 AM

maio 08, 2005

TELEGRAMA

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Richard Whitney

Quando não um, não dois, mas vários lobos do mar navegam nau com dois anos, há que comemorar. Felicito-os e continuem a fazer-se ao mar encapelado das ideias.

IN & OUT

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Bo Bartlet

Que eles são avessos ao casamento, é sabido. Que elas adoram casar, também. Só que os estereótipos são como as rãs – dão saltos e caem sempre no mesmo charco. Quem não viu num domingo rançoso o filme “Noiva em Fuga” que se acuse. Vi e achei deliciosos os subterfúgios que a Julia Roberts desencantava debaixo do tule para em vez do sim, inverter a marcha nupcial e dar-às-de-vila-diogo.

Em termos percentuais os noivos que passam à clandestinidade na hora H vencem devastadoramente as esquivas. A coisa chegou a tal ponto que noiva que se preze só sai de casa quando está certa de serem vigiadas por centenas de convidados as tremuras do noivo junto ao altar. Ela chega vencedora, nariz empinado, sorriso deslumbrante perante o Waterloo masculino. Provocadora, avança lenta e compassada, olhos nos olhos do quase marido, como dizendo: “Pobrezinho... aguentaste a pé firme. Será assim o resto das nossas vidas.”

A última rã de salto famoso é americana. Derrotou a ficção com requinte e malvadez. Ela, enfermeira de 32 anos, saiu nas vésperas do casamento para o jogging habitual. Deu sinal de vida dois dias após aquele que era suposto ser o mais feliz da vida dela. Que, aliás, nada garante não tenha sido à mesma. O requinte: esticar o jogging até dois mil quilómetros de distância do ground zero. Perversidade: obrigar o maltratado noivo ao número do suspeito do costume, e dar-se como raptada, mobilizando FBI e toda a parafernália de segurança para a encontrarem viva ou morta.

O charco mediático americano fez directos, mobilizou «psis» e capas de jornais até exaurir a fonte. O noivo, um perfeito exemplar do homem cemtímetrossexual, devolveu-lhe o anel e jura a pés-juntos casar com ela. Sem ténis, digo eu...

Publicado por Teresa C. às 10:03 AM

maio 07, 2005

ACQUA_R_ELLAS

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Eric Drudwyn

Nunca arranjámos tempo para o tal café. O pretexto para o encontro que selaria a clivagem entre o que fomos e o que teríamos de ser. Quando propunhas uma data, alegava desencontro de agenda. Semanas depois, por isto ou aquilo, persistia na prioridade de tarefas menores. Estrangulava razões e verbalizava outras que o trabalho ou a família impunham. Com o tempo dispensei-as. “Não posso!”, bastava. Dei uma «geral» no meu íntimo e decidi não voltar a ver-te.

E, como meses atrás parecíamos reunir três dons - alegria, amor e eternidade... Ainda que, então, tivesse como inexpugnável fortaleza o nosso abrigo e, em simultâneo, o soubesse assente em manto de água escuro e subterrâneo. Fugidio. Inconsistente. Recusava debruçar-me no poço donde recolhíamos intensidade e desejo. Ver fundo.

Disse-te associar ao final do amor um clique como o de interruptor que desligo. Antes de o accionar, é amarga a incerteza. Como espinho em carne lacerada. É quase sempre uma frivolidade, ou assim julgada por quem de fora assiste, a determinar-me o ponto de não-retorno. Porém, de infinito simbolismo. O outro ignora, eu sei: acabou. E dispenso velório junto à tumba do amor defunto. Desgaste. Frieza. Conflito. Contraponho o tempo que dê nitidez ao filme de que fui protagonista. Com lugar para o tal café amigável e possível avaliação do argumento, desempenho e realização. Connosco não. O nosso filme foi o equívoco maior.

Publicado por Teresa C. às 12:07 AM

maio 06, 2005

BON CHIC, BON GENRE

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Haskins

Acusam os portugueses de indisciplina, do desrespeito das elementares normas do viver em sociedade. A ceifa de vidas pelas estradas, os incendiários por deleite ou o rapinar de bens que a todos pertencem, fazem da indisciplina pecadilho menor. Dela fornece testemunho o hábito de deitar pontas de cigarro, papéis e caricas para o chão.

Há quem avente outra razão: português que se preze gosta de pontaria apurada. Quando, num estalar de dedos, atira a ponta de cigarro, substitui o cesto de basquete pelas pedras da calçada. Amarfanhar numa bola o papel do magro saldo bancário e pontapeá-lo com raiva para baliza invisível, é prova de vida do goleador que há no fundo de todos nós. Tampas, maços vazios, o jornal lido, tudo serve para encestar. Ok, é ao lado do que tínhamos em mira, mas treinámos, e isso é que conta. Assim, quando um cretino estiver a pedir um “murro nos cornos”, vamos em paz para casa – “Podia assestar-lhe um valente, mesmo no meio, mas não!, fui superior àquele reles.”

