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julho 28, 2006
GENÉRICOS

Deborah Poynton
A arte de bem preguiçar. Raros preguiçam de pé. Um assento que ao corpo ganhe gosto ou na horizontal são posturas que libertam o esqueleto da gravidade ditadora e ao humano fornecem, de mão-beijada, alívio e paz (assim o cérebro relaxe e acompanhe o pedido de tanto músculo e ossinho e tendão).
Dos dias movidos sem parança temos fartura. Há quem através deles equilibre a mente e, por via dela, o corpo. É sabido que a preguiça é arte e nem todos lhe aprendem cedo os dons. Porém, há certeza: por instantes correr mosquiteiro que impeça os malvados medos ou birras ou preocupações mais incómodos que mosquitos sugando ao indefeso a vitalidade que nele flui, nunca fez mal a ninguém. Do inverso não há tanta certeza assim.
Nas Beiras era dito: “aquela não tem parança. Que genica!” e era qualidade assinalável ser trabalhadeiro com o faro sempre à cata de qualquer coisa para fazer. E há sempre. Ora, um dos segredos da arte começa aí: remeter a lugar escuso o que falta cumprir. Tenho para mim que horizontalidade cúmplice e generosa, uma vez descoberta demora a esquecer. Mais que amor veranego, dou por certo. Aos iniciados pode ser estranho quebrar o vai-e-vem com descaro e (des)propósito de um estirar. Nisto, é como em quase tudo: primeiro estranha-se, depois entranha-se. Aqui chegados, há que aperfeiçoar. Nesta etapa da arte me situo.
Cochilar, quiçá dormir uns minutos e quebrar o desfastio fino como um alho e com capacidades maiores, é coisa para graduados neste tipo de especialização. Dizem o Mário Soares perito na matéria. Amigo conto que não lhe deve ficar atrás. Uma paragem «minorca» que seja, antecedida por alimento leve, e da vigília passa ao cochilo e dali à soneca em menos de nada. Fracções de hora chegam-lhe. Um cigarro acende a mente sem correr o risco de estremunhar. E aí está! Ala que se faz tarde, que com o trabalho pode ele bem. É obra!
Fracturar um quotidiano, ao modo de cada um, e preguiçar, é melhor que remédio da farmácia – não custa a deglutir ou tem contra-indicações.
Publicado por Teresa C. às julho 28, 2006 09:16 AM