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junho 12, 2006

BAGAS DE SABUGUEIRO

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James Knowles

Escarafunchando o negrume do pior que possuímos, a desconfiança nas qualidades próprias e alheias é mal menor. Como se a alma portuguesa fosse azinheira onde a qualquer momento pode surgir a Senhora das Aparições e tudo o mais fosse pechisbeque. De facto, uma azinheira nem adianta nem atrasa, não embeleza ou acresce energia. É árvore ressequida e modesta. Uns espinhaços e uma folha de bicos salientes impõem o tom dolorido e os queixumes que exorcizamos nas filas dos transportes, nas salas de espera dos centros de saúde e em qualquer meia hora de viagem de comboio. Entremeados com o penar individual e colectivo, existem arrroubos místicos que o passamento da Senhora Dona Amália, da Irmã Lúcia e do mui querido Papa João Paulo II, em uníssono arrebatam multidões. O mesmo nas peregrinações comemorativas das aparições na divina azinheira. Fazemos e cumprimos promessas, corpos ajoelhados, sofridos, fé supersticiosa cumprindo o objectivo: devolver esperança à vida na forma de recompensa no além. Não matamos por um punhado de virgens celestes, mas sofremos e fazemos sofrer por um esquadrão delas e de santos perfilados cantando loas aos abençoados. Os outros, os malditos, danam-se no Inferno.

Partilham a azinheira e estimulam empolgantes devoções populares, personalidades em contextos de emoção excepcional – os magos da bola, o Tony Carreira, Cavaco e Silva no período eleitoral, o Sócrates como pólo de um bem definido ódio nacional, o Pinto da Costa e o Alberto João, o Major Valentim e a Fátima Felgueiras. Perante modelos tão contraditórios, sofremos de doença bipolar. Oscilamos entre picos de euforia e ilimitada (des)confiança no que somos, no que valemos, nos feitos expectáveis e no espírito sabujo de quem à azinheira chama má-sorte.

Os portugueses vivem com mais de cem mil milhões de euros emprestados. Estamos nas lonas e cegos. O crédito mal parado diminui não por estarem as famílias mais cumpridoras no cumprimento dos pagamentos, mas porque os bancos acresceram rigor e vigilância. E se Portugal subiu dois lugares na lista dos países mais competitivos, classifica-se agora no pouco honroso 43º lugar – atrás somente a Eslovénia e da Lombardia. Razão? – A azinheira! O investimento estrangeiro dá-se bem com a estabilidade social, ausência de conflitos raciais e aceitação de mão-de-obra imigrante. A desesperança é pantanosa e, agitando águas pantanosas, movem-se os jacarés. Para safar deste triste fado também serve a azinheira – eles de bocarras abertas cá em baixo e nós dependurados nos ramos. Pura sorte!

Publicado por Teresa C. às junho 12, 2006 06:38 AM

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