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junho 30, 2006
BON CHIC, BON GENRE

Elsie Russell
Poucos mistérios permanecem insondáveis nos comportamentos. Refiro dois: neles a (in)consciente concepção da parceira como substituta materna capaz de, convenientemente amestrada, eliminar dos bifes nervos e gorduras, outro é a idade das mulheres, mistério a deixar longe a insondabilidade do primeiro. E não tem a ver com balzaquianas, quarentonas, cinquentonas, terceira-idade ou velhice. Qualquer garota do 2º ano do básico tenderá a assumir ar crescido se o menino do 3º B a tira do sério e lhe arranca olhares febris. Uma adolescente somará anos ao bilhete de identidade à custa dum sorriso insinuante e do peito que jorra do top minguado. O porteiro da discoteca, de olho fixo nas redondezas firmes e pujantes, testemunhará por cima, por baixo, onde ela autorizar, ser mais que tempo da pequena embelezar a noite local.
Aos vinte e poucos já a idade é problema – de menos se a profissão requer experiência, de mais se o corpinho obedece às medidas do modelo e a pele perdeu a frescura dos quinze anos. Daí em diante é só a piorar. Eles encanecem por cima e por baixo, engravidam por comezainas sem preservativo dietético, a queda pneumática é consequente com a gravidade, e, não fosse a farda escura mais a gravata ao pendurão, e teríamos circulando nas ruas milhões de leitõezinhos prontos para churrasco, Na mesma altura, elas tentam congelar corpo e idade. Cuidam-se, à celulite e às rugas declaram guerra sem quartel, soltam o cabelo ao brilho do sol. E algumas têm charme. Encanto que só a cegueira conjugal pode ignorar. Os outros não – os leitõezinhos notam-nas no café matinal, no pagamento do parquímetro, no elevador da empresa.
Trágico para eles e elas é cumprir trinta e depois quarenta anos. Aos trinta, toca a rebate o sino biológico e a vida é muitas vezes um gigante ponto de interrogação. Nos quarenta, a profissão gera confiança, mas a miudagem, as obrigações, orientam a líbido para fora de portas. Aos cinquenta, diz quem sabe, foram-se receios, cresce o gozo da vida. Mentir na idade? Ingenuidade encantadora. Quem requer certidão de nascimento para ser feliz? É na esperança, na humildade de pouco ou nada saber, na curiosidade e gosto pela aprendizagem, na vontade de crescer, na sensualidade sábia, criativa, paciente, servida por um corpo sentido de elástico e cetim que a vida acontece. Preconceitos? Os anos enterraram-nos um a um. Profissão? Consolidada. Filhos? Criados e encaminhados. O passado? Tesouros que o presente acrescenta. Se dos anos mais vierem, merecem rasgado sorriso de quem os recebe.
Publicado por Teresa C. às junho 30, 2006 06:54 AM
Comentários
Costumava chamar-lhe ''Saldanha Dream'', espaço de escritórios com um corropio incessante de pessoas e carros, isso era o Saldanha, havia depois o ''Dream''... mulheres aprumadas, umas vestidas com elegancia e sobrieadade que o mundo dos negócios exige, outras mais pindéricas, com fatos berrantes de verde alface e com colares de ''pérolas'', as primeiras tinham aspecto de 35 anos para cima, muito enxutos, um ar sério e grave, passavam a passo firme ao largo das grandes confusões, quando muito demoravam-se apenas um instante no ''Café di Roma'', teriam talvez cargos cimeiros nas empresas, o que lhes permitia sair para almoçar desafogadamente, sem os ''inoportunos'' colegas com as suas conversas banais e de circunstância... talvez não tivessem pura e simplesmente paciencia para o dia a dia mundano e preferissem a solidão, relaxando um pouco enquanto se misturavam no barulho da multidão, brevemente... como espiãs, como ''Mata Haris's''. As mulheres de verde alface eram tímidas, geralmente caladas, paraciam umas ''Circus Fashion Victims'' e elas sabiam disso... e com um ar conformado lá bebiam o cafézinho, com um ar de soldado prusso engalanado pronto para o combate seguinte, cerrar fileiras e marchar. Depois haviam as mais tagarelas, mais ''casual'', falavam, falavam, falavam, para esquecer, para rir, para enganar o silêncio, a monotonia dos dias todos, falavam como se a qualquer momento se levantassem e corressem dali para fora a gritar, sorrindo, livres, em direção a Cuba. Eu, chegava de mansinho, dizia boa tarde baixinho com um sorriso rapazola e sentava-me na mesa do fundo, enrolava um cigarro e ficava a fitar a tv com um ar vago, umas vezes ouvia as conversas disfarçadamente, outras, desligava completamente, todas juntas eram umas feras, mas isoladamente lá se viam as fraquezas, os anseios, o olhar baixo a fixar o nada, sorrindo logo a seguir, virando-se para o lado e acenando com a cabeça... Todas elas mastigadas pela máquina empresarial, pela vida. As mais novas eram as mais apreensivas, ainda não se tinham acostumado, tinham um sorriso paciente. As de meia idade, mais enrijecidas, falavam dos filhos, dos maridos, reciclavam acontecimentos e obtiam acontecimentos alheios, uma outra senhora mais velha, lá de vez em quando se notavam os sopros da menopausa, mas continuava combativa, com uma força que eu não sei se teria, gostava de ter. Lá mais para a tardinha aparecia ela, com uma certa altura, com ''stilleto´´, camisa branca muito justa ao corpo enxuto, saia justa, collant negro, cabelo negro escorrido, muito morena, talvez de solário mas não creio, a face já tinha as marcas da idade, mas era bonita, ainda. chegava, metia a moeda na máquina de café foleiro, esperava que este saisse enquanto punha o peso sobre uma perna e assentava no braço o cotovelo que dava para a mão que segurava o cigarro... Parecia ser timida, náo gostava de confusões, ás vezes atrapalhava-se quando lhe dizia qualquer coisa, desculpe..., com liçença..., quer que eu mude de canal?... Ela era o ''Saldanha Dream'' em toda a sua glória, era linda, ainda... naquela altura. Continuará a sé-lo se talvez aceitar a idade, se não o for para mim, sê-lo-á para um cavalheiro mais velho do que eu.
Desculpa a extenção, fizeste-me lembrar de coisas que já não pensava há algum tempo...
Publicado por: Ferdinand C às junho 30, 2006 01:23 PM
:-D Tenho uma consciente percepção que a minha Gordura a mais que dá cabo dos Nervos. Não que isso tenha a ver com os bifes. Mas tem a ver com as parceiras.
Publicado por: troblogdita às junho 30, 2006 05:00 PM
Ah! Homens do meu País! Umas vezes piores outras, bem melhores
Publicado por: MFRM às julho 1, 2006 03:28 PM
"ME dá cabo dos nervos"
:-D
Esta é uma gralha recorrente. Troco o "que" por "me" muitas vezes. Que nervos.
:-D
Publicado por: troblogdita às julho 3, 2006 04:40 PM
Gordura a menos ou a mais? Piores ou melhores? São, dos dias que correm, a parte menor. Eu cá acho... ;)
Publicado por: Tati às julho 6, 2006 08:57 PM