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julho 31, 2006
PÉ NA CHINELA

Ted Hammond
Para conhecer bem qualquer coisa é preciso medir. Medir muito. Calcular o erro. Desvios. Voltar a medir. De tanta medição da grandeza a que a «coisa» obrigue ficam números. Cálculos. Contas e mais contas a deixarem longe as de contabilista encartado em tempo de entrega do IRS. A ciência é assim. Precisa de suporte matemático como a Maria João Pires de (ainda mais!) subsídios e reconhecimento nacional e o Joe Berardo de gerir a colecção que doou (vai doar?) ao País. E nem a crítica ao Cavaco falhou. Ora, nisto, exasperou-me. Mais do que a matemática às (algumas) gentes.
Os orangotangos do Bornéu são atacados à facada pelos plantadores de palmeiras. A hora errada no sítio errado – os palmeirais como habitat no tempo em que dos frutos são extraídos óleos para fritar batatas de pacote, fazer margarinas e cremes de beleza. Os «donos» do negócio chegam a destruir florestas para manter em alta o negócio. Má seja a comparação, estou para o Cavaco Silva como os plantadores de palmeirais para os orantogangos. Explico: embirrei com o Professor anos a fio – torcia-me os neurónios, que fazer? – e agora, que por isto e mais aquilo a simpatia cresce a olhos vistos – a viagem de comboio com a mulher, filha e netos, só faltando o cesto da merenda como nos idos da ruralidade, enterneceu-me! -, levo a mal críticas ociosas ao pai da família portuguesa. Não esgano ou esfaqueio, nisso me distingo dos gananciosos do Bornéu, mas que diabo, não havendo palmeirais porque teremos orangotangos a mais?
Voltando às medições. “Tirar as medidas” a alguém é hábito social. De avaliar, organizar a guarda avançada dos preconceitos, pôr carimbo redutor após conhecimento breve, ninguém enjeite a culpa. Todos fazemos. Como plantadores de palmeiras: arrasar primeiro, quem vier atrás que preserve depois.
Publicado por Teresa C. às 09:23 AM | Comentários (0)
julho 30, 2006
POSTAIS

Vladimir Kush
poderia afirmar que por aqui vou indo menos mal e rematar com o clássico: “e tu, por aí, como vais?” Felizmente, pela publicação assídua, sabemos o outro com entusiasmo suficiente para de si dar à escrita e desta a quem a lerá.
Trago-te, há muito, debaixo de olho – assim diz o povo a quem de cabeça erguida pertenço -, pela raridade de sensibilidade e bom senso, de novo a Jane Austen!, que de ti transparece. E é a escrita. O arrumo das palavras que entre si coreografam sentimentos e desabafos e momentos e banalidades e emoções. A doçura das memórias. Os textos perseguindo uma ideia que, de maneira exemplar, não largas, até dares por preciso o sentido que lhe atribuis. Os rabiscos azuis que a esferográfica imprimiu em papel quadriculado de uso comum, carecem de tempo. De alguns julgo capturar a ideia, de outros ela permanece arredia. A sedução desses traços é tentar associar um conceito ao que nasceu provavelmente sem nenhum. Como na pintura abstracta. Ou gestual. O nada por alicerce, salvo os suportes tangíveis, e o tudo em aberto nas leituras possíveis.
“Explanar. Esplanadas.” “O meu corpo nu não é um corpo despido.” “Calor fermento do corpo.” E outras. Leio-te. Admiro. Fico. Interages. Comentas. Dialogas. Tenho-te debaixo de olho. Com carinho.
Tati
Publicado por Teresa C. às 11:09 AM | Comentários (3)
julho 29, 2006
ADAGI(and)O

