« IN & OUT | Entrada | GENÉRICOS »
junho 04, 2006
ACQUA_R_ELLAS

Tamara Donahoe
Pertenceu-nos o entardecer soalheiro de Lisboa. Sem lamúria, os pés e as pernas moídas resistiram até ao cansaço ordenar. Amortecido pelos verdes frondosos ou pela relva húmida de rega e suor, inaugurámos o Verão dos livros carregando braçadas. Mais eu que tu, explodimos de prazer o riso quando um título desejado qualquer dos dois descobria. “Quem fica com qual? Aquele cujos olhos mais brilhassem ao tocar-lhe” propuseste. Acedi. Eu ou tu. Tu mais vezes que eu. A alegria, a doce melancolia de uma verde tarde de calor alimentaram sentidos. Os meus. Os teus controlas melhor. Ou nem é isso e sabiamente adias o que de breve farás crescer a infinito. Jogámos às diferenças entre tílias, jacarandás, plátanos e outras árvores desconhecidas que baptizámos pelo perfil - Otília às de copa redonda, Auroras para as altas e esguias, Francelinos se os ramos eram torcidos. E mordisquei uma pêra dura se sugerias pausa sombria, e largámos em passeio as palavras enquanto o sol descia. Lado a lado, no esplendor da relva houve fala íntima. Aconteceu.
As pessoas. Os que amamos. Em geral, tu e eu. Nunca perfeitos. Mas é deles a doçura e o nosso querer. Não nos prendem, não abandonam. Estão presentes quando a espessura do breu entope os caminhos do ar até aos pulmões. Qualidades? - Muitas. No reverso? - Defeitos. Aceitamos ou não. O tempo tudo amaina se o amor cresceu. Quando não, nos defeitos intactos e de sustento recorrente temos opções – rejeição, e daí em diante será o que cada um quiser, ou a conformação do que no outro promoveremos de item de personalidade a defeito físico. Quem vir somente o que dá arranjo é vesgo, manco se na mentira o tropeço é constante, maneta se da preguiça fez consorte. Foi tua a comparação, minha a delícia pelo que jamais havia lembrado.
Gosto-te, meu Amigo. Por que és Amigo. Por que me dispensas o ombro e propões partilhar cansaços. Com verdade. Pela isenção de intenções menores que perturbem a elevação do registo. Por que abandonados à relva e à terra cheirosa vimos cair o sol. Obrigada Amigo.
Publicado por Teresa C. às junho 4, 2006 10:43 AM