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junho 30, 2006
RUDIMENTOS DA CIÊNCIA

O estado cristalino dos corpos - vulgarmente desigando por sólido - caracteriza-se pelo ordenamento natural das partículas, pela massa e volume aproximadamente constantes, bem como pela consequente reduzida compressibilidade. Dietas e implantes são alguns dos factores que alteram a massa e o volume decorrente.
Publicado por Teresa C. às 06:50 PM | Comentários (2)
BON CHIC, BON GENRE

Elsie Russell
Poucos mistérios permanecem insondáveis nos comportamentos. Refiro dois: neles a (in)consciente concepção da parceira como substituta materna capaz de, convenientemente amestrada, eliminar dos bifes nervos e gorduras, outro é a idade das mulheres, mistério a deixar longe a insondabilidade do primeiro. E não tem a ver com balzaquianas, quarentonas, cinquentonas, terceira-idade ou velhice. Qualquer garota do 2º ano do básico tenderá a assumir ar crescido se o menino do 3º B a tira do sério e lhe arranca olhares febris. Uma adolescente somará anos ao bilhete de identidade à custa dum sorriso insinuante e do peito que jorra do top minguado. O porteiro da discoteca, de olho fixo nas redondezas firmes e pujantes, testemunhará por cima, por baixo, onde ela autorizar, ser mais que tempo da pequena embelezar a noite local.
Aos vinte e poucos já a idade é problema – de menos se a profissão requer experiência, de mais se o corpinho obedece às medidas do modelo e a pele perdeu a frescura dos quinze anos. Daí em diante é só a piorar. Eles encanecem por cima e por baixo, engravidam por comezainas sem preservativo dietético, a queda pneumática é consequente com a gravidade, e, não fosse a farda escura mais a gravata ao pendurão, e teríamos circulando nas ruas milhões de leitõezinhos prontos para churrasco, Na mesma altura, elas tentam congelar corpo e idade. Cuidam-se, à celulite e às rugas declaram guerra sem quartel, soltam o cabelo ao brilho do sol. E algumas têm charme. Encanto que só a cegueira conjugal pode ignorar. Os outros não – os leitõezinhos notam-nas no café matinal, no pagamento do parquímetro, no elevador da empresa.
Trágico para eles e elas é cumprir trinta e depois quarenta anos. Aos trinta, toca a rebate o sino biológico e a vida é muitas vezes um gigante ponto de interrogação. Nos quarenta, a profissão gera confiança, mas a miudagem, as obrigações, orientam a líbido para fora de portas. Aos cinquenta, diz quem sabe, foram-se receios, cresce o gozo da vida. Mentir na idade? Ingenuidade encantadora. Quem requer certidão de nascimento para ser feliz? É na esperança, na humildade de pouco ou nada saber, na curiosidade e gosto pela aprendizagem, na vontade de crescer, na sensualidade sábia, criativa, paciente, servida por um corpo sentido de elástico e cetim que a vida acontece. Preconceitos? Os anos enterraram-nos um a um. Profissão? Consolidada. Filhos? Criados e encaminhados. O passado? Tesouros que o presente acrescenta. Se dos anos mais vierem, merecem rasgado sorriso de quem os recebe.
Publicado por Teresa C. às 06:54 AM | Comentários (5)
junho 29, 2006
CORREIO SENTIMENTAL

Cordrey
«Encontra o homem que te chama gira, em vez de boa... Que te telefona de novo quando lhe desligas o telefone na cara... Que fica acordado só para te ver dormir... Espera pelo homem que beija a tua testa... Que fica de mãos dadas contigo a frente dos amigos... Espera pelo homem que te esta constantemente a lembrar o quanto significas para ele... e da sorte que ele tem em te ter... Espera por aquele que se vira para os amigos e diz..."É aquela..."»
Se abriste este e-mail, tens que o reenviar! Ou algo de mal ira acontecer-te e que te vai marcar para o resto da tua vida. Copia, cola e manda para toda a tua lista...e hoje à meia noite, o teu verdadeiro amor irá aperceber-se do quanto gosta de ti e irá telefonar-te ou mandar-te uma sms.
Amanha por volta das 14h42 algo de bom ira acontecer...pode ser em qualquer sítio... por isso prepara-te para o maior choque da tua vida!
Manda isto para 10 pessoas em 10 minutos...»
Copiei, colei e enviei para a maior lista que possuo – esta. Cedência inaudita, já que é o tipo de «carta» a que garanto destino único: lixo. Neste caso ponderei por duas razões – o estereótipo do homem que é suposto qualquer mulher desejar, e por constituir o tipo de escrito que só uma mulher perderia tempo a conceber. Mulherzinha ainda por cima, tão rasteira revela a habilidade – apela à superstição mais básica, à curiosidade que encaixa no estereótipo da mulher que se não quer homem para a vida ou é lésbica, promíscua, ou feia e perversa como o pecado mortal.
Homem é imperfeito e ainda bem, mas alguém com juízo imagina o Costa, o bandarilheiro de anedotas e tolices, capaz de perder um segundo a redigir ameaças em forma de predições quando a Sofia na secretária em frente inicia um cruzar das magníficas pernas que sobram da saia mínima? Claro que não! Ainda por cima descrevendo o tipo de homem que nem em pesadelo gajo que é gajo conceberia? E somente para satisfazer cabecinhas românticas do mulherio? Estereótipo feminino que delas cada vez menos eles alimentam – pisem eles o risco e sabem que sólida e elegante sandália pode deixá-los de nariz à banda para o resto da vida.
Da fama de autoras deste lixo electrónico não nos livramos. Ao descreverem, retratam o ideal de pilado e potencial marido. Comigo a descrição ruía em menos de um fósforo. Não olharia para pinto calçudo que ousasse chamar-me gira – sou mais que a embalagem, parvalhão! Que acumule não encaixar um genuíno não por resposta – em vez de insistente é obtuso. Lembrar-me diariamente quão especial sou teria imediata tradução: «se não a pregou, está para a pregar», mas que é um engano doce e ledo, lá isso é. Cereja na patética descrição: o tipo tem a supina lata de comunicar a outrem a decisão de me ter escolhido sem que je, moi, me tenha sido vista ou achada. Um descaro!
Publicado por Teresa C. às 09:09 AM | Comentários (3)
junho 28, 2006
RUDIMENTOS DA CIÊNCIA

Keith Garv
O trabalho pode ser a variação de energia induzida por um mecanisno imprevisível e incendiário que transforma energia potencial em energia cinética.
Publicado por Teresa C. às 04:31 PM | Comentários (4)
PÉ NA CHINELA

Autor que não foi possível identificar
Reconheçamos: os tempos andam difíceis, para os homens estão trágicos. Têm o drama dos pêlos que recuam na cabeça e encanecem nos genitais, embarrigam, as banhocas ficam flácidas, tudo, mesmo tudo, parece ficar perigosamente pendente. Têm pêlos a mais ou pêlos a menos. Podem ser brindados com a feliz notícia de irem ser pais independente da vontade ou de sobre o assunto terem sido sequer questionados. Elas engravidam, e eles de duas, uma: ou o vêm a saber assim elas vejam nisso utilidade, ou foram reserva de esperma à la carte, fresco e à borla.
E os tormentos? Essencialmente, três: ginásio, sensibilidade, peúgas e oportunidade. A sabedoria do momento é árdua - ser oportuno, agarrar o instante da viragem; uma fracção de segundo antes é cedo, outra depois é tarde. A humilhação do ginásio, as T-shirts denunciadoramente encharcadas em suor, a humilhação do olhar dela na intimidade, a condescendência alheia. Sensível demais, raiva a menos, palavrão, legitimar um suspiro traseiro quando dormem acompanhados? Ignorar, sendo abjecto o fedor? Assumir uma desculpa, ou brincar à conta disso? E é mesmo verdade, apetece descalçar as peúgas em último lugar, no Inverno sobremaneira, mas será razão para a eloquência de uma censura XXL no olhar dela? E a dispensa de algumas formalidades não é um dos fortes apelos da conjugalidade?
Lá por não virem no contrato, e deviam constar num rol estruturado ao critério dos nubentes, é obrigatório que os descuidos românticos sejam ossos roídos até ao tutano no dia do juízo final da relação? Ou entretêm, a par de outras memórias tão frívolas quanto essa, um serão de amigos à custa das risíveis manias do «ex». Pior é os factos serem mesmo cómicos quando imaginamos o desgraçado, que amavelmente abria os melhores vinhos para nos receber, a desempenhar o papel de desajustado de serviço. É como entrar pela fechadura, ver o que todos fazemos e, à custa de uma vítima, exorcizarmos em assembleia penitenciak as venialidades comuns.
Publicado por Teresa C. às 10:10 AM | Comentários (8)
junho 27, 2006
PEREGRINANDO