Sorayama
“Lepores duos insequens, neutrum capit - Quem corre atrás de dois, um vai embora.”
O paciente Jacó é exemplo:
Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prémio pretendia.
Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assim negada sua pastora,
Como se a não tivera merecida,
Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: – Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!
Serviu Lia, servindo Labão. Permaneceu o pai e foi-lhe negada Lia. Os que da paciência se servem e por ela exultam pelo desejado obtido, que matutem e da paciente virtude se sirvam almejando bens à-vez-à-vez.
Há adágios que o tempo esborratou até restar frase inconsequente. “Mais vale uma hospedeira na mão que duas a voar” é chiste comum. Longe, todavia, do pragmatismo de “mais vale uma na mão que duas no sutiã.” Nem adágios, nem chistes, ainda menos verdades aristotélicas, convencem os humanos que comedimento é prova de juízo. Não fosse a sensatez contínua um tédio, virtuosa, fazer bem a tudo, e teria mais praticantes. Aliás, tudo que é rotineiro e fora do rol dos pecados, começa, a dada altura, a saber mal – como água choldra ou cerveja quente.
Pecadilho ocasional, apetite transgressor das normas e convenções que regem cada um, é risco leve no lustro pessoal. Se o apetente não virar do avesso as próprias (boas) convicções, é condimento a ponderar. O aspirante a pecador menor necessita mais de paciência que de prudência. Desta tem para distribuir e ficar. E em tempo de verão, a cinética do líquido termométrico subindo como gota de água em zinco quente, nem é preciso ir longe – a casa serve. Um «a mais» de excelente branco gelado, gorda taça de gelado de lima e leite condensado, lençóis esticados e corpo abandonado ao que der e – ou não – vier, é bom que seja pecado. Tem mais, graça... Sei bem porquê.
Publicado por Teresa C. às 09:53 AM | Comentários (3)
julho 28, 2006
RAPIDINHA

Erica Chappuis
“Um amante é um homem em part-time, um vínculo precário como o dos recibos verdes”
Publicado por Teresa C. às 05:19 PM | Comentários (7)
GENÉRICOS

Deborah Poynton
A arte de bem preguiçar. Raros preguiçam de pé. Um assento que ao corpo ganhe gosto ou na horizontal são posturas que libertam o esqueleto da gravidade ditadora e ao humano fornecem, de mão-beijada, alívio e paz (assim o cérebro relaxe e acompanhe o pedido de tanto músculo e ossinho e tendão).
Dos dias movidos sem parança temos fartura. Há quem através deles equilibre a mente e, por via dela, o corpo. É sabido que a preguiça é arte e nem todos lhe aprendem cedo os dons. Porém, há certeza: por instantes correr mosquiteiro que impeça os malvados medos ou birras ou preocupações mais incómodos que mosquitos sugando ao indefeso a vitalidade que nele flui, nunca fez mal a ninguém. Do inverso não há tanta certeza assim.
Nas Beiras era dito: “aquela não tem parança. Que genica!” e era qualidade assinalável ser trabalhadeiro com o faro sempre à cata de qualquer coisa para fazer. E há sempre. Ora, um dos segredos da arte começa aí: remeter a lugar escuso o que falta cumprir. Tenho para mim que horizontalidade cúmplice e generosa, uma vez descoberta demora a esquecer. Mais que amor veranego, dou por certo. Aos iniciados pode ser estranho quebrar o vai-e-vem com descaro e (des)propósito de um estirar. Nisto, é como em quase tudo: primeiro estranha-se, depois entranha-se. Aqui chegados, há que aperfeiçoar. Nesta etapa da arte me situo.
Cochilar, quiçá dormir uns minutos e quebrar o desfastio fino como um alho e com capacidades maiores, é coisa para graduados neste tipo de especialização. Dizem o Mário Soares perito na matéria. Amigo conto que não lhe deve ficar atrás. Uma paragem «minorca» que seja, antecedida por alimento leve, e da vigília passa ao cochilo e dali à soneca em menos de nada. Fracções de hora chegam-lhe. Um cigarro acende a mente sem correr o risco de estremunhar. E aí está! Ala que se faz tarde, que com o trabalho pode ele bem. É obra!
Fracturar um quotidiano, ao modo de cada um, e preguiçar, é melhor que remédio da farmácia – não custa a deglutir ou tem contra-indicações.
Publicado por Teresa C. às 09:16 AM | Comentários (0)
julho 27, 2006
(IN)CONFIDÊNCIAS


