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junho 21, 2006

(IN)CONFIDÊNCIAS

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Bryce Cameron

Ensinaram-me a ser boazinha. Não meter os dedos nos potes da marmelada arrefecida. Não fazer birras. Não ser pedinchona. Que oferecer é uma delicadeza e aceitar uma estupidez. Ser compostinha. Por aí fora. Muitos preceitos mais. O problema em ser boazinha era simples – por mais que tentasse, estivesse quase, a um passinho, jamais atingia a bondade expectável. Retaliei. “Ai é?, pois daqui em diante vou parecer boazinha que baste para poder ser mázinha quando me aprouver.” Se o bem pensei, pior o fiz – ser mázinha dava-me uma azia íntima de convívio insuportável. E fazia lixo cá dentro. Tanto lixo... De revoltas, injustiças, discordâncias, humilhações e cobardias. Lixo que não sabia onde guardar e por isso carregava do acordar ao adormecer. Até de noite o lixo tentava diabolizar-me o sono, só levado de vencida pela pedra que eu era ao dormir. Era e sou.

O lixo dos sentimentos é pegajoso. Seboso. Corrosivo. Por ele dizia sim se o apetite era o não. Sorridente quando o coração doía. Boazinha, generosa, se sentar-me no último degrau do sótão era modo de suavizar a tristeza. Já crescida, falava do tempo. Sorria para gente que não queria. Tinha de ser cordial - a palavra adulta para boazinha - bem-comportada. E o lixo comigo. A pesar. Pingando unto com nome – hipocrisia -, mesmo que o senso comum lhe chamasse simpatia. Até um dia.

Separei em dois o lixo – reciclável e inútil. Ao último joguei-o fora. Num ápice. Assim como deixei de fumar. Sem dor ou mágoa. Do primeiro analisei um a um os detritos. Dialoguei com quem para eles havia contribuído. Falei. Dei nome. Um gesto. Um som. Ao lixo dos sentimentos embrulha-o a espessura do silêncio que atormenta. Balsão de cobardia. Que mata, por asfixia, qualquer idílio com a vida. Isso é que não!

Publicado por Teresa C. às junho 21, 2006 06:56 AM

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