« junho 2005 | Entrada | agosto 2005 »
julho 29, 2005
PEREGRINANDO


Soarayama
Pela tardinha, despedir-me-ei gostosamente dos saltos profissionais e da urbe que tanto de mim arrecada. De algumas peregrinações não cuido de dar notícia à conta da submissão do “Pénis” ao comando automático. Mas a de aoûtiste convicta obriga a rituais: anúncio, “farniente, bronzette, clapotage et papotage.” Fiquem bem, muito bem, até ao primeiro apetite capaz de me interromper o ócio e fazer aqui voltar – é que escrever vicia mais que fumar. Até mais!
Publicado por Teresa C. às 12:07 AM
AÇÚCAR

Autor que não foi possível identificar
Não sou de desfiar prendas como enxoval de donzela casadoira. Qualquer delas tem equivalente nos demais, sendo que as próprias ao próprio servem e as dos outros merecem distraído “bom proveito!” se for pequena a medida do nosso afecto. Arredada que está a conjectura de ter a mão estendida na espera de quem nela enfie anel, reflectir sobre fracção do que sou não fará de mim Carochinha postada à janela de olho num qualquer João Ratão.
Pessoas, sol, silêncio, brisa suave, caminhar, neblina matinal, baixa-mar e maré-cheia, faróis, rugidos das ondas nas rochas e piados de gaivotas, these are a few of my favorite things.
Tela branca, pincéis e óleos, cheiro a aguarrás, lápis de carvão bem afiado, papel alvo, pátio sombreado por latada, cavalete e caixa de lápis-de-cor, these are a few of my favorite things.
Calor espesso do dia meio, pernas e pés nus, desarmonia das cigarras, rumorejar das folhagens, canto da água que salta, cerejas, violetas silvestres, pisar restolho, calcar caruma, inspirar fundo aromas de resina e pinheiro, these are a few of my favorite things.
Casa arejada, preservar livre o espaço, limitar objectos, fotografias, nus em pastel da Manuela Pinheiro, esculturas da Filhó, cartoons do Cid, cerâmicas do Carlos Oliveira, óleos do Hernani, tapeçarias do Querubim Lapa, these are a few of my favorite things.
Noites longas abertas à vida, afectos, mãos, jeito de olhar, lábios cheios que um sorriso divide, mesa lenta e um bom vinho, cascatas de risos, corpos comunicantes e sentidos espertos, these are a few of my favorite things.
VENENO: Sendo homem, seriam fortes as hipóteses do arrazoado anterior ficar assim resumido:
Sex... hmmm… beer...
Cars... Football... sex
La dee da, la dee da,
La dee da, da,
These are my favorite things.
Publicado por Teresa C. às 12:06 AM
julho 28, 2005
TRETAS QUASE ESOTÉRICAS

Alberto Pancorbo
As únicas coisas que os outros sabem de nós são as que deixamos ver. O que de mais secreto preenche os silêncios, os sorrisos sem motivo à vista, um olhar derramado por lonjuras inventadas, acontece num palco, vedado aos olhos de todos, em que ensaiamos um bailado, um pas de deux entre o que não somos e sabemos e o que não sabemos mas somos.
O ser humano deve à sua condição a infinita necessidade de se reinventar. Frui dessa liberdade. É escorregadia a linha divisória entre reinventar-se a si próprio e ludibriar toda a gente. Guardar segredos para não contar mentiras. Entre o inventado, o real e o secreto, pode nascer conflito subterrâneo, derramando à superfície farrapos de angústia.
A área nobre que distingue os humanos é a dos afectos. O sentir. À nascença apenas delineado, depois trabalho de uma vida. Cresce, obriga a restauros, requer bom uso das habilidades cognitivas até transformar o pequeno mundo relacional de um indivíduo numa criativa fonte de alegria.
Contestar o que o próprio institui, subverter rotinas, ter a coragem de reincidir numa viagem interior sem fim ou escalas programadas, é desafio. E se atemoriza calcorrear catacumbas escuras, é melhor que dar remanso ao bicho conformado que nos habita e recusa a aventura da vida.
Publicado por Teresa C. às 09:00 AM
julho 27, 2005
(IN)CONFIDÊNCIAS

Carlos Diez
É conforto indesmentido num blog ter um nick em vez do nome: almofada o ego e o ser. A bondade do mistério não se fica pela comodidade - aumentam os graus de liberdade do imaginário confesso, da verbalização de metafísicos humores, t(r)emores e dores. Posso, finalmente, retirar a infância da moldura e supor ser desta que o soldadinho austríaco, girando na caixa, rufará ad eternun o tambor. A mola tensa sem largar o menino, este sem largar o tambor. O mistério como resina odorífera atraindo a Tati, esta nela enredada soltando palavras por voar.
Um petit-nom inocente é cambraia pousada nos registos impressos pelo acto de escrever. É como pintar uma tela. Dos caracteres combinados, sejam códigos, realidades ou cores alindando a alvura do linho enrijado por goma, surge esboço. Impreciso. Difuso. Arisco e tentador. Quem quiser saber, logo ali, o que promete - é somente um esboço! - tem-no por insatisfatório; quem o delineou não resiste ao jogo de cores. E pinta. Volteia na paleta o pincel. Vai ao óleo de linhaça. De novo à tela. Afasta-se, semicerra os olhos, mergulha o pincel no branco para esconder, no preto descarado para impressionar.
Se ao finalizar as arengas em que me envolvo, viesse um nome legítimo, com assentamento burocrata que não Tati, o que mudava? Muito ou nada. Ao muito evito-o. Recolho-me no aconchego do nada. Que sou.
TELEGRAMA
Li destaque de Ouro ao ali publicado. Ponto de vista interessante, muito bem desenvolvido, distinto e complementando outro que no meu arquivo aguarda oportunidade. O começo reza assim: “As únicas coisas que os outros sabem de nós são as que deixamos ver.” Ficam para amanhã o começo e o resto, assim arranje ilustração de jeito.
Publicado por Teresa C. às 08:55 AM
julho 26, 2005
CORTE E COSTURA

Ellaine Gignilliat
Ai que a crise, mais a ameaça de bancarrota e a depressão colectiva me emaranharam os neurónios!... Foram-se as referências e sinto-me como, presumo, se sinta um autista perante a realidade – existe mas não a sei ler. Acresço dificuldade diária na distinção de passado e presente à conta de música teimosa – “Ó Tempo Volta Para Trás” – que, qual carraça, não desgruda dos meus ouvidos. O Tony de Matos, que Deus tenha na Sua santíssima companhia, encheu a alma de muitas avós, como a minha, que nele encontrava o ar do(l)ente, frágil e pálido como era condição dos enamorados. Depois, ele cantava naquela voz de nariz comprimido por mola umas coisas langorosas em que reclamava do tempo um passo à retaguarda. Ora, era exactamente isso que queriam as avós!
Definitivamente, acho chegada a altura do mulherio, antes de ofertar de mão-beijada mulher competente ao sol de Belém, exigir ser ali colocado presidente sem dentes comprados a lembrarem o sonrisa do Julito Iglesias. Andam a subir-me espinha acima arrepios suspeitos, lembrando os que sinto se me aperta a gripe ou as finanças. Mas não. Estando escorreita, é rejeição aos quatro puTativos candidatos à Presidência – uns avôs que os netinhos devem achar o máximo, uns queridos, mas grossa maldade deixarem à solta em Belém. Conhecemo-los quando as artérias estavam desentupidas e não queremos minimamente saber os estragos que nestes trinta anos sofreram.
Nós, mulheres exigentes e participativas nas lides democráticas do país - Continente e Açores -, reclamamos um presidente bonitão, dentro do prazo, preferencialmente solito que, não desmerecendo embora do pouco que os antecessores fizeram, nos motive para telejornais e publicações escritas, presidências abertas, preferencialmente muito abertas à nossa empenhada proximidade, porque “também somos povo e se dos reformados e crianças ou desvalidos ainda dizem lembrar-se durante a campanha mas do mulherio repolhudo dos «inta» para cima super em forma e giraço ninguém fala ou tem como alvo à excepção dos cirurgiões plásticos, produtos de limpeza ou alimentares e empresas de cosmética que fazem o mesmo que os Governos e Assembleias e os Presidentes: prometem, prometem e não fazem nada, salvo tirá-lo, sempre que podem e deixamos, do sítio onde está encolhido, porém guardado." O nosso dinheiro, claro!