Gary George
“Scarlett: Rhett... if you go, where shall I go, what shall I do?
Rhett Butler: Frankly, my dear, I don't give a damn.
Scarlett: Sir, you are no gentleman.
Rhett Butler: And you, Miss, are no lady.”
Assim retorquia um Clark Gable sobranceiro a uma Vivian Leigh rebelde e apaixonada. Garota, sonhadora, depressa cansei os livros de inocentes afectos, bondade às pazadas, fadas, sapos que eram príncipes, príncipes que eram uma maçada. Tudo envolto em bosques, castelos, heroínas loiras com lábios de rubi. Olhos azuis ou esmeralda. Os joelhos esfolados por campeonatos de salto à corda e à «macaca» não me davam aspecto de menina bem comportada. Que não era, também, pelas atrevidas leituras à socapa, sem descurar o parecer. Mimada, enamorada pela família, desgostá-los era mágoa pesada. Aprendi a conciliar. Engolir o grito de dor ao desinfectar a ferida, e tapar com a fímbria do vestido, mesmo à justa, a prova do delito. Inventar sítios novos para esconder livros proibidos que devorava, sôfrega, roendo maçãs aninhada num canto qualquer. “E Tudo o Vento Levou” foi deslumbramento na baralhação entre menina e adolescente. A majestade cénica, a crueza da guerra civil, a escravatura e os distantes senhores valiam por mil histórias da Sarah Beirão que me era permitido ler. Não me despedi do Speedy Gonzales; digamos que o preservei como resquício de infância, com o mesmo valor do gosto pela marmelada acabada de fazer.
Amores épicos, grandiosos, com heroínas misteriosas de mantilha escondendo parte do rosto e pernas infinitas em saltos agulha, homens sedutores, encostados à ombreira da porta, uma perna dobrada sobre a outra, chapéu descido, cigarro enovelando o fumo no ar. Amores que não vivemos. O que ficou por fazer. O que falta construir. Na banalidade dos dias, de facto hino à progressão da vida, sonhos derrocaram. Ilusões ruíram. Desejos adiados atafulham o saco dos projectos pessoais. Dos escombros da fantasia surgem realidades. Muitas delas diversas do esperado. Para melhor, quantas vezes. Para pior quando o corpo abre falência ou falta vontade que pegue no possuído e (des)oriente o Norte e o Sul. E acabar como a Scarlett ou o Rhett Butler não é, definitivamente, o melhor dos fins.
The end
Publicado por Teresa C. às 10:14 AM | Comentários (4)
julho 26, 2006
RUBBISH

Ele e elas. Atitudes distintas perante factos comuns, fundamentadas por razões e objectivos próximos. Esta é a hipótese. A experimentação é substituída por situações exemplares. Os fundamentos esgrimidos validarão ou não o ponto de partida.
Ratos - não lhes apreciamos o despudor ao irromperem de modo imprevisto. Da náusea os homens não se livram, incluindo militares de guerras passadas cujo despertador era o passarinhar das ratazanas. A nós engasga-nos o nojo. Uns e outros, isolados e sem testemunhas, pegamos em vassouras, chinelos, raquete de ténis ou no que mais haja à mão e apresse a debandada do roedor. Eventualmente, «merda», «gaita», «ora bolas» vindo de norte para sul.
Ele com ela:
1. ele aparentará impassibilidade compatível com protector da fêmea e eventuais crias;
2. ela pula de um pé para o outro, esbugalha os olhos enquanto emite gritinhos histriónicos e espera que ele a apare no colo como cumpre a mulher frágil que os homens das novelas adoram.
Automóvel avariado – não sendo falta de gasolina, nenhum dos dois faz a menor ideia da razão da recusa. Isolados, farão exactamente o mesmo: contornarão o veículo em busca de fumo ou furo denunciador e, nada vendo, telefonam a alguém que os desenrasque. No masculino o discurso somará vocábulos enfáticos: «chiça», «porra», «fosga-se», «cabrão», «carago» indo de sul para norte.
Ele com ela:
1. ele abrirá o capot, enfiará a cabeça nos intestinos do «bicho», simulará (des)apertar roscas ou tampas, declarando com ar fúnebre que “deve ser o gigler ou o cardan” (faz vaguíssima ideia do que seja, porém a postura é de entendido);
2. ela sairá do veículo, solidária, encorajadora, e, após ter avaliado quão prometedor é o rabiosque que ficou de fora durante o mergulho no capot, voltará ao assento, pala descida, espelho à vista, vigiando minuciosamente as sobrancelhas, poros dilatados e sinais de alguma ruga atrevida.
ExpecTativa comum: ganharem pontos perante o outro. Na verdade perpetuam formatações. Legítimos transmissores de arquétipos. Dos vícios e virtudes da espécie.
Publicado por Teresa C. às 10:03 AM | Comentários (3)
julho 25, 2006
CORREIO SENTIMENTAL