Português é inseguro. É peremptório no sim ou não, chama «besta», em voz audível, a um grandalhão quando está entre paredes, as dele. Aí, a verve não falta. Azucrina os «putos» e a mulher, mas mostra quem manda, que é homem, que os tem no sítio. A verdade, é que nunca sabe bem se os tem ou não. No sítio, claro. Se atentarmos nas vezes em que os procura, apalpando-os reconhecido por não terem debandado, uma pessoa até fica com dúvidas: para onde poderiam eles ter migrado? Estarão tão caducos que o pobrezito receia que eles lhe caiam aos pés? Que cachorro vagabundo os coma? Há remedeio: açaimá-los logo pela manhã. Aos ditos, claro!

TELEGRAMA

O Abrupto completou dois anos. Pela qualidade, diversidade e importância dos temas, actualização frequente e pela frontalidade de uma figura pública da política e cultura nacional que diariamente não teme a exposição assertiva, o JPP merece aplausos.

Publicado por Teresa C. às 08:06 AM

maio 05, 2005

VENENO

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Autor que não foi possível identificar

“Retém as tuas palavras perante todos, mas não perante um amigo.” Abu Said

Na música, no bailado, numa peça de teatro há marcações, andamentos, saída e entradas que importa respeitar. Na vida é o mesmo – uma luz pestaneja duas ou três vezes e apaga-se. É o sinal da mudança, a consciência fugaz do seu reconhecimento. Destas luminescências podemos não dar conta imediata. Só a distância dos dias situam o local da viragem, o momento que transformámos um moderato num presto ou num allegro.

É tão difícil abandonar o narrador que nos encobre... É tão fácil metaforizar, fabular, largar pegadas pelos escritos, na contradição do medo/esperança de que alguém se debruce sobre eles e percepcione os nossos passos... E que necessidade é essa de entreabrir frestas no que ao próprio pertence para espíritos alheios o desflorarem?

Sou incoerente: o anonimato oculta-me e desenho a Tati como espelho da mulher que sou. Em que ficamos? Preservo-me ou exponho-me? Porque a prudência espartilha e a cada dia senti mais opressores os atilhos, desapertei-os, aos poucos, até restar um: o núcleo do que sou. E esse não interessa a quem por aqui navega.

A mulher, a autora, a Tati e a narradora. Coincidem aos pares. A Tati narra o que a mulher e autora experimenta, intui e fantasia. Denuncia-as, a atrevida. A narradora é o outro vértice deste jogo triangular. E, como em todos os triângulos humanos, há traição. Da mulher a si própria? Da narradora aventureira que denuncia a Tati e, consequentemente, a mulher? Ou todas numa só – a mulher, a autora e a Tati - legitimando que a narradora dispa o linho fino que as cobre.

TELEGRAMA

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Drew Posada

Ganhe o Sporting, e a Lady Godiva, em versão ecológica (me, je, moi même!), repetirá a proeza da semana passada.

Publicado por Teresa C. às 08:20 AM

maio 04, 2005

TROCAS E BALDROCAS

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Autor que não foi possível identificar

Sean Connery. Vintage sugerindo prova a preceito. Não um vinho rafeiro que satisfaça almôndegas. Nem um tinto alentejano, reserva de honesta adega, capaz de encher o palato e fazer valer uma sóbria entrada de salpicão e lâminas de queijo de Serpa. Que me desculpe o produto nacional, mas o Bond mais convincente de sempre pede um Louis Cristal Roederer de 88, ostras e cenário - degustação num final de tarde perfumado com alfazema e sombreado pelas tílias do centro de Saint Tropez (ali, os paparazzi não incomodam as anónimas gentes; fazem no porto a romaria).

James Bond, saído da pena do Heim von Ian Fleming, pedia excelência na sedução e sagacidade na atitude. Sean Connery ofuscou o pedido: reunia corpo atlético bem servido de altura, olhar coruscante, sorriso raro e nunca escancarado, a pitada de distância que terramoteia a segurança feminina. Elas caíam-lhe nos braços, e ele, consumidor consciencioso, deixava-lhes no regaço a ilusão do homem perfeito, sexo perfeito, fuga perfeita. Por esta ordem. Certeza: maior que a cedência e beleza delas era a sabedoria dele. Quem resistiria? Não eu, Dio mio!...

As Bond Girls oscilavam entre extremos duma corda mantida vibrante pelo enredo. Perversas e funestas, delicodoces e boazinhas até doer. Manipuladas sempre, quer pelos agentes do mal, quer pelo Bond, James Bond, zeloso espião ao serviço do ocidente. Manias e vícios – beber “vodka martini shaked not stirred” e arruinar a banca de baccara dos casinos.

O Bond via Connery deve ter feito mais pela divulgação do gin que todos os vendedores. Esta é a receita da bebida deixada pelo Ian Fleming no primeiro livro, Casino Royale:
“A dry martini," he said. "One. In a deep champagne goblet."
"Oui, monsieur."
"Just a moment. Three measures of Gordon's, one of vodka, half a measure of Kina Lillet. Shake it very well until it's ice-cold, then add a large thin slice of lemon-peel. Got it?"

