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julho 24, 2006
BAGAS DE SABUGUEIRO

Jan Bollaert
Alegrai-vos gentes! O país, tido por barcaça a pique, está melhor que o julgado. Não? Ninguém crê perante os arruinados dias? Despeçam-se das tamanquinhas das verdades absolutas apertadas no punho cerrado. Rendam-se ao anúncio – com verdade, darei de barato! – ter o país para cima de onze mil milionários. O arauto foi o Expresso e a novidade somente está nos três zeros do número que todos juntos e alinhados parecem mais que os muitos pelo povo pensados.
Numa estatística foleira, em cada mil portugueses há uns pós mais de um milionário. Isto fora os ricaços, patos-bravos e muito-bem-instalados na vida. Uma fartura! Numa suposição arrisco, tendo em conta a proporcionalidade, que espalhados pelo país haverá o total de um milhão de afortunados. Números redondos: em cada dez portugueses nove são (des)remediados, pelintras, pobres ou miseráveis. Sabem que mais? Dou por mim espantada. Tinha por mais expressivo o luso abismo entre ricos e pobres. Pelo concluído, separa uns dos outros um vale entre montes de modéstia incontestada. Nada mau. Progredimos, ou então o Expresso está para o Governo como as previsões do Victor Constâncio. Não o creio... No caso do Expresso, claro!
Claro que o revés da boa notícia vem da malvadez interior que cada um de nós abriga em dose variável e mais ou menos aferrolhada. Ora, se numa cidade como Lisboa, supondo uniforme a distribuição dos milionários, existe um, porquê ele e não eu? Sou trabalhadora, boa «piquena», tenho gosto e acusarem-me de burgessa jamais ouvi. Uma coisa tenho por certa: não faria má figura como utente de choruda conta bancária. Por outro lado – é a minha ínfima fracção de santidade a falar -, sinto-me privilegiada pelo conforto obtido, quando na cidade grande existem, infelizmente, milhares piores que eu. Porém, repito cogitação teimosa como jumento: “Cedo. milionária, não, apenas o suficiente para aceder a viagens adiadas, a griffes desejadas e a designs idealizados.”
Publicado por Teresa C. às julho 24, 2006 08:31 AM