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junho 03, 2005

TELEGRAMA

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Via Bomba Inteligente

Desta coisa que dizem virtual, nasce real tão real como a irreal realidade.

TROCAS E BALDROCAS

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Olivia de Berardinis

«Piano Man». Misterioso, frágil, sensível, talentoso e desprotegido. Tudo qualidades em alta na bolsa de ternura feminina. Posso imaginar, das enfermeiras que o cuidam, quantas alongarão olhares de mel para o paciente mudo. Ele devolverá um olhar melancólico. Vazio. Elas lerão pedido de ajuda. Ele curvará ao de leve os ombros como só fazem os que literalmente se abeiram mais do céu que os outros. Elas largarão suspiros.

Devo ser bem mais pragmática que as eternas reféns do amor romântico. Um homem pianista e mudo de falsete é pesadelo que me recuso a configurar portas adentro. É sabido que as mulheres têm o nato dom de dosear silêncios e fala de modo peculiar. Falar obriga a receptor e potencial emissor da réplica. Falar para o boneco acontece a quem vive só e a quem partilha a vida com um parceiro humano (gatos e cães para o que aqui concerne não contam). Enquanto falamos, os pacíficos vão cronometrando sins, os pessimistas fazem o mesmo com o não, os indecisos usam o “pois é...” Homem só sentindo que corre o risco de lhe mexerem no bolso é que orienta as orelhas para os desesperados sons que largamos. Mesmo ao fazerem amor, «estão-se nas tintas» para o que é dito. Esperam ouvir-nos sons guturais e lânguidos, independentemente da palavra que formam, indiciando que estrebuchamos de prazer para, depois do dever cumprido, rumarem ao que interessa – o próprio prazer. Uns queridos ainda assim. Evolutivos como defendia Darwin - já lá vai o tempo em que mentalmente a mulher fazia o rol da roupa ou programava as ordens da empregada enquanto ele «se despachava». Além do mais, interessa a quem o que cada um diz em pleno rebolado?

Não critico os surdos domésticos. Ou os mudos sazonais. Percebo-os, até porque frequentemente sou uma surda domesticada. O que não posso admitir é a possibilidade do meu coração bater por um falso mudo que toca Tchaikovsky quando discordo, arrulho, partilho reflexões ou teço comentários. Ma qui mondo insano, madre mia!

Publicado por Teresa C. às junho 3, 2005 08:25 AM