Armando Huerta
Nota: O «Pénis» precisava de ir a banhos de «cóltura». Recomendar um livro, um filme, um artigo de fundo ou qualquer coisa tão «prófunda» como estas. Mas não, «tá memo silly como a season». Melhor, cá para mim nem nunca esteve doutra maneira! Por isso me revejo nele.
Publicado por Teresa C. às 08:59 AM
julho 25, 2005
(IN)CONJUGALIDADES

Barn Dog
- Humm... hummm... Então?
- ... Deitei fora a pastilha.
- Para o chão?!...
Publicado por Teresa C. às 04:28 PM
BON CHIC, BON GENRE

Autor que não foi possível identificar
Calor, férias, praia, amigos, ondas, corpos, areia, frutos do mar. Ilusões, afectos, desejo, sonhos, mudança, risos, noites de luar. Não apetece seriedade, é legítimo ser ocioso, de normas e regras e interditos estar dispensado, ser frívolo sem sofrer alheias ou do próprio chibatadas, correr atrás do nada com os pés imprimindo areia molhada, olhar à volta e omitir o que não é belo ou afável ou gracioso. Esquecer que no resto do ano muito é feito por obrigação, outro tanto porque sim, raramente porque não. Deixar que o pó se deposite em paz. Dispensar pontualidade e disciplina e método e ordem patológicas. Acordar cedo se a espertina vier e fruir do prazer de caminhar quando ainda dorme quem não trabalha e o dia respira suavemente desencaracolando os dedos e a mente após a nocturna evasão.
“Dispensar o que agride” – primeira regra de um tempo que se deseja sem elas. Difícil tarefa a de desgrudar hábitos servis que impõem abdicar de fracção do «eu» quando é de férias o falado e não combina com tarefas ou mandados.
“Fazer o apetecido” – legítima aspiração para recorte pequeno num ano tido por longo e só parecendo encolhido por volta do Natal. Adiamos o que apetece mesmo em tempo de férias e pelo final do interlúdio pouco foi cumprido. Por adiamentos vários nem os frutos do mar saboreámos – mexilhões, surfistas, lagostas, harmonias de curvas andantes, búzios, nadadores salvadores calados e o bartender bem falado, ostras, as benção dos deuses em forma de gente linda, inteligente, humorada, risonha, bronzeada, desejável e desejando. Ainda bem! Alergias a mariscadas e similares é, além de grave, maçada.
Publicado por Teresa C. às 08:58 AM
julho 24, 2005
ACQUA_R_ELLAS

Sorayama
Perdoem-me a presunção, mas esta Lisboa que amo é como eu: incoerente, carece de tempo para ser descoberta, mistura dons e defeitos que só por amor se aceitam. Indo um pouco mais longe na água benta da comparação, somarei possuir colinas doces em que se desdobra e a contornam, mais o desfalecimento meigo ao desaguar no Tejo.
Acordar pelas nove horas de um sereno domingo lisboeta, resvés ao coração da cidade, pôr a cabeça por fora da janela aberta e assim inspirar fundo o dia já começado, reserva surpresa impensada – ao longe, um galo debita um có-có-ró-có pujante, contudo atrasado. Um galo no meio da cidade? Só manhã alta despertando a capoeira, o quintal, a horta ou, quem sabe, há quereres para tudo!, a vizinhança a partir da varanda?
Desta incoerência parto para crítica que via mail me foi feita. Aliás, estranhada andava eu que este sublinhado de desagrado mais cedo não chegasse. Vários meses atrás, partilhara com o estimado Nuno o que, finalmente, acabou dito – o simbólico por detrás das imagens aqui publicadas. Este excerto do comentário é bastante claro: “O que me perturba é o carácter machista e o perpetuar de falsos conceitos sobre a condição feminina. Atitudes desta natureza só servem a causa masculina e mantêm o sexo feminino prisioneiro de estereótipos sociais e pessoais. Acho que lhe proporcionei aqui razão para sair dessa sua nostalgia e talvez mais um assunto de rubrica.”
A verdade é que adoro servir a causa masculina, assim seja ela uma boa causa. Talvez por dela não ter razão de queixa, a cada serviço prestado mais prazeroso é sentir-me bem servida e, por isso, mais deleitada no serviço a causas de que me apeteça fruir. Como esta masculina que à feminina serve. E sendo assim, imagens ao serviço do julgado masculino, efectivamente servem a mulher. Tudo é uma questão de rodar serviços. Ah!, quase esquecia: foi-se a nostalgia por mor de muitas razões das quais a menor não foi uma belíssima causa masculina. Ai... Ai...
IN & OUT

Lorraine Smesh
No início foi a falta de chuva. Mais tarde a fartura da seca. O fogo queima agora o verde restante. Por cá, que pelo Sudão meio copo de água vale mais que barra de ouro – vale vida. Vida em saldo para quem, ao abrigo do Islão, impõe o terror. Morrem muçulmanos, cristãos, ocidentais, asiáticos, negros. brancos, tisnados pelo deserto ou pelo açafrão indiano, financeiros, sem-abrigo, turistas e os que no trabalho fazem pela vida.
Seja a dor infligida pela zanga dos elementos ou por intentos reles, ela sufoca. Mergulhámos no medo. Não que o mundo ignorasse barbáries piores, porém eram suposto passado. Ninguém estava preparado para quotidiano de olhar esbugalhado pelo horror. Em Portugal, a facilidade no desperdício e ausência de planeamento redundou no que temos – pouca água, mau ar e muito fogo.
É legítimo o direito à indignação contra a mentira em que aceitámos viver de tudo estar controlado. Substituí-la por atenção crítica. Porém, olhando o mundo e esquecendo o pungente umbigo, lembro a proposta do Max no jantar de aniversário da mulher, Bella: - “I'm going to give the last brownie as a prize to the saddest act here.” A disputa começa, exibindo cada um o lado sombrio das respectivas vidas. Tudo por um bolinho. Pela ilusão de exorcismar demónios pairando nos dias. Remata Bella – “C'est la vie... We're lucky in lots of ways, but... Surely it's worth a brownie.” Que não foi.
Sobrando tantos bolinhos, não nos afadiguemos em estender a mão para um. Alguém mais precisado se adianta.
Publicado por Teresa C. às 08:33 AM
julho 23, 2005
HISTÓRIAS DE (DES)ENCANTAR

Jay Anacleto
Perderam-se tons que enriqueciam a paleta das emoções da vida. As inerentes à condição humana continuam – medo, surpresa, alegria, mágoa, ansiedade, fé, (des)ilusão –, contudo finaram-se muitas e outras deixaram de fazer sentido. Ora, se até nas emoções há moda ditada pelas conjunturas sociais, são expectáveis reedições como nas malas, sapatos ou vestidos. A emoção de ser vítima(?) de um rapto amoroso é uma delas.
Dou de barato que raptar a amada é, nos dias que correm, tão espasmódico como fazer da rua para o décimo andar uma serenata. Aumentados ambos a dislates se atentarmos que surripiar alguém a outrem, tal como a «cantada», só tem a ver com língua bem usada e oportunidade. Depois, há a constatação de, por ora, nos entregarmos muito bem uns aos outros sem que ao pretendente mais seja pedido que investimento num café, num jantar e num «copo». Por esta ordem. A cantada, antiga serenata, é preliminar, e, como preliminar autenticado, não deve pecar por excesso nem defeito. A duração justa e está feito, não se arquive a demanda por cansaço prematuro.
Nos idos do amor romântico com direito a cantigas de amigo, havia raptos e raptos. Que o diga D. Mécia, mulher de D. Sancho II. Sabido que o português é linguarudo e do enfeite faz defeito, certo é não ter visto com agrado o arranjo matrimonial entre a viúva castelhana e o seu real primo. Desta conjugalidade não haveria herdeiros, e se eram precisados!, para acalmia dos tumultos causados pelo mau governo e sucessão (ora aí está vantagem de conjugar este presente – o governo pode ser mau que o povo está-se marimbando para se quem manda procria ou não). O Papa anulou o casório e deu ordens expressas para o casal dormir separado. Não conheço retrato de D. Mécia, tão pouco consta dos anais históricos se não tendo feito filhos era prestimosa no acto de bem aviar a receita. Importante era D. Sancho II dar-se por satisfeito. Tão satisfeito que lhe raptaram a mulher do leito pelos dois partilhado à revelia da proibição papal. Foi o cabo dos trabalhos! O rei partiu desabrido à cata dela ao castelo de Ourém que à rainha pertencia. Não é que os raptores o correram à pedrada? Perdeu Sua Majestade a mulher e o crédito dos súbditos. De D. Mécia mais não sei. Confio que tenha gozado bem o rapto. Muitas o fariam.
Publicado por Teresa C. às 09:39 AM
julho 22, 2005
VENENO

