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julho 27, 2006

(IN)CONFIDÊNCIAS

Gary George Rhett.jpgGary George scarlett.jpg
Gary George

“Scarlett: Rhett... if you go, where shall I go, what shall I do?
Rhett Butler: Frankly, my dear, I don't give a damn.
Scarlett: Sir, you are no gentleman.
Rhett Butler: And you, Miss, are no lady.”

Assim retorquia um Clark Gable sobranceiro a uma Vivian Leigh rebelde e apaixonada. Garota, sonhadora, depressa cansei os livros de inocentes afectos, bondade às pazadas, fadas, sapos que eram príncipes, príncipes que eram uma maçada. Tudo envolto em bosques, castelos, heroínas loiras com lábios de rubi. Olhos azuis ou esmeralda. Os joelhos esfolados por campeonatos de salto à corda e à «macaca» não me davam aspecto de menina bem comportada. Que não era, também, pelas atrevidas leituras à socapa, sem descurar o parecer. Mimada, enamorada pela família, desgostá-los era mágoa pesada. Aprendi a conciliar. Engolir o grito de dor ao desinfectar a ferida, e tapar com a fímbria do vestido, mesmo à justa, a prova do delito. Inventar sítios novos para esconder livros proibidos que devorava, sôfrega, roendo maçãs aninhada num canto qualquer. “E Tudo o Vento Levou” foi deslumbramento na baralhação entre menina e adolescente. A majestade cénica, a crueza da guerra civil, a escravatura e os distantes senhores valiam por mil histórias da Sarah Beirão que me era permitido ler. Não me despedi do Speedy Gonzales; digamos que o preservei como resquício de infância, com o mesmo valor do gosto pela marmelada acabada de fazer.

Amores épicos, grandiosos, com heroínas misteriosas de mantilha escondendo parte do rosto e pernas infinitas em saltos agulha, homens sedutores, encostados à ombreira da porta, uma perna dobrada sobre a outra, chapéu descido, cigarro enovelando o fumo no ar. Amores que não vivemos. O que ficou por fazer. O que falta construir. Na banalidade dos dias, de facto hino à progressão da vida, sonhos derrocaram. Ilusões ruíram. Desejos adiados atafulham o saco dos projectos pessoais. Dos escombros da fantasia surgem realidades. Muitas delas diversas do esperado. Para melhor, quantas vezes. Para pior quando o corpo abre falência ou falta vontade que pegue no possuído e (des)oriente o Norte e o Sul. E acabar como a Scarlett ou o Rhett Butler não é, definitivamente, o melhor dos fins.

The end

Publicado por Teresa C. às julho 27, 2006 10:14 AM

Comentários

Estava a ler o texto e a lembrar-me de uma leitura muito emocionada de "A Dama das Camélias"... :-D E pronto... não sei que dizer. Foi mesmo uma leitura com baba e ranho. Devo ter lido o livro de dois ou três fôlegos. Acho que realções assim, em que tudo é tão semelhante a uma tempestade, tão trágico, em que é sugerida a figura de uma senhora com uma ironia cruel de seu nome destino [pronto destino é masculino, mas acho que alguém com aquele sentido de humor tão distorcido e sofisticado não seria gajo], em que quando tudo quase se resolve afinal se tranforma em ruínas... bem... eu na altura devia estar mesmo predisposto para me indignar e chorar contra a injustiça da vida que não deixa os amantes amarem-se. Foi mesmo uma leitura chorosa... :-D Lembro-me mais vagamente de um... qual foi... O amante de Lady Chaterly, que li mais recentemente. Que... bem não tem a ver com este contexto, mas foi uma leitura com muito prazer. Um abraço. Texto delicioso, inspirador.

Publicado por: troblogdita às julho 27, 2006 11:23 PM

Dessas e doutras sinuosas memórias de quando em vez temos a grata surpresa de as ver arribar à memória. As obras que referes li de sopetão, porém com reacção diferente da tua. Era sofrimento e humanidade a mais para quem como eu, à época, tão pouco sabia da vida. Reli-as anos depois e a emoção brotou refinada. "O Monte dos Vendavais", Orgulho e Preconceito", "Ema", "Sensibilidade e Bom Senso", "La Ciciociara" e todas as do Somerset Maugham deixaram-me delicosamente prostrada. Apeteceu-me, então, deixar de ser uma «linda menina» e ir para Paris, Londres, Nova Iorque oonde a vida, pensava eu, acontecia. Mas não. Fiquei uma «linda menina». Ainda bem, vejo agora, que para mais o talento não daria. Sonhos juvenis que fazem sorrir. Sem nostalgia. Beijo.

Publicado por: Tati às julho 28, 2006 09:05 PM

Estou para aqui a tentar lembrar-me se li ou não o Monte dos Vendavais. Curioso ia pensando e quase me saía a expressão "decide". Gosto da forma como a frase surge em inglês: "I was trying to decide if I read it or not". E não me consigo lembrar. É porque se o li não me marcou. E nunca tive curiosidade de ler a Jane Austen. Mas o "Servidão Humana", o único do Maugham que li, deixou-me prostrado. Uso o adjectivo que usaste porque é o melhor que encontro. Fui a Londres e Nova Iorque mas como um lindo menino e com a minha menina bonita da altura. Mas Londres foi uma viagem fasntástica. E gostei bastante de Nova Iorque devo dizer. Embora o enquadramento dessa viagem seja outro. Que aqui não interessa. Há um outro livro que li, com delícia que agora lembro. O "Decameron". Fantástico. Olha, antes de carregar em submeter, descobri uma página muito interessante sobre a obra e sobre Boccaccio. Talvez te interesse:
http://www.brown.edu/Departments/Italian_Studies/dweb/boccaccio/index.shtml

Publicado por: troblogdita às julho 28, 2006 11:58 PM

Interessou e levei em conta. Como sempre quando o conselho vem de quem é «buscador» como eu. Um beijinho.

Publicado por: Tati às julho 31, 2006 07:05 PM

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