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junho 14, 2006

CORREIO SENTIMENTAL

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Dave Nestler

«Estou farta! Há dez longos anos casei com o homem que amava e veio a tornar-se o ser mais semelhante a um orangotango do Bornéu que é possível conceber. Não tem maneiras, não se cuida, ignora raciocínios coerentes, digere frigoríficos atestados, arrota por cima e por baixo. Fartei, cansei, quero o divórcio!»

Sou solidária com o seu cansaço, com o desespero de transportar, cozinhar, atascar o estômago rubicundo de um ser que por falar entende rugir, por diálogo o “pra mim tásse bem”, mesmo que a frase tenha sido “vê lá se queres que te pendure na corda da roupa até o sol fazer de ti figo seco!”. A televisão, a play sTation, os desportivos deixam-nos num estado abúlico comparável a electrodoméstico em tarefa comandada. Um tédio. Um ódio a presença daquele mostrengo no espaço partilhado.

Um divórcio equilibrado e amigável é uma excelente solução. Porém, desengane-se o coração liberto e pronto a saltitar de polonizador em polonizador ao julgar que o pesadelo teve fim. Buscando homem, ao fim de uns tempos de convivência comum, o orangotango, outro, claro!, está de novo sentado no nosso sofá, frente à nossa televisão, ruminando os nossos acepipes e deixando o jornal num feixe de papel usado sem ínfimo vestígio de consideração por aquela que o lerá a seguir.

Consciente da modéstia do meu curriculum neste particular, direi que o divórcio é justificado se for desejo infinito a solidão portas adentro, aqui e ali entrecortada por amigos do peito, um ou outro do coração, por que não aquele que a química escolheu? Tudo com regras polidamente transmitidas: permanência máxima de três quartos do dia para a vez primeira, nas seguintes o risco poderá estender-se a dois dias. Pesando a solidão, não bastando a companhia que a própria à própria faz, fica o «viver-com» ou o casamento como solução. Nesta conformidade, deliberar não «ver» orangotango algum e no lugar dele sentir o homem por quem se apaixonou e a fez feliz, não parece má ideia como medida profiláctica. Este é quem se alonga no sofá; o outro fabricou-o uma mulher desiludida. Desistente. Dimuída. Deprimida. Que recusa ser.

Publicado por Teresa C. às junho 14, 2006 10:12 AM

Comentários


Céus que eu não imaginava a Tati tão cansada dos "homens" que eventualmente completaram a sua vida. Lembro confissão da Tati em que também o sete é número divino, porque ao fim de sete anos "enfastiavam", eram orogotangos.
Mas tenho uma história giríssima de amigo meu que de estado se disse sempre CELIBATÁRIO IVETERADO e contava que o momento crucial para a sua qualidade de vida nas inúmeras relações que manteve era quando elas entravam no seu apartamento abriam a mala e começavam a arrumar as cuequinhas e outoas intimidades num gavetão.
A decisão foi sempre RUA que a confiança tem limites ....
ccbbbbbb

Publicado por: ccbbbbbb às junho 14, 2006 07:00 PM

Farta dos homens, eu? São uns queridos, e, no que me diz respeito, deles apenas somo gentilezas e uma ou outra patifaria; coisa modesta que não me diminui em nada o apreço que lhes tenho. Beijinho.

Publicado por: Tati às junho 14, 2006 09:29 PM

O orangotango jamais gasta palavras. É a garantia da sua liberdade em relação ao trabalho que os humanos, por certo, lhe imporiam caso o ouvissem falar. É claro: o orangotango não tem o brilho de um príncipe da retórica, não mostra recursos lógicos que sustentam os pensamentos mais abstractos e coerentes, alimenta-se sempre que há oportunidade e a frugalidade resulta da escassez não do desejo de elegância. O orangotango pertence à impenetrável selva de Bornéu.

Publicado por: eubozeno às junho 15, 2006 12:20 AM

Como em tudo na vida... É preciso saber escolher!

Publicado por: canzoada às junho 15, 2006 02:25 PM

Eubozeno - o orangotango descrito pareceu-me um homem cá dos meus. Onde está, onde está?

Canzoada - o pior é que as escolhas não vêm com selo de garantia e possibilidade de troca em caso de instisfação....

Beijinhos

Publicado por: Tati às junho 19, 2006 05:16 PM

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