Robert Lambert
Não sei se por mor deste estio incendiado ou da moleza do ser reclamando férias, ando nostálgica, ensimesmada, o que, vão no que em consciência digo, nada augura de bom. Se me arredo do modo brincalhão, activo, profunda e deliberadamente distraído do que me enfastia e tenho por frívolo, é sinal de que os meus neurónios se aprestam a nó górdio. A partir daí só salvo o que puder.
O tempo de hoje é tão corrido que nem permite ensimesmar. Século atrás, indivíduo em período meditabundo merecia respeito, cautelas e caldos de galinha. Consultado o médico, era aconselhada mudança de ares, ambiente verde e pacífico e todas as mordomias. Fins de tarde com a maciez de veludo eram mezinha para espíritos debilitados por ausência ou avaria do acoplado espanador psíquico de negrumes presentes e futuros. Alguém se encarregava de preencher ócios lendo para o «meditante» que, de olhos em alvo ou no vazio, deixava entrar a melopeia por um ouvido, escoando-a pelo outro.
Quem procurar agora impor consideração a melancolias espreguiçadas, poderá, de início, passar por ponderado; teimando, ouvirá agressivo gradiente de sinónimos de endoudado ou de madraço. Não se cuidando, acaba empanturrado em pílulas e vegetando numa pasmaceira terapêutica. Seguem-se os «psis» mais os monólogos do doente(?), permitindo aos primeiros reflectir calmamente sobre o modo de impedir que a legítima e a «outra» se cruzem no jantar do departamento. Monólogos caros, surripiando verbas escandalosas ao «paciente», nada tendo a ver com o custo das canjas de galinha ex-poedeira que, antanho, saravam em menos tempo o mesmo.
Queiramos ou não, a modernidade nega-nos o direito a deprimir alegremente. Gozar em pleno um reboliço da mente sempre proveitoso – chocalhar e dar de novo, muda a vida a muita gente. Por isso, alongando-se a cisma, faço pela vida e caminho. Sem constrangimentos.
Publicado por Teresa C. às 08:39 AM
julho 21, 2005
CORREIO SENTIMENTAL

Autor que não foi possível identificar
«Num casal com substantiva distância na idade, a diferença de recursos económicos pende, normalmente, a favor do mais velho»
Não vejo razão que desminta o cúmulo das já velhas e conhecidas. O clássico e estafado golpe do baú começa a tornar-se ardiloso para o mais velho - vida a mais de meio, esperança de cristal no novo, porventura último, grande amor, e a precariedade humana (doença ou acidente) arrebatando o mais jovem. É consensual o poder económico permitir importantes aquisições culturais, sabedoria aumentada, refinamento do espírito e bom gosto nas atitudes. Quem, mais jovem, se aproximar de um ser maduro correspondendo ao perfil descrito, é provável quedar-se impressionado. Daí o encantamento, o feitiço e a genuína paixão. Atracções não necessariamente volúveis. Curiosamente, os dois parceiros correm riscos equivalentes, porém distintos nos níveis de insegurança e cansaço envolvidos.
Se é expectável que o tempo embacie o outro, este contexto agudiza-o, não raro, em desfavor do mais jovem. A juvenil espontaneidade passa a inconveniência, a inocente mobilidade intelectual redunda em frivolidade. Confundir o Maio Francês com uma promoção turística vai para lá da ignorância. É comum o parceiro mais novo não ter da distância cultural razão de queixa, pois a sabedoria crescida manda abolir lonjuras nos interesses e informação.
A insegurança abala qualquer dos membros do casal. O mais jovem tem consciência da própria fragilidade nos encantos de espírito. A respectiva sensatez abrirá caminhos: aprender, evoluir e aproveitar as vantagens disponibilizadas (relacionar saber com idade é generalização abusiva). Serão ambos a fruir do que um dá e aos dois enriquece. O mais velho sofrerá na carne e pela carne a insegurança. Durando o feitiço, o mais jovem jurará que ter alguém maduro ao lado lhe acresce importância e força. Do maduro virá atenção aos olhares enviesados por mor de jovens prazerosas(os) passando por perto. E, no abraço de todos os sussurros, pintalgará de amarelo o sorriso ao sentir que opõe à firmeza muscular enlaçada, uma mescla de gelatina e mousse de celulite que é sua.
Publicado por Teresa C. às 08:34 AM
julho 20, 2005
(IN)CONJUGALIDADES

Barn Dog
- Hummm... Que «fato» divino para me receberes!
- E bem passado a ferro, não achas?
- Sem dúvida, embora haja aí gelhas de que vou tratar.
- Então, passa-me a ferro...
- É para já. Só me falta tirar o que vês.
Publicado por Teresa C. às 05:32 PM
BAGAS DE SABUGUEIRO

Charles Muench
Mulheres e homens reclamam amiúde mal sentirem o passar dos anos. A prova está nas ruas – cuidados, preocupados com a forma e o bem-estar, sentindo-se com encanto acrescido e atentos aos juvenis olhares femininos. Elas, o mesmo. Sobem dos quarenta e reconhecem, deliciadas, que se nem décima de grau arrefeceram os olhares abrasadores que as percorrem, tão pouco subiu o escalão etário daqueles que assim soltam o desejo. Admitindo não serem ilusões rasteiras as que afirmam constatar e que o aumento médio de esperança de vida confirma, dou por adquirido que o ser humano sobrevivente das maleitas da civilização vê passar os anos em grande estilo. O contexto da presunção é urbano numa economia média.
A vaidade antiga das mulheres encolherem a idade contagiou os homens. O pavor do reverso do BI afecta agora psiquismos sem limites por género. Todos pretendem ter na despensa lá de casa, em segredo, conservada e rolhada, o elixir da longa vida. Não entendo, então, a pressa de seres tão capazes, encantadores, dispostos a fruírem das curvas para que estão virados, em se reformarem. Entendamo-nos: são novos e na maior, ou idosos a quem só falta arrumar as botas?
Nem me pronuncio sobre o evidente peso económico que os funcionários públicos constituem, amochando os demais. Ou os cinquenta por cento produzidos por todos, triturados pela máquina do Estado. Perra e glutona. Mais parecendo agonizar. De ser tão límpido como riacho serrano que um funcionário poderá ter condições para trabalhar até aos 65 anos sem recalcitrar. De privilégios gostarmos todos, houvesse recursos para os pagar. Que não há.
Imbróglio maior é este: começa o dia e com ele a romaria para pastelarias, cafés e similares que encha estômagos desde a véspera vazios. Quem cuidar que apenas os afortunados o fazem, erra. «Paquete» e funcionária de limpeza, lamuriando com justeza a subida do IVA, deglutem bolos de arroz empurrados pelo galão “escuro e morno como de costume”. Que será feito dos cereais ou da carcaça, mais a chávena de café com leite, aconchegando quem saía de casa? Ou da peça de fruta, o iogurte e a sanduíche com verdes e proteínas, no saco - os ingleses são mais snobes e levam numa pasta - aberto a meio do dia? À parte o pequeno-almoço caseiro ou o servido pelo poiso que escolhi, fora só desejo um – Breakfast at Tiffany’s.
Publicado por Teresa C. às 08:19 AM
julho 19, 2005
EFEMÉRIDE

