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junho 30, 2005
(IN)CONFIDÊNCIAS

Autor que não foi possível identificar
Aos que se preocuparam com o meu mood, um pouco blue, de hoje, agradeço e confirmo-o. Não que bicho me roa, pelo menos que eu saiba... Antes por não haver arco-íris que resista a papéis, montes de papéis, resmas deles. Isso, sim, rói a paciência. Vou-me a uma aula de Body Balance - troco a rata de biblioteca, salvo seja, pela garça.
Publicado por Teresa C. às 06:13 PM
ACQUA_R_ELLAS

Jim Warren
Uma súbita necessidade de parar. A dor aguda obrigou-a comprimir o abdómen. Olhou em volta. Metros à frente, uma esplanada prometia assento e frescura. Sombra que lhe desse repouso do tremeluzir reflexo nas camadas do ar aquecido. Sentou-se sem que a mão descomprimisse o músculo. Virou o rosto e balbuciou - “água, por favor!"
Tirou a bolsa da mala, atropelou coisas e engoliu o comprimido. Relaxou. Caíram as mãos nos joelhos, respirou fundo. Uns minutos, e a bomba de protões armazenada na cápsula iniciou a neutralização do que a corroía. Lentamente, regularizou a inspiração. Sentia a moinha restante como prova de um sofrimento que, de tão breve e intenso, poderia sugerir fantasia. Levantou o queixo ao céu e sorriu.
A bolsa pequena, castanha, elíptica, continuava na mesa. Girou-a entre os dedos e, porque esquecera o fecho, tudo rebolou, caiu e ficou coruscando pela luz captada ao sol esgueirado por entre as folhas, como se os objectos caídos lhe piscassem um olho, até aí escondido, troçando sem malícia do descuido. Olhou em redor e sentiu-se só naquele meio de dia. Observou o que caíra: lápis de lábios, espelho, pinça, antiácidos, toalhita refrescante, Migraleve para as enxaquecas, corta-unhas, batôn, lápis de olhos, dois tampões protegidos, ansiolíticos, aspirina. Deteve o gozo da brincadeira que com os objectos fazia e ficou imóvel – metade deles eram medicamentos. E havia a dor que a obrigara a sentar. O tempo que pela semana roubava para ajudar a mãe a cada dia mais frágil. O velório da Luisinha, a prima quase da idade dela, cuja vida terminara abruptamente. Envelhecia. A brincar, os objectos disseram o que nem ela, nem os próximos se atreviam.
Apanhou o que caíra. Puxou o fecho, aprisionando coisas e a verdade. Iria ao médico, faria a endoscopia adiada, e, daqui a dias, riria do pavor que ora a atormentava. Uma gastrite, pela certa, coisa de nada. Pagou e aproveitou o carreiro da sombra. As folhas das tílias tremeluziam, desafiando-a para o milagre do jogo que a tudo e todos envolvia. Em qualquer idade, em qualquer condição. De novo enamorada pela vida. Até um dia.
Publicado por Teresa C. às 09:34 AM
junho 29, 2005
(IN)CONJUGALIDADES

Barn Dog
- Sabias que os enfermeiros podiam reformar-se aos 57 anos?
- Sabia querido.
- E que os professores do ensino básico o podiam fazer ainda mais cedo?
- Sabia.
- Ouve esta: aos 52 anos reformavam-se os polícias.
- Pois era.
- Não sendo marido, porque sou o último a saber?
Publicado por Teresa C. às 05:47 PM
BAGAS DE SABUGUEIRO

Anthony Guerra
No olhar manhoso do Zé Povinho, o Bordalo não poupou sabedoria. Era como o viu: espertalhão, o maior do bairro, sem perder oportunidade de passar a perna a quem, no botequim ou na rua, se armasse em rufião ou o apoucasse. Faltando rival à altura, o Estado servia. E serve... Aprontamos manguito que o enrole e a ele connosco. Até que o “ora toma!” suba dos fundos do gasganete, os olhos manter-se-ão vidrados na rasteira congeminada. Somos espertos até ao tutano, mesmo se mais lentos da mona que asno com vendas. Este luso canteiro está para os inteligentes como a política para os honestos – castiga-os.
Tenho evitado acrescer pauladas à crise que nos atormenta. Razão: não a vejo culpada e evito tiros no pé. Inevitável, sim, porque de preveni-la nos distraímos e descurámos amparo para os alternados ciclos de abastança e penúria. Previsível, porque a pedagogia da solidariedade social e disciplina pessoal no empenho do bem-comum foi desleixada (fica por conta de poucos que nela teimam). Faltam lideranças sérias que puxem pela esperança e dinamizem vontades. Se o repolhudo Zé Povinho foi caricatura em barro que mudou de século, do molde saíram Zés de carne e osso de prolífica descendência. No aspecto perderam singularidade, o essencial mantêm - do próprio umbigo não desgrudam e antes o mal de todos que encolherem os suspensórios.
Dos sindicatos podia vir ajuda – ocupam-se em clivagens, «manifs» e slogans que os justifiquem tal qual eram há trinta anos. Da comunicação social esperava auxílio - rareiam redacções sóbrias e exigentes (não havendo milho, não se chegam os pardais). Rende o lapso da ministra, a rectificação do rectificativo, o diz-se-que-diz-se, tragédias e cambalachos. Só muito espremido se obtém sumo que valha a pena beber. E que bem sabe, como refresca o que lemos ou ouvimos dos que não desistem do equilíbrio possível no fino arame da verdade...
Publicado por Teresa C. às 08:45 AM
junho 28, 2005
CORREIO SENTIMENTAL

Terry Rodgers
«Mulherio, estamos feitas! Homo, metro e tecno. Desejam tudo e todos, excepto... uma mulher!»
Ia a criação avançada quando apareceram uns seres pouco jeitosos, distintos dos demais pela posse de cérebros pensantes. Mamíferos ditos primatas por pouca-muita coisa: plantígrados, mamas peitorais e polegares opostos. Abrangidos pela classificação: símios, lémures e homens. Destes, eles e elas foram brotando aqui e ali numa Terra, então, grande demais. Harmonizava-os a sobrevivência e prolongamento da espécie. Heterossexuais, portanto.
Percorrida a órbita da Terra biliões de vezes a mais que a de um pião, são mencionados humanos homossexuais. Mais eles que nós, mas enfim, na mulher ninguém se detinha, assim ela parisse e zelasse pelos filhos. Por esse tempo, iniciação sexual de um homem com outro era useiro e, após década e pouco de existência, ninguém se atinha à idade antes de encaminhar o essencial para o posterior de outrem. Passando a puberdade, os homens acumulavam mulheres e machos sem que daí ao mundo viesse escândalo.
Mais uns zénites solares e eles tornaram-se oficialmente nossos, sendo visto de esguelha «desvio» ao que manda a Santa Madre Igreja. Não fosse o cheiro nauseabundo que deles, presumo, emanasse, já que banhos era coisa de gente rica e fina, teria sido para o mulherio época prazerosa de acumuladas odes, louvores, cantigas, anéis de cabelo, presentes e mimos. Tudo nós merecíamos em período de acasalamento. Depois, os prazeres minguavam. Vantagem: campos e castelos vastos para nos acolherem lágrimas, gemidos e suspiros.
As coisas entortaram logo no século passado. Os amantes dos detentores de sexo semelhante proliferaram, correndo risco de diminuição da espécie. Elas constataram ser sábia uma de duas atitudes: grudarem num homem a tempo e horas, ou entrarem na estatística do Woody Allen: ser mais provável que uma mulher acima dos «inta» se depare com um ataque terrorista do que com homem para ajuntamento.
Neste século, tudo piorou. Aos homossexuais juntaram-se os metrossexuais - sensíveis, cremosos e mais consumistas que nós - e agora os tecnossexuais - de aspecto cool, obcecados por tecnologias, gadgets, verdadeiros peixes num mar hi-tech. Há que fazer como o Sócrates e encarar a crise de frente, só que para melhor e com tino. Quem tem homem a sério guarde-o e chame-lhe seu, embora me pareça egoísmo sem futuro. Não tarda, repartiremos um por quatro ou mais. Vendo o lado positivo, nem está mal pensado: uma trata dos fatos e fica com o romantismo, outra para as camisas e os beijos sem defeito, a terceira para as peúgas e preliminares, a última para os boxers e acto. Depois, rodamos no dia da semana e na parte que nos cabe, não esquecendo a sequência correcta. Pois se já agora, eles raramente fazem tudo junto e bem!
Publicado por Teresa C. às 09:10 AM
junho 27, 2005
PÉ NA CHINELA