Janet Stewart
“Em Ipanema a diferença profunda é entre conhecer de vista e conhecer de bunda.” Exactamente o lugar insuportável para uma fuga a conhecimentos de bunda ou outros. Encontrei no mapa do tesouro brasileiro o «X» destacado: a Ilha Grande. Claude e a mulher Mara transformaram a sua casa de campo numa simpática pousada: pequena, três dos seis quartos com vista de mar e redes nas varandas.
Caminhar. Enveredar por trilhos que nunca vi. Anfitriões para os quais apeteça sorrir e deles e dos demais hóspedes ouvir estórias. Ir até à praia de Dois Rios, mar fora, e, no regresso falar de aventura, de beleza, de emoções. Sentimentos, não. Ficaram na penumbra da casa vazia, confinados ao silêncio e ao ar viciado. Ou respirando com os poucos verdes envasados. Esquecer. Fugir. Tudo o que me é difícil pela autodisciplina instalada desde a criação.
A maior ilha da baía de Angra dos Reis está ligada aos outros pedaços de terra sobrenadantes através dos barcos alugados ou das escunas. Fico-me, na fatia maior do tempo, pela mata atlântica onde posso regredir à fantasia de Robinson Crusoe. A área verde espessa e profunda dizem fazer lembrar São Tomé. Não conhecendo, fico impossibilidade de legitimar a comparação. Praias, montanhas, cachoeiras, rudimentos da civilização. Carros circulando somente os dos bombeiros e por necessidade maior.
Se pensei? Meditei nas inflexões que deixei e devia tomar? Decisões? Nem uma! Fruí do gozo da pureza, da naturalidade das gentes e da minha com elas, da ausência de ansiedade, de dor-de-cabeça, de sorriso forçado ou fugido. Afastei-me de tudo o que não quero ser no meu habitat natural e, vezes demais sou. Larguei sonhos asfixiados, verdades roubadas, ilusões mortas, sonhos desfeitos. Regresso com os dizeres da Lopes Mendes: “Nesta ilha nada se tira a não ser fotografia, nada se deixa a não ser pegada, nada se mata a não ser o tempo.”
Publicado por Teresa C. às 06:37 AM | Comentários (5)
junho 26, 2006
TELEGRAMA

Milo Manara
«Todos os nossos actos deixam vestígios, uns sombrios, outros luminosos no nosso passado. Todos os nossos actos nesta vida se assemelham ao andamento de um réptil na areia e deixam rasto.»
Alexandre Dumas
Publicado por Teresa C. às 05:46 PM | Comentários (7)
RALAÇÕES SENTIMENTAIS

Erica Chappuis
Não havia modo de rugir. Suspirava, gemia baixinho, as mais das vezes nem isso. Ele, que se limitava ao estertor final traduzido por um revirar de olhos ou por suspiro profundo e vadio, sentia falta de incentivo. Se ela apreciasse do sexo a performance dele, debitaria rugidos e gemidos e suspiros e “sim, sim, agora, não pares, continua, mais depressa, fundo, mais fundo, ai... ai...., humm... tão bom... vim-me tanto, seu garanhão... que homem, que prodígio, pára, pára por que se não continuo e não aguento mais.” E ele continua, e apressa e afunda e abranda e não pára por que a que a quer desvairada para depois se convencer que orgasmos múltiplos femininos são especialidade dele. E não são. Nem foi brilhante. Mas pela mulher é sabida a excitação sonora estabelecer reforço positivo ao ânimo masculino. Problema: Já a Meg Ryan sabia o modus operandi e conseguia simular numa pacata refeição um êxtase sexual por via da palavreado gemido e decibéis.
Como fazê-los entender que mulheres em pleno fruição de honestos orgasmos, raramente os traduzem pela banda sonora convencionada, tão ocupadas estão em não perderem pitada do estado de bem-aventurança em que o próprio mérito e o do parceiro as dissolveram? E por que fazem eles silêncio ou discreto ênfase, quando à mulher é solicitado fogo-de-artifício e sonoridade fogueteira de pirotecnia do melhor? Estando nós num fora-do-mundo paradisíaco, por que haveríamos de aterrar em estertores de meia-tigela?
Lamentável é serem tão naïfs que muda o século e permanecem convencidos que trovejar é indício e estímulo. Quando aprenderão ser truque ancestral para acabar um tira-teimas que ameaça enfastiar? Nada como despachar a função ou simular terminá-la quando eles não atam nem desatam o que mais parece missão impossível do que gratificante crescendo? E depois, será que temos de ensinar mesmo tudo? A nada chegam sozinhos? E chegando, para que precisam de nós? Não que dispensemos a função, por si excitante, de os acompanhar até ao orgasmo almejado, mas lá voltamos nós ao artesanato, quando deles esperávamos a riqueza do arco-íris em conjunto trabalhado. Santa paciência...
Publicado por Teresa C. às 06:52 AM | Comentários (7)
junho 25, 2006
TRÁFEGO

Stefano Pasini
Por ser mulher e não ter há um ror de anos qualquer acidente como condutora, mereci de conhecida companhia de seguros bónus especial. Benesse nada despicienda para quem arranja sempre uns tostões para umas viagens à la carte, ou, sendo a fadiga rainha, enfiar-me num avião para destino europeu que do fim de semana faça a diferença. Mala sempre à mão, necéssaire fornecido do essencial, o básico para dormir e pronto. Conhecido o destino, um dos mapas de colecção serve, e aí vou sem culpa ou pecado. Feliz como sininho de badalo saltitão.
Dá-se o caso de num regresso do ginásio me ter caído no cansaço da musculatura o quebranto da Wave e do Pilates. Acabara massagem de creme na pele, dedos dos pés acarinhados, rosto asseado e perfeito de hidratação. O cabelo encharcado deslizava nas costas, os calções mínimos não prezavam modéstia.
Virava, mansamente, para o portão da garagem, pisca sinalizando a opção, pensamento à velocidade do Tai Chi, quando uma carrinha horrorosa de grande, cheia de família enfeitada com bandeiras nacionais, os seres de idade maior tão largos quanto compridos, os homens de T-shirt de cavas revelando pele de leitão pré-churrasco particularmente enjoativa me abalroou. Eu pretendia a declaração amigável, impunha o dono da carrinha, para salvaguarda da menina dos olhos dele, que me desse por culpada. A ginasta, moi même, a própria, alvo de suspeitos olhares das esposas e de enviesadas lubricidades dos respectivos, insistia no papelucho completo e assinado, as culpas ver-se-iam depois. Após laboriosa conversa, consegui a proeza de serenar o cônjuge mais novo e amansar com infinita paciência a fera da moçoila que com ele partilhava a aliança e os gritos-apelo: “João Rodrigo, vem já para aqui, tás a ouvir?” Claro que ouvia, mas moita-carrasco, nem pelo nome dava.
Corria tempo demais, quando constatei reclamar alimento e sossego. Da culpa não me livrando, melhor era, portas adentro, um espumante gelado e morangos nem verdes ou molengos – no ponto. Assinei tudo, da minha boca só saiu “sim, sim, sim!”, “pois claro, que disparate o meu,” “distracção imperdoável,” mas “tudo se resolve, podem partir descansados.” E partiram. Desapareceram. Foram à janta que se fazia tarde. E eu para casa. Queria lá saber da minha lata motorizada! Bebericando espumante, caviar de moderado acre comprado no excelente Corte Inglês, entremeando com os sobreditos morangos, mandei às malvas bónus, seguros e latas. Com veículo de substituição “tasse bem, tasse mesmo muito bem!” E de caminho, estão na viatura umas quantas mossas que me dão arranjo anular. Sendo a franquia certa...
Publicado por Teresa C. às 12:31 PM | Comentários (3)
junho 24, 2006
O ELOGIO DA PREGUIÇA

Autor que não foi possível identificar
“Se Arquimedes não estivesse descontraído a tomar um bom banho de espuma e a brincar com o seu patinho-de-borracha, nunca teria parado para pensar no que era aquela força que o queria expulsar de lá.”