Mark Young
“Coitado!... Coitadinho!... Que pena me faz! Que peninha...”
Em comiseração somos o máximo. Expressivos, eloquentes, utilizamos o sentimento mal uma vítima fica a jeito. Julgar outrem um pobre-coitado é côdea de que o próprio ego faz alimento. Alguém que à conta de passo mal dado jaz no passeio, ou tem vida de enjeitado, ou tem semelhança a ridículo, desperta piedade, dó, reacção que começa no pasmo, oscila entre aspergido auxílio e indiferença simulada – “outro! Não há pachorra para tanta desgraça...” -, terminando no encolher de ombros já de costas voltadas. O “coitadinho!...” ou sai da boca de rompante como um “chiça!” como se fosse o caso um dedo entalado, ou vem depois quando a vítima teve a fortuna de algum condoído de verdade por ali ser passante e dispensado ajuda.
O «comiserante» típico pára, adquire o ar de “ora bolas!, olha se era comigo...”, espreita, pode até curvar o lombo estando o comísero esticado no chão, apressar um “ligaram ao 112?”, dar um passo atrás para ter melhor plano da situação, passando de seguida a repórter credenciado frente a testemunhas novatas em fase inicial de comiseração. Havendo desenvolvimento que se veja, aparato do INEM, polícia, ou sangue, avança a sede vampiresca. “Cá para mim é mais que cabeça rachada, é traumatismo craniano. Que diz?” O da assistência médica rosna um delicado “afaste-se por favor!” O «comiserante» não desiste e avança pormenores que não viu, não sabe, mas que inflama em detalhes arrepiantes. Ou cómicos, se o desgraçado torceu um pé, tropeçou e rasgou a roupa, ou se encosta, combalido, à parede. “Então não deu pelo buraco? Está aí há um ror de tempo. Viu alguém da Câmara arranjá-lo? Eu também não! Tudo uma ladroeira, é o que lhe digo. Se daqui brotasse petróleo ou dinheiro, o que vai dar no mesmo, já ele aqui não estava, garanto-lhe. Assim, os transeuntes que se lixem, porque ninguém quer saber deles. Salvo para a autárquica, que aí mordem-nos as canelas pior que cães.”
E a vítima vai-se, os basbaques dão o fora, e ele somente arreda pé esgotada a parte sumarenta. O «comiserante» ganhou o dia – “coitado, aquele para hoje já teve a parte dele...”
Publicado por Teresa C. às 09:36 AM | Comentários (2)
julho 24, 2006
AÇÚCAR

Graig Srebnik
Publicado por Teresa C. às 02:16 PM | Comentários (2)
BAGAS DE SABUGUEIRO

Jan Bollaert
Alegrai-vos gentes! O país, tido por barcaça a pique, está melhor que o julgado. Não? Ninguém crê perante os arruinados dias? Despeçam-se das tamanquinhas das verdades absolutas apertadas no punho cerrado. Rendam-se ao anúncio – com verdade, darei de barato! – ter o país para cima de onze mil milionários. O arauto foi o Expresso e a novidade somente está nos três zeros do número que todos juntos e alinhados parecem mais que os muitos pelo povo pensados.
Numa estatística foleira, em cada mil portugueses há uns pós mais de um milionário. Isto fora os ricaços, patos-bravos e muito-bem-instalados na vida. Uma fartura! Numa suposição arrisco, tendo em conta a proporcionalidade, que espalhados pelo país haverá o total de um milhão de afortunados. Números redondos: em cada dez portugueses nove são (des)remediados, pelintras, pobres ou miseráveis. Sabem que mais? Dou por mim espantada. Tinha por mais expressivo o luso abismo entre ricos e pobres. Pelo concluído, separa uns dos outros um vale entre montes de modéstia incontestada. Nada mau. Progredimos, ou então o Expresso está para o Governo como as previsões do Victor Constâncio. Não o creio... No caso do Expresso, claro!
Claro que o revés da boa notícia vem da malvadez interior que cada um de nós abriga em dose variável e mais ou menos aferrolhada. Ora, se numa cidade como Lisboa, supondo uniforme a distribuição dos milionários, existe um, porquê ele e não eu? Sou trabalhadora, boa «piquena», tenho gosto e acusarem-me de burgessa jamais ouvi. Uma coisa tenho por certa: não faria má figura como utente de choruda conta bancária. Por outro lado – é a minha ínfima fracção de santidade a falar -, sinto-me privilegiada pelo conforto obtido, quando na cidade grande existem, infelizmente, milhares piores que eu. Porém, repito cogitação teimosa como jumento: “Cedo. milionária, não, apenas o suficiente para aceder a viagens adiadas, a griffes desejadas e a designs idealizados.”
Publicado por Teresa C. às 08:31 AM | Comentários (0)
julho 23, 2006
PÉ NA CHINELA