Sorayama
À parte a nata dos privilegiados de berço que podem dar-se ao luxo de habitar no casarão de família em pleno centro urbano, ou num prédio classificado da zona histórica - airoso, remodelado segundo cânones exigentes e luzidio como um brinco -, os pretendentes ao reconhecimento social habitam condomínios fechados. Estes, na ausência de estrelas classificativas, distinguem-se por parâmetros difusos: é diferente habitar no Condomínio do Parque ou no Massamá Place. Muito diferente.
Aqueles que os portões e gradeamentos mantêm arredados dos guetos ajardinados, podem ser ingénuos e ter quem lá dentro se move como utente de vida desafogada. Não me preocupa se a abastança é real ou fictícia; o sabido é que os calotes e preço por metro quadrado estão em compita directa. Condómino pontualmente pagante das mordomias mensais, é raro. Lugar de venda de frutas e legumes levando a casa a encomenda, é bom que se rodeie de cautelas – as empregadas recebem, a «senhora» nem vê-la e semana após semana a «continha» cresce a rombo.
As empregadas são o lado mais saboroso da história. Na negociação do contrato, estabelecida a exorbitância a pagar que deixa longe o ordenado de qualquer jovem licenciado, indagam se têm lugar na garagem, já que “estacionar foi um inferno.” A meio da tarde, as babás empurram cadeirinhas ou vigiam querubins loirinhos e de olhos azuis, como devem ser todos os querubins. Cada uma reclama para a respectiva patroa maior mérito social e pessoal – “É como te digo, Zulmira, hádes ver ela na revista que te falei. Ninguém diria que aquilo é a ramelosa que vejo pela manhã quando lhe entro em casa!”
A coisa chegou a tal ponto, que estando aqui a «piquena» partilhando limpezas profundas com a mui querida e estimada Cila, esta empoleirada num escadote livrando do pó a sanca do tecto, fui abrir a porta ao funcionário do novo talho. O homem olha-me, e, antes de entregar a preciosa carga, pergunta respeitoso: “ a Senhora está?”
Publicado por Teresa C. às 12:15 PM
junho 26, 2005
TRETAS ESOTÉRICAS

Autor que não foi possível identificar
Nos mistérios insondáveis há uns mais insondáveis que outros. Se a mística(?) do futebol e dos infantes brincalhões mais a bola saltitona é corriqueira, dignifica-a ser o principal ganha-pão de honestos pais de família no presente e no futuro – os jogadores são muito casadoiros e danados para procriar. Convém acrescentar que, por via do futebol, meninas muito boas ganham dinheiro e fama. Nada disto me amofina – ganhou, não lixou, está ganho! Tudo é pacifico e aceite em sociedade.
Os Vs são dos mais intrigantes mistérios dos humanos ocidentais. Temo-los por homens devido às evidentes características usuais do sexo masculino, sendo que neles tudo é extremado. As costas são larguíssimas, pescoços cheíssimos, veias salientíssimas, músculos rigíssimos, cabelo curtíssimo, e rabos pequeníssimos. A pilinha presumo-a proporcional ao rabo: mínima.
Perante um enigma não estou para vãos arrepios. Observo, indago, até dali tirar o sentido. Neste começo oficial de época balnear, revi Vs a quem sempre enderecei olhar perplexo. Simulei soneca profunda e fiquei em vigilante ratice de um grupo padrão: um homem normal, dois Vs séniores e um júnior. Todos usando cuecas de banho pretas. Posições relativas: o normal sentado à sombra, o júnior estirado ao sol e os séniores de pé como Rangers em sentinela.
O novato, barriga para cima e olhar vazo, afirma - “c’um caneco, tenho uma fome....” Comenta um dos veteranos – “pá, daqui a pouco podes comer o gelado!”. O outro – “comeste o peixe grelhado ao jantar?” Volve o novato – “pá, comi, pá, mas aquilo não enche.” O normal, cujo olhar não se perdia das águas, intervém - “ gelado, peixe grelhado e água é lá sustento de homem! Bebam é um bom vinho e comam à maneira!” O júnior comenta enjoado – “vai lá vai, pá, já não gramo álcool pá; é mais para queimar.” Silêncio. Suspiro. Rosnam estômagos. Acomodam-se os gasosos intestinos. Silêncio. O sénior – “daqui a um quarto de hora temos gelado” O outro - “yeah” O júnior - “bora à água para entreter!” Os Vs caminham arrastando os pés no areal. O ângulo corporal culminando nas nádegas mínimas. Pernas arqueadas. Braços compridos, em arco, balouçando na cadência do passo. Orangotangos pilados e mais altos.
Conclusão: Vs pensam, comem, falam, mexem-se. Tudo devagar. Sofrido. A pilinha tem de ser atrofio. Como o rabo. Desenvolvida somente com vagar. Muito.
Publicado por Teresa C. às 10:14 AM
junho 25, 2005
BON CHIC, BON GENRE

Sorayama
Homens casados. Mulheres que não arranham mandamentos afirmam à boca cheia que macho de parceria legitimada pela sociedade ou pela igreja não tem sexo. Em termos práticos significa que deles deram baixa na lista de candidatos a amásios. E que baixa! Homens e mulheres casam que se fartam. Elas, porque o tic-tac biológico a cada ano mais se esganiça ou porque os “sonhos são para cumprir, bolas que também mereço, ou não me chame Mariazinha”, são danadas para o tule, mais o vestido e a lua-de-mel, mais o fel da conta festiva. Eles, porque a pressão social, de início louvaminheira, começa a enviesar o olhar quando já lá cantam uns anitos. É aquela coisa da casa num oito, roupa suja entremeada com pêlos espalhados no chão sem a desculpa de terem um Serra da Estrela, dos lençóis arreganhados do uso e fedendo a uma mistura de nicotina, água de colónia e vinagre balsâmico. Um belo dia, acordam zonzos, olham em redor e ficam um bocado naquela: “Pá, reconhece, não dás conta disto. Atraca-te ou estás fodido!” E casam.
Os ingénuos julgam que o matrimónio lhes confere aura de préstimo e inacessibilidade que os torna mais apetecíveis. Os pragmáticos sabem que a aliança passeia facilmente até à algibeira, logo, o regabofe não cessa. Esquecem que também o mercado deles estreitou. Primeiro: as «amigas» de outros tempos só por desespero vencerão o despeito remanescente das sms não respondidas, do atraso dele para a estreia do Quebra-Nozes e o ar de vómito no primeiro jantar romântico em casa delas, ao deparar com verdes e grelhados numa instalação minimalista. Das sobrantes e liberais há as que não se importam de servir de microondas, as que exigem ilusões sem defeito, e as que mal vêm a santa aliança fogem como diabo da cruz só de pensarem em fins de semana sozinhas, programa só quando o telefone toca e na clássica “a minha vida é um inferno, não tarda separamo-me.”
Se as livres e desimpedidas fogem ou só por acaso caem na conjugação carnal, se as profissionais do ramo não bastam, quem resta então? As que adoram diversificar a ementa, sejam casadas ou equivalentes!
Nota – O primeiro «fodido» da minha vida demorou, mas saiu. E nem se me desmaiou o sorriso... Estou na via da perdição.
Publicado por Teresa C. às 10:03 AM
junho 24, 2005
IN & OUT