Autor que não foi possível identificar
“ Se Newton apanhou com uma maçã na cabeça e se pôs a pensar na gravidade foi só porque estava debaixo de uma árvore a descansar.”

Larisa Vinitzkaya
“… Os que cultivam a preguiça têm a paz de espírito necessária ao florescer de boas ideias.”
“... a preguiça deve imediatamente ser retirada da lista dos pecados mortais e substituída por um «texto para patrões»”
Extractos de um texto de Isabel Stilwell
Publicado por Teresa C. às 12:55 PM | Comentários (4)
junho 23, 2006
RAPIDINHA

George Betty
“O sol é como aqueles amantes que nos atormentam. Se por um lado nos dá cabo da saúde, também não podemos viver sem ele. Seja.”
Publicado por Teresa C. às 05:20 PM | Comentários (0)
ADAGI(and)O

Blake Flynn
PuTativos culpados. Presumidos vigaristas. Supostos fingidores. Alegado traidor. Conjecturado sonhador. Lealdade hipotética. Honestidade fictícia. Duplo de si próprio. Delicodoçuras. Hipocrisias. (Des)valores. Que o masculino das preposições não elimine as mulheres destas verrugas do espírito. Quando confrontadas falsidades alheias por fundamentadas razões, percentagem esmagadora nega, com escândalo, a acusação. Homens ou mulheres confrontadas com provadíssimas provas de infidelidade, jurarão inocência e terão o supino descaro de argumentar que alegação sem prova é sino sem badalo — Allegatio sine probatione veluti campana sine pistillo est. E de tanta mentira fardada de verdade, na boca do mentiroso o certo se faz duvidoso - Mendaci ni verum quidem dicenti creditur.
Das arritmias da relação, os sintomas são, inicialmente, ocasionais. Nós tagarelas, eles ouvintes ou guardadores que (re)contam para dentro espirituais rebanhos, enquanto descrevemos, vívida, a manhã fabulosa na feira de Cascais. Sorriem fora de tempo, assentem quando era consequente a negação, murmuram neutralidade amável – “queres outro café?”-, e esticada a nossa conversa (monólogo?) até à exaustão, vem á memória a frase sábia da avó Maria Augusta: “guarda-te de homem que não fala e de cão que não ladra. — Ira quae tegitur nocet.
Futurar ventura que sem esforço no regaço poise, é desassisado. As vidas felizes são dos que preservam metas simples e a laboriosa esperança de possuir energia e saúde. Determinam objectivos, moldam-se e moldam-nos, sem que desistir acuda à mente. E os que o melhor de si derramam na obra feita, confirmam que amores são obras e não palavras. — Re opitulandum, non verbis. Não fosse o temor de quanto maior é a ventura, menos ela é segura! — Nemo infeliciTati propinquior, quam nimis felix... Mas, quem acredita em adágios?
Publicado por Teresa C. às 06:56 AM | Comentários (3)
junho 22, 2006
CORTE E COSTURA

Johan Ekkel
Gosto de futebol. Ainda mais quando o homem da casa, caso exista, vibre e assista aos desafios no sofá próprio ou de casa amiga, quiçá no estádio, para a posteriori me permitir dar uma de companheira clássica, arrastando-o para a placidez horizontal, chinelos junto aos pés e bebida ou uma paparoca rápida que reconforte o estômago acidulado pela emoção. Tudo o que retribua os noventa minutos só para mim. Mas não nego: mimar quem gosto é prazer indispensável pelas piores razões: sentir-me uma querida, uma fofa, uma doçura, beijocar, afagar e ser, por tudo isto, chata. Muito chata. "Não há qualidade sem defeito associado" dizia a Tia Rosinha que era doce, querida, fofa, doce e nunca chata. Esta parte não me legou na herança, do resto tenho vestígios. Adiante.
Os alemães devem nascer perfilados como soldadinhos. Empenhados no melhor e no pior. Elas nascem lindas, eles insípidos. Após o primeiro filho, elas adquirem a forma crónica de salsicha. Eles, insípidos à mesma. Vai daí, as prostitutas nativas têm carreira curta. Em tempo de campeonato precaveram-se e importaram 40 000 das mais variegadas nacionalidades. As lusas, morenaças, latinas, danadas para a brincadeira, seios fartos, cabelos negros aos caracóis devem ter alta cotação nos anémicos nórdicos, bifes, eslavos e alemães. Alojaram as entertainers em bordeis. Nada de especial. Problema: proibido o consumo alcoólico. Resumindo: o álcool é perigoso, o sexo não.
Aos jogadores não reservo apreço gratuito. Ou marcam golos ou não, sejam luso-seleccionados ou do clube do coração. O Eusébio é um fulano simpático, Maradona é um adicto a tudo que o distraia da frágil cabeça, o Pelé é um idoso escorreito. Parece que todos possuíam dom raro: visão periférica de amplitude anormal. Depois, aprecio as frases dos comentadores desportivos: “fez-se a ele”, “meteu-se debaixo dele”, “meteu mão”, “sofreu pressão”, tudo muito ambíguo, suspeito, vindo de homens sensíveis ao rótulo gay .
Frequentemente, a arte da bola confere aos jogadores algum espaço livre mental,porém a musculatura estimula mulheres adictas a doses combativas de testosterona que as façam arquejar com gosto. Manias... Admito as mordomias, os batedores a varrer caminho, as molhadas de fãs. Ícones publicitários é que não! Há lá maior, infidelidade, instabilidade que a dos peões da bola? Make money, real money, big money!, que a vida acaba amanhã. Fosse puto dotado e em vez de colégio-beta-do-melhor-com-invejável-posição-no-ranking-nacional-dos-excelentes-explicadores, implorava inscrição numa escolinha de futebol. A probalidade do sucesso é ínfima, mas é o rácio diferente em qualquer outra profissão? Assim como assim, operador de caixa num supermercado é sempre necessário. Para advogados ou iludidos do futebol.
Publicado por Teresa C. às 08:41 AM | Comentários (3)
junho 21, 2006
EFEMÉRIDE

Peter Driben
Ah rapazes, aquilo é que foi jogar! Ainda há quem esteja "enjoado de futebol"! Um Pepsamar cura a azia e evita o enjoo. Estando nas lonas compre o genérico - vai dar ao mesmo.
Publicado por Teresa C. às 05:22 PM | Comentários (3)
(IN)CONFIDÊNCIAS

Bryce Cameron
Ensinaram-me a ser boazinha. Não meter os dedos nos potes da marmelada arrefecida. Não fazer birras. Não ser pedinchona. Que oferecer é uma delicadeza e aceitar uma estupidez. Ser compostinha. Por aí fora. Muitos preceitos mais. O problema em ser boazinha era simples – por mais que tentasse, estivesse quase, a um passinho, jamais atingia a bondade expectável. Retaliei. “Ai é?, pois daqui em diante vou parecer boazinha que baste para poder ser mázinha quando me aprouver.” Se o bem pensei, pior o fiz – ser mázinha dava-me uma azia íntima de convívio insuportável. E fazia lixo cá dentro. Tanto lixo... De revoltas, injustiças, discordâncias, humilhações e cobardias. Lixo que não sabia onde guardar e por isso carregava do acordar ao adormecer. Até de noite o lixo tentava diabolizar-me o sono, só levado de vencida pela pedra que eu era ao dormir. Era e sou.
O lixo dos sentimentos é pegajoso. Seboso. Corrosivo. Por ele dizia sim se o apetite era o não. Sorridente quando o coração doía. Boazinha, generosa, se sentar-me no último degrau do sótão era modo de suavizar a tristeza. Já crescida, falava do tempo. Sorria para gente que não queria. Tinha de ser cordial - a palavra adulta para boazinha - bem-comportada. E o lixo comigo. A pesar. Pingando unto com nome – hipocrisia -, mesmo que o senso comum lhe chamasse simpatia. Até um dia.
Separei em dois o lixo – reciclável e inútil. Ao último joguei-o fora. Num ápice. Assim como deixei de fumar. Sem dor ou mágoa. Do primeiro analisei um a um os detritos. Dialoguei com quem para eles havia contribuído. Falei. Dei nome. Um gesto. Um som. Ao lixo dos sentimentos embrulha-o a espessura do silêncio que atormenta. Balsão de cobardia. Que mata, por asfixia, qualquer idílio com a vida. Isso é que não!
Publicado por Teresa C. às 06:56 AM | Comentários (0)
junho 20, 2006
BAGAS DE SABUGUEIRO

