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junho 08, 2005
AÇÚCAR

Greg Horn
“A menina é levada da breca!” Assim dizia o Sr. Joaquim, caseiro de muitos anos, ao ver-me trepar árvores e muros com silvas, ou a escorregar “sem querer” para o enorme tanque em que a Elvira batia a roupa depois de a corar ao sol. As tias afadigavam-se cuidando do meu porte e soltavam ais desesperançados – “Ai mana, que pouca sorte, ela é uma maria-rapaz!” E era.
As inúmeras pancadas da cabeça contra as paredes da vida domesticaram alguma da minha crina empinada e forçaram-me a trote ordeiro em vez de corridas à desfilada. Nos primórdios da vida que conta – quando autónoma e respondendo apenas por mim – rangia os dentes e só mais tarde sorria perante ditames sociais. Agora é o mesmo, só que me vêm apenas o sorriso. A vontade assassina do “agarrem-me que me vou a eles” foi suavizada, porém não eliminada. Hipócritas de meia-tigela – os de tigela inteira sempre merecem a estupefacção por tal arte –, cínicos tão mortíferos como arsénio, ressabiados do fatum, bajuladores incuráveis ou mentirosos todos-os-dias suscitam-me indiferença elaborada a partir da incompreensão pela vil matéria que os forja.
Se é verdade temer répteis, sendo bicho não negava ser osga. Arrumada, sorrateiramente, numa esquina do tecto, tudo mirando num revirar de olhos. De papo cheio, ignorando melgas, mosquitos e vespas. Quem odeia osgas, não dê por legítimo o pavor - esticam a língua e engolem insectos, deles nos poupando as picadas. Sem escarcéu saem, subtis, tal qual entraram: pela janela aberta à pureza do ar.
Publicado por Teresa C. às junho 8, 2005 08:31 AM