Drew Posada
«Do homem a praça, da mulher a casa», é frase retirada de um relato de um viajante que assim sintetizou o estatuto das mulheres no nosso país. Ana Vicente fez uma levantamento exaustivo sobre literatura de viagens em Portugal e dele resultou “As Mulheres Portuguesas Vistas por Viajantes Estrangeiros.” Sustentada pelas personas dos viajantes, acumulou narrativas que constituem fonte histórica sobre o papel da mulher do século XVIII ao século XX.
“Atrás de uma grande mulher há sempre um homem a impedi-la de o ser” pode ser a conclusão a tirar da histórica opressão feminina. A ambiguidade da Igreja, o olhar da sociedade e dos pensadores em relação à mulher provam o temor pelo poder da sexualidade feminina – a procriação. Filósofo houve que ousou afirmar ser um defeito da mulher isso mesmo, por ter depois de amamentar, cuidar, educar. Possível fonte de inspiração dos que hoje não contratam mulheres por elas poderem engravidar... A fortaleza da mulher, a maravilha da criação tornada fragilidade e alvo de desconfiança.
Leonor Beleza afirmou que «as decisões importantes da vida política são tomadas depois das seis da tarde», o que talvez ajude a explicar porque são eles maioria nos quadros políticos ou nos painéis de programas de televisão. Depois do fatídico limite temporal, elas regressam a casa, e os homens? Regressam também? Tratam dos filhos? Passeiam o cão? É mais cómodo continuar o trabalho, enquanto elas garantem o resto.
Se o trabalho fora de casa é argumento usado para explicar a sobrecarga de tarefas da mulher, ele cai sem delongas. A ideia de que a mulher de antanho não trabalhava é mito. Sempre trabalhou, e, no século XXIII, antes da revolução industrial, as mulheres portuguesas tinham mil ofícios sem qualquer auxílio tecnológico. Só da burguesia e da classe burocrática estava arredado o trabalho feminino. Não será então o tempo a limitar-nos para a intervenção social, antes a cumplicidade nossa e deles ao perpetuarmos comportamentos desiguais dos género.
Por estas e por outras, fomos esquecidas pela estatuária pública. De homens valorosos há muitas. Quantas lembram mulheres? Foram assim tão irrelevantes?
Publicado por Teresa C. às 09:00 AM
junho 23, 2005
(IN)CONJUGALIDADES

Autor que não foi possível identificar
- Estou arrasado. Andei quilómetros.
- Tão querido! Seguiste o meu conselho...
- Pois...
- Vais ver que perdes esses quilitos num instante.
- Depende até onde tiver de ir sem carro para comer umas bifanas de jeito.
Publicado por Teresa C. às 06:22 PM
MURMÚRIOS

Elaine Gignilliat
Sei tão pouco de ti!... O tempo da fala comum sempre desfilou à revelia das horas. Momentos houve de balanços e projectos de amanhãs. Nunca desistindo do encontro por dentro onde os seres são. Cada um procurando a fugidia entrada no amado e alheio. Pela razão negando a unidade que os sentidos e o afecto adivinhavam.
Muitas foram as vezes em que me viste como eu mal vislumbrava. E foste candeia nos avanços pelo labirinto do que sou. O mesmo fiz. Coleccionei gestos, olhares e palavras. Adicionei-os. Como prova dos nove à soma, batia suavemente à porta do teu íntimo. Tardando a resposta, deslizava pé-ante-pé, não fosse agitar fantasmas ou mágoas ou medos adormecidos. De que sabia. Sempre os (pres)senti, Sem saber que de ti sabia tanto e nada.
Se do mistério há adictos e o psiquismo humano é o mistério maior, os inconformados como nós viciam-se. Curiosos, rumam ao que no outro é oculto sabendo-o inesgotável. Dessa nascente sombria corre o fluido que vivifica o desejo. Escorregadio. Silencioso. Ensurdecedor. Como guia conduzindo à fonte de onde tudo brota. Sem que o mapa interior lhe saiba as coordenadas. Onde somos.
Publicado por Teresa C. às 07:21 AM
junho 22, 2005
HISTÓRIAS DE (DES)ENCANTAR

Autor que não foi possível identificar
Tenho glorificado finezas dos machos que tornam legitima a presunção deles serem por aqui tão louvados como zurzidos. Nem de propósito: surge um de Mirandela a desequilibrar a estatística.
Dá-se o caso deste homem prezar da mulher o exclusivo e não aprovar que dele ela se apartasse por rores de tempo. Tudo sem a prender em casa, ou impedindo-lhe o livre respirar. O pressuroso marido cuidava-lhe, outrossim, do necessário à vida, desde o alimento à presença, como cumpre num casal abençoado pelo prior, ela de branco, ele de fato e laço, lenço no bolso e cravo ferido por alfinete na lapela, com direito a saudação de mãos atulhadas de flores e arroz. Par tão bem nascido, não se ata para desatar depois.
No povoado onde viviam, granjearam estima. Não fora nefasta refeição após a qual os sogros se despediram do genro e amada filha, com quem viviam, e debandaram rumo ao Criador, diria que do povo acumulavam estima e respeito. Ficaram-se os conterrâneos pela distância respeitosa(?), providenciando não partilharem a hospitalidade do casal.
Soube-se agora que a mulher foi mantida uma semana acorrentada a um poço, nua (o calor tem sido de aperto!) alimentada e hidratada. Pão ou bolachas – nisto as vizinhas não acordaram – e água. Alimento saudável, isento de proteínas vindas sabe-se lá de onde e à custa de quê, a água o líquido ideal para uma dieta sã.
A verdade é que a mulher chamou a tudo aquilo cativeiro, fugiu, escancarou a verdade e deu entrada no hospital. Quando entrevistado, opinou um aldeão, revoltado com o sucedido: “Ainda se ele lhe desse umas lambadas ou lhe atiçasse o cão... Agora acorrentá-la ao poço?!”
Livra!
Publicado por Teresa C. às 08:55 AM
junho 21, 2005
AÇÚCAR

Sorayama
O segredo está em refrescá-las. Ao resto também.
Publicado por Teresa C. às 05:35 PM
TROCAS E BALDROCAS

Barndog
Num tempo em que vamos indo assim, assim, somos felizes mais ou menos, a saúde podia estar melhor que para pior já basta assim, escasseia a assertividade. Vou perder elegância na linguagem que pretendo ganhar no entendimento: no verão, as mamas são uma canseira. Concedo que os pêlos, pés, cotovelos também dão que entender se exigimos na nudez pele de seda e pés cumpridores dos mínimos do respectivo fetiche. Mas nada, mesmo nada, se parece com os dilemas mamários do estio.
Com as ditas os problemas são, essencialmente, de dois tipos: sustê-las e revelá-las (ficará de lado a omissão das mesmas - posso ser moura, árabe nunca!). Peito grande, que exceda as quinhentas gramas por unidade, carece de sustento firme, encaixando sem espremer, e postura que não ceda décima de grau à linha da gravidade. Peito pequeno pede forma que o valorize e lhe conserve o ar empinado. Em qualquer dos casos temos o problema das alças por baixo dos «trapos»... com alças. Banir soutiens seria o ideal, porém, obrigaria muitas a assumir que ali estão bons exemplos de valores em queda. Soutiens sem alças são incómodos porque maiores que os outros, com elas implicam mil e um exemplares para que o usado por fora não guerreie audiências ao de dentro.
Revelar ou não as mamas. Entre amigos ou gente do milieu impera o apetite e o bom gosto requerido. No ambiente profissional não será de bom-tom tê-las sob a mira de qualquer um – importa zelar pela tranquilidade laboral. A benção do ar-condicionado permite que em plena grelha urbana o conforto seja compatível com a subtileza de um linho fino esvoaçando sobre o colo. Locais públicos com «intas» de temperatura obrigam a equilibrar apetite e possibilidade. Deixá-las pender livremente e aproveitar-lhes a brisa do balanço é impossível. Exibi-las a meio termo implica olhares de desespero suado. Tapá-las é martírio – pelo reguinho encarreiram gotículas a desaguarem no enfeite miniatura que une as copas. Não sendo dique capaz, progridem, sorrateiras, até à cintura. Com obstáculo à altura ficam-se por aí. Não existindo, avançam sinuosas até empaparem o que resta seco da cuequinha. Uma tragédia, um desconforto, um daqueles momentos em que nenhuma de nós gostaria de se cruzar com o Clive Owen. Nem ele connosco.
Publicado por Teresa C. às 07:12 AM
junho 20, 2005
BON CHIC, BON GENRE