Beryl Cook
Homus Lusitanus - Zé Povinho Desistente por constituição, resistente apesar de tudo. De todos os poderes e poderosos, dos monárquicos aos republicanos, do ditador aos democratas, de todos carregou albardas e foi literal ou metaforicamente açaimado.
O Zé Povinho descalçou as botifarras rurais, trocou o colete por blusão, quiçá um casaco, mas onde conta, por dentro, mantém-se tal qual foi concebido pelo Rafael Bordalo e divulgado nas páginas da Lanterna Mágica, corria o mês de Junho de 1875. Continua um Zé-Ninguém. Um Zé-Povinho-Pagante. Para trás ficou o Zé-Pacóvio, o Zé-Pragmático e sem ponta de Metafísica. Graças deuses, por esta prova de misericórdia. Os meta-politicos que debitam meta-discursos depois transcritos na meta-linguagem dos meta-blogues e jornais através dos meta-comentadores e lidos por meta-entendedores é farta vilanagem que só apetece mandar à meta-merda.
Podemos não nos reconhecer no visual rústico do Zé Povinho, mas no que ele subentende estamos lá inteirinhos: apáticos, inertes, conformistas, desconfiados do conhecimento e do novo que altere o estabelecido, arredios da cultura, da cidadania atenta, egoístas e borrifando-nos para causas humanitárias – Timor foi excepção que a culpa explicou. Somos cidadãos de mãos nos bolsos. E quem as mãos assim protege nada faz: pactua e aceita o que vier. Não sorrimos por genuína vontade. Gargalhamos pouco – o nosso riso é triste, sulfúrico, desistente, acomodado.
O Zé suburbanizou-se. Enche os acessos a Lisboa orgulhosamente só na viatura, insano ao volante, telemóvel colado ao ouvido. Julga-se civilizado mas é um labrego básico, rude, agressivo, incapaz da generosidade grandiosa que recusa reconhecimento. Odeia a utopia. Ignora a honestidade.
Se quisermos encontrar o Zé Povinho que representa o melhor de nós, ele ainda existe. Está no pastor que nas faldas serranas pastoreia o seu rebanho e medita na existência de horizontes vastos e na perfeição natural. Está nos idosos de aldeias abandonadas que da solidariedade fazem os dias e da sabedoria paciente o pecúlio. Está naqueles que habitando as urbes selvagens têm raízes no subsolo fértil que das sementes boas germinam qualidades. O Zé Povinho existe nos puros. Parvos, nunca.
Publicado por Teresa C. às 06:26 AM | Comentários (7)
junho 19, 2006
DÚVIDA EPISTEMOLÓGICA

Sorayama
Porque incomoda ver publicadas por uma mulher heterossexual imagens ousadas de corpos predominantemente femininos e desnudos?
A – Mero mau gosto;
B – Obsessão intelectual não tratada.
C – Provocação frívola.
D – Engendrar nas mentes masculinas uma concepção Tatiana de arrojo sexual ilimitado.
E - “Olha p’ra mim que sou melhor que elas todas juntas!”
F – Apreço pelo belo, ainda mais sendo humano.
G – Apetite.
Publicado por Teresa C. às 05:00 PM | Comentários (5)
TRETAS ESOTÉRICAS

Sorayama
“Porquê Senhor permaneceste calado? Onde estava Deus naqueles dias?” Estas foras as interrogações que finalmente um Papa ousou verbalizar no campo de concentração polaco de Auschwitz. É sinal dos tempos, este testemunho do mais alto dignatário da Igreja Católica, o tal que é suposto ter o dom da infalibilidade, que assim, de uma penada, assumiu como verdade o que os homens em geral, e os católicos em particular, há muito tempo pensam. Nas adversidades, nas calamidades que rasgam o a vida de milhares de humanos por esse planeta fora, das duas uma: ou Deus se distraiu ou a cruel prova de sofrimento aos olhos da fé tem em vista, no momento oculto, um futuro melhorado para a humanidade.
Mas o que de sobremaneira me interroga é a unidade divina e a disparidade decisória. Admitindo que Deus existe e é uno, porém concebido de maneiras distintas consoante as religiões, o católico Cristo esteve no seu melhor de atenção vigilante e foi jogador invisível ajudando a nossa selecção, enquanto Maomé virou as costas ao Mundial, em particular a um frente-a-frente com Jesus Cristo Redentor. Ora, assim, a vitória portuguesa perde graça. Afinal, mais do que mérito desportivo, o cerne da questão esteve na atenção divina ou falta dela. De Maomé, pelo falado não aprecia divertimentos, salvos as divinas orgias dos bombistas com incontáveis virgens celestes. Só mesmo lá, de resto, existirão imaculadas em idade legal e com abundância para tantos suicidas assassinos.
Cá para mim, Maomé zangou-se com tanto dissidente iraniano espalhado pela Europa, bem acompanhados por iranianas ocidentalizadas que o mesmo é dizer muito pouco vestidas para os preceitos do Irão. Já agora, certificar-se-ão os que por via das bombas decidem entregar a sua vida ao criador que as virgens paradisíacas não cobrem o corpinho das fantasiadas delícias com bourka? Para tamanho sacrifício terrestre, só em pelota mesmo!
Publicado por Teresa C. às 08:57 AM | Comentários (3)
junho 18, 2006
TROCAS E BALDROCAS

Olivia de Berardinis
Recordo o comovente empenho das nossas mães vigiando a cozinha para que bolinhos secos e scones acompanhassem o chá servido às convivas no intervalo das reuniões Tupperware. Amigas ou somente conhecidas embeveciam-se com a variedade multicolor e funcional das maravilhosas caixas de plástico revolucionárias nas conservação dos alimentos refrigerados. Tamanhos e formas para todas as funções; plástico de boa qualidade nada tendo a ver com as reles imitações do presente. No compra-não-compra, ficava em dia a conversa e marcava-se a próxima vítima, digo, a próxima reunião. E por aí fora sempre assim.
O presente trouxe as reuniões Tuppersex. Casas de amigas, número de mulheres bem dispostas e de criatividade sem carecer de prova, e aí as temos felizes e contentes na opção de compra entre um vibrador de banho em forma de morango e que ninguém irá supor a verdadeira função, o cinto de latex para estimulação do clítoris em forma de borboleta e comandado para regular a vibração, os patinhos de borracha e o bâton que não exibem a agressividade visual de um vibrador.
Não sendo «piquena» dada a artifícios, confesso ter sido impagável a diversão. Dos vinte aos sessenta anos, todas demonstraram verve oportuna e receptividade à altura. Adivinhem quem achou divertido ser anfitriã da próxima reunião? Afinal, a tradição familiar merece continuidade.
Publicado por Teresa C. às 12:26 PM | Comentários (8)
junho 17, 2006
EFEMÉRIDE

Alain Aslan
Portugal no coração!
Publicado por Teresa C. às 08:58 PM | Comentários (2)
GENÉRICOS

Emily Zasada
“Não se é um país a sério a menos que se tenha algum tipo de equipa de futebol ou algumas armas nucleares, mas no fim de tudo, o que se precisa é uma cerveja”
Frase provocatória de Frank Zappa fundamentada, porém, no indesmentido facto da cerveja estar para o rock e os grandes festivais de verão como a água-benta está para a missa.
E na frase de Zappa cabe o reforço da identidade colectiva através de uma marca de cerveja que convoque o consenso nacional. Os irlandeses têm a Guiness, os holandeses a Heineken, a Carlsebrgen para os dinamerqueses, a Foster’s para os australianos e por aí fora até voltear o mundo e chegar à terra lusa, sentindo encher a boca e depois escorrer pela garganta o acre néctar da Sagres ou da Super Bock. Implacável, a cerveja combate o calor e a sede. Gelada, recompõe os corpos. Doseada, aniquila sombras pensadas. Encostada à face, é desejo o arrepio sentido. Cerveja - a espuma dos dias.
Publicado por Teresa C. às 12:35 PM | Comentários (6)
junho 16, 2006
TELEGRAMA

