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julho 15, 2006
CORTE E COSTURA

Stanislav Plutenko
“Vossa Excelência que me desculpe, mas é um pulha!” Assim rezava uma missiva em papel amarelado pelos anos, empilhada no meio de outras atadas com um cordel. Uniam emissor e receptor distantes laços familiares que nem por isso dispensavam a formalidade da época nos vocativos convencionados ou evitavam vívida interpelação. Havia sururu doméstico e local se infringidas as normas sociais ou omitida reacção à ofensa ao bom-nome. Apelido-de-bem girando num disse-que-disse na praça pública, escamava a paciência da vítima e obrigava a esfoliar linguarudos. Pela honra se travavam de razões cavalheiros, cavando abismos de ódios, alguns perpassando gerações.
“A classe dirigente deste país que me perdoe, mas Vossas Senhorias são uns pulhas.” Troca-tintas, galifões, compadres e comadres cozinhando as vidas dos pobres que somos todos nós. Vivemos à custa do empréstimo cem mil milhões de euros. Estamos nas lonas e cegos. O crédito mal parado diminui, não pelo maior cumprimento nos pagamentos, mas porque os bancos acresceram rigor e vigilância. E se Portugal subiu dois lugares na lista dos países mais competitivos, classifica-se agora no miserável 43ºlugar – atrás somente a Eslovénia e a Lombardia. A desesperança é pantanosa e, agitando águas pantanosas, movem-se os jacarés. Como dizia alguém, “podemos ir a pique, mas viva a competência!”
“Vossas Excelências são uns trastes!” Não cuidam de cumprir a palavra que perante o povo empenharam. Assim foi provado no último debate na Assembleia sobre o Estado da Nação. Tudo muito competente, eloquente, imponente, polidamente – de (in)verdades tentaram convencer-nos. Acabada a sessão foi ver o Pinto da Costa no hemiciclo em recepção de alto nível. Contavam-se entre os deputados dragões, como quem conta espingardas num paiol. Cachecóis azuis ao pescoço qual bandeira do país – “o Porto é uma nação, carago!”
“Vossas Senhorias são inábeis” Nem a banalidade duns exames do secundário conseguem elaborar sem balbúrdia magnificente. Incorrecções científicas e ditames de correcção que o Eça glosaria como ninguém. O que está correcto é erro, o equivalente é omissão. Foi inaugurada a correcção por tópicos que, mal-comparado, lembra a navegação por cheiro ou a condução por ouvido.
“Cavalheiros – não há pai que vos ature ou servo que vos aguente." O povo está encalacrado entre vós, o mar, as dívidas e Espanha. Seja o país encerrado e aos cidadãos garantida a fuga em tapete voador - cada um tem o seu, não precisa combustível e onde poisar... poisou!
Publicado por Teresa C. às julho 15, 2006 09:10 AM