Tymothy Mensching
As meninas e os meninos bem comportados estão à mesa com propósitos, não interrompem adultos, só esgrimem um argumento por dia com os progenitores, cumprem horários na escola, estudam e nos tempos livres fazem desporto, lêem, são cinéfilos ou dedicam-se ao voluntariado.
Dos genuínos cumpridores do estereótipo não há muito a dizer – são parvos até à medula. Dos outros temos mais a contar. Estão calados por não terem vocabulário decente ou ideias consequentes para uma frase que exceda a dúzia de palavras. Gerem com parcimónia desacordos com os progenitores – quanto menos souberem do que eles fazem e pensam nas catorze horas de vigília em que não lhes põem a vista em cima, menos se desiludem, lhes atanazam o juízo e mais aberta fica a bolsa do sustento dos vícios. Nos dias úteis despedem-se da casa a tempo do início pontual das aulas, sem que a mediocridade do aproveitamento escolar se ressinta. Cafés, escadas, motas e shoppings são a essência do dia em que as aulas foram mero interlúdio. Se for inviolável a «curte» ou o «tasse bem», qualquer falta será prontamente justificada pelos papás preocupados pelo ar rameloso que lhes prova a verdade do pico asmático, da enxaqueca ou dor muscular. As (poucas) horas passadas na solitária (quarto) em suposto estudo, são postas ao bom serviço de jogos, telefone, sornas e à perícia de espreme-borbulhas-encartado. A prática desportiva, depende. Se além das modalidades oficiais incluirmos rapidinhas, idas à praia, fumos e rosnice, temos excesso de candidatos às respectivas olimpíadas. Leitura, cinema e voluntariado todos cumprem – lêem mensagens, a vida deles é um “ganda filme!” e voluntariado, sim, sempre, desde que a miúda tope e dispa o top.
Felizmente, há jovens fantásticos que nunca foram, definitivamente, bem comportados.
Publicado por Teresa C. às 09:22 AM
junho 19, 2005
BAGAS DE SABUGUEIRO

Paulo Toledo
País trôpego, gentes julgadas mancas. Mãe bastarda e briga familiar fizeram nascer Portugal. Do burgo de Portucale ao reino tomado por conta e risco de Afonso Henriques, não se esticaram os anos. Terra com pouco a contar se, de ouvido rente ao chão, ignorarmos os ecos da evolução incerta entre dois mundos políticos diferentes: fronteiras oscilando entre os reinos cristãos e a influência muçulmana e islâmica.
Território acanhado, pobre, de pedregulhos agrestes entrecortados por leiras de solo castanho e húmido aventurando-se ao mar. O do interior dado ao centeio e à oliveira, o do litoral propício ao milho e verduras. A pastorícia e a pesca espreitavam amenidades atmosféricas para trazer à mesa o pão que as invernias negavam.
Do «ontem», assim resumido, há diferenças no presente. Continuamos, porém, leira acanhada, pobres como antes, desencantados por vocação. Penhorámos ilusões, mas é nosso o espírito vadio que nos elevou a cumes onde outros não chegaram, sem recuarmos a séculos em que os genes por nós acartados eram pedaço de junco de ribeira.
Dêem ânimo a esta gente antes que as cãs sejam todo o cabelo. Não acenem com benfeitorias, idas ao bufete e folguedos, subestimando a lusa inteligência. Sabemos quem somos e o que queremos. Do gato e da lebre enumeramos as diferenças. Exigimos pouco como alimento da energia derramada em suor para empurrar o país: verdade, hombridade e carácter.
Publicado por Teresa C. às 10:02 AM
junho 18, 2005
PÉ NA CHINELA

Autor que não foi possível identificar
Atribuem-me sofisticação de que não dou conta. Sei que a diferença me atrai, o déjà-vu evito, que o bonito – objectos, momentos e íntimo das pessoas – me cai no colo sem mérito próprio que vislumbre. No meio deste limbo bem-aventurado, foge-me o pé para a chinela plebeia a que sempre pertenci. Um reparo – ultimamente, é o meu pé que avança e a chinela fica; a vetusta calçada portuguesa separa os cubos calcários com areia feita íman para os afilados saltos do Manolo Blahnik que me endoudam.
O preâmbulo sugere predilecção pela excelência das praias dos arrabaldes lisboetas: Tamariz, Guincho, das Maçãs ou Azenhas. Mas não. Horas numa delas e os “Olá, tá bem?” são mais frequentes que os desmaios das ondas. Bani-as. As praias, claro! Uso alguma da minha liberdade na gestão de tempo e horários para fugas simplórias: Costa da Caparica, maila a poeira e a chapelada afável do vigilante do parque. Um querido!
Tendo-me como intuitiva ao fashion, a moda dos arrastões não previ. Aumentei o meu despojamento banhista, mas desistir, nunca! Com uma gaze compridona num rosa de perdição simulei tapar o revelado, top mínimo e havaianas. Mais despojada, só nua mesmo! Aos pertences acresci livro de que darei notícia, euros curtos, toalha anónima, óculos Gucci que imitam na perfeição os falsos. Uma mulher pode ceder, mas há mínimos a cumprir...
Três horas mal medidas pela inclinação solar, bem passada de um lado, quase tão bem do outro, livro e mergulhos intervalados e emoções escaldantes nem uma! Jovens de raças várias, jogatinas, Vs arrastando-se em postura de gorila, afagos enamorados como glória aos céus, enfim, o costumado. Li, abandonei cada interstício à lascívia morna do mar, abri-me aos UV e IV e mandei às malvas prevenções. O medo também mata.
Publicado por Teresa C. às 09:29 AM
junho 17, 2005
CORTE E COSTURA

Autor que não foi posível indentificar
Nos comentários aqui dispersos é tido como envenenado o que aos homens concerne. Se com ruído não só fervilham os nervos como entope a comunicação, que se esclareça a metafísica(?) da coisa.
Tomemos, como alicerce de raciocínio, obedecerem os seres aos princípios da Teoria da Evolução e no que os herdeiros de Darwin entendem pelo termo. Em sentido estrito, evolução é alteração nas espécies, substituição de umas por outras novas, facto observável. Evolução, como modelo de estudo, procura explicar a primeira onde cabem homens e mulheres.
Perorar, nos limbos femininos, sobre detalhes que neles abominamos, cumpre a teoria darwiniana da selecção natural na compita por fêmea com quem possam procriar ou... deleitar. Acresce, ser parte da natureza das mulheres a fluidez e disponibilidade para a mudança que obrigam à rejeição de fósseis ambulantes se na biologia não encarreirámos. Excepções: as que ressalvam aliança gravada no verso com o número da convincente conta da Suíça como presente de noivado, caso o grunho não dê pelo Xanax na sopa ou se, no limite, tiver palato insensível a mata-ratos (os fígados femininos devem ser compatíveis com a tarefa).
Os homens mudaram. Escarrar para o chão, coçar os pendentes, meia branca remanescendo do mocassin preto, camisa com botões estalando no abdómen, exibição de excessos pilosos, aroma a Opium Pig, já quase são memória nos urbanos menores de quarenta anos. Isto no físico. Nas atitudes, o fedor dos que atanazam a vida das parceiras domesticou-se; damos por eles se o acaso nos aproxima – Abrenúncio, Satanás! - ou quando as respectivas saem à rua maquilhadas com hematomas.
O almejado diz-se depressa: homens simples de diálogos espevitados e com o infinito bom gosto de nos amarem como a eles amamos. Nem metro-coisa-nenhuma, tão pouco músculos esculpidos à máquina e com pele de bebé encerada. Desconfiamos dos lindos. Tão lindos que a vida da mulher vira sufoco de dúvidas – se não nos enfeita com os ditos, vai-se ver e é gay. Nos tempos que correm, o tempo dispensado, a qualidade e frequência das «quecas» nossas e deles tanto podem ser esgrima calórica disciplinada como regra do manual. Resumindo: homens a meia-distância entre o Tó Cruz «despacha-garinas» e os que sopram, num arroto, as dentaduras. Importante: que os amemos (a dentadura é passível de negociação).
Publicado por Teresa C. às 11:49 AM
GENÉRICOS