«Quando não temos um inimigo dentro de nós, os inimigos exteriores não nos atingem.»
Provérbio Africano
Publicado por Teresa C. às 09:13 PM | Comentários (2)
INTIMIDADES

Douglas Hofman
Sete mandamentos a lembrar quando o nosso amor vai de viagem e ficamos sozinhas:
- é normal que quem fique estranhe mais do que aquele que parte; são de evitar especulações malignas sobre quão empenhada e de que género será a ocupação dele após o jantar;
- estabelecer uma hora para telefonar de forma a evitar desesperos ou telefonemas de cinco em cinco minutos. A ela cumprirá o aumento dos intervalos entre telefonemas se não quer ser arrasada pela fúria do furacão;
- não telefonar àqueles de quem sabe ser cordialidade esforçada a relação dele. é uma vingança miúda de quem tem a cabeça feita em papa;
- aproveitar para fazer todas as pequenas coisas que só a nós dão prazer. Sintoma perverso é idealizá-las e apetecê-las quando fora do alcance, e mal se propiciam condições e o momento, o desejo desaparecer – pffff... um ar que lhe deu!
- atender às diferenças horárias e não lhe ligar às cinco da manhã locais apenas para verificar se a voz está ensonada ou desperta como a de um galaró;
- recear que algures num trajecto na big city dê de caras com a mulher da vida dele. Encare-se o facto pela positiva: foi conhecido a tempo o equívoco e a época da caça, para quem tal desporto faz o género, está sempre aberta. Cuidado é com as coutadas privadas...
Nota: adaptação livre de uma leitura antiga cujo autor nem recordo (suspeito que uma mulher).
Publicado por Teresa C. às 08:47 AM | Comentários (0)
junho 15, 2006
RAPIDINHAS

Sorayama
No Kama Sutra escrito por um padre brâmane do século IV a. C., a parte dedicada ao sexo é só um dos capítulos deste manual de gestão doméstica que, a par de posições eróticas ensina a coser botões e outras prendas de lar.
Óbvio é não ter o santo homem testado as posições ensinadas – o seu recato era inquestionável -, ou constaria a impossibilidade de as passar à prática. Como especulação teórica é obra de arte, falhou foi a componente experimental. Helas!
Publicado por Teresa C. às 12:13 PM | Comentários (3)
junho 14, 2006
CORREIO SENTIMENTAL

Dave Nestler
«Estou farta! Há dez longos anos casei com o homem que amava e veio a tornar-se o ser mais semelhante a um orangotango do Bornéu que é possível conceber. Não tem maneiras, não se cuida, ignora raciocínios coerentes, digere frigoríficos atestados, arrota por cima e por baixo. Fartei, cansei, quero o divórcio!»
Sou solidária com o seu cansaço, com o desespero de transportar, cozinhar, atascar o estômago rubicundo de um ser que por falar entende rugir, por diálogo o “pra mim tásse bem”, mesmo que a frase tenha sido “vê lá se queres que te pendure na corda da roupa até o sol fazer de ti figo seco!”. A televisão, a play sTation, os desportivos deixam-nos num estado abúlico comparável a electrodoméstico em tarefa comandada. Um tédio. Um ódio a presença daquele mostrengo no espaço partilhado.
Um divórcio equilibrado e amigável é uma excelente solução. Porém, desengane-se o coração liberto e pronto a saltitar de polonizador em polonizador ao julgar que o pesadelo teve fim. Buscando homem, ao fim de uns tempos de convivência comum, o orangotango, outro, claro!, está de novo sentado no nosso sofá, frente à nossa televisão, ruminando os nossos acepipes e deixando o jornal num feixe de papel usado sem ínfimo vestígio de consideração por aquela que o lerá a seguir.
Consciente da modéstia do meu curriculum neste particular, direi que o divórcio é justificado se for desejo infinito a solidão portas adentro, aqui e ali entrecortada por amigos do peito, um ou outro do coração, por que não aquele que a química escolheu? Tudo com regras polidamente transmitidas: permanência máxima de três quartos do dia para a vez primeira, nas seguintes o risco poderá estender-se a dois dias. Pesando a solidão, não bastando a companhia que a própria à própria faz, fica o «viver-com» ou o casamento como solução. Nesta conformidade, deliberar não «ver» orangotango algum e no lugar dele sentir o homem por quem se apaixonou e a fez feliz, não parece má ideia como medida profiláctica. Este é quem se alonga no sofá; o outro fabricou-o uma mulher desiludida. Desistente. Dimuída. Deprimida. Que recusa ser.
Publicado por Teresa C. às 10:12 AM | Comentários (5)
junho 13, 2006
LOOK

Soarayama
Se quer saber como lida com a sua própria sexualidade tem remédio simples e eficaz: dirija-se ao quiosque ou tabacaria mais próxima e pegue num exemplar da Playboy. O embaraço, a indiferença ou o à-vontade como faz o gesto, revelam alguns dos tabus ou da desenvoltura no modo de lidar com este assunto. E desengane-se quem julga uns tristes recalcados os leitores desta e outras revistas de semelhante teor – são indivíduos de géneros diversos, mulheres também, que admiram a superior arte fotográfica que subjaz ao erotismo exposto.
Hugh Hefner, o dono do império Playboy é a prova acabada de quão bem fazem as mulheres à saúde de um homem. Playmates e Viagra e aí temos um octagenário que preserva qualidades magnéticas a que as mulheres que o rodeiam são particularmente sensíveis – poder, estatuto social e selo de beleza certificado. As bunnies são Barbies em versão glamour e com cartucheiras bem munidas. O princípio estético é o linear – boneca ao alcance da fantasia e da mecânica doméstica.
Numa coisa o Grande Coelho deve ter razão: devidamente recomendado pelo médico, o Viagra não parece ter efeitos nocivos. Pois se o homem está vivo, em boa forma e é do químico inseparável... Desafortunados como os portugueses se julgam, somente espero não encherem ainda mais as de si entupidas urgências hospitalares. Bem bastam os eles e elas que fazem fila com alhos franceses, cenouras, garrafas, beringelas, bananas e abacates entrados e não saídas dos orifícios pudendos.
Publicado por Teresa C. às 01:27 PM | Comentários (4)
junho 12, 2006
RAPIDINHA

Corinne
Um homem é perdoado se julgar Marte um restaurante do Bairro Alto, se por TGV significar Trem a Grande Vapor, ou se julgar Cap Ferrat um ilustre militar francês. Na actualidade, socialmente imperdoável é ignorar a mais recôndita anatomia genital e que a um input intenso, corresponde um out-put de 4,4 nascimentos por segundo.
Publicado por Teresa C. às 05:33 PM | Comentários (0)
BAGAS DE SABUGUEIRO