Sue Dickinson
Num século mal começado pelo terrorismo e guerras de sobra para os cinco anos mal medidos e já passados, melhor será lembrar o último, que deste a distância é curta. O século vinte foi meteórico, violento, soberbo, encantador, fascinante e aterrador - foi o «meu» século (peito cheio de vento e cabeça de coisa nenhuma!). Entreguei-me ao pensamento, segui modas, atendi às evoluções sociais, cresci rodeada de arte, aprendi a discernir nuances evolutivas, escolas e autores. Não que do abundante e sofregamente bebido pelo espírito eu tenha logrado o saber; antes aprendi que o aprendido só vale pelo que dele mais aprender.
África foi magia de infância - pelo império(?) arruinado, pelos que dela retornaram de mãos vazias e coração desfeito, por ter memória viva dos Natais e aniversários em que nunca me chegou o presente mais desejado e em «comissões» seguidas, o pai para quem eu corresse e me cobrisse de beijos. A Guerra de África era dor, luto e ausência. A África do Sul tinha-a como referência de bem-estar económico, sucesso e negros contidos no patamar social imediatamente acima daquele ocupado pelos seres inanimados, exceptuando ouro e diamantes. Daqui a antipatia que o país me merecia, abrindo diferença à figura mal-falada de Nelson Mandela, porém transbordante de verdade e fé num país novo que os vinte e sete de anos de prisão não esmoreciam.
No olhar sereno e sábio trazia a tranquilidade da savana e o conhecimento das regras de sobrevivência. De um homem de paz, após o Massacre de Shaperville (Março de 1960) em que a polícia matou 69 pessoas e feriu outras 180, veio o consentimento para a luta armada. A proibição do CNA trancou-o na prisão e o mundo fez dele bandeira. Ali (re)definiu pensamentos, amadureceu decisões, orientou iniciativas, até à liberdade. Com ela e através dele, veio o perdão dos opressores e o equilíbrio possível das tensões e vontades. Veio a pujança económica da África do Sul. Veio o prémio Nobel reconhecer o arrojo e sabedoria do homem, um dia menino que não temeu ser o primeiro da família a abrir-se ao longe e à escola.

Publicado por Teresa C. às 09:42 AM
julho 18, 2005
LOOK

Autor que não foi possível identificar
Não me dou por exagerada ao afirmar que substantivo número de mulheres muito dariam para na altura certa, e observada a condição de ser o vestido pregueado, sentirem os vapores das entranhas da cidade transfigurarem-nas em Marilyns deslumbrantes. O aleatório Cosmos não me parece ser de fiar para auxílio na reunião das condições necessárias. Os deuses devem jogar à bisca todo o santo dia, constadas que foram por eles as tonterias e patifarias humanas. As novas beatas e santos, cronologicamente mais dispostos a mostrar serviço que lhes consolide o cadeirão celestial, devem ser os mais atentos às miudezas pedidas, com o senão de estarem muito pouco divulgados. Quem se lembrará de implorar bem sucedida conjugação astral e factual à Beata Sãozinha ou à Santinha da Arrifana? Trocando por miúdos: não há natural ou sobrenatural que nos atenda. Um dia, quem sabe, talvez aconteça. Ou talvez não...
Noite de Sábado. Grupo de amigos, gente animada e disposta a tirar da vida o que de melhor ela tem. Um restaurante, Pano de Boca, reserva antecipada merecendo estrito respeito pelos esfaimados que à hora aprazada chegavam. O dia tinha sido de praia, a quentura solar produzia ainda melanina o que favorecia a consensual opção de todos fruírem da brisa na rua. A uns dez metros da entrada a vossa escriba ia airosa e mui pouco segura nas sandálias altíssimas (chamar-lhes prótese não seria exagero). A saia clara logo abaixo do joelho, de mil pregas e flores, recuperava o estilo dos anos cinquenta a que um toque de ripado no cimo do cabelo comprido acrescia convencimento. Viradas ao passeio, respiravam tubagens largas como bocarras. Passam os dianteiros e nada ocorre, salvo a brisa aumentada. Passo eu e alguns logo atrás. O tubo esmera-se no sopro, a roda da saia entusiasma-se numa espiral aérea, e, até conseguir colar as mãos nas zonas afectas às pudendas, o meu vivaço trapinho e curvas íntimas ficaram expostas aos olhares. Passados os tormentosos segundos, vencida a luta entre a discrição e o embaraço, soltaram-se risos e constatações. Os deuses devem ter intervalado a jogatina e o mais ressabiado lembrou-se de mim. Só pode!
Publicado por Teresa C. às 09:34 AM
julho 17, 2005
TROCAS E BALDROCAS

Sorayama
Não será por iluminados espíritos, quiçá luzentes à custa de fogachos mais frágeis que tremeliques de candeia de azeite, negarem valor às adoráveis sagas dos bruxinhos da JK Rowling encabeçados pelo prodigioso Potter que tenho pruridos em divulgar o concluído: divirto-me à grande com o rapaz da cicatriz, a Hermione e os demais compinchas, com o suspense, o humor, as buchas juvenis, e todo o tipo de insanidades a que Hollywood ferraria o dente dos efeitos especiais.
A sabedoria popular dá uma ajuda: não há como a ignorância para opinar sem assombro. Assim fartei. Não vejo grande diferença entre o histriónico encadeado dos acontecimentos nas divulgadas obras de Dan Brown e o jogo de Quidditch na Academia de Hogwarts. Qualquer dos autores esmerou-se na fundamentação dos delírios científicos ou mágicos, o que, para o grosso da população, vai dar ao mesmo. E se a antimatéria pode rodopiar por aí no espaço, destapado que foi o pote que a continha, porque não podem as vetustas paredes da escola de magia enfeitarem-se com retratos animados e moverem-se ao jeito do humor ou necessidades do dia?
O curioso de afinar coincidências é constatar ser o Papa mais um vértice na convergência dos autores: o Dan Brown fixou-se em deduções de condimentados esoterismos a desembocarem na Igreja Católica e no Pastor vestido de branco; este não esconde os engulhos vindos da série Potter – “diminuem o espírito do Cristianismo ao causarem uma sedução não explícita e com efeitos directos numa indeterminada alma Cristã, sem que ela cresça propriamente.” E não cresce mesmo, creio. No mínimo, pelo dogma da infalibilidade papal...
Nota: Está bem analisado aqui o aparato e secretismo que envolveu o lançamento do último livro da saga Potter.
Publicado por Teresa C. às 10:07 AM
julho 16, 2005
AÇÚCAR

Tudo o que me é doce acontece de tarde. Com justeza, não poderei falar de dias ou anos felizes, mas de alguns momentos e muitas tardes felizes. E se uma coisa leva a outra, mais reconheço: não sei se por uma vez tive um dia inteiramente feliz. Vivido naquela bem-aventurança em que o «ser» se desdobra em notas de uma feiticeira harmonia. Curta no tempo, tesouro na memória.
“Era uma vez uma chinchila, dócil e silvestre como deviam ser todas as chinchilas. Muitas o seriam não fora a Rainha Isabella de Espanha ter usado e badalado as nobres qualidades dos casacos feitos à custa das pequeninas peles cozidas dos bichos que em cativeiro aguardam, hoje, o fim sabido. De um abrigo entre penhascos da Cordilheira Andina ela tinha o precisado: bom ar, tranquilidade e temperatura agreste de que se defendia. Era o entardecer sinal para as chinchilas retomarem actividades que lhes dessem gozo e preservassem a vida. Não para ela. Tombado o sol para lá da meia sombra medida pelo caule corcomido, aventurava-se. Cheiriscava, arribando à entrada que a protegia. Numa corrida, escondia-se na aba grossa de uma raiz e por ali ficava fruindo do vento, dos seres tão frágeis quanto ela ou dos que o sendo se tinham por predadores invencíveis. Não o sendo. E da beleza da vida que por aqui e mais ali desabrochava, bailar-lhe-iam lágrimas nos olhos se as chinchilas tivessem lágrimas. Sabia pelo visto que a morte brinca com a vida, que de manhãs límpidas nascem tardes sombrias, que há tardes acabadas tão de repente como se fossem fugitivas. E pulava dali para outro lugar brincando com as criaturas como ela silvestres.”
Colei momentos felizes de dimensões variadas e fiz coberta de agasalho. Quando um dia é perfeito, feliz como soe dizer-se, há pela certa uma sombra ténue e fugidia ameaçando a partida. Por isso bebo o momento e, identificada a espia, entrego-me ao que é ditoso: o dia. Não todo. O insolúvel na sombra esguia.
Publicado por Teresa C. às 11:23 AM
julho 15, 2005
E DEPOIS... PRONTO!

