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maio 14, 2005

MURMÚRIOS

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Julie Bell

Homem que me perdoe, mas sedução é fundamental.
Precisa de carácter e verdade transbordantes como vulcão.
Que o olhar derrame lava e urgência.
Misturar nos gestos tango e valsa lenta.
Ter sorriso de que apeteça descobrir os mistérios, e rir com eles.
Possuir mais que órgãos e pele.
Que ao falar lembre poema de Larkin,
Água límpida brotando do espírito,
Fonte oculta de que apetece beber.
Espírito com olhos e nádegas.
E mãos. Nunca húmidas.
Serenas e ousando um regaço de mulher.

O olhar tem de ser corajoso e denunciar pitada de luxúria.
Puxar pontas da alma e passear no corpo da mulher.
Com vagar.
Postura erecta, jamais vergada ao peso da vida.
Queixo direito ascendendo de pescoço sólido, capaz de afrontar borrascas.
Costas largas sustendo manto invisível que envolva e inebrie a mulher.

Sedução é simplicidade.
Tem um quê de fugidia.
Enigmática.
É ave sem gaiola.
Quer largueza de espaço perfumado com hortelã e poejos.
Cheiro selvagem da terra vivo no corpo da mulher.
Aberto ao desejo.
Sujeito à lua e marés.
Arribando à praia e recuado, depois, ao mar.
Eterno e efémero.
Homem precisa ser revolto e fundear carícias,
suave ao lamber a pele.
Tem de ser barco, vela enfunada, âncora.
Embriagante como medronho.
Remar em vai-e-vem voluptuoso.

Sedução não vem nos manuais.
Não se alimenta de fantasias de catálogo.
Sedutor cria, não recicla o visto e feito.
Sedutor não é quem quer - não se aprende dom que a nascença esqueceu.
Pululam sedutores de pacotilha,
imitações, cópias de pérolas.
Fancarias para noites de verão,
desbotadas ao raiar da aurora.

Publicado por Teresa C. às maio 14, 2005 10:16 AM