James Knowles
Escarafunchando o negrume do pior que possuímos, a desconfiança nas qualidades próprias e alheias é mal menor. Como se a alma portuguesa fosse azinheira onde a qualquer momento pode surgir a Senhora das Aparições e tudo o mais fosse pechisbeque. De facto, uma azinheira nem adianta nem atrasa, não embeleza ou acresce energia. É árvore ressequida e modesta. Uns espinhaços e uma folha de bicos salientes impõem o tom dolorido e os queixumes que exorcizamos nas filas dos transportes, nas salas de espera dos centros de saúde e em qualquer meia hora de viagem de comboio. Entremeados com o penar individual e colectivo, existem arrroubos místicos que o passamento da Senhora Dona Amália, da Irmã Lúcia e do mui querido Papa João Paulo II, em uníssono arrebatam multidões. O mesmo nas peregrinações comemorativas das aparições na divina azinheira. Fazemos e cumprimos promessas, corpos ajoelhados, sofridos, fé supersticiosa cumprindo o objectivo: devolver esperança à vida na forma de recompensa no além. Não matamos por um punhado de virgens celestes, mas sofremos e fazemos sofrer por um esquadrão delas e de santos perfilados cantando loas aos abençoados. Os outros, os malditos, danam-se no Inferno.
Partilham a azinheira e estimulam empolgantes devoções populares, personalidades em contextos de emoção excepcional – os magos da bola, o Tony Carreira, Cavaco e Silva no período eleitoral, o Sócrates como pólo de um bem definido ódio nacional, o Pinto da Costa e o Alberto João, o Major Valentim e a Fátima Felgueiras. Perante modelos tão contraditórios, sofremos de doença bipolar. Oscilamos entre picos de euforia e ilimitada (des)confiança no que somos, no que valemos, nos feitos expectáveis e no espírito sabujo de quem à azinheira chama má-sorte.
Os portugueses vivem com mais de cem mil milhões de euros emprestados. Estamos nas lonas e cegos. O crédito mal parado diminui não por estarem as famílias mais cumpridoras no cumprimento dos pagamentos, mas porque os bancos acresceram rigor e vigilância. E se Portugal subiu dois lugares na lista dos países mais competitivos, classifica-se agora no pouco honroso 43º lugar – atrás somente a Eslovénia e da Lombardia. Razão? – A azinheira! O investimento estrangeiro dá-se bem com a estabilidade social, ausência de conflitos raciais e aceitação de mão-de-obra imigrante. A desesperança é pantanosa e, agitando águas pantanosas, movem-se os jacarés. Para safar deste triste fado também serve a azinheira – eles de bocarras abertas cá em baixo e nós dependurados nos ramos. Pura sorte!
Publicado por Teresa C. às 06:38 AM | Comentários (0)
junho 11, 2006
PÉ NA CHINELA

Alain Aslan
Amuar, bater o pé, retaliar está fora de questão. Correligionárias: homem preserva a condição de puto até bater a bota, entregando, finalmente, a alma em boas mãos (ao criador). Amigalhaços, jotaganas, copos na mão e muitos mais entornados pelas goelas, vernáculo, mão danadas para a brincadeira, gajas, fácies primitivo e visual a condizer integram o que mais próximo de paraíso se lhes depara na terra. Farras assim valem por ror de laboriosos orgasmos, salvo se a parceira fosse uma de duas à escala nacional: Merche Romero ou a Soraia Chaves. E nem era pela «órgia» em si mesma, mas pela celebridade e bondade dos cromos adicionados à colecção – “olha p’ra estas que me vieram parar às mãos. Pá, meia dúzia de tretas e estavam no «papo». Sou do carago!” Dão imagem de discretos, galantes, cavalheiros, mas os «profissionais» são fita: gabarolas até ao tutano, emudecendo e dando-o-fora se o respectivo da engatada os ameaça deixar com o nariz abaixo da queixada.
O Campeonato do Mundo, a partir de hoje, é sempre a aquecer. Não lamuriemos, nós, mulheres férteis em recursos, as estátuas masculinas grudadas frente à televisão. Toca a aproveitar o estado catatónico deles e pôr em dia o adiado: projectos e desejos que nos povoam a realíssima gana. Jantar com amigos saudosos, organizar serões de gineceu, outros equivalendo às malfadadas reuniões e jantares e debates informais deles, noite e perfume dentro. Com amigos do peito, curtidos e com humor esticar a noite no Buda ou nos Alunos de Apolo que vão dar quase ao mesmo.
Bebidas geladas e comida doseada para alarves, copos e pratos de uso em número suficiente, garantem o paraíso deles. O nosso, mais elaborado, garante prazer exponenciado por sabermos os nossos queridos satisfeitos. E nós sem eles.
Publicado por Teresa C. às 12:14 PM | Comentários (4)
junho 10, 2006
EFEMÉRIDE
DIA DA RAÇA

Barbara Nahmad
«Está pois a pena de morte abolida nesse nobre Portugal, pequeno povo que tem uma grande história (...) Felicito a vossa nação. Portugal dá o exemplo à Europa. Desfrutai de antemão essa imensa glória. A Europa imitará Portugal. Morte à morte! Guerra à guerra! Viva a vida! Ódio ao ódio. A liberdade é uma cidade imensa da qual todos somos concidadãos.»
Victor Hugo, 1876, a propósito da abolição da pena de morte em Portugal (o primeiro país europeu a fazê-lo).
Publicado por Teresa C. às 01:44 PM | Comentários (2)
junho 09, 2006
LITTLE PEOPLE

Lynda Young
Soube das fadas aconchegada no colo, cabeça recolhida na perfeita curva do pescoço – ainda hoje elegante e suave – da mãe ao ler-me histórias. Livros de capa dura, de cores brilhantes e vivas, papel de boa qualidade entremeado por rabiscos negros. Descodificá-los era fascínio. O universo das fadas por aí residia. Tinha-as por pequenas, diligentes, bondosas e justas, não fossem raras fadas-negras quebrarem a beatitude. As asas de libélula foram responsáveis pelo descrédito que lhes dei – seres muito pequenos, mas com formas e estrutura de gente. Asas de insecto? Contrasenso! Ressalvava a Fada Sininho que era a minha perdição.
Ao crescer e ao aprender da ciência os rudimentos, já havia remetido as fadas ao mesmo sítio onírico onde as aguardavam bonecas reais como gente, com nome, família, infância e estudos. Tudo a minha fantasia fabricava, deslustrando as fadas a comparação com as criaturinhas doces, gentis e protectoras – os meus brinquedos sem textura, olfacto, invisíveis a olho nu ou a microscópio. E, saberia mais tarde, Bachelard atribuía-me razão: “Desde que se sonhe ou pense no mundo da miniatura, tudo aumenta. Os fenómenos do infinitamente pequenos adquirem uma dimensão cósmica.”
O ser humano é maioritariamente vazio. Custa a crer ao depararmo-nos com o tijolo de que parecem feitas as gentes - compactas, susceptíveis de serem agarradas e palpadas. Falaciosa impressão – vácuo, distâncias brutais entre as partículas constituintes. Moléculas ou átomos justapostos? Impossível por via da repulsão eléctrica, dirão as fadas em coro apoiadas pelos liliputianos tão pequenos quanto elas. Os gigantes, nós!, de fora para dentro, avaliando, afirmaremos convictos: mais que justaposição, unicidade.
Da relatividade da matéria e do tempo inferi a do bem e do mal. Do feio e do bonito. Do amor e do ódio. A verdade da mentira. O som do silêncio. A sombra da luz. A perversidade da bondade. A beleza de uma imagem disforme. A subjectividade do que se ouve e vê. De ser quem sou.
Publicado por Teresa C. às 11:03 AM | Comentários (0)
junho 08, 2006
TROCAS E BALDROCAS

Stefan Pokorny
Darwin tinha razão: somos primos dos macacos. Poderá ser num qualquer «ésimo» grau,nem por isso menos primos; e lá diz o chiste que quanto mais prima mais se lhe arrima. Será?
Pêlos. Muitos pêlos. Menor assiduidade da funcionária e foi vê-los proliferar, reproduzirem-se entre eles ou por geração espontânea. Se de manhã não os via e pelo anoitecer lá estavam, seriam artes do demo ou milagre de multiplicação? Tomei a disputa a peito: eles ou eu. No fim-de-semana apliquei a estratégia alinhada: exterminá-los por aspiração e vigilância depois. Ao correr do dia, corria olhar atento pelos recantos deles preferidos. Como toca de rato mas sem buraco que os engolisse. Pior: sem queijo nem ratoeira para os apanhar. Veríamos.
Olhei os humanos presentes: pilosidades normais, aparentemente sólidas no respectivo pedúnculo. Presunção legitimidada por pelagem brilhante e forte como herança familiar. Gato omisso em parte certa - férias de mimo e desvelos – não servia como culpado. Nova arma: toalhitas agarra-lixo entraram ao serviço da cruzada. E serviram, apanharam o que puderam, conquanto por tempo curto. Varri. Persegui. Quase ensandeci. E eles... nada!, caindo suave, suavemente, como chamando por mim. Bom remédio: não os ouvi. Sendo assim, ficou o assunto arrumado – prescindi de sentidos ao que é sensato ignorar.
CAFÉ DA MANHÃ
Publicado por Teresa C. às 08:29 AM | Comentários (0)
junho 07, 2006
TELEGRAMA

