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junho 15, 2005

PEREGRINANDO

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Autor que não foi possível identificar

Quero andar por aí. Omitir o quotidiano miúdo e corriqueiro. Perder-me de mim num dia amanhecido cinza pela neblina crescida do rio e mar. Sair cedo. Tomar o pequeno-almoço num sítio que nunca vi, ao ar livre, sentindo levitar as gotículas de vapor de água que a tudo dão ar escorrido. Subir da cintura às costas a camisola e aconchegar-me nela. Olhar. Tudo ver à excepção da campânula em que me refugio. Levantar-me e prosseguir.

Por esse tempo já o sol esburacou o nevoeiro. Sem resistência, recuou manso numa fuga feita de luz e silêncio. Entrar no Pátio de D. Fradique, um dos muitos herdados da Lisboa medieval que antes os retivera da ocupação árabe. No presente, não se lê ali o Corão, em comunidade e de modo intimista. A Corte no Terreiro do Paço encarregou-se de os tornar habitação dos mais pobres ou dos operários mastigados no desenvolvimento industrial.

Se a meteorologia está de feição e me apetece jogar às escondidas comigo, vou à Vila Berta. Subo e desço para desembocar na Rua do Sol à Graça. Rua larga a que dão forma as casas de ambos os lados, deixando que a luz viole cada pedaço do espaço aberto. As casas de dois ou de três pisos, consoante o lado que bordejam, cativam pela simplicidade ingénua dos balcões de ferro, das gaiolas em que assobiam canários e das trepadeiras floridas – pela Páscoa o perfume das glicínas, no começo do verão o rosa fogoso das buganvílias coradas.

Perdi-me, sim. Do que é mesquinho e pouco bonito. Da minha ambiguidade cobarde como troco. Do jeito tosco de me enrugar num canto e ouvir o peso do silêncio. Do que não sou.

Publicado por Teresa C. às junho 15, 2005 09:53 AM