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junho 30, 2005

ACQUA_R_ELLAS

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Jim Warren

Uma súbita necessidade de parar. A dor aguda obrigou-a comprimir o abdómen. Olhou em volta. Metros à frente, uma esplanada prometia assento e frescura. Sombra que lhe desse repouso do tremeluzir reflexo nas camadas do ar aquecido. Sentou-se sem que a mão descomprimisse o músculo. Virou o rosto e balbuciou - “água, por favor!"

Tirou a bolsa da mala, atropelou coisas e engoliu o comprimido. Relaxou. Caíram as mãos nos joelhos, respirou fundo. Uns minutos, e a bomba de protões armazenada na cápsula iniciou a neutralização do que a corroía. Lentamente, regularizou a inspiração. Sentia a moinha restante como prova de um sofrimento que, de tão breve e intenso, poderia sugerir fantasia. Levantou o queixo ao céu e sorriu.

A bolsa pequena, castanha, elíptica, continuava na mesa. Girou-a entre os dedos e, porque esquecera o fecho, tudo rebolou, caiu e ficou coruscando pela luz captada ao sol esgueirado por entre as folhas, como se os objectos caídos lhe piscassem um olho, até aí escondido, troçando sem malícia do descuido. Olhou em redor e sentiu-se só naquele meio de dia. Observou o que caíra: lápis de lábios, espelho, pinça, antiácidos, toalhita refrescante, Migraleve para as enxaquecas, corta-unhas, batôn, lápis de olhos, dois tampões protegidos, ansiolíticos, aspirina. Deteve o gozo da brincadeira que com os objectos fazia e ficou imóvel – metade deles eram medicamentos. E havia a dor que a obrigara a sentar. O tempo que pela semana roubava para ajudar a mãe a cada dia mais frágil. O velório da Luisinha, a prima quase da idade dela, cuja vida terminara abruptamente. Envelhecia. A brincar, os objectos disseram o que nem ela, nem os próximos se atreviam.

Apanhou o que caíra. Puxou o fecho, aprisionando coisas e a verdade. Iria ao médico, faria a endoscopia adiada, e, daqui a dias, riria do pavor que ora a atormentava. Uma gastrite, pela certa, coisa de nada. Pagou e aproveitou o carreiro da sombra. As folhas das tílias tremeluziam, desafiando-a para o milagre do jogo que a tudo e todos envolvia. Em qualquer idade, em qualquer condição. De novo enamorada pela vida. Até um dia.

Publicado por Teresa C. às junho 30, 2005 09:34 AM