Margaret Parks
O Mark Twain conta a história de um homem do Oeste Americano que tinha de dar à viúva de Joe Toole a notícia da sua morte: “O Joe Toole vive aqui?” e, quando a viúva respondeu que sim, ele disse: “Quanto aposta que não?”
Publicado por Teresa C. às 06:19 PM | Comentários (0)
MURMÚRIOS

Erik_Drudwyn
Dança comigo. Abandona o corpo ao som. Isento de temor. Assegurado de mais não querer que uma dança contigo. Sente do ritmo a palpitação. Deixa que a cabeça acompanhe a anca. Olha-me ao enovelares a coxa. Sem receio ou pudor. Comecemos pelo samba: 1,2,3. Outra vez. Mais uma - anca esquerda à frente, à direita. Como os pés. Mantém o balanço. Esplêndido! Não fora saber da tua virgindade sambista, juraria não te ser estranho o meneio. Avançamos? Um forró? Tão fácil... De frente: um, dois, três, 2 passos para a esquerda, outros tantos para a direita. Isso mesmo! Engancho nas tuas as minhas pernas. Colemos os corpos como na feitura do amor – um ao outro obedece no ir e vir. Não há esforço na sintonia, é a dança (o desejo?) que me projecta à ida para ti e me afasta ao vir. Longe de ti. É seguinte o acto de me enrolar e levantar airosamente o ombro como quem diz – “isto é a natureza, não estou nem aí!” Mas estou. Sincronizo o ritmo, o balanço e das ancas o oito ao sentir puxares-me para ti. E vou. O cotovelo alçado, o braço numa dobra perfeita, a mão lisa logo abaixo do teu pescoço. Sei do braço na minha cintura, o deslizar atrevido pela anca. É tua a expiração que me soergue os cabelos leves e os separa dos compridos. Que rodopiam sem mim. No instante em que na dança os dois somos um, largo-te um beijo no ouvido. Ao afastar-me, sei teu o arrepio, minha a vontade húmida. Porém, danço contigo. Se não intuíres na dança o momento em que inteira me entrego, direi: não és homem para mim. Finda a música, inicio a fuga. De ti.
Publicado por Teresa C. às 08:18 AM | Comentários (5)
junho 06, 2006
RALAÇÕES SENTIMENTAIS

James W Johnson
Enrabichou-se online. Há tempo, por ali entretinha o tédio de um casamento que não soubera edificar. Anónima, debitava aos homens lengalenga quente que compensasse do desgosto com ela e todos, com o desalento da profissão mal resolvida, do dinheiro curto para vida de maior encanto. Era triste o recurso, sabia, e nada lhe resolvia. Queria mais - a «rede» lançada a machos (des)ajustados não era hobby, mas teimosia numa vida melhor. Despia-se, fertilizava erotismos (dis)funcionais, fornecia à borla imagens, rugidos, vagidos, aiii... ui... oh!!!, todos produzindo, diziam, por via da sabedoria dela, orgasmos inauditos, explosivos, vulcânicos. Dela as entranhas escaldantes da terra, deles a lava ardente escorrida. Mentiam. Uns e outros. Existindo, os orgasmos eram deslavados suspiros. Ela nem um experimentava – cansara a brincadeira; todavia no ir e vir quem sabe chegaria «o tal» que lhe traria o glamour iludido? Valia a competência do marido.
Dia 15 de Maio, uma segunda-feira, decidiu conhecê-lo à saída do emprego. Sabia, pelo visto em imagem digitalizada, que não lhe satisfazia a ilusão. Serviria como remedeio. Entretém. Ele até o cabelo havia cortado e apurara o fato, mas não, não seria aquele. Almofadou o choque do impacto reafirmando amá-lo, ser o homem perfeito, desejá-lo dentro dela, e outras larachas que ele, tão descrente quanto ela, decidira tomar por verdades. E mentiam. Dali à cama foi um passo. Seduzia-os o novo. A sordidez. A ele aquilo que ela rejeitava: a pele alva com derrames dispersos e a fofura. A isto chamava ela o toucinho que ao espelho enojava. A ele também, por ora decidindo que não, que era sublime toque virginal quando a agarrava e possuía. Esforçavam semanalmente o sexo – na primeira vez até o membro ele quase esfolara –, e a cada nova sessão perdiam alento e cor. Terminada a função, era o império do vazio. Jamais o quereria. Tinha de haver melhor. E deambulava na rede - ao vivo sabia que quem buscava não a olharia. Só na teia. Salivando seda mentida. Pelas entranhas procurando alento que a fizesse acreditar num amor.
Publicado por Teresa C. às 08:55 AM | Comentários (4)
junho 05, 2006
GENÉRICOS

Bo Bartlet
5 de Junho, Dia Mundial do Ambiente
Consumir = Poluir. Luxo abandonado em contentores. Vazando. Vomitando detritos. Às toneladas. Só as embalagens são o dobro do lixo comum. Preocupo-me ecologicamente, sem arrebatamentos fanáticos ou persecuções inquisitorais. No espaço que tenho por meu, separo e envio para reciclagem os desperdícios. Cedo desisti dos «jacós» - termo da infância coimbrã – de três cavidades, carérrimos e de suposto bom-tom social. Concluí serem as cavidades incompatíveis com recolha por dias da semana nos condomínios que propiciam a separação dos desperdícios.
A sociedade em que alegremente mergulhamos produz lixo aos montões. Vêem embalados os alhos franceses, o aipo e as endívias, mais a couve tronchuda – “ao princípio, odiei o sussurro em que me comparavas a legume, couve, ainda por cima; mais tarde, entendi valorizares o viço esguio, por que sendo definitiva a tua recusa de provar verdes ignoras deles qual o melhor sabor.”

Oscar Durand
160 quilogramas por pessoa e ao ano de lixo. Dado impressivo proveniente das embalagens do sector da alimentação e que representam a face suja da riqueza. Para mitigar a sede, muitos consomem água engarrafada quando a das torneiras urbanas prima pelo enriquecimento em flúor e diversidade iónica. Ingerimos produtos embalados, congelados, pré-cozidos. Precisam de contentores, transportes, estes mais poluente se forem produtos importados. Preferirmos os alimentos locais e da época, fazer compras a pé ou de bicicleta, são gestos que minoram os efeitos poluentes do menu actual dos países europeus desenvolvidos. Felizmente – diriam os cínicos -, apresta-se Portugal, por via da pobreza, a sair deste conjunto de países...
Desperdiçamos energia. Na compra da casa não cuidamos de avaliar isolamentos e exposição solar. Despreocupamo-nos, na compra de novo veículo, com o consumo de combustível. Passámos da condição de andantes à de bichos-da-conta – rolamos enovelados em veículos. Por tudo pagamos factura – mais alérgicos e menos esbeltos. Não é à toa que a dieta dos ricos não enrija, amolece. Antes pelintras que tal sorte!
Toca Adriana Calacanhoto - Canção de Falsa Tartaruga
Publicado por Teresa C. às 09:04 AM | Comentários (3)
junho 04, 2006
ACQUA_R_ELLAS

