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junho 04, 2005
ACQUA_R_ELLAS

Bryce Cameron Listen
Amanhecemos quando o sol atingia o zénite. Não sei se me acordou o teu roçagar no lençol ou se foi por estar acordada que nele atentei. Da luz infiltrada nas frinchas dos batentes da janela - trémulos carreiros de pó de ouro – servi-me para te ver. Pelo suave compasso do teu respirar sabia-te acordado. Subi ao teu rosto. Sorriste e aconchegaste-me contra ti. Em silêncio.
Foi o sussurro de um bom dia o que primeiro dissemos. Recordas-te das muitas vezes que indagámos da razão de preferirmos murmúrios no reino da nossa intimidade? Como se quiséssemos mantê-la etérea. Intocada. Como se tudo fosse magia que mau feitiço estilhaçasse. Já os fios de luz teciam nova teia, quando das carícias mansas nasceu o aroma de um café legitimando o mútuo acordar.
Ia a tarde corrida, ao sairmos. A sombra de um tília florida perfumava a esplanada. Para ti uma árvore, para mim símbolo de raízes quase tão fundas como as que invadiam o jardim dianteiro da casa de família onde correram os verões da minha infância. Demorámos a tarde ao analisarmos sem pressa o que ali nos trazia, a tília por testemunha.
“Precisamos de mar”, disseste. Ao conduzires pela serra, cada um buscava o outro – as mãos, a tua carícia nos meus joelhos, a pressão da minha mão na tua coxa. Parámos num requebro sombrio da estrada. Olhaste-me – sabes como sou explosiva na alegria! – e não neguei o que esperavas. “Isto é lindo! O azul do mar é magnífico e o odor deste pinheiro imenso. Hummm...” Dizendo isto, pendurava-me nos teus lábios. Por ali quedámos, eu com as pernas nuas apoiadas nos vidros descidos, tu recolhendo o meu encosto. Os outros trabalhavam naquele meio de semana. Nós, rentes ao perímetro do convencionado, dele e deles nos desmarcávamos. Como sempre.
Publicado por Teresa C. às junho 4, 2005 10:14 AM