Publicado por Teresa C. às 08:07 AM

maio 03, 2005

CORREIO SENTIMENTAL

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Chris Achileos

Houve tempo em que telefonema longo pedia honrado e forte cadeirão, cujo couro sentira o peso de ilustres nádegas de que as nossas não poderiam envergonhar-se. Dos fios que nos atam a comunicações por voz e à distância restam vestígios. Os telemóveis estão para os nossos dias, como a pílula para os anos sessenta.

Se donjuanear pela vida for objectivo, aceito a comparação. Porém, ao contrário da pílula, a comunicação de bolso pode viciar, impedir que o sujeito fale consigo antes de o fazer com outrem. E não se enxergar por dentro é esconjuro danoso.

Telemóveis versus pílula. Ambos libertam, podem causar dores de cabeça e insónias, requerem bateria, saldo e cuidado na utilização – um esquecimento pode merecer severa penitência. Explico: não eliminar SMS ou registos de chamadas antes de esfregar as solas no capacho de casa é desporto mais radical que rafting no rio Paiva. Do compromisso faltoso com o comprimido advém despesa certa e angústia, confirmada ou não por um chi-chi matinal e teste farmacêutico.

As diferenças fazem bailar o fiel da comparação. O telemóvel não causa celulite, permite socorro em caso de avaria ou furo, é generoso em imediatos deleites e boas notícias; a pílula funciona em silêncio, não pesa na mala, favorece êxtases que o telelé copia mal. Aparte o ridículo da voz melosa, paTatis e patatás perante plateias garantidas, declararia o empate. A vantagem sugerida pela imagem só seria exequível se o dito passasse a Gulliver e nós a liliputeanas.

Nota: não me acusem de dupla personalidade pelo veneno que sobre mim decidi aspergir nos comentários. Nada de preocupante - apenas uma vassourada.

Publicado por Teresa C. às 08:30 AM

maio 02, 2005

Tretas Quase Esotéricas

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Terry Rodgers

Bodas de ouro. Bodas de prata. Aniversário de casamento, ou de namoro, ou de trapos misturados. Dia da Mãe. Dia do Pai. Dia de S. Valentim. Afectos com data marcada.

Obrigam a rituais – almoço/jantar, flores, um presente, quiçá flores e postal. Sem surpresa, que a ideia também não é essa. Experimente-se esgotar a expectável receita num outro dia, se o oficial foi penoso – cansaço, o dia correu mal, a garganta arranha e o pingo cai do nariz. O respectivo sentir-se-á desalentado com a nossa baixa forma. “Sendo o dia que é, podias fazer um esforço...” dirá, enquanto dardeja alfinetes na nossa direcção. Como se fosse moléstia roer a corda donde pendem expecTativas. Mau estar “neste dia!” só com atestado médico ou declaração de entrada numa urgência hospitalar.

À vulnerabilidade ninguém está imune. Ao inoportuno também. Mas porque será que, nestas coisas dos afectos, qualquer contrariedade “naqueles dias” é tida como neglicencia, decréscimo de intensidade ou insensibilidade? Nem o pragmatismo salva: primeiro, a ferida lacera, pensar fica para o final.

Um sofista por vocação unirá factos, enredar-se-á em análises. Fará piruetas com hipóteses gratuitas. Exercícios de retórica que só ao próprio servem. Ressabiados, diz o povo. Ainda assim, piores são os que por astúcia cumprem o menu das datas especiais. Razão tinha o Ballester: “Para os pecados há na alma um belo armazém, que se esvazia todos os anos pela quinta feira santa e depois volta a encher.”

Publicado por Teresa C. às 09:56 AM

maio 01, 2005

AÇÚCAR

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George Ladas

Tens sobre a lareira uma fotografia emoldurada em prata. Ao descobrir, num álbum antigo, os teus onze anos definidos a preto e branco, enfeitiçou-me a menina que vi. Linda, sorridente, com o ar «ratão» que preservas – adoro ver-te pestanejar e transferires para o olhar e lábios a graça que te faz sorrir. Assertiva. Hilariante. Quase sempre uma metáfora impagável. Arriscando ser temível, nunca maldosa.

Usaste tranças até aos vinte anos. A pedido da simplicidade elegante que manténs e da moda do tempo. A aguarela que te captou mais tarde, não difere muito da fotografia. Talvez tenhas trocado o ar divertido pelo sonho que da postura e do rosto escorre. Por esse tempo, estavas enamorada do pai. Casariam nesse ano, como cumpria na tradição familiar. Razão menor esta, nunca a que te moveu. Ou a mim. Antes o desejo, tal como nas mulheres que na família nos precederam, de não adiar um amor e um projecto - de um afecto sólido fazer brotar vida.

Um desejo, mãe: quando «crescer», gostava de ser como tu.

Publicado por Teresa C. às 11:04 AM