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dezembro 15, 2005

IN & OUT

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Charles Muench

Fátima Letícia. O nome unindo fé e fama. Portugal e Espanha. A esperança numa Senhora de Fátima capaz de elevar humildes pastorinhos à condição de beatos da Igreja, a grinalda do amor romântico elevando à supremacia mundana uma ex-jornalista e ex-pivô de televisão.

Lá prà banda de Viseu, no final de um Outubro com frialdagem insinuando arreganhadas noites, ser pequeno abandonou útero que durante os meses da ordem lhe garantiu quentura e alimento. “Menina!”, terá dito a parteira, ou de quem dela fez as vezes, por ser o anúncio conforme às regras. Júbilo dos pais, ponho em dúvida, da mãe é mais que certo ou não a cortassem ainda as dores por ter parido. Talvez os avós tenham adoçado o espírito com o enfezado vestígio da própria vida que no berço se agitava. Ou amansado os gestos rudes de quem na vida partiu e repartiu trabalho, dele colhendo a pior parte. Um sorriso pode ter-se esgueirado dos lábios ásperos por tanto «andarem ao tempo». Terá dito a avó – “Cá nos arranjaremos. Se veio, foi pela vontade de Deus.” E para a filha – “Pega-lhe, anda, é a tua filha!” E a mãe fez a vontade à sua mãe que lhe garantia o sustento, mais ao doidivanas que lhe engendrara a criança.

“Não são gente de fiar”, diz agora o povo, caninamente fiel ao princípio “não destelhes quem te pode destelhar.” Porque a solidariedade tem rédea curta e só perante a tragédia sai embandeirada à rua, é dito que a “culpa das tormentosas sevícias infligidas ao bebé, não foi das instituições - todas cumpriram a sua função -, mas do pai insidioso e da fragilidade mental da mãe.” Ou de “coincidências perversas”, et cetera, et cetera.

Fátima Letícia – nome espalhafatoso para pessoa tão miúda que em cinquenta dias só mamou da vida comatoso desamor. Distúrbios e insuficiências esperam-na se a vida levar a melhor. Nós? Desviamos do horizonte este e outros horrores. Como eu, pela escrita crendo purgar-me da cumplicidade com o lado errado do mundo.

Publicado por Teresa C. às dezembro 15, 2005 08:10 AM

Comentários

Cúmplices, sim, de certa maneira. Então os médicos viam sinais de alarme gravíssimos e as assistentes sociais não viram nada de nada?!?!?!

Publicado por: L às dezembro 15, 2005 09:35 AM

Não foi o que fez, querida Amiga! Não desviou o olhar, nem a sua escrita nos(a) consegue purgar de tantas cumplicidades/omissões. Mas, também não é para isso que ela serve!

Publicado por: j às dezembro 15, 2005 10:26 AM

L.- Esse é um dos factos em questão. Descoordenação completa de meios. A tragédia com
o fim.

j.- É verdade. Arrogância minha...

Publicado por: Tati às dezembro 18, 2005 07:35 PM

Não existem palavras neste mundo para justificar o que esses monstros fizeram com este bebe, só Deus é capaz de nos proteger e amar e que ele tenha piedade dessa gente ruim...

Publicado por: Caroline Ricci às janeiro 11, 2007 07:33 PM

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