Olivia de Berardinis
Há quase dois meses inalei o fumo do meu último cigarro. Nada de heróico e que me orgulhe particularmente. Não foi difícil, aconteceu num repente, fazendo lembrar o fim de um amor que nunca existiu de facto e a todo o custo inventava. Há muito odiava sentir-me fumadora – os meus ácidos gástricos rebelavam-se, tresandava a nicotina e nem a um snif do meu perfume habitual, a escravatura da compra do tabaco e alguma falta de respeito pelo ambiente e pelos outros maçavam-me para lá do aceitável. Dispensei outros cuidados e cortei o mal rente à raiz.
Não havendo mal que sempre doa, nem bem que não acabe, sinto-me agora uma sujeita curiosa. Se me enleio a observar passantes ou automobilistas como eu, é fatal assestar o olhar num cigarro cativo dos dedos de uma mulher. Testemunho a voluptuosidade dos lábios que o retêm, a suspensão breve do acto, o prazer de ter na boca e engolir, com vagar, o desejado. Fumo, no caso vertente. E deparo-me com uma cobiça inesperada que de imediato rejeito. Volúpia retirada do que vi e me absorveu.
Sempre achei que fumar me dava um prezado toque négligé, soltando uma ponta da minha lateralidade do espírito na postura. Troquei as voltas à potencial recaída e fiz despontar a irreverência num visual contraditório. Uma peça desmentindo a outra sem ressentir o gosto. E não há frivolidade que valha a distinção perfeita dos odores da vida. Descobrir pelo cheiro que há por perto alfazema. Empinar-me em destroços até a descobrir, improvável, entre sobras de pedras de uma obra antiga.
Publicado por Teresa C. às 09:28 AM
julho 14, 2005
EFEMÉRIDES

Autor que não foi possível identificar
Há diferenças de vulto nos acontecimentos de 11 de Setembro em Nova Iorque, 11 de Março em Madrid e de 7 de Julho em Londres com os ocorridos em Tel Aviv, Bagdad e Ramallah: nestas são o quotidiano, naquelas a tragédia. Em todas o jugo do terror.
Publicado por Teresa C. às 06:03 PM
PÉ NA CHINELA

David Haskins
Um país pequenino com indústria miudinha, orçamentos magrinhos e expecTativas baixinhas, tem gente maluquinha por coisas enormes. Gigantes. Portugueses versus Guiness Book. Liliputianos versus Gulliver.
Na Madeira montou-se uma estrutura de chocolate com sete metros – pena não terem rematado o cimo com o Jardim e permitido aos continentais darem na base metódicas dentadas -, no Montijo fez-se a maior caldeirada, o maior pão com chouriço foi amassado em Viseu, os alunos de hotelaria do Estoril meteram as mãos na calda da maior salada de fruta, a maior manta de retalhos cobriu fracção imponente do areal da Figueira da Foz. Tudo em grande, tudo na maior. E para que a iniciativa ponha o nome da terrinha no livro dos ganhadores mundiais, o pessoal desunha-se em noitadas, alomba com o necessário, desiste da rapidinha de alívio na patroa, que este calor traz o sangue abraseado a pedir hidratação por via das loiras escorregadias e geladas e a dar uso ao tido em casa que na rua as mulheres perderam o tino, desnudas, peito ao léu e o resto mal coberto, colando-se às cabeças de um gajo só sossegadas se a inferior usada.
É de fino recorte e bravia têmpera a vontade de lembrar ao mundo que se os liliputianos lograram amarrar Gulliver, também os portugueses não desmerecem dos idos épicos que puseram as lusas gentes nos mapas e bocas do mundo. Provaram pelo alcançado que a altura de um homem não está no corpo, mas naquilo que ele consegue ver. Depois, aquele Gulliver podia dar conta dos recados todos, mas ninguém o adivinharia como ilustre cirurgião londrino sob os actos burgessos – apagou o incêndio nos aposentos da imperatriz liliputiana com jactos de urina.
A despropósito: será que perante a seca cruel, denodados portugueses se afoitarão a alinharem ao redor de um incêndio que não deixe gentes ou bens de grande monta em perigo, substituindo baldes e mangueiras por centenas, milhares, batalhões de arrojados pirilaus esmerando-se no débito líquido? Esta seria mui digna e heróica proeza capaz de amachucar o pundonor dos atributos genitais dos homens da estranja. O Guiness estava certo e nem só por banalidades averbaríamos nele os lusos feitos.
Publicado por Teresa C. às 08:30 AM
julho 13, 2005
LOOK

Carlos Diez
Sol a pique, areal em chama. O corpo estendido não distendia fracção de músculo para respirar. Imóvel, era pasto dos raios solares. Rosto sem idade, formas definidas, apetecíveis, insinuantes, sugestivas. Impossível de ignorar pela sem-vida aparente e pela perfeição exibida aos olhares.
O vai e vem dos afogueados passantes, saltitando num pé e noutro até chegarem ao mar, projectava areia em brasa no corpo dourado. O rosto ficava impassível e nem o pestanejar exibia vida ou desagrado ou outra elementar reacção. Braços e pernas alongados num alinhamento perfeito. Unhas bem tratadas rematando extremidades sem defeito. Pálpebras descidas. Pestanas longas e arqueadas. Boca semicerrada por lábios cheios, cabelo curto loiro arruivado. Lycra mínima cobrindo o baixo-ventre.
Uma brisa vinda do mar ou das dunas ou do nada lambeu-lhe o rosto. Soergueu-se, fazendo dos cotovelos apoio. Olhos perdidos no longe, de novo imóvel, de novo misturando o ouro da pele com o da areia. Levantou-se depois. Surpreendendo pela agilidade que a imobilidade escondia. Peito abundante, nádegas firmes, coxas amplas sugerindo flexível entrega. Barriga em baixo esticada. Um vale ligeiramente cavado divida-a pela horizontal, mão travessa acima do púbis. Costura plástica, discreta apesar de tudo, executada com a precisão possível, certamente bem paga. Maculando a beleza ou talvez não. Preferia vestígio de cesariana de quem deu por ali ao mundo vida. Mas não. Antes tributo ao próprio desejo de perfeição. Legítimo. Não meu.
Publicado por Teresa C. às 08:33 AM
julho 12, 2005
BON CHIC, BON GENRE

Jennifer Janesko
Sem falsos pudores por atentado ao consumo nacional entrei num «chinês» de bairro. Olhei, toquei, arregalei os olhos de espanto, empalideci no frente a frente com tralha sintética cheirando vagamente a baunilha. Problema: odeio baunilha. E sintéticos.
Recuperada do primeiro round, aventurei-me num segundo mais específico: trapos, chinelas e lingerie. Se messias de pacotilha anteciparam o kitsch dos produtos asiáticos – assim são os profetas de hoje que se atrevem a prognósticos só no final do jogo –, esqueceram que entre resmas de peças de psiché se desencantam vestidos apetitosos e desmarcados do déjà-vu, lingerie carmim, laranja e verde lima, tão sintética como a outra, só que a um «ésimo» da dolorosa. Por três euros e meio arrecadamos um conjunto de underwear para o ginásio, mínimo como convém. É certo que tudo é entregue com linhas e fios pendendo; nada que tesoura diligente não remedeie.
Belíssima noite de verão, brisa afagando um corpo dourado vestido por um material diáfano, branco, aqui e ali pincelado por cor garrida, alças finas e decote ousado. Sandálias de fitas simbólicas. Alguém recusa? Não eu! Tudo chinês. Tudo barato. Excepto a lingerie. Recusando o sintético, opto pelo elementar e recorrente: nada. Livre. Disponível para o atrevimento da brisa e do desejo.
Publicado por Teresa C. às 08:27 AM
julho 11, 2005
(IN)CONJUGALIDADES

Terry Rodgers
- Humm... Cola ao meu corpo o Jnr...
- Já estava amore mio...
Publicado por Teresa C. às 04:23 PM
TRETAS ESOTÉRICAS

