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junho 25, 2006
TRÁFEGO

Stefano Pasini
Por ser mulher e não ter há um ror de anos qualquer acidente como condutora, mereci de conhecida companhia de seguros bónus especial. Benesse nada despicienda para quem arranja sempre uns tostões para umas viagens à la carte, ou, sendo a fadiga rainha, enfiar-me num avião para destino europeu que do fim de semana faça a diferença. Mala sempre à mão, necéssaire fornecido do essencial, o básico para dormir e pronto. Conhecido o destino, um dos mapas de colecção serve, e aí vou sem culpa ou pecado. Feliz como sininho de badalo saltitão.
Dá-se o caso de num regresso do ginásio me ter caído no cansaço da musculatura o quebranto da Wave e do Pilates. Acabara massagem de creme na pele, dedos dos pés acarinhados, rosto asseado e perfeito de hidratação. O cabelo encharcado deslizava nas costas, os calções mínimos não prezavam modéstia.
Virava, mansamente, para o portão da garagem, pisca sinalizando a opção, pensamento à velocidade do Tai Chi, quando uma carrinha horrorosa de grande, cheia de família enfeitada com bandeiras nacionais, os seres de idade maior tão largos quanto compridos, os homens de T-shirt de cavas revelando pele de leitão pré-churrasco particularmente enjoativa me abalroou. Eu pretendia a declaração amigável, impunha o dono da carrinha, para salvaguarda da menina dos olhos dele, que me desse por culpada. A ginasta, moi même, a própria, alvo de suspeitos olhares das esposas e de enviesadas lubricidades dos respectivos, insistia no papelucho completo e assinado, as culpas ver-se-iam depois. Após laboriosa conversa, consegui a proeza de serenar o cônjuge mais novo e amansar com infinita paciência a fera da moçoila que com ele partilhava a aliança e os gritos-apelo: “João Rodrigo, vem já para aqui, tás a ouvir?” Claro que ouvia, mas moita-carrasco, nem pelo nome dava.
Corria tempo demais, quando constatei reclamar alimento e sossego. Da culpa não me livrando, melhor era, portas adentro, um espumante gelado e morangos nem verdes ou molengos – no ponto. Assinei tudo, da minha boca só saiu “sim, sim, sim!”, “pois claro, que disparate o meu,” “distracção imperdoável,” mas “tudo se resolve, podem partir descansados.” E partiram. Desapareceram. Foram à janta que se fazia tarde. E eu para casa. Queria lá saber da minha lata motorizada! Bebericando espumante, caviar de moderado acre comprado no excelente Corte Inglês, entremeando com os sobreditos morangos, mandei às malvas bónus, seguros e latas. Com veículo de substituição “tasse bem, tasse mesmo muito bem!” E de caminho, estão na viatura umas quantas mossas que me dão arranjo anular. Sendo a franquia certa...
Publicado por Teresa C. às junho 25, 2006 12:31 PM
Comentários
Como sempre minha querida sorri e ri...perd-me em devaneios ao lê-la!!!!..deliciosa,c'est tout...sorri com os morangos e com espumante gelado,já com o caviar nem por isso mas também pilatos?verdade nem por isso,sou mais de bodycombat e localizada mas no mandar às malvas...ah!ah!sou...destes pormaiores,completamente!ah!ah!
Está numa forma excelente,invejável na escrita e ao que vejo não só,congratulo-me...havemos de ir ao ginásio juntas...sorri.
beijinho grande
Publicado por: margarida às junho 25, 2006 05:38 PM
Elegante, charmosa, inteligente, sangue frio, como um Capitão dos Puma Rifles durante um ataque de Zulus, mas em lingerie...
Publicado por: Ferdinand C às junho 26, 2006 01:22 PM
Em lingerie e chinelas de salto mínimo, mas se a uma peleja racional não resisto, a esta destinei o tédio. Salvou-me o regresso a casa...
Publicado por: Tati às junho 29, 2006 07:44 PM