Keith Garv
O penico caiu em desuso. Para os adultos, quero dizer, que as crianças habituam-se ao asseio via penico e os idosos o dispensam ao sentirem dificuldade em chegarem enxutos à casa de banho. De início, escondido, à medida que a utilidade cresce e as incapacidades também o dito fica, expectante, por baixo ou ao lado da cama. Pela calada do sono, “ó da guarda onde está ele?”, e aliviam junto à cama a bexiga acanhada ou urgente no esvaziar. Entre e a meninice e a velhice o penico fica omisso. Longe vão as «mesinhas de cabeceira» com armário concebido para tão prioritário utensílio. Agora, não. Os penicos foram ultrapassados pelas sanitas. A distância ao leito desfavorece a sanita, enquanto o autoclismo a promove e arrasa o fedor matinal da urina depositada durante a noite, ou ao acordar, para quem a bexiga esticada ao limite não perturba o sono. Facto é que ao abrir o olho pela manhã, um penico substituiria com vantagem o desejo de fada-madrinha masculina que o pendente esvaziasse sem perder o gozo de um manso acordar.
À elegância e ao recato feminino é necessário o sentar. Ora, acocorar-se junto à cama e debitar um chichi vigoroso seria gesto de tão mau gosto que encarquilha o espírito em tal pensar. Com eles a coisa muda. Magister dixit: “Quando um homem se levanta da cama de madrugada – altura em que os valores da tensão arterial e do pulso são os mais baixos –, e vai urinar de pé, corre risco de desmaiar porque ao mesmo tempo que faz força para urinar, o sangue aflui à região pélvica ou da bacia, fazendo baixar a pressão arterial. Se o homem tem mais de 40 anos, a glândula prostática pode estar aumentada e o homem tem de fazer maior esforço para urinar. Por isso, alguns quartos de banho têm na parede as marcas das mãos dos homens que precisam de apoio para se equilibrarem - uma mão segura a parede e a outra o pénis.”
Regressem os penicos. Em porcelana, feitos de um polímero qualquer, desenhados pelo Nuno Baltazar e vendidos com a Lux ou a Caras. Para urinar de madrugada, o penico debaixo da cama é objecto sensato. E ao findar o acto, três pancadinhas na borda do penico, de novo empurrado para debaixo da cama e o feliz regresso à horizontal. Despiciendo não serão os riscos evitados: tropeço no escuro, resfriado ou desmaio.
Publicado por Teresa C. às 10:52 AM | Comentários (3)
julho 22, 2006
RALAÇÕES SENTIMENTAIS

