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junho 23, 2005
MURMÚRIOS

Elaine Gignilliat
Sei tão pouco de ti!... O tempo da fala comum sempre desfilou à revelia das horas. Momentos houve de balanços e projectos de amanhãs. Nunca desistindo do encontro por dentro onde os seres são. Cada um procurando a fugidia entrada no amado e alheio. Pela razão negando a unidade que os sentidos e o afecto adivinhavam.
Muitas foram as vezes em que me viste como eu mal vislumbrava. E foste candeia nos avanços pelo labirinto do que sou. O mesmo fiz. Coleccionei gestos, olhares e palavras. Adicionei-os. Como prova dos nove à soma, batia suavemente à porta do teu íntimo. Tardando a resposta, deslizava pé-ante-pé, não fosse agitar fantasmas ou mágoas ou medos adormecidos. De que sabia. Sempre os (pres)senti, Sem saber que de ti sabia tanto e nada.
Se do mistério há adictos e o psiquismo humano é o mistério maior, os inconformados como nós viciam-se. Curiosos, rumam ao que no outro é oculto sabendo-o inesgotável. Dessa nascente sombria corre o fluido que vivifica o desejo. Escorregadio. Silencioso. Ensurdecedor. Como guia conduzindo à fonte de onde tudo brota. Sem que o mapa interior lhe saiba as coordenadas. Onde somos.
Publicado por Teresa C. às junho 23, 2005 07:21 AM