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junho 20, 2006

BAGAS DE SABUGUEIRO

Beryl Cookscan0008.jpg
Beryl Cook

Homus Lusitanus - Zé Povinho Desistente por constituição, resistente apesar de tudo. De todos os poderes e poderosos, dos monárquicos aos republicanos, do ditador aos democratas, de todos carregou albardas e foi literal ou metaforicamente açaimado.

O Zé Povinho descalçou as botifarras rurais, trocou o colete por blusão, quiçá um casaco, mas onde conta, por dentro, mantém-se tal qual foi concebido pelo Rafael Bordalo e divulgado nas páginas da Lanterna Mágica, corria o mês de Junho de 1875. Continua um Zé-Ninguém. Um Zé-Povinho-Pagante. Para trás ficou o Zé-Pacóvio, o Zé-Pragmático e sem ponta de Metafísica. Graças deuses, por esta prova de misericórdia. Os meta-politicos que debitam meta-discursos depois transcritos na meta-linguagem dos meta-blogues e jornais através dos meta-comentadores e lidos por meta-entendedores é farta vilanagem que só apetece mandar à meta-merda.

Podemos não nos reconhecer no visual rústico do Zé Povinho, mas no que ele subentende estamos lá inteirinhos: apáticos, inertes, conformistas, desconfiados do conhecimento e do novo que altere o estabelecido, arredios da cultura, da cidadania atenta, egoístas e borrifando-nos para causas humanitárias – Timor foi excepção que a culpa explicou. Somos cidadãos de mãos nos bolsos. E quem as mãos assim protege nada faz: pactua e aceita o que vier. Não sorrimos por genuína vontade. Gargalhamos pouco – o nosso riso é triste, sulfúrico, desistente, acomodado.

O Zé suburbanizou-se. Enche os acessos a Lisboa orgulhosamente só na viatura, insano ao volante, telemóvel colado ao ouvido. Julga-se civilizado mas é um labrego básico, rude, agressivo, incapaz da generosidade grandiosa que recusa reconhecimento. Odeia a utopia. Ignora a honestidade.

Se quisermos encontrar o Zé Povinho que representa o melhor de nós, ele ainda existe. Está no pastor que nas faldas serranas pastoreia o seu rebanho e medita na existência de horizontes vastos e na perfeição natural. Está nos idosos de aldeias abandonadas que da solidariedade fazem os dias e da sabedoria paciente o pecúlio. Está naqueles que habitando as urbes selvagens têm raízes no subsolo fértil que das sementes boas germinam qualidades. O Zé Povinho existe nos puros. Parvos, nunca.

Publicado por Teresa C. às junho 20, 2006 06:26 AM

Comentários

Este texto é talvez o texto mais bonito que leio desde há muitas semanas! Pode até ser meta-presunção, mas um sinal de pacovíce!! Mas não vou resistir a imprimi-lo e coloca-lo bem visível no meu lugar de trabalho! :)

Publicado por: Gracinda às junho 20, 2006 10:05 AM

Este texto é talvez o texto mais bonito que leio desde há muitas semanas! Pode até ser meta-presunção, um sinal de inequívica pacovíce!! Mas não vou resistir a imprimi-lo e coloca-lo bem visível no meu lugar de trabalho! :)

Publicado por: Gracinda às junho 20, 2006 10:06 AM

http://www.apagina.pt/arquivo/Artigo.asp?ID=3726
Recomendo esta leitura sobre uma entrevista a José Gil a propósito de "Portugal, Hoje - O Medo de Existir". É densa, mas vale a pena imprimir para ler com tempo. Claro que o próprio livro é ainda mais recomendável que a entrevista ou texto originado pela entrevista ao autor.

Há uma expressão que um amigo meu gosta muito. "Portugal, questão que eu tenho comigo mesmo." Gosta de a citar, geralmente a meio de um monólogo inspirado e inspirador, possuído, quando a usa, muito raramente - ele que é pouco dado a monólogos e verborreias - é porque lhe dói a alma. Ou porque se torna visível essa dor de ser português. Esse estar quase lá. Esse eterno agridoce penar, essa herança. Esse seríamos, esse porque é que não?... A frase não tem a pontuação com que a escrevi, deves conhecê-la. Aparece no final de um poema de O'Neill. Que se chama precisamente "Portugal". E que acaba assim.
«
(...)
Portugal: questão que tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós…
»

Publicado por: troblogdita às junho 20, 2006 12:24 PM

Portugal é uma equipa de futebol.

Publicado por: Ferdinand C às junho 20, 2006 03:02 PM

Há um povo no extremo Oeste da Europa que não se governa nem se deixa governar - mensagem para Roma de um Centurião na Lusitania. Nascemos de um filho que desobedeceu ao pai e bateu na mãe; interpretação antitética da visão romântica salazarista do herói D. Afonso Henriques e da Batalha de Mumadona nos fraldas de Guimarães. Celtas, Iberos, Godos, Visigodos, Mouros e Judeus miscigenados numa mesma lingua que começou no "romanço" (galaico castelhano) e acabou no Português. Miséria e ganância que num misto de sorte e ciência comprada em Nápoles, nos deu um Império no séc. XVI. Epopeia imortalizada no mármore e cantada na azulajaria do Buçaco. Monumentos ao Soldado Desconhecido em todas as cidades eregidos (qual bofetada de luva branca no 4º Presidente da República Sidónio Pais) pelos sobreviventes do CEP - Corpo Expedicionário Português após as guerras de África e o Armestício de 11 de Novembro de 1918.
Pulverizados pelo mundo qual piolho na costura, plenos da consciência da salvação pelo trabalho.
Cá na nossa religiãozinha ninguém mexe! Oitocentos anos de férreas fronteiras no continente. Hoje, "cagõezinhos" quanto baste, aspiramos a um carro alemão logo que consigamos roubar ao fisco o montante necessário. Finalmente libertos do preconceito provincianote de pequeninos Europeus pedimos messas aos estrangeiros e no amor, são estes últimos quem inveja como se ama em Portugal. Comentário longo e apologético, perdoa, mas surgiu de "raquete" diante do teu magnífico texto.

Publicado por: JG às junho 21, 2006 09:19 AM

Que delicia de texto! que inspiração !!!

ccbbbbb

Publicado por: ccbbbbbb às junho 21, 2006 05:05 PM

Sinto-me feliz pelo acolhimento do meu texto. Sorri, li atentamente os comentários mais extensos, e sim, foi um dos bons momentos que os meus queridos comentadores me proporcionaram.

Beijinhos. Muitos.

Publicado por: Tati às junho 25, 2006 08:42 PM

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