Keith Garv
As visitas tombam na proporção directa do menor número de imagens de mulherio de fino recorte aqui publicadas e na proporção inversa do tamanho dos meus rabiscos e do aumento da temperatura exterior.
Um gelado agitará os ânimos?
Publicado por Teresa C. às 07:16 AM
junho 16, 2005
LOOK

Lorenzo Sperlonga
Quando eles nos acusam de futilidades inomináveis é uma ingratidão. Nunca entenderão, quanto mais retribuírem, os sacrifícios a que, por amor deles, nos sujeitamos. Nem falo dos partos e miudezas femininas de que os podemos ilibar. O quotidiano basta.
Há aquela arenga que todas partilhamos de nos arranjarmos em primeiro lugar para nós próprias, depois para as outras mulheres e por último para eles. Falácia, pura falácia... Arranjamo-nos como quem faz fitness da auto-estima para nos sentirmos ao nível das outras mulheres e em nada desfavorecidas perante os homens. Alguém imagina um bando de mulheres numa ilha isenta de bicho-homem a pôr rimel nas pestanas ou perdendo tempo com as sobrancelhas? Claro que não... Seria o desleixo, o deixa-andar, salvo se alguma quisesse imitar o Santo António e em vez de discurso botar sedução aos peixes. Ou seja, arranjamo-nos para eles e desmentir é ocioso. Adiante.
Tomemos um exemplo: arranjar as sobrancelhas. É actividade que carece de conhecimentos de geometria, estática e precisão. A pinça é uma alavanca interpotente que obriga a atinar com o fulcro e respectiva gestão da resistência. Um lápis com o centro na ponta do nariz deve descrever um ângulo que começa pelo canto interior do olhos e termina no canto externo. Essa deverá ser a dimensão da sobrancelha. O maior raio da curva passará pela pupila, e o lápis deverá precisar esta localização. Da curvatura do arco desenhado depende a nossa expressão – arqueadas e finas para perplexas, direitas para inexpressivas, alongadas para olhos grandes e sedutores. Isto numa pequena área do rosto. Configurem os conhecimentos convocados para uma sessão de maquilhagem...
Abordemos o lado masculino da questão - homem que num belo dia resolva vestir os inenarráveis calções do ano anterior e se depare com volumosa incapacidade de se observar apertando-os, salvo ao espelho. Vira-se de um e doutro lado com a barriga apertada até à eminência de uma apoplexia. Ar avaliador e pensativo. Conclui, relutante, que engordou. De seguida, abana a cabeça, estala a tampa de uma cerveja e estira-se no sofá.
Diferenças? Perguntas?
EFEMÉRIDE
Aviz - palavra curta, conteúdo imenso e de boas memórias. Não diria corridos dois anos - as ausências também ajudam a não perder o aroma de «Escrito de Fresco». Parabéns!
Publicado por Teresa C. às 02:00 PM
junho 15, 2005
(IN)CONJUGALIDADES

Autor que não foi possível identificar
- Ainda demoras?
- Não, estou quase. Que Mulher!...
- Compraste a FHM?
- Não, estou a acabar o livro da Rititi.
Publicado por Teresa C. às 06:15 PM
PEREGRINANDO

Autor que não foi possível identificar
Quero andar por aí. Omitir o quotidiano miúdo e corriqueiro. Perder-me de mim num dia amanhecido cinza pela neblina crescida do rio e mar. Sair cedo. Tomar o pequeno-almoço num sítio que nunca vi, ao ar livre, sentindo levitar as gotículas de vapor de água que a tudo dão ar escorrido. Subir da cintura às costas a camisola e aconchegar-me nela. Olhar. Tudo ver à excepção da campânula em que me refugio. Levantar-me e prosseguir.
Por esse tempo já o sol esburacou o nevoeiro. Sem resistência, recuou manso numa fuga feita de luz e silêncio. Entrar no Pátio de D. Fradique, um dos muitos herdados da Lisboa medieval que antes os retivera da ocupação árabe. No presente, não se lê ali o Corão, em comunidade e de modo intimista. A Corte no Terreiro do Paço encarregou-se de os tornar habitação dos mais pobres ou dos operários mastigados no desenvolvimento industrial.
Se a meteorologia está de feição e me apetece jogar às escondidas comigo, vou à Vila Berta. Subo e desço para desembocar na Rua do Sol à Graça. Rua larga a que dão forma as casas de ambos os lados, deixando que a luz viole cada pedaço do espaço aberto. As casas de dois ou de três pisos, consoante o lado que bordejam, cativam pela simplicidade ingénua dos balcões de ferro, das gaiolas em que assobiam canários e das trepadeiras floridas – pela Páscoa o perfume das glicínas, no começo do verão o rosa fogoso das buganvílias coradas.
Perdi-me, sim. Do que é mesquinho e pouco bonito. Da minha ambiguidade cobarde como troco. Do jeito tosco de me enrugar num canto e ouvir o peso do silêncio. Do que não sou.
Publicado por Teresa C. às 09:53 AM
junho 14, 2005
(IN)CONFIDÊNCIAS
Hoje é um dos tais dias em que não devia ter escrito nada e fantasiar, sossegadinha, um entardecer assim...

Sorayama
Publicado por Teresa C. às 06:40 PM
TRETAS ESOTÉRICAS

Seegmiller
Ao processar a imagem devolvida pelo espelho, os registos do cinzel do tempo não me incomodam. O olhar ensonado com que amanheço e o distraído olhar nocturno frente ao espelho nada sublinham, apenas constatam que existo, c’est tout. A este mecânico registo do meu rosto falta o distanciamento temporal a validar alterações profundas. Estas emergem pelo olhar de alguém que há muito não via, sentenciando o que, até aí, para mim era invisível. Com a imagem cristalizada numa fotografia, o mesmo. Estou diferente, leio-me de modo distinto mas... gosto mais.
A pacificação interior cresceu por cada órbita terrestre percorrida. A esperança, a ilusão, os ideais não desapareceram, mudaram à medida da minha mudança. Como se uma conjugação astral me reservasse nicho de sorte. Aleatório. Isento da minha contribuição meritória. Puro acaso. Até na recente deliberação de abandonar o cigarro. Receava tentações e síndroma de privação penosos. À parte os três dias em que mil bichinhos passearam em carreirinha por cada curva cerebral, nada me angustiou. Deixei de desejar o tabaco, só isso!
Pela confiança numa qualquer anónima entidade protectora, não receio o futuro, a mudança, a crise. Manifesta candura a minha – quiçá pateta e patética – aliada à certeza incerta do estofo macio em que me aninho. Porém, prefiro-a a uma vida triste e timorata. Pálida como medusa arrastada para a praia. Fantasma de uma gargalhada antiga. Prefiro a minha alegria temerária conciliada com momentos de nostalgia ou dor. Sentir então, cá dentro, ecoar o sussurro de um poema que li algures.
Publicado por Teresa C. às 10:08 AM
junho 13, 2005
VENENO

