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junho 12, 2005
CORTE E COSTURA

Michael Mobius
Desde nados, a «pelagem» dos humanos merece atenção. Primeiro da mãe, doridamente feliz, depois dos muitos que, à vez, dirão “Que lindo!”, “Que perfeitinha!”, “Que cabeleira tem!” ou “Carequinha, mas uma lindeza!" Assim foi e assim será, direi num arroubo de atrevida presunção. Em adultos é que a progressão e multiplicação dos pêlos se complica.
Há uns cem anos, homem sem pêlos era um subproduto da espécie e ponto final. Mulher devia, para o vulgo, proteger os tufos íntimos – nas axilas e púbis - que só ao respectivo exibia. Pêlos femininos nas pernas ou nos braços permitiam à lascívia masculina avaliar quão prometedor era o... «armazém» (laracha de magalas que se libertou dos quartéis e chegou a todo o lado). As felizes utentes das mais cobiçadas pelagens eram as trigueiras moçoilas rurais, de braços possantes, capazes de torcer o gasganete de um galo em metade do tempo que uma alva citadina demorava a suspirar. Estas, de pele feita a lençóis de seda ou fino linho, aquelas, habituadas a despachar o mesmo a coberto das cearas ou milheirais.
Correram anos e com eles os pêlos. Domadas as sobrancelhas, rapadas as axilas e pernas, restaram os da moldura da zona íntima e profunda, assim constituídos como provada prova de ser mulher a criatura. A partir daí, foi a decadência das peludas. Penugens dos braços, pêlos das axilas, virilhas e pernas mereceram inquisitório aniquilamento a laser. Do exuberante triângulo de antanho, mais tarde com dimensões sazonais, restou um rectângulo simbólico, um triângulo a encimar o que é suposto, ou o nada. Consta ser este «nada» o mais apetecido. Pelo design minimalista? Vestígios nostálgicos da candura desflorada pelo marido recém-empossado? É possível, já que poucos homens, além dos reformados, têm hoje memória de ter desflorado algo mais que uma lata de cerveja ou garrafa de vinho. Até lhes podem ter cabido em sorte raridades virginais em idade legal; resta é saber se as honraram ou ignoraram, quiçá naufragados em anestesia alcoólica.
Publicado por Teresa C. às junho 12, 2005 10:16 AM