« TROCAS E BALDROCAS | Entrada | EFEMÉRIDE »
junho 09, 2006
LITTLE PEOPLE

Lynda Young
Soube das fadas aconchegada no colo, cabeça recolhida na perfeita curva do pescoço – ainda hoje elegante e suave – da mãe ao ler-me histórias. Livros de capa dura, de cores brilhantes e vivas, papel de boa qualidade entremeado por rabiscos negros. Descodificá-los era fascínio. O universo das fadas por aí residia. Tinha-as por pequenas, diligentes, bondosas e justas, não fossem raras fadas-negras quebrarem a beatitude. As asas de libélula foram responsáveis pelo descrédito que lhes dei – seres muito pequenos, mas com formas e estrutura de gente. Asas de insecto? Contrasenso! Ressalvava a Fada Sininho que era a minha perdição.
Ao crescer e ao aprender da ciência os rudimentos, já havia remetido as fadas ao mesmo sítio onírico onde as aguardavam bonecas reais como gente, com nome, família, infância e estudos. Tudo a minha fantasia fabricava, deslustrando as fadas a comparação com as criaturinhas doces, gentis e protectoras – os meus brinquedos sem textura, olfacto, invisíveis a olho nu ou a microscópio. E, saberia mais tarde, Bachelard atribuía-me razão: “Desde que se sonhe ou pense no mundo da miniatura, tudo aumenta. Os fenómenos do infinitamente pequenos adquirem uma dimensão cósmica.”
O ser humano é maioritariamente vazio. Custa a crer ao depararmo-nos com o tijolo de que parecem feitas as gentes - compactas, susceptíveis de serem agarradas e palpadas. Falaciosa impressão – vácuo, distâncias brutais entre as partículas constituintes. Moléculas ou átomos justapostos? Impossível por via da repulsão eléctrica, dirão as fadas em coro apoiadas pelos liliputianos tão pequenos quanto elas. Os gigantes, nós!, de fora para dentro, avaliando, afirmaremos convictos: mais que justaposição, unicidade.
Da relatividade da matéria e do tempo inferi a do bem e do mal. Do feio e do bonito. Do amor e do ódio. A verdade da mentira. O som do silêncio. A sombra da luz. A perversidade da bondade. A beleza de uma imagem disforme. A subjectividade do que se ouve e vê. De ser quem sou.
Publicado por Teresa C. às junho 9, 2006 11:03 AM