Greg Hildebrant
Reza a tradição portuguesa que o dinheiro seja mal distribuído. Acumula-se no paletó de uns poucos e faz revirar os olhos aos restantes. Alguns endinheirados mais acumulam pela exploração dos que pouco ou nada têm, além do trabalho diário e da ilusão semanal de se tornarem excêntricos. Os dedos de uma mão contam os ganhadores dos milhões da jogatina europeia, assim fortalecendo a chama dos que aí vêem indícios de serem eles os próximos. Assim seja.
No século passado, os grandes senhores do Norte e das Beiras tinham na agricultura e nalguma, pouca, indústria o reforço do quase sempre herdado esplendor familiar. No Ribatejo e Alentejo pouco mudava, sendo que ao descer de Norte para Sul o peso da confissão e penitência aligeirava-se e o amor que os homens perdiam ao trabalho, dedicavam-no ao ócio. Como desviar-se alguém sozinho do bom caminho não seduz, faziam-no quase sempre acompanhados por marialvas e pelas inevitáveis espanholas. Chegámos, então, ao essencial.
As espanholas mais cobiçadas eram coristas no Apolo, actuavam no pecaminoso Maxim’s e passeavam-se com fingido decoro e real espavento na Baixa, no Estoril e na Arcádia. O luxo ostentado, não raro, vinha directamente do suor dos campos para o veludo dos canapés de Lisboa, com breve paragem no paletó de rubicundo latifundiário. Mas as espanholas, ah!, as espanholas eram inigualáveis... Entre lençóis - naquele tempo havia boudoir e tudo era feito com vagar e conforto – as insinuadas lubricidades das nuestras hermanas eram tormentos infligidos aos machos, só terminados quando estes passavam da condição de basbaques à de pagantes. Histórias de órfã da guerra espanhola, vítima de um pai prepotente ou violento, ou de quase morta sob a mira de um façanhudo comunista, faziam chorar pedras da calçada, comoviam os corações masculinos – homem adora o papel de salvador de donzela indefesa – e alargavam cordões das bolsas.
Foram-se as espanholas, vieram as brasileiras, asiáticas e eslavas. As fortunas que sustentavam as salerosas raramente sobrevieram à terceira geração. O que não mudou foi a linhagem dos que pelo trabalho dão a poucos os muitos meios que sustentam desperdícios, luxos e tanto mulherio desvalido.
TELEGRAMA
No adeus ao Poeta...
Respiro o teu corpo:
sabe a lua-d’água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa-louca,
ao cair da noite,
sabe a pedra amarga,
sabe a minha boca.
Lettera Amorosa, Eugénio de Andrade
Publicado por Teresa C. às 11:15 AM
junho 12, 2005
(IN)CONJUGALIDADES

Terry Rodgers
- O almoço está pronto.
- Vou já. É só enfiar qualquer coisa que proteja o guardanapo.
Publicado por Teresa C. às 05:55 PM
CORTE E COSTURA

Michael Mobius
Desde nados, a «pelagem» dos humanos merece atenção. Primeiro da mãe, doridamente feliz, depois dos muitos que, à vez, dirão “Que lindo!”, “Que perfeitinha!”, “Que cabeleira tem!” ou “Carequinha, mas uma lindeza!" Assim foi e assim será, direi num arroubo de atrevida presunção. Em adultos é que a progressão e multiplicação dos pêlos se complica.
Há uns cem anos, homem sem pêlos era um subproduto da espécie e ponto final. Mulher devia, para o vulgo, proteger os tufos íntimos – nas axilas e púbis - que só ao respectivo exibia. Pêlos femininos nas pernas ou nos braços permitiam à lascívia masculina avaliar quão prometedor era o... «armazém» (laracha de magalas que se libertou dos quartéis e chegou a todo o lado). As felizes utentes das mais cobiçadas pelagens eram as trigueiras moçoilas rurais, de braços possantes, capazes de torcer o gasganete de um galo em metade do tempo que uma alva citadina demorava a suspirar. Estas, de pele feita a lençóis de seda ou fino linho, aquelas, habituadas a despachar o mesmo a coberto das cearas ou milheirais.
Correram anos e com eles os pêlos. Domadas as sobrancelhas, rapadas as axilas e pernas, restaram os da moldura da zona íntima e profunda, assim constituídos como provada prova de ser mulher a criatura. A partir daí, foi a decadência das peludas. Penugens dos braços, pêlos das axilas, virilhas e pernas mereceram inquisitório aniquilamento a laser. Do exuberante triângulo de antanho, mais tarde com dimensões sazonais, restou um rectângulo simbólico, um triângulo a encimar o que é suposto, ou o nada. Consta ser este «nada» o mais apetecido. Pelo design minimalista? Vestígios nostálgicos da candura desflorada pelo marido recém-empossado? É possível, já que poucos homens, além dos reformados, têm hoje memória de ter desflorado algo mais que uma lata de cerveja ou garrafa de vinho. Até lhes podem ter cabido em sorte raridades virginais em idade legal; resta é saber se as honraram ou ignoraram, quiçá naufragados em anestesia alcoólica.
Publicado por Teresa C. às 10:16 AM
junho 11, 2005
CORREIO SENTIMENTAL

Olivia de Berardinis
«Uma mulher nunca perde o pio, tem sempre opiniões e palpites para dar»
Dizem-nos tagarelas. Que falar sem assunto é prenda nossa. Nunca o imperfeito domínio do tema tratado nos silencia. Que a inveja é o combustível do linguajar assassino contra outras mulheres, directamente proporcional ao apreço que elas suscitam nos olhares masculinos. Consta sermos peritas em descrever tudo, até à presumida lingerie, de uma mulher com quem nos cruzámos meio minuto, contudo incapazes de informar o resultado ao intervalo de um jogo de futebol.
Poderá ser tudo verdade numa convincente abrangência do universo feminino. Adoramos ser assim e, subtraindo os picos anedóticos, é sinal da nossa boa saúde emotiva. Suspeito é o silêncio. Entre amigas desvanece-se em minutos, perante um homem pode durar e durar e durar... mais do que pilhas Duracel. E quando o silêncio se instala, cada dia somando camadas, fica muro alto e espesso. Blindado. Ouvimos o que é dito, porém esbatido pela lonjura. Responder seria esforço penoso - o cansaço impede-nos. Um grito manifestaria vontade – não existe. Em qualquer caso ficaria o eco perpetuando a emoção – morreu.
Publicado por Teresa C. às 11:43 AM
junho 10, 2005
MURMÚRIOS

Sorayama
Vem comigo sem nada perguntares. Perdoa-te o tempo perdido; eu já me perdoei. Quero infinito. Quero o que a ambos enfeitiça. Vamos provar que o mundo encolheu e a liberdade não. Buscar horizontes devoradores. Areias instáveis arrumadas pelos ventos em dunas que, depois, desordena. Afundemos os pés na mobilidade sólida e caminhemos. De mãos dadas e olhos fechados. Atentando em cada falta de equilíbrio como se nos engolisse a inclinação de uma vaga. Iludindo o verosímil, e sentindo nosso um trilho sobre a água.
Seremos frágil barcaça no deserto não apoucada pela majestade dos navios que ondulam no horizonte - dromedários e camelos tripulados por marinheiros nómadas. Convocaremos a ilusão, nunca desbaratada, e buscaremos o “Livro da Areia” de que o Borges contou. Não o obteremos a troco de dinheiro ou Bíblia antiga - será o acaso a encontrá-lo por nós. Sabendo-o infinito – a cada página segue-se uma outra -, o magro alforge preso à tua cintura não o poderá conter. Sem fogo que o consuma, ou mal que o destrua, será ocioso protegê-lo no acervo de uma imensa biblioteca. Ao lermos a primeira página, rostos e corpos juntos, bruxuleará uma luz. Com ela me enfeitarei. Lentamente. Gesto a gesto. Alongando-me soerguida no cotovelo, saberás chegado o momento. Com igual vagar, afastarás a diáfana cortina e sentir-te-ei entrar.
Publicado por Teresa C. às 11:04 AM
junho 09, 2005
TROCAS E BALDROCAS