Terry Rodgers
Guardo dúvidas epistemológicas como emplastros de estimação. A guerrilha sem fim à vista que mantenho com a minha natural pusilanimidade, a desequilibrada satisfação do básico vital neste mundo insano, o eterno mistério masculino pendulando entre conceber os homens como amibas – alimento, sexo e comando de televisão – ou dramaticamente semelhantes a nós - complicados, inseguros, picuinhas, alegremente contraditórios -, obriga que teime no olho vivo ao que sou e me rodeia. Ao meu pecúlio, duvidosamente existencial, acresci mais: há sítios bonitos onde vive apenas gente bonita que gera crianças bonitas e vai para férias em sítios bonitos onde encontram gente tão bonita quanto eles.
Dois exemplos: praia do Bexiga e Praia Morena, ambas na Costa da Caparica. Naquela a miudagem faz gincana entre as toalhas coladas, as rubicundas mães esmeram-se em perseguições arrojadas, espanejam quilos de areia e gritam a plenos pulmões: “livra-te de deitar areia para cima dos senhores, «ouvistes»?” Rematam a aventura com uma valente palmada no rabo dos fedelhos, de nomes absolutamente arrasadores. Avôs e avós avançam, trôpegos, rumo ao suspiro das ondas. Abaixo das saias e calças arregaçadas, cartografam-lhes as pernas varizes e deformações. Meia hora de caminhada hesitante e arribam às lambidelas das ondas nos pés. Mãos na cintura, elas, nos bolsos, eles, uns e outros curvados sob pesos e jugos e abandonos que nem todos os oceanos juntos conseguem lavar.
Praia Morena, quilómetros à frente. Nem me afasto para Vale de Lobo, Ancão ou Gigi. Não preciso. Palhotas ecológicas e cuidadas, cadeirões limitados pelas dunas, passadeiras impecáveis, mesa e funcionário de apoio a quem chega e fica. Música ambiente, bebidas e sumos tão naturais quanto frescos ingeridos por Bernardos, Pedros, Duartes, Ninás, Nanis, Salvadores e Marias. O tratamento é por «você», em voz baixa, os corpos são domados, rostos lisos e cuidados, bikinis sem afinarem enchidos, calções padronizados por um estilo «do melhor», cabelos aloirados, peles de cetim, mocassins da Tod’s, toalhas da Tommy ou Ralph Lauren sem que importe a origem: alcofa de Cascais ou comércio certificado. Quando há «bom ar» qualquer coisa fica chiquérrima; é só saber misturar!
Segundo a investigadora Beatriz Calado, da Direcção Geral de Saúde, a mortalidade perinatal (ocorrida a partir das 28 semanas de gestação e até uma semana depois do parto) diminuiu para cinco casos por cada mil nados-vivos. Até seria uma boa notícia, não fosse sugerido que muitas destas mortes estão relacionadas com desigualdade nos acessos aos cuidados de saúde das populações mais desfavorecidas. Nomeadamente, as minorias pobres das periferias das locais bonitos onde vive a gente bonita que procria bonitos e tem vidas bonitas.
Publicado por Teresa C. às 08:05 AM
julho 10, 2005
IN & OUT

Sorayama
Portugal não tem pior inimigo do que o povo português. Tendo o patriotismo caído em desuso, para mim que nada sei, o facto evidencia depressão reactiva ao endeusamento imposto, obtuso e saloio, da Pátria e do Império Colonial. Pensamos em Pátria Lusa e vêm à mente os Lusitos e os obrigatórios Lusíadas que o rígido ensino da língua se esmerou em fazer odiar por gerações e gerações. Hoje, a recuperação simplista do interesse juvenil pela excelência da obra, temo obrigue a adoptar a versão em banda desenhada com o suco literário contido em «balões».
Vem esta arenga à colação por via de dois exemplos – a reacção britânica à tragédia recente, e a portuguesa a uma acalorada tarde na praia de Carcavelos. Os britânicos contidos, controlando a dor, servindo os vivos e honrando os mortos, auxiliados por uma comunicação social prudente, sem laivos vampirescos a indignar quem ficou. Meios eficazes – um treino de décadas contra o terrorismo foi precioso – e prudência no revelado. Cuidando do prioritário.
Um refrega difusa numa tarde domingueira da praia de Carcavelos, deu manchetes na informação estrangeira, prejuízos para a imagem e economia nacionais, parangonas suculentas como osso que os media se entretiveram a roer. Espremido o propalado arrastão, ficou no fundo de copo uma «querela ocasional não identificada» e pela borda fora escorreu irresponsabilidade e oportunismo. Nisto somos peritos: não precisamos de ajuda, crucificamo-nos muito bem sozinhos.
Os espanhóis e a respectiva comunicação social são o nosso oposto – nunca existiram em Espanha vacas loucas, febres suínas, animais para abate soprados com hormonas, roubos e burlões como formigas no campo. Não têm nada, não sabem de nada, olham e assobiam para o ar quando dos vícios e misérias privadas se fala. Deixam assentar a poeira e, com a estratégia de moita-carrasco, o tema mingua até se consumir na volatilidade noticiosa. Sagazes estes nuestros hermanos...
Publicado por Teresa C. às 12:38 PM
julho 09, 2005
CORTE E COSTURA

Lorenzo Sperlonga
Julgava-me desapegada da fama, estrelato ou da condição de meteorito que o acaso pespega na comunicação social. Como razões somava a do conforto anónimo, tão aconchegado como sofá velho feito ao corpo, e a evidente escassez de méritos que me projectasse, qual drop colorido, nas bocas do mundo. Falacioso desapego, ledo engano.
Certo tipo de cabeleireiros são uma mistura de Passeio da Avenida com língua viperina de porteiras, mistura portátil e com fórmula simples nas revistas cor-de-rosa. Uma espera de quinze minutos pela Guida (sabe de cor as manhas do meu cabelo!) basta para entender que a idade para algumas é como dinheiro no banco – diminui a olhos vistos. Enquanto a minha aumenta ano a ano, como é suposto, há pessoas, mais mulheres que homens convenhamos, que regridem aos dois e três anos de cada vez.
Como da memória não me queixo, recordo famosos quando jovens imberbes como eu, prestes a iniciarem o caminho adulto. Unia-nos a idade e consequente geração. A cada meia década o desfasamento aumenta e, daqui a umas tantas, darei por mim na puTativa condição de mãe de algumas. É obra!...
Deixar-me arrasar por tão pouco não me faz o género. Para obviar a tão iníqua situação, buscarei fama e arrecadarei o proveito redutor. Com um visual do melhor, acorrento-me ao gradeamento da Embaixada da Rússia e dou-me como descendente ignota de um lado mourisco dos Romanov. Ilegítima, mas com pedigree, arrepiando a impulsiva careca do Alberto do Mónaco. É que o homem não se contem – passou, gostou, arriscou!
Publicado por Teresa C. às 12:31 PM
julho 08, 2005
ACQUA_R_ELLAS

Elizabeth P.
Era um animal corpuscular. Movia-se na (a)normalidade que torna átonas as pessoas. Silencioso e (in)visível. Respirava num mundo que os outros nunca viam, nunca enfrentavam e sabiam que existia quando do veludo dos passos vinha a surpresa pelo horror dissolvido em sangue escorrendo nas ruas. O mundo dele passava em escura corrente ao lado do nosso, invisível, excepto em microssegundos entrevistos pelo canto do olho, logo desaparecidos se alguém que percepcionou o lampejo vira a cabeça.
No cérebro dançavam sensações velhas, invocando ilusões velhas, remoçadas pela obstinada vingança a que juntava fanatismo e ódio pelas humilhações novas. Ardiam-lhe no peito crenças e propósitos cortantes como xisto. Entrepostos no caminho para a morte. E com aquele amor de uma-vez-na-vida, olhos postos numa fé abrasadora, as entranhas ardiam-lhe, acesas pelo desejo de salvar, aniquilando. Deixava a outros a imediata eternidade de virginais delícias.
Febril, marcou o número. Contou os segundos – a ansiedade, mascarada de calma, multiplicou-os. Deu conta do intestino rugir daquele pedaço de cidade, expelido num ronco que ao vir à superfície se agigantou em gritos e vidros partidos. Olhou os detritos projectados, a destruição esperada. Não pensou nas vidas imobilizadas como relógio partido. Afastou-se, procurando abrigo da chuva. Nem todo o cinzento molhado escorrendo do céu, macularia o «sucesso» daquele 7 de Julho londrino.
Publicado por Teresa C. às 08:47 AM
julho 07, 2005
MURMÚRIOS

