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junho 13, 2005

VENENO

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Greg Hildebrant

Reza a tradição portuguesa que o dinheiro seja mal distribuído. Acumula-se no paletó de uns poucos e faz revirar os olhos aos restantes. Alguns endinheirados mais acumulam pela exploração dos que pouco ou nada têm, além do trabalho diário e da ilusão semanal de se tornarem excêntricos. Os dedos de uma mão contam os ganhadores dos milhões da jogatina europeia, assim fortalecendo a chama dos que aí vêem indícios de serem eles os próximos. Assim seja.

No século passado, os grandes senhores do Norte e das Beiras tinham na agricultura e nalguma, pouca, indústria o reforço do quase sempre herdado esplendor familiar. No Ribatejo e Alentejo pouco mudava, sendo que ao descer de Norte para Sul o peso da confissão e penitência aligeirava-se e o amor que os homens perdiam ao trabalho, dedicavam-no ao ócio. Como desviar-se alguém sozinho do bom caminho não seduz, faziam-no quase sempre acompanhados por marialvas e pelas inevitáveis espanholas. Chegámos, então, ao essencial.

As espanholas mais cobiçadas eram coristas no Apolo, actuavam no pecaminoso Maxim’s e passeavam-se com fingido decoro e real espavento na Baixa, no Estoril e na Arcádia. O luxo ostentado, não raro, vinha directamente do suor dos campos para o veludo dos canapés de Lisboa, com breve paragem no paletó de rubicundo latifundiário. Mas as espanholas, ah!, as espanholas eram inigualáveis... Entre lençóis - naquele tempo havia boudoir e tudo era feito com vagar e conforto – as insinuadas lubricidades das nuestras hermanas eram tormentos infligidos aos machos, só terminados quando estes passavam da condição de basbaques à de pagantes. Histórias de órfã da guerra espanhola, vítima de um pai prepotente ou violento, ou de quase morta sob a mira de um façanhudo comunista, faziam chorar pedras da calçada, comoviam os corações masculinos – homem adora o papel de salvador de donzela indefesa – e alargavam cordões das bolsas.

Foram-se as espanholas, vieram as brasileiras, asiáticas e eslavas. As fortunas que sustentavam as salerosas raramente sobrevieram à terceira geração. O que não mudou foi a linhagem dos que pelo trabalho dão a poucos os muitos meios que sustentam desperdícios, luxos e tanto mulherio desvalido.

TELEGRAMA

No adeus ao Poeta...

Respiro o teu corpo:
sabe a lua-d’água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa-louca,
ao cair da noite,
sabe a pedra amarga,
sabe a minha boca.

Lettera Amorosa, Eugénio de Andrade

Publicado por Teresa C. às junho 13, 2005 11:15 AM