Sonia Roji
Sou mulher de afectos e com isso não surpreendo andarilhos dos carreiros que aqui desenho. Vem isto ao caso do meu apego às pessoas e coisas, não sendo facilmente sacudida de engodo emotivo. Ressalvo, sentir como demasia não reclamada a amizade que tenho para dar. A ser assim, desprendo-me de mansinho, sem nostalgia que arrefeça a vontade de estar viva.
Larguei ginásio de muitos anos a que me prendia a Marta - treinadora que da contenção física fazia prazer que aos outros estendia. Sucedendo ser o espaço pouco provido de condições, deixei-me enfeitiçar por centro novo – este tem dias! - design sem defeito, gente simpática e servindo os exercícios num buffet completo. E as tecnologias? De pasmar! Escapei aos alongamentos e, mesmo não tendo o colchão receptáculo para a chave que informa do menu e ao mesmo tempo vigia, não saí sem reprimenda da máquina. Mandou ao Milton, o meu treinador, sms denunciadora. Amuei, olhei para os lados e deitei-lhe a língua de fora. Estava a pedi-las!
Avancei, determinada, para uma classe de activ dance. Uma dúzia e meia de corajosos aguardava o «professor». Chegou um jovem de cabelo «engelado» e calças com o «entrepernas» por altura dos joelhos. Nome e beijinho: “Sou o Hugo!”; devolvi nome e sorriso. Nos cinquenta minutos seguintes, pasmei por dentro enquanto me desengonçava por fora. Uma série de pessoas cuja sanidade mereceu reconhecimento médico, abanou-se, desconjuntadamente, ao som do hip hop e rapa (isto existe?). Aguentei até final. Só não consegui bater palminhas no remate e beijocar de novo o menino. Decidi na hora: body attack para a próxima. Sem «panelices» e com mais esforço. Delas bastam-me duas: costureiro e cabeleireiro. Que os deuses conservem ambos. Ámen.
TELEGRAMA
Pecará por tardia, mas o Livro da Rititi é uma excelente sugestão para este requebro do ano a prometer preguiça e fruição do que apetece. A Fnac fecha lá mais para a noitinha...
Publicado por Teresa C. às 08:21 AM
junho 08, 2005
AÇÚCAR

Greg Horn
“A menina é levada da breca!” Assim dizia o Sr. Joaquim, caseiro de muitos anos, ao ver-me trepar árvores e muros com silvas, ou a escorregar “sem querer” para o enorme tanque em que a Elvira batia a roupa depois de a corar ao sol. As tias afadigavam-se cuidando do meu porte e soltavam ais desesperançados – “Ai mana, que pouca sorte, ela é uma maria-rapaz!” E era.
As inúmeras pancadas da cabeça contra as paredes da vida domesticaram alguma da minha crina empinada e forçaram-me a trote ordeiro em vez de corridas à desfilada. Nos primórdios da vida que conta – quando autónoma e respondendo apenas por mim – rangia os dentes e só mais tarde sorria perante ditames sociais. Agora é o mesmo, só que me vêm apenas o sorriso. A vontade assassina do “agarrem-me que me vou a eles” foi suavizada, porém não eliminada. Hipócritas de meia-tigela – os de tigela inteira sempre merecem a estupefacção por tal arte –, cínicos tão mortíferos como arsénio, ressabiados do fatum, bajuladores incuráveis ou mentirosos todos-os-dias suscitam-me indiferença elaborada a partir da incompreensão pela vil matéria que os forja.
Se é verdade temer répteis, sendo bicho não negava ser osga. Arrumada, sorrateiramente, numa esquina do tecto, tudo mirando num revirar de olhos. De papo cheio, ignorando melgas, mosquitos e vespas. Quem odeia osgas, não dê por legítimo o pavor - esticam a língua e engolem insectos, deles nos poupando as picadas. Sem escarcéu saem, subtis, tal qual entraram: pela janela aberta à pureza do ar.
Publicado por Teresa C. às 08:31 AM
junho 07, 2005
LOOK

Jennifer Janesko
Posturas e atitudes. Tiques, trejeitos e hábitos jogam ao gato e ao rato com a consciência. Irrompem sem filtro e são, definitivamente, delatores.
A postura feminina muda perante homens ou mulheres. Mulher entre pares endireita as costas, opta pelo conforto da coluna e sobe decisivos centímetros que lhe assegurem mais-valia. Passada a imagem inicial, e se a conversa empolgar, desleixa a atitude – puxa as calças descaídas, desce o top ou recoloca en su sitio o fio lateral da cuequinha. Tudo discreto, descomprimido e à revelia da consciência. Tradução: estou no habitat com o qual me identifico.
Frente a um homem a atitude difere - ombros para trás evidenciando o peito, rabo para fora e barriga para dentro. Tudo somado, dá escoliose dorida. Se em pé, avança uma perna relativamente à outra. Finalidade – valorizar a anca e demais atributos. Diálogo longo obriga ao automático: passar o peso de um pé para o outro, suavemente, acompanhando o bamboleio com o cabelo. Uma arrojada dardejará no olhar dele o dela. Iluminará os lábios humedecendo-os com a língua. Pelo vagar do gesto, ele poderá avaliar quão impressiva foi a imagem deixada e... os riscos que corre.
Eles connosco: esticam-se, confundem as mãos até acabarem no bolso do casaco ou dos jeans. Más-línguas sugerem que este é o momento escolhido para, subtilmente, acomodarem o deslocado. Partilham com elas o balanceio do aprumo. Alguns itens do cardápio sedutor: ajeitar o cinto, brincar com os óculos de sol, aproximar-se dela num jogo táctil e olfactivo com pitada de sorriso bailador. Se não inventar razão para discreto toque na meia hora seguinte, o diagnóstico é simples: a lide é travada com um tímido, um indiferente ou um prudente até à medula. Em qualquer dos casos, e valendo a pena, uma carga de trabalhos.
Publicado por Teresa C. às 11:39 AM
junho 06, 2005
IN & OUT

Olbinsky
Dando como esclarecido que o meu reino não é o das palavras, não sou distraída a ponto de ignorar o que do ponto de vista linguístico «está a dar». Na «berra». Na «crista da onda». É fashion.
A minha perplexidade vai, no momento, para tudo e todos que são puTativos. Jornais e revistas estão cheios deles. Deixámos de ter presumíveis – prováveis, verosímeis – e passámos aos reputados, aos que supomos serem o que não são. Uns e outros supostos de qualquer coisa, sejam eles presumíveis ou puTativos. Qual a diferença então?
Nesta baralhada de supostos há ainda os presuntivos. Também presumíveis, logo supostos. Presuntivos que não convém confundir com um Pata Negra partido a preceito ou com as saborosas extremidades dos porcos. Estes, de nada supostos, salvo satisfazerem apetite de quem aprecia presuntos e presunhos.
Chamar puTativo a alguém, é hoje quase fineza. Contudo, se puta+tivo é de bom tom, já puta sem tivo só entredentes é dito. Corrijo: há um puTativo polido político (ppp) que mandou aos «trêspês» alguns puTativos bastardos. Em português intemporal: mandou jornalistas «para a puta que os pariu». Tanto escândalo e, afinal, coisa de nada! Só esqueceu o «tiva», nada mais!...
Publicado por Teresa C. às 09:46 AM
junho 05, 2005
(IN)CONJUGALIDADES

Barn Dog
- Faço figuras destas?
- Nunca querida, antes tiro-te o bâton.
VENENO

Clyde Caldwell
Velas. Pequenas, simples, trabalhadas, de cheiro, grandes. Cores vibrantes, neutras ou pastel. O que conta é que sejam muitas. Sempre muitas velas. Alguns delas se servindo como fetiche para clímax poderoso. E depois, a luz da vela sombreia decímetros de celulite e banhas em erupção.
Não é de agora este apetite por pavios acesos. Qualquer remoto povoado não dispensa «altares» domésticos com fotografias, «santinhos» e velas. Procissões sazonais com direito a andores, anjinhos, sacerdote paramentado e... velas. Dos profissionais de Fátima importaram a habilidade de as rodear de copos de papel para não pingarem mãos ou roupa – rendem mais uns cobres para as obras de arranjo do telhado da capela e dão outro sainete.
Perguntem a qualquer português se não gostaria de ter sacadas no apartamento, não fora o escândalo do preço por metro quadrado. Não só gostaria como, bem no fundo, ruminaria a esperança de poder um dia nela esticar uma colcha rubra que honrasse velas passantes. E passam... As procissões voltam a ondular por muitos bairros de Lisboa.
Admitamos possuir, à mistura com estéticas minimalistas e linhas depuradas, um potencial peregrino de Fátima dentro de cada um de nós. Um anjinho envolto em nylon acetinado, caracóis e asas de arame. E se nunca nos apinhámos numa «procissão do adeus», delas há resquícios no futebol. Basta derrota que humilhe a populaça de adeptos e que agitam eles? Lenços brancos! As velas das despedidas.
Publicado por Teresa C. às 11:59 AM
junho 04, 2005
ACQUA_R_ELLAS

