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julho 12, 2006

GENÉRICOS

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Michael Carnahan

"As plantas distinguem-se dos animais por só respirarem à noite."

É de «plantas» que a «noite» se faz. Da noite alguns respiram o encanto do silêncio, escutam os vagidos mansos de uma cidade que aos poucos se ajeita e serena. Sem que durma. Sem apagar luzes que esconjuram medos e angústias e solidões. Em que, pela calada, numa rua sem precisar de ser esconsa e desprezada como ruela, se violam direitos e, por isso, vidas. A minha noite recolhe-se. Portas adentro. Rodeada do que me orienta o íntimo. Visito ocasionalmente a «noite». Um jantar, uma volta pelas fragâncias lisboetas que na noite-a-noite me são arredias. Bares de sempre – evito o golpe da alegria fingida, da (in)felicidade aparecida na confusão de corpos e sons. A «noite» de pacote não me sabe bem. Prefiro empacotar-me nos sítios amigos que me acolhem gentilmente.

"Quando um animal irracional não tem água para beber, só sobrevive se for empalhado."

A palha incha figuras supostamente com o poder de vidas alheias nas mãos. Um puxão das rédeas e abanam rumos e seres. O poder é adictício. Bagão Félix confessou sentir a falta do que detinha quando Ministro das Finanças. O dinheiro, cujos vapores movem a engrenagem das bielas e manivelas mundiais, sórdido com frequência, mesmo na modesta escala nacional, inflama quem ao de milhões de gente dá destino. E do poder, aqueles que o manipulam não lamentam o excesso. Que venha mais. Algum que flua entre os dedos, e aqui-d’el-rei que parte de mim se perdeu. É altura de empalhar do poder a memória e pendurar o artefacto na parede mais vistosa do arrumo interior. Odeio empalhados. Empanados também.

"As múmias tinham um profundo conhecimento de anatomia."

Múmias há muitas. Andantes, falantes, galantes até. Mas múmias. Ateimam e teimam e ateimam em seguir preceitos de aço. Antigos. Como eles. Antigos é elogio! Nascidos múmias, isso sim. E o tempo escorrega sem eles. Sofrem-lhe do aço as dores quem os rodeia e partilham caminho. Trágico viver com uma múmia expirando no bafo o fedor. Depois, as múmias não têm idade. O que as conserva? A rejeição à mudança é químico interveniente na mumificação. Convém estar à espreita.

Publicado por Teresa C. às julho 12, 2006 09:29 AM

Comentários

Fez-me impressão (palavra fraca)ler que Bagão Félix sente vaidade em ter sido Ministro das Finanças... Como se poderá ter vaidade em ter ocupado mal um lugar, seja ele qual fôr?! Deveria ter vaidade em ter feito "um bom lugar", mas isso era pedir muito não?

Publicado por: maria às julho 12, 2006 02:48 PM

Adorei as frases de non sense nos nossos escolinhas e lembraste-me de outras: "Eu tenho dois irmãos, o Manuel e eu."; "Só há dois tipos de cogumelos: os venenosos e os outros principalmente." "Já jantaste? Sim. Eu também não.""Queres vir comigo, ou nem por isso? Nem por isso!"

Publicado por: JG às julho 13, 2006 05:59 PM

Lol essa do nonsense no linguajar esteve bem. Mesmo muito bem. Adorei!

Publicado por: Tati às julho 18, 2006 03:39 PM

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