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julho 03, 2006
IN & OUT

Rowena
Há pessoas assim. À nascença, ou em qualquer outra altura escolhida pelos deuses para distribuição de benesses pelos humanos, a equidade foi mentira. E são deuses, olha se era mortal a condição... Soe dizer-se quando num sujeito uma qualidade é arredia que ficou para a cauda na fila da dádiva referida. Penalizado o mortal por duas razões: não desatou a correr para a cabeça da fila por preguiça ou falta de competitividade, e pela qualidade a menos. É o meu caso: distraída desde a aurora da consciência.
Não fique julgado ter-me conformado ao irritante clássico “Sou assim e não há nada a fazer. Paciência...” Paciências só os entretenimentos usuais para olear o tempo. No que às gentes concerne, mais há que puxar pela vida e esticar as pontas da personalidade. Evito a distracção, procuro ser profiláctica, caindo, todavia, em deslizes literais ou metafóricos.
Pancadas. Colisões com o que parecendo imóvel de facto não o é. Obstáculos matreiros que me põem à prova. O que digo está em exposição itinerante nas minhas pernas: nódoas negras nas coxas – as mais massacradas -, na parte inferior das pernas, antebraços e mãos. E o rosto? Esquinas domésticas, previsíveis – diria eu! – dão-me a honra de abandonar o lugar que normalmente ocupam para virem ter comigo. Razão? Sendo noite e conhecendo a palmo o meu habitat, que necessidade tenho de avançar acendendo a luz? Se abri um armário e esqueci fechar de imediato a porta, é natural esborrachar contra ela as partes mais aerodinâmicas do meu rosto: nariz e queixo. Após o acidente é rotina que enfastia a evolução cromática dos hematomas: progridem do roxo ao lilás, ao verde-azeitona e ao amarelo cor-de-caca de bebé.
Com os valores e normativos sociais reajo de modo em tudo semelhante ao descrito. Daí a insensatez de afirmar que os “doutores da bola”, mais abundantes que baratas no Algarve, são peritos em divagarem por redundâncias de discursos ocos e redondos. Não sei se defenderam tese numa Universidade, mas tendo sido os divinos a fornecer-lhes o alento profissional, resta um comentário: “os deuses deviam estar loucos!”
Toca: Louis Amstrong - We Have all the Time in the World
Publicado por Teresa C. às julho 3, 2006 06:27 AM
Comentários
:-D Lembro-me de quando acordava, ainda na minha Figueira da Foz, e ia a caminho da casa-de-banho com os olhos semi-cerrados. O sonho que estava a sonhar continuava a sonhá-lo, pingava no chão a cada encontrão nos móveis, cada cabeçada. Esfregava os olhos, eles semi-abriam-se e semi-fechavam-se novamente. Lá semi-sonhava eu a caminho do banho, cambaleando sonholento. Às vezes era a meio da noite que ia no escuro aos tropeções, também eu sem acender a luz. E marcando o percurso com uns estratégicos tropeções e grunhidos de dor muito baixinhos.
Publicado por: troblogdita às julho 3, 2006 10:27 AM
A sugeição do corpo às nódoas negras da noite demonstra a falta medo e a certeza do trajecto que temos pela frente até aonde queremos ir. Ficam as nódoas pelo caminho e as novas por fazer... A fila é longa, mas com duas ultrapassagens por dia... pode ser que se chegue nos cinco primeiros, mesmo com deslizes e derrapagens... eh eh eh...
Publicado por: Ferdinand C às julho 3, 2006 12:25 PM
Esses encontros imediatos com as coisas no escuro já fizeram com que dissesse que tive a mobília toda de minha casa ao meu encontro a meio da noite! :D
Publicado por: Katraponga às julho 3, 2006 09:53 PM
A melhor mesmo é a de um amigo que continua a garantir que um eléctrico veio para cima da viatura dele! Só pode ter razão, né?!
Publicado por: Tati às julho 6, 2006 09:05 PM