Tamara Donahoe
Pertenceu-nos o entardecer soalheiro de Lisboa. Sem lamúria, os pés e as pernas moídas resistiram até ao cansaço ordenar. Amortecido pelos verdes frondosos ou pela relva húmida de rega e suor, inaugurámos o Verão dos livros carregando braçadas. Mais eu que tu, explodimos de prazer o riso quando um título desejado qualquer dos dois descobria. “Quem fica com qual? Aquele cujos olhos mais brilhassem ao tocar-lhe” propuseste. Acedi. Eu ou tu. Tu mais vezes que eu. A alegria, a doce melancolia de uma verde tarde de calor alimentaram sentidos. Os meus. Os teus controlas melhor. Ou nem é isso e sabiamente adias o que de breve farás crescer a infinito. Jogámos às diferenças entre tílias, jacarandás, plátanos e outras árvores desconhecidas que baptizámos pelo perfil - Otília às de copa redonda, Auroras para as altas e esguias, Francelinos se os ramos eram torcidos. E mordisquei uma pêra dura se sugerias pausa sombria, e largámos em passeio as palavras enquanto o sol descia. Lado a lado, no esplendor da relva houve fala íntima. Aconteceu.
As pessoas. Os que amamos. Em geral, tu e eu. Nunca perfeitos. Mas é deles a doçura e o nosso querer. Não nos prendem, não abandonam. Estão presentes quando a espessura do breu entope os caminhos do ar até aos pulmões. Qualidades? - Muitas. No reverso? - Defeitos. Aceitamos ou não. O tempo tudo amaina se o amor cresceu. Quando não, nos defeitos intactos e de sustento recorrente temos opções – rejeição, e daí em diante será o que cada um quiser, ou a conformação do que no outro promoveremos de item de personalidade a defeito físico. Quem vir somente o que dá arranjo é vesgo, manco se na mentira o tropeço é constante, maneta se da preguiça fez consorte. Foi tua a comparação, minha a delícia pelo que jamais havia lembrado.
Gosto-te, meu Amigo. Por que és Amigo. Por que me dispensas o ombro e propões partilhar cansaços. Com verdade. Pela isenção de intenções menores que perturbem a elevação do registo. Por que abandonados à relva e à terra cheirosa vimos cair o sol. Obrigada Amigo.
Publicado por Teresa C. às 10:43 AM | Comentários (0)
junho 03, 2006
IN & OUT

Robert Mcginnis
Bond Girls - lindas, correm como chitas incansáveis, manejam armas, segredos mundiais e nelas a bravura é tão natural como a sede. Longe vão os tempos de amofinado terror da «pendura» durante as rocambolescas proezas motorizadas do Bond, James Bond. Agora, disputam-lhe a condução de qualquer veículo, por mais inesperado que seja, sem perderem pingo da sedução que do princípio ao fim destilam.
Bond continua apreciado pelos homens que esperam arrebatar para a cama a mulher desconhecida, sentada ao lado deles no cinema. A mesma mulher que só tem olhos e suspiros para o James com quem se imagina numa tórrida cena erótica, quiçá contribuindo com uma unidade para o total de quarenta mulheres screwed pelo galã no decorrer dos vinte filmes. Terá o homem uma disfunção que volatiliza cuequinhas só pelo facto de ser James, James Bond?
Os Bonds são extremados pelos opostos Sean Connery e Moore. O primeiro levou ao cinema as mulheres para o verem e os homens para o imitarem. O segundo geriu uma interpretação pós moderna, cool e asséptica. Do novo actor, James Graig, é esperado retorno dos 14,5 milhões de euros de investimento no Casino Royal. Não me convence. Mal comparado, ele está para a mítica personagem como o Diogo Infante para o papel de Sansão – óbvia falta de dimensão. Em síntese: um “new Bond shaken and badly stirred. Oh!…
NOTA - Ao lado: Shirley Bassey - Diamonds Are Forever
Publicado por Teresa C. às 11:59 AM | Comentários (0)
junho 02, 2006
(IN)CONFIDÊNCIAS

Lorenzo Sperlonga
Não me legitima a palavra a especialidade de uma qualquer relação com o José. Pertenço a indistinto anonimato e o agraciado com o prémio maior da escrita mundial é a excelência. Distingui-o anos demais, entendo agora, dos intelectuais de pacotilha alimentados por recorrentes rupturas com o estabelecido, reclamando a diferença que o talento não justifica. Estetas, julgam eles, figurinhas rétro ou avant-garde, raramente embalados de modo comum. Não sabendo ser uma coisa ou outra, inventam a «diferença à Carriho» – mesa do canto na Versalhes, camisa branca de botão cimeiro apertado ou aberto segundo as estações. Egoístas quase todos. Narcisistas por decorrência. Salvam-se alguns. Julguei ser o caso. Engano meu, precipitado, talvez, por frase sua – “A leitura está nas mãos de elites. Minorias. Assim continuará.”
Engana-se, caro Zé – justifico o tom familiar pelo seu historial proletário de mobilizadora igualdade. A leitura pode, como nos humanos, inspirar paixões cegas a pedigrees, culturas ou religiões. Começar por enamoramento e culminar em arrebatamento inolvidável. Momento de excepção. Como na mistura das carnes, espíritos e sentidos. E o Zé ama a escrita, a mulher, o negrume vulcânico de Lanzarote, as vinhas irradiando verde insolente dos cones térreos. A si também. Mas distraiu-se – deliberei ser gentil; permitiu a instalação íntima da superioridade da sua condição. Apostou no tom excêntrico – artista adora condimento da loucura nas tomadas de posição -, no tom profético das afirmações capturadas por maquinetas da última geração que soe termos por ouvidos e olhos do mundo (a fantasia de Orwell como Génesis contemporâneo).
E eu, amante da sua escrita, quantas vezes legitimando-lhe a devassa da minha intimidade, o afinar do sensual só meu, senti na rede de sisal torcido o nó górdio da nossa mancebia literária. Desiludiu-me, sabe? Para inconsistente, precipitada e incoerente, chego eu. Deixá-lo-ei em paz no altar que lhe dediquei e não pediu. Aqui, como na paixão, no sexo, no amor, o egocentrismo cansa. Digo-lhe adeus. O Zé Saramago? – Não precisa de mim. Um alívio que nas despedidas dos amores conforta. Fique bem
Publicado por Teresa C. às 08:19 AM | Comentários (4)
junho 01, 2006
CORREIO SENTIMENTAL

Jan Bollaert
«O duplo padrão sexual – pesos e medidas diferentes para avaliar os comportamentos de homens e mulheres – resiste? »
Li por aí este encantador testemunho de uma mulher: “Não há nenhuma gueixa em si? Deixe-a entrar durante algumas horas do dia. Não permita que esse homem que ama esqueça, com o passar dos anos, de como é engraçada, bonita, bem arranjada e até (porque não?) boa cozinheira e indispensável dona de casa. Não se iluda com tretas de que os homens e as mulheres são iguais (não podiam ser mais diferentes, senão até de planetas distintos). Seja feminista a negociar um salário igual para um trabalho igual e não na sua vida amorosa. O feminismo colado com cuspo é erro que, com maior frequência, mata o amor.” Responde, definitivamente, ao perguntado. Que pena não poder subscrevê-lo!
Dos antepassados recebemos, por via do leite materno e galhetas dos pais, ambíguas noções sobre uma espécie fundamental designada por “Os Homens.” Deles se dizia serem livres (libertinos), resistentes à relação monogâmica (infiéis), desejo sexual intenso (lascivos) e avessos a tarefas domésticas (uns ronhas!). As corajosas fadas-do-lar, mães-sacrifício, com um ou dois parceiros sexuais – marido e o «deslize» -, isentas de luxúria e modestas, eram as “As Mulheres.” De entre estas constavam duas subespécies: Senhoras e Putas. Um tédio – quem via um(a) via todos(as)!
No último quarto do século, o duplo padrão foi às malvas. Da promiscuidade das egrégias classificações surgiram outras que só ralam um décimo dos portugueses – elite esmeradas no luxos de gastos e tempo. Hoje, a categoria “Os Homens” subdivide-se nos de Marte, CE e Ascetas. Os de Marte são egocêntricos, têm físico de campeão surfista, esmerados na satisfação das parceiras para dela obterem elogios. Um “gostaste?” deverá ser traduzido por “sou bom todos os dias!”. O código CE presta-se a várias interpretações – Coeficiente Emocional ou C*r*l*u*o E*t*s*a*o. Serve a primeira. Os CE são arredondados, meigos, bem equipados de estrogéneos e pacientes. O Asceta é atleta pouco audacioso, inteligente e bom amante; a importação de estrogéneos, por dieta rica em fruta e vegetais, acresceria sensualidade. Todos disputam “As Mulheres”, sejam elas Venusianas, Amazonas ou Maria-Rapaz.
De tudo concluo a teima nos sacos. Em cada, uma etiqueta. Pode caber de tudo, de vilões a pais-coragem. No outro, o mesmo. E depois, ao olhar-te, ao sentir no fundo como és, enlevam-me as tuas diferenças. Não te recolhi de saco algum ou fui o teu resgate. Deparámo-nos com o sublime encontro e ousámos a harmonia. Há quem lhe chame amor.
Publicado por Teresa C. às 08:29 AM | Comentários (3)