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junho 27, 2005
PÉ NA CHINELA

Sorayama
À parte a nata dos privilegiados de berço que podem dar-se ao luxo de habitar no casarão de família em pleno centro urbano, ou num prédio classificado da zona histórica - airoso, remodelado segundo cânones exigentes e luzidio como um brinco -, os pretendentes ao reconhecimento social habitam condomínios fechados. Estes, na ausência de estrelas classificativas, distinguem-se por parâmetros difusos: é diferente habitar no Condomínio do Parque ou no Massamá Place. Muito diferente.
Aqueles que os portões e gradeamentos mantêm arredados dos guetos ajardinados, podem ser ingénuos e ter quem lá dentro se move como utente de vida desafogada. Não me preocupa se a abastança é real ou fictícia; o sabido é que os calotes e preço por metro quadrado estão em compita directa. Condómino pontualmente pagante das mordomias mensais, é raro. Lugar de venda de frutas e legumes levando a casa a encomenda, é bom que se rodeie de cautelas – as empregadas recebem, a «senhora» nem vê-la e semana após semana a «continha» cresce a rombo.
As empregadas são o lado mais saboroso da história. Na negociação do contrato, estabelecida a exorbitância a pagar que deixa longe o ordenado de qualquer jovem licenciado, indagam se têm lugar na garagem, já que “estacionar foi um inferno.” A meio da tarde, as babás empurram cadeirinhas ou vigiam querubins loirinhos e de olhos azuis, como devem ser todos os querubins. Cada uma reclama para a respectiva patroa maior mérito social e pessoal – “É como te digo, Zulmira, hádes ver ela na revista que te falei. Ninguém diria que aquilo é a ramelosa que vejo pela manhã quando lhe entro em casa!”
A coisa chegou a tal ponto, que estando aqui a «piquena» partilhando limpezas profundas com a mui querida e estimada Cila, esta empoleirada num escadote livrando do pó a sanca do tecto, fui abrir a porta ao funcionário do novo talho. O homem olha-me, e, antes de entregar a preciosa carga, pergunta respeitoso: “ a Senhora está?”
Publicado por Teresa C. às junho 27, 2005 12:15 PM