Bryce Cameron Listen
Amanhecemos quando o sol atingia o zénite. Não sei se me acordou o teu roçagar no lençol ou se foi por estar acordada que nele atentei. Da luz infiltrada nas frinchas dos batentes da janela - trémulos carreiros de pó de ouro – servi-me para te ver. Pelo suave compasso do teu respirar sabia-te acordado. Subi ao teu rosto. Sorriste e aconchegaste-me contra ti. Em silêncio.
Foi o sussurro de um bom dia o que primeiro dissemos. Recordas-te das muitas vezes que indagámos da razão de preferirmos murmúrios no reino da nossa intimidade? Como se quiséssemos mantê-la etérea. Intocada. Como se tudo fosse magia que mau feitiço estilhaçasse. Já os fios de luz teciam nova teia, quando das carícias mansas nasceu o aroma de um café legitimando o mútuo acordar.
Ia a tarde corrida, ao sairmos. A sombra de um tília florida perfumava a esplanada. Para ti uma árvore, para mim símbolo de raízes quase tão fundas como as que invadiam o jardim dianteiro da casa de família onde correram os verões da minha infância. Demorámos a tarde ao analisarmos sem pressa o que ali nos trazia, a tília por testemunha.
“Precisamos de mar”, disseste. Ao conduzires pela serra, cada um buscava o outro – as mãos, a tua carícia nos meus joelhos, a pressão da minha mão na tua coxa. Parámos num requebro sombrio da estrada. Olhaste-me – sabes como sou explosiva na alegria! – e não neguei o que esperavas. “Isto é lindo! O azul do mar é magnífico e o odor deste pinheiro imenso. Hummm...” Dizendo isto, pendurava-me nos teus lábios. Por ali quedámos, eu com as pernas nuas apoiadas nos vidros descidos, tu recolhendo o meu encosto. Os outros trabalhavam naquele meio de semana. Nós, rentes ao perímetro do convencionado, dele e deles nos desmarcávamos. Como sempre.
Publicado por Teresa C. às 10:14 AM
junho 03, 2005
TELEGRAMA
Desta coisa que dizem virtual, nasce real tão real como a irreal realidade.
TROCAS E BALDROCAS

Olivia de Berardinis
«Piano Man». Misterioso, frágil, sensível, talentoso e desprotegido. Tudo qualidades em alta na bolsa de ternura feminina. Posso imaginar, das enfermeiras que o cuidam, quantas alongarão olhares de mel para o paciente mudo. Ele devolverá um olhar melancólico. Vazio. Elas lerão pedido de ajuda. Ele curvará ao de leve os ombros como só fazem os que literalmente se abeiram mais do céu que os outros. Elas largarão suspiros.
Devo ser bem mais pragmática que as eternas reféns do amor romântico. Um homem pianista e mudo de falsete é pesadelo que me recuso a configurar portas adentro. É sabido que as mulheres têm o nato dom de dosear silêncios e fala de modo peculiar. Falar obriga a receptor e potencial emissor da réplica. Falar para o boneco acontece a quem vive só e a quem partilha a vida com um parceiro humano (gatos e cães para o que aqui concerne não contam). Enquanto falamos, os pacíficos vão cronometrando sins, os pessimistas fazem o mesmo com o não, os indecisos usam o “pois é...” Homem só sentindo que corre o risco de lhe mexerem no bolso é que orienta as orelhas para os desesperados sons que largamos. Mesmo ao fazerem amor, «estão-se nas tintas» para o que é dito. Esperam ouvir-nos sons guturais e lânguidos, independentemente da palavra que formam, indiciando que estrebuchamos de prazer para, depois do dever cumprido, rumarem ao que interessa – o próprio prazer. Uns queridos ainda assim. Evolutivos como defendia Darwin - já lá vai o tempo em que mentalmente a mulher fazia o rol da roupa ou programava as ordens da empregada enquanto ele «se despachava». Além do mais, interessa a quem o que cada um diz em pleno rebolado?
Não critico os surdos domésticos. Ou os mudos sazonais. Percebo-os, até porque frequentemente sou uma surda domesticada. O que não posso admitir é a possibilidade do meu coração bater por um falso mudo que toca Tchaikovsky quando discordo, arrulho, partilho reflexões ou teço comentários. Ma qui mondo insano, madre mia!
Publicado por Teresa C. às 08:25 AM
junho 02, 2005
BON CHIC, BON GENRE

Sorayama
Andei desiludida, um pouco embaraçada, quiçá em conflito com o Pénis. Finalmente, descobri que o tido por pesquisas falhadas de alguns visitantes, com o pénis como leitmotiv, eram tão somente meios de consultar este humilde pendericalho blogosférico. Especulei razões.
Cenário 1: escritório, colegas «cuscos», chefe façanhudo, o histórico virtual sempre acessível a olhares pidescos. A um motor de busca ninguém liga, mas um pénis pouco invejoso suscita estranheza e denuncia lazer no trabalho. Pela noitinha, continua o Google, o Sapo, o MSN e outros «buscadores» a prestarem bons serviços à família e aos que fazem turnos.
Cenário 2: ela, zelosa do bom comportamento de escuteiro do respectivo, desliza pelos favoritos e depara com um Pénis recheado de escuteiras normalmente muito boas. Não vai gostar, não vai não... Tudo agravado pelo petit nom da autora, uma descarada que deve acumular com pirosa.
Este Pénis que me aloja, é livre. Não o constrange qualquer tipo de látex. Nem dele se alimenta como fetiche ou feitiço. Não incandesce com fardas, chibatas, dominadores(as), trelas, algemas, botas, pés ou vinil. Não desdenha, é sabido, de corpete de atilhos e stilletos. Dispensa a ordenação favorita e ocupa, prazenteiramente, um canto à mistura com dicas para aumentar, entroncar ou levantar bem alto o archote masculino. O dito. O real. O da letra minúscula.
Publicado por Teresa C. às 07:56 AM
junho 01, 2005
CORTE E COSTURA

Nicholas Machio
Anda no ar uma efusiva mistura de aromas - Maio de 68, Marselhesa, Tomada da Bastilha e toma da pastilha pelos que têm de aturar a arrogância vraiment chic dos europeus com berço francês. Os franceses disseram “Non!” e l’Europe a tremblé.
Tenho para mim, que a orgulhosa tradição de aristocracia cultural e política francesa se enfada com a mistura no caldo económico dos vinte e cinco países do mercado europeu. Rejeitar os termos do Tratado Constitucional Europeu, é compatível com a necessidade da França se demarcar e, juntamente com a Alemanha, promover uma task force elitista e com substancial reforço de liderança. Europa como império de 453 milhões de almas sim, desde que o rei-sol nasça para as bandas de Versalhes e se recicle essa coisa antiga da “liberté, egalité, fraternité.”
Divertido é constatar que nas mais antigas democracias também caem nódoas. O nom e o oui ao Tratado oscilavam com amplitude idêntica à da (im)popularidade das medidas governamentais, assim confundindo airosamente l’honorable peuple français a nuvem com Juno. É engolida pelo cano a fantasia destes pecadilhos terem a ver com democracias imberbes e indisciplinadas. O povo belga poderia, enfim, vingar-se de séculos de anedotas francesas que o ridicularizam, não fora dar-se o caso de estar tão emmèrdé como os outros.
Publicado por Teresa C. às 08:35 AM
