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julho 05, 2006

ACQUA_R_ELLAS

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Steve Hanks

“Não digas que sim por que sim, tão pouco arrisques o não. Pondera. Faz silêncio sem que lhe empastes o bafo. Emudecer o diálogo não é hesitação, antes perspectivar novos ângulos do questionado. A muitos o silêncio pesa. É insuportável. Calcanhar-de-Aquiles. Constrange quem cala e quem espera – é comum considerar o silêncio, mesmo atinado, como insolente. Anti-social. Acintoso. Provocador.”

Ela sabia do silêncio o medo, sendo curta a intimidade com o interlocutor. Indiciava rubor e precipitava o frívolo para evitar o vazio da voz. Como na metáfora – “para contrariar um oráculo que predissera morrer o filho de Tétis na guerra de Tróia, a criança, de nome Aquiles, foi mergulhada, suspensa pelo calcanhar, num rio egípcio que a tornaria invencível. No fragor de uma batalha. Aquiles foi atingido no seu único ponto vulnerável: o calcanhar que não fora banhado no rio.”

Descontando ribeiros do Gerês, lagoas serranas, alguns mares e oceanos, as águas mágicas em que mergulhara foram afectos – maravilham, alegram, doem e fazem crescer. Apavorava-a o silêncio imposto, a comunicação perdida, paredes entre seres. Gostava de ouvir. Alimentar o diálogo isentando-o de subserviência, concordância primária ou petulância de ocasião. Dispensando o assentir cómodo ou a rejeição irracional.

“Pondera. O silêncio pode ser perfume de intimidade. Cumplicidade. A tua marca. Reflexão. Pergunta-me se temo ou confundo os teus silêncios com deliberadas omissões. Direi que sim. Sei porém, ouvir o silêncio derramar verdade. Linguagem. Assim a entendo. Assim te quero. Assim me habituei a ti. E o amor não é um afecto de receita individual? Para alguns boa porção de amizade, outra de histórico comum, algumas habituações boas e más, desejo sabedor e tolerância comum. Fácil, não é? Porque andará então meio mundo à procura de affairs e outro meio divorciado? A errância que ignora da vida o melhor.”

Publicado por Teresa C. às julho 5, 2006 08:18 AM

Comentários

Até o silêncio pode ser ruído. Mas é verdade que é particularmente saboroso quando é no silêncio que ocorre comunicação. O espaço em volta de duas pessoas que se entendem e abrem o seu próprio espaço de intimidade parece, por vezes, conversar pelos dois, ou envolver-se na conversa silenciosa dos dois. Cada som que é feito, a forma como se movimentam, como se interpõe um no espaço físico do outro, como com o olhar se aponta um objecto que é preciso usar, como um som do exterior chama a atenção dos dois e não é preciso comentar porque cada um sabe que o outro ouviu. Há uma conversa que se vai conversando, um contexto. E uma linguagem com a gramática que os dois já desenvolveram na relação que têm. Pelo menos é a experiência que tenho. Mesmo eu, falador inveterado. E há momentos de silêncio partilhado diferentes. Há outros que não me apetece agora invocar. Quanto ao silêncio de quem escuta é algo que caracterizas e "problematizas" muito bem. Eu, que falo muito, gosto muito de ouvir. Preciso. E não é uma necessidade que custe suprir. Ouvir em silêncio é partilhar algo do que a pessoa é. Quando se está em intimidade, pelo menos. Socialmente, a disponibilidade nem sempre está à mão. O silêncio exterior nem sempre corresponde a um silêncio interior. Porque as circunstâncias são diferentes. Porque a pessoa que fala por vezes massacra. Ou cansa. Ou é inconveniente. Isso faz-me pensar na minha tendência pessoal em ser excessivo quando falo. Faz-me estar atento. Um abraço, nuno.

Publicado por: troblogdita às julho 5, 2006 10:59 AM

Tenho dois tipos de silêncio, o ''Flatline'' e o ''Triturador de Café''. Quando estou no ''Flatline'' estou bem, existe calma, a minha mente está em branco, quando me perguntam no que estou a pensar digo que penso em nada, pois é verdade, não consigo alinhavar um pensamento coerente na minha cabeça, nessa altura remetemo-nos a um ''silêncio confortável''. O ''Triturador de Café'' é tramado... revejo as ideias como se revesse jogadas de Damas, ''se eu comer pela direita ela vem, come-me pela esquerda e faz Dama...'', seguro o mais possivel o que me apetece dizer na altura, pondero nos pós e contras, respiro fundo, penso, no final abro a boca, consciente (ou não..) que tipo de avalanches vêm a caminho, ponho a pedra na funda, mas nunca a utilizo, bem... estupidamente até utilizo às vezes...depois arrependo-me amargamente por não ser mais ponderado. Quando gosto de alguem sinto-me frágil e é por gostar que às vezes se dizem coisas idiotas e parvas, o nosso cérebro está pedrado em endomorfinas e não consegue ter a presença de espírito para racícionar claramente, ao contrário de quando dizemos coisas friamente com sorriso nos lábios, com intuitos egoistas que por vezes se esfregam noutros egos egoistas, sempre separados pela linha da racionalidade. Magoamo-nos às vezes por coisas que dizemos irreflectidamente.. mas quando se gosta as ofensas perdoam-se e é preferível um silêncio confortável a um silêncio ruidoso...

Publicado por: Ferdinand C às julho 5, 2006 12:10 PM

Nunca me tinha, tão acertadamente, revisto num post. abraço.

Publicado por: maria às julho 5, 2006 02:45 PM

...

Publicado por: Máscara às julho 5, 2006 05:43 PM

O que escreves dá-me vontade de alterar o rumo de algumas coisas. Talvez silenciar ingenuidades, talvez dar voz a coisas para as quais não encontro palavras... beijo.

Publicado por: Katraponga às julho 6, 2006 12:13 AM

Porei as coisas deste modo: os vossos comentários, exceptuarei por óbvia razão o mui estimado Máscara, deixam-me docemente sonhadora. Pior - escrevo mais!

Publicado por: Tati às julho 6, 2006 09:07 PM

Estimado? Nem tanto... ;)

Publicado por: Máscara às julho 8, 2006 01:18 AM

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