Alberto Pancorbo
Pousámos na tarde, ia ela a meio. Hábito nosso o de esticarmos as manhãs até o sol adoçar. Trabalho pagando liberdade. Obrigação comprando prazer. O que nem é verdade, porque da obrigação fazemos prazer e do trabalho liberdade. O nosso tempo sempre foi caro. Estimado e curto - inevitavelmente pouco demais. A tarde meada é tesouro clandestino, só dos dois.
Alcovitados por um jacarandá e bebericando um gin tónico, testemunhámos o vagar do Tejo ao encontro do mar. Sem pressa ou ambição. Como nós. Tu, mais que eu, a constatavas. Deslizando a fala, concluímos o equívoco na substância do termo. Nós também somos ambiciosos. Da ambição não desapegamos, somente o que por ela entendemos é diferente do senso comum. Por isso, mais perigosa e feiticeira – significamos um infinito desejo de paz. A cupidez de glória ou riqueza não impulsiona o elástico que nos move pela manhã. Antes a liberdade pacificadora. E, por amor dela e de nós, batalhamos pelo tangível que nos permita esse luxo maior.
Se deambulamos às cavalitas da ambição, concreta, material, paramos na Nova Zelândia. O mistério dos povos que vivem de cabeça para baixo como representação do outro que, embora amando, ignoramos, metaforiza o fascínio que nos une. Atraindo-nos como pólo oposto que com o nosso perfaz íman. E se no verde das montanhas e colinas neozelandesas encontrarmos maoris, teremos a cordialidade de um sorriso. Ou cumpriremos o protocolo dos antípodas, apertando a mão, encostando narizes e testa e respirando em uníssono. Tocando emoções e pensamentos. Porque a respiração é o princípio da vida e do que é sentido. Nós, como todos, iniciámos o reconhecimento comum ao partilharmos o ar na proximidade dos rostos. Depois, num beijo. Porque, renovando-se o ar a cada palpitar do coração terrestre, é pela respiração confundida que passamos de um para o outro amor e dias.
(IN)CONFIDÊNCIAS
Sempre foram excelentes, mas seja da monção ou da unção este e mais este só conhecem um caminho: ascender na qualidade.
Publicado por Teresa C. às 08:12 AM
julho 06, 2005
(IN)CONJUGALIDADES

Olivia de Berardinis
- Magnífico recorte da costa. E este mar esmeralda?
- Perfeito. Como o almoço!
- Queres sobremesa?
- Só café, querido. E tu?
- Humm... Quero!
- Aqui?
- Não, a ti.
Publicado por Teresa C. às 05:58 PM
LOOK

Kimberley Dow
Tenho para mim que o apreço por fardas foi e não tem retorno. Mesmo as distintas e engalanadas não dão ponta do esplendoroso ar casual de um moreno altaneiro, olhar de faiscada malícia encimando um dominado altar humano. Nem precisa de galões para ofuscar, a própria substância chega.
De volta às fardas – as da polícia são uma mistura de fatinho de comunhão com a de músico da banda de Alrrote. Só que sem clarinete ou trombone. Um Gê Nê Rê tem no cinzento que o enfarda a memória do desprezado cotim. Nem os dourados das abotoaduras enriquecem farda da cor de guarda-pó. Depois, há aquele castigo das multas a que associamos polícias e ladrões. O nosso Exército insiste na embalagem alargatada ou numa camuflagem que, de tão copiada pelos civis, nem farda é, antes banalidade. Força Aérea e Marinha teimam no embrulho culminado por «quicos». Os fatos-de-macaco dos bombeiros transmudam-nos em limpa-chaminés a quem falta o escovilhão.
Para as consumidoras conscenciosas da oferta masculina, fardas são sinónimo de omissões ou sarilhos. Não estimulam fantasias, dão um ror de trabalho a cuidar, os quicos e bonés têm a ver com calvície, quem as usa não é gente com que se conte para nos acompanhar - não há modo de calendarizar incêndios, cataclismos, arrastões, ou alaridos (está palavra dá um ar... sei lá, presidencialmente displicente!). Além do mais, badaladas que foram as forças de segurança à conta das aposentações, os fardados vêm para casa na condição de reformados ou na reserva cedo demais. Quem aguenta o respectivo, todo a semana, sozinho em casa? Tipo Macaulay Culkin barrigudo e com papadas…
Fardas por fardas, as nossas são mais bonitas.

Sorayama
Publicado por Teresa C. às 08:21 AM
julho 05, 2005
HISTÓRIAS DE (DES)ENCANTAR

Lorraine Smesh
Ela achou-lhe graça – divertido, tinha, além da figura impressiva, olhos em que apetecia naufragar. À figura altiva embalava-a o bom gosto, rematando o embrulho um perfume raro, como laçarote exclusivo, a sugerir o oposto: desembrulho. Ela regrediu ao mais patético da adolescência - escrutinou perfumarias em busca do aroma raro; derramadas gotas no pulso, aspirava a fracção do odor que o identificava. Enrubescia, faiscava o olhar, sorria sem motivo, progredia na (in)segurança – pensará em mim, ainda não ligou, tenho de arranjar as mãos, sairemos hoje? Irremediavelmente apaixonada! Perdida naquele amor e por ele enfeitiçada.
Do encontro nasceu vontade de mais: acordarem juntos e delegarem no tempo a tarefa de desfazer laços e embrulhos daquele afecto urgente. Descobriram-se desgrenhados ao levantar, nas fraca figuras ao lavarem os dentes, no silêncio matinal dela, no mau-humor dele até o café lhe encarreirar ideias e modos de estar. Constatadas as idiossincrasias – peixe-espada para ele só com o rabo ainda a dar-a-dar, pontualidade como vício dela a que só faltava o gongo ao caírem as oito da noite que anunciasse o jantar – adaptaram-se. Engoliram desilusões num pragmático “esta é a vida real, não vale inventar”.
Corridos anos, que o tempo nisto, como em tudo, parece galgo à desfilada, ele acomodou-se. Preferia-a mais submissa, menos veemente na discussão de ideias, mais minuciosa no desbravar de máculas no chão ou armários. Ela curou-se da paixão. Durou meia vida em comum – e dizem serem precárias as paixões... Convalesceu e salvou-se. Hoje, bóia num fluido morno, ora aconchegante, ora enjoativo, em que tanto esbraceja como se deixa ir. Até um dia.
Publicado por Teresa C. às 09:27 AM
julho 04, 2005
VENENO

Robert Lambert
Definitivamente, os portugueses amam a natureza e demonstram bucolismo invulgar. Quem duvidar pelos excessivos níveis lusos do cêódois, erra. À conta disto, os (im)polutos europeus ameaçam Portugal com castigo maior que pau de marmeleiro; porém, atentassem eles nos extremos a que levamos o culto pela Mãe Terra, quiçá arrepiassem caminho.
Para começo: espalhámos pelo mundo, via descobridores, aventureiros ou emigrantes, arbustos, árvores de fruto e de grande porte. Figueiras, Silvas, Pereiras, Oliveiras, Nogueiras, Roseiras, Matas, Pinheiros, mesmo insuspeitos Ramos, largaram sementes em tudo que é sítio. Germinaram, resistiram e permanecem. Do engenho e trabalho fizeram armas no brasão que lhes permitiu integrarem-se, em geral com harmonia, nos países de acolhimento.
O nosso idílio com a natureza é tradicionalmente semelhante ao de marido ciumento com a mulher que ama: tem-na como sua, considera-a bem de serviço e do uso deixa vestígios. Um piquenique, a queima de matagal em campo agrícola, fumaça de um cigarro na beira de perfumada floresta, tudo serve para mostrar quem ama e domina. Quando a paixão termina em fogo e lágrimas, o português pergunta, escandalizado, quem seria o destrambelhado incendiário. O zaping livra-o da desgraça, que a vida são dois dias, e detém-se nos Malucos do Riso. Para desanuviar.
Depois, há aquela idealização da vida ao ar livre. Gozo que não dispensa é abrir a braguilha e, virado para um tronco ou arbusto, aliviar-se enquanto, deliciado, expira. Só não levanta a perna, mas o resto é como o devido – abanica e arruma. Curiosamente, viver o desejo na praia ou no pinhal é prazer que não procura com uma ressalva: parceira de aluguer. Se a necessidade for muita e a tentação legítima, prelimina, mas tudo pica, ou se enfia onde não é devido, ou teme «espreita» que se babe com os próprios ou da mulher atributos. Além do mais, o zunido das vespas é incompatível com grunhir à tripa-forra ao som do Emanuel. Mas, no resto, quando conduz sem descolar dos oitenta na A1, encostado ao volante na faixa do meio que é mais segura, amansada a família tagarela com um “calem-se porra!”, é ecológica a preocupação: ele, família e carro libertam menos cêódois. O mundo agradece.
Publicado por Teresa C. às 11:43 AM
julho 03, 2005
AÇÚCAR I

