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julho 25, 2006

CORREIO SENTIMENTAL

Mark Young street_show.jpg
Mark Young

“Coitado!... Coitadinho!... Que pena me faz! Que peninha...”

Em comiseração somos o máximo. Expressivos, eloquentes, utilizamos o sentimento mal uma vítima fica a jeito. Julgar outrem um pobre-coitado é côdea de que o próprio ego faz alimento. Alguém que à conta de passo mal dado jaz no passeio, ou tem vida de enjeitado, ou tem semelhança a ridículo, desperta piedade, dó, reacção que começa no pasmo, oscila entre aspergido auxílio e indiferença simulada – “outro! Não há pachorra para tanta desgraça...” -, terminando no encolher de ombros já de costas voltadas. O “coitadinho!...” ou sai da boca de rompante como um “chiça!” como se fosse o caso um dedo entalado, ou vem depois quando a vítima teve a fortuna de algum condoído de verdade por ali ser passante e dispensado ajuda.

O «comiserante» típico pára, adquire o ar de “ora bolas!, olha se era comigo...”, espreita, pode até curvar o lombo estando o comísero esticado no chão, apressar um “ligaram ao 112?”, dar um passo atrás para ter melhor plano da situação, passando de seguida a repórter credenciado frente a testemunhas novatas em fase inicial de comiseração. Havendo desenvolvimento que se veja, aparato do INEM, polícia, ou sangue, avança a sede vampiresca. “Cá para mim é mais que cabeça rachada, é traumatismo craniano. Que diz?” O da assistência médica rosna um delicado “afaste-se por favor!” O «comiserante» não desiste e avança pormenores que não viu, não sabe, mas que inflama em detalhes arrepiantes. Ou cómicos, se o desgraçado torceu um pé, tropeçou e rasgou a roupa, ou se encosta, combalido, à parede. “Então não deu pelo buraco? Está aí há um ror de tempo. Viu alguém da Câmara arranjá-lo? Eu também não! Tudo uma ladroeira, é o que lhe digo. Se daqui brotasse petróleo ou dinheiro, o que vai dar no mesmo, já ele aqui não estava, garanto-lhe. Assim, os transeuntes que se lixem, porque ninguém quer saber deles. Salvo para a autárquica, que aí mordem-nos as canelas pior que cães.”

E a vítima vai-se, os basbaques dão o fora, e ele somente arreda pé esgotada a parte sumarenta. O «comiserante» ganhou o dia – “coitado, aquele para hoje já teve a parte dele...”

Publicado por Teresa C. às julho 25, 2006 09:36 AM

Comentários

As imagens atraem e distraem, os textos são rebuscadamente inóspitos. O que se vê, não se lê e o que se escreve, não se comenta.

Publicado por: Jorge Pereira às julho 25, 2006 07:25 PM

Acredite, Jorge, que quanto aos textos estamos perfeitamente de acordo e quanto às imagens também. Problema: melhor não sei fazer e o que aqui tenho dá-me prazer. Um abraço.

Publicado por: Tati às julho 26, 2006 10:14 AM

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