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junho 14, 2005

TRETAS ESOTÉRICAS

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Seegmiller

Ao processar a imagem devolvida pelo espelho, os registos do cinzel do tempo não me incomodam. O olhar ensonado com que amanheço e o distraído olhar nocturno frente ao espelho nada sublinham, apenas constatam que existo, c’est tout. A este mecânico registo do meu rosto falta o distanciamento temporal a validar alterações profundas. Estas emergem pelo olhar de alguém que há muito não via, sentenciando o que, até aí, para mim era invisível. Com a imagem cristalizada numa fotografia, o mesmo. Estou diferente, leio-me de modo distinto mas... gosto mais.

A pacificação interior cresceu por cada órbita terrestre percorrida. A esperança, a ilusão, os ideais não desapareceram, mudaram à medida da minha mudança. Como se uma conjugação astral me reservasse nicho de sorte. Aleatório. Isento da minha contribuição meritória. Puro acaso. Até na recente deliberação de abandonar o cigarro. Receava tentações e síndroma de privação penosos. À parte os três dias em que mil bichinhos passearam em carreirinha por cada curva cerebral, nada me angustiou. Deixei de desejar o tabaco, só isso!

Pela confiança numa qualquer anónima entidade protectora, não receio o futuro, a mudança, a crise. Manifesta candura a minha – quiçá pateta e patética – aliada à certeza incerta do estofo macio em que me aninho. Porém, prefiro-a a uma vida triste e timorata. Pálida como medusa arrastada para a praia. Fantasma de uma gargalhada antiga. Prefiro a minha alegria temerária conciliada com momentos de nostalgia ou dor. Sentir então, cá dentro, ecoar o sussurro de um poema que li algures.

Publicado por Teresa C. às junho 14, 2005 10:08 AM