Casa, para ser casa, deve ter mansarda. De preferência recuada em relação à frontaria. Precisa de telhado esconso, portadas desembocando em varandim que aconchegue um casal. Ninguém mais.
Do meu gosto por águas-furtadas conta a minha infância. Em criança movia-me, mal chegava o verão, entre casas, sem apenas numa ter poiso – a dos avós, alegre, movimentada, com serões de música e cantoria, e a das tias solteiras, silenciosa, tão cheia de móveis, santos e naperons como de interditos, mimos e doçuras. Durante o dia, saboreava com as tias os petiscos cozinhados em forno a lenha pela mão da Luzia, à noite aninhava-me no banco cavado no granito junto à janela, embalada pelas harmonias de violas e guitarras dedilhadas pelo avô e primos. A canção Coimbrã enchia a noite e fundia-se ao azul profundo do céu estrelado. Pesando as pálpebras, ajeitava as tranças e adormecia.
Por esse tempo, partilhava tardes com um primo afastado, mais velho um pouco, também arreliador e traquinas. Caneladas e pontapés, desafios nos baloiços pendendo dos gordos ramos de uma nogueira possante, escapadelas pelo telhado que escorria da mansarda a que somávamos salto com o dobro da nossa altura para o jardim. Embirrávamos em quase tudo, mas um sem o outro não era gente. Ao crescermos, reservámos comportamentos e a galhofa poliu-se. O desenlace foi o esperado: ele foi o meu amor da adolescência sem que tal lhe tenha ocorrido (na discrição sou eficaz, julgo!), eu o amor dele na juventude quando já o havia esquecido. Deste desencontro amoroso nasceu um afecto doce – amizade condimentada pela sedução e aromatizada por vestígios de erotismo. Os dois afectivamente resolvidos, permanecendo comum, vivo e secreto, um suave travo exótico perfumando os sentidos.
AÇÚCAR II
A Destreza das Dúvidas e a A Praia cumpriram, respectivamente, um e dois anos. Pelo apreço que ambos me merecem, espero «vida» tão longa quanto a desejada. Parabéns.
Nota: Apressei o aniversário do Destreza das Dúvidas. Consola-me não ter sido minha a confusão. Desta vez...
Publicado por Teresa C. às 01:18 PM
julho 02, 2005
TROCAS E BALDROCAS

James Cochram
Podemos pedir-lhes para, quando fora de casa, não comerem nada amarelo e preferirem o que é verde, excepto pistachios. Não adianta. A maionese, batatas fritas, panados e salgadinhos irão direitos à boca, escorregando até ao incipiente barril que, aumentado, deixa os homens cabisbaixos. Coisa de pouca dura, que só voltam a lembrar quando for memória a visão «dele» olhada de cima.
As mulheres afirmam-se preocupadas com uma alimentação saudável. Tentam afastar excessos de gordura, carne e refogados dos hábitos domésticos, retomando o bom costume das sopas e legumes. Porém, caso resvalem para a contenção descuidando a tradição, serão coagidas sob ameaças de greve de fome ou levantamento do rancho familiar. E cedem.
Os ocidentais engordaram ao ritmo da perversidade da civilização. A facilidade e a imobilidade normalizou-os. Foram-se as caminhadas para a escola, os jogos de bola, saltar à corda ou jogar às escondidas com os amigos, as brincadeiras de índios e cowboys na rua pelos finais de dia (culpam a insegurança, é sabido!). Disto há vestígios nos meios rurais ou do interior, e talvez aí ainda chegue mãe à janela chamando pelo filho traquinas. A urbe, o mais próximo de ocupação física que fornece são actividades em clubes desportivos ou nalguns colégios para a gente miúda. Sentimo-nos flácidos, pouco ágeis, obesos por dentro, quando não por fora. Curvamos as costas, encaixamos o pescoço nos ombros, descemos o queixo afinfando o olhar no chão. Carregamos o peso do nosso e do alheio mundo.
Ó amesendado povo... Tirai os glúteos dos assentos e andai! Caminhai sem que os pés vos doam. Meia hora como andarilho a ritmo constante e por dia, queima exageros, aumenta gula aérea reclamando postura erecta. E quando olhamos o céu, ou quem pela frente nos cruza, esfumam-se sombras que só nós vemos e cresce connosco a liberdade.
Publicado por Teresa C. às 11:57 AM
julho 01, 2005
PEREGRINANDO
ExpecTativa:

Guy Powers
Dos estímulos mais eficazes para uma peregrinação a preceito com imagens votivas e tudo, é a compra de bikini ou de fato de banho. Ainda a estação que os pede não está no fim da rua, quanto mais no adro, começamos a olhar para as montras dos mínimos estivais. Por esse tempo, recém-chegadas e ainda mal refeitas dos trambolhões e afundamentos na neve, é suposto farejarmos farpela muito encolhida – um lenço de assoar bem dividido chega – para nos enfiarmos no mar e na piscina, pois se da tarefa nos distrairmos, quando dermos por ela nada sobrou que se ajuste.
O drama, assim que o pano do gabinete de prova corre e nós entramos, começa. As pancadas de Moliére são dadas pela assistente de loja ao trazer meia dúzia de exemplares que lhe cabem na concha de uma só mão. Cerramos o espaço pouco maior que tumba e tão iluminado como cadeira de dentista. Despimo-nos - má onda! Reluz a pele num tom vagamente encardido, mistura do branco de origem com escaldões antigos. Ainda não enfiámos as propostas trazidas e temos três certezas: uma, a empregada, com ou sem licença, espreitará quando o soutien estiver preso numa alça e nós em cuecas e meias, duas, se a parte de cima ficar bem, a de baixo não serve e vice-versa, três, se as duas atinarem, os elásticos, de novos, são tão eficazes que ficamos semelhantes a fiada de enchido. Ultrapassados os primeiros engulhos - engolimos o grito assassino “suma daqui!”, o bikini está óptimo, os laivos de salsicha alemã esquecidos - vem o terceiro, a cor. Aí entra a peregrinação. Começamos por rezar a São Judas Tadeu que deve ser o padroeiro de todos os mentirosos que dizem estarmos óptimas e em grande forma. Dele nem sinal e o desespero cresce. Pensamos numa ida a pé a Fátima. Não, que me iam chamar maluca. Deve ser coisa que passe por passeio de família. Lourdes! Não, é longe demais e os miúdos esganavam-me. Santiago de Compostela. Boa! O Pedro alinha. Saliva só de configurar marisco e bodegas e cervejas, tapas e bocadillos. Nem levamos os miúdos, sempre podem ficar no Minho na casa dos meus sogros que eles adoram os avós. Vejo-me de joelhos, bem compostinha por dentro e por fora e venerando o Altíssimo, quando a malvada diz que não, que daquela cor já não há, esgotou logo, que não sabe se virão mais, mas se vierem e deixar o contacto, nós ligamos, esteja descansada.
Com cara de defunta, mais defunta que todas as já veladas, saio em rota directa para o estacionamento, rogando pragas ao amuo do Pedro no Brasil que nem uma mísera comprinha me deixou fazer, e ali é que era comprar, nem havia como trocar nem nada, nem experimentar podia, e tudo tão barato. Beatriz, segura-te ou matas!
Na derrrota:

Fernando Botero
Publicado por Teresa C. às 09:18 AM