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junho 10, 2005

MURMÚRIOS

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Sorayama

Vem comigo sem nada perguntares. Perdoa-te o tempo perdido; eu já me perdoei. Quero infinito. Quero o que a ambos enfeitiça. Vamos provar que o mundo encolheu e a liberdade não. Buscar horizontes devoradores. Areias instáveis arrumadas pelos ventos em dunas que, depois, desordena. Afundemos os pés na mobilidade sólida e caminhemos. De mãos dadas e olhos fechados. Atentando em cada falta de equilíbrio como se nos engolisse a inclinação de uma vaga. Iludindo o verosímil, e sentindo nosso um trilho sobre a água.

Seremos frágil barcaça no deserto não apoucada pela majestade dos navios que ondulam no horizonte - dromedários e camelos tripulados por marinheiros nómadas. Convocaremos a ilusão, nunca desbaratada, e buscaremos o “Livro da Areia” de que o Borges contou. Não o obteremos a troco de dinheiro ou Bíblia antiga - será o acaso a encontrá-lo por nós. Sabendo-o infinito – a cada página segue-se uma outra -, o magro alforge preso à tua cintura não o poderá conter. Sem fogo que o consuma, ou mal que o destrua, será ocioso protegê-lo no acervo de uma imensa biblioteca. Ao lermos a primeira página, rostos e corpos juntos, bruxuleará uma luz. Com ela me enfeitarei. Lentamente. Gesto a gesto. Alongando-me soerguida no cotovelo, saberás chegado o momento. Com igual vagar, afastarás a diáfana cortina e sentir-te-ei entrar.

Publicado por Teresa C. às junho 10, 2005 11:04 AM