Autor que não foi possível identificar
Mulheres que esmoem algum tempo lendo o que escrevo: quando os vossos homens forem para a noite de Lisboa não há perigo que vos atormente. Deixem-nos ir! E não é literal a frase, que para ausência do doce e, quiçá, fecundo lar, nenhum dos dois no casal requer autorização em papel timbrado. O mais que pode ocorrer é uns dizeres alfinetados e umas trombas na ida é à chegada. Somos conhecidas pelo requinte dos nossos amuos. Pela lâmina do nosso linguajar quando eles passam a fina linha do nosso desagrado. Não merece a noitada que lhes voltemos as costas na cama quando, pé-ante-pé, eles regressam ao espaço domesticado. Mais defendo: salvo execrável fedor etílico que recomende enfiá-los num duche de água fria para fruirmos de um sono arejado, venham eles sóbrios e merece a saída mútua curtição. Sugerir com doçura uma breve descrição do acontecido, eles podres de cansaço e nós finas como um alho, é momento alto da conjugalidade.
Os avaros no verbo ou na verdade que dizem “Hein? Ora, passou-se menos mal. O costume!” são bombas detonadoras da nossa adrenalina quadrilheira. Imprecisos, habituadas que estamos a lê-los nas entrelinhas e pela expressão, será memorável do relato fazer a tradução. Os loquazes são divertidos, e roubar ao sono fatia para um humor abrilhantado pela cumplicidade, deuses... que gozo, que pico histórico na mornice diária! Aos danados para a brincadeira e conservadores no que é ou não legítimo a respectiva saber - não ofendam a virginal ignorância que somente uns tansos podem julgar existir! -, teremos de educar pacientemente. Umas picardias brejeiras soltas pelas nossas adoráveis boquinhas nas ocasiões em que o estilo, o chique, o bom-senso e as roupas vão ás malvas costuma ser iniciação a preceito.
A noite de Lisboa é efectivamente uma pepineira. As moçoilas apetitosas como alheira de perdiz, raramente dispensam ao fogo masculino que não luza automóvel estiloso e cartões que provem na hora a generosidade da conta bancária, mais do que sorriso torto, requebro displicente ou um alçar de rabo que signifique: “olha-me para este parvo!” As raparigas normais não valem um Trincadeira Reserva. Para isso têm eles a Clotilde do backoffice, com um valoroso par mamas e nádegas, qual isqueiro criminoso deflagrando incêndios em mata alheia.
Depois, há as passarelas das importadas e da nata nacional. Eles metem dó! Babam-se, riem muito se estão em grupo, fazem um teatro danado, e à custa de uns euros bem bons lá conseguem que a escolhida na montra do show(?!) ou do vai-e-vem-circulante se roce neles. O tempo a contar. Sem tocar. Nem ali, nem no privado. E se elas são boas! Perfeitas. Esbeltas. Muito bem despidas se o palco do leilão imitar o requintado. Eles vêem de lá piores do que entraram. Andando com um humor de cão ou sem fôlego para levantar sequer um braço, quem beneficiará no final da noite? Pensem bem! Não tendo amásia livre, as espertalhonas conjugadas terão uma noite de truz. Nem mais!
Publicado por Teresa C. às 10:15 AM | Comentários (1)
julho 21, 2006
TRETAS ESOTÉRICAS

Ossi Hiekkala
Tretas – lérias, palavreado enganoso.
Esotéricas – misteriosas, estranha, secretas, ocultas.
O fogoso torneio na Assembleia não teve corcéis à altura. A estrela da companhia é personalidade notável, primaz na coragem e competência. Na educação revelou fundo conhecimento de regras e ardis e vícios e más práticas que à socapa contagiavam virginal candidato a professor. Dos professores, alguns, logo á partida, arrastavam doença letal: escolhiam a carreira pela exclusão daquelas que o gosto pretendia. Pré pago a tempo e horas, progressão garantida, ausente o risco de vir a ser despedido e pela sombra, de mansinho, iam ficando. Boa vida, férias e lérias – um fartote! No final da carreira, maus ou excelentes profissionais em nada eram distinguidos. Sucessivas gerações testemunharam o atrás dito. Governantes e governados encolhiam os ombros e soltavam um chocho “Paciência! Em tudo há bom e mau.” À assertividade da ministra é devida a ruptura com o que lá vai.
O desastre dos resultados dos exames nacionais de Física e Química foi no campo do torneio - o hemiciclo - o boneco sobre o eixo. A ministra desempenhou sem brio o papel de competidor obrigado a reflexos rápidos que evitassem golpes e contragolpes. O chorrilho de disparates saído da boca de deputados era lança de pinho, as montadas, uns asnos. Evidência: reforma antiga (de 89) que pára e recomeça com o governo PSD e pára enquanto a tropel avançam os programas nos curricula. Começados e continuados sem que do esoterismo da situação, salvo os professores e respectivas associações, alguém dissesse «ai» ou «ui». A apoteose, passado o 10º e o 11º anos, foi o 12º. E viu-se o que se viu.
Alunos e professores de Física e Química do 12º ano viram-se com o bebé gritando nos braços sem que o soubessem embalar. Um programa (mal) concebido para disciplina de opção isenta de exame nacional, jamais testado e parco em orientações. Interpretado de modo diferente consoante os autores dos manuais, escolas e respectivo equipamento laboratorial, ou a percepção que na mesma escola cada professor teve apesar das planificações comuns. Os novos programas pareciam corpo de pobre – tudo lhes servia. Prova modelo, nem vê-la. Deu no que deu.
Na Assembleia, o torneio esqueceu as vítimas. Tal como nos jogos medievais houve cavaleiros vendendo a sua participação em troca de algum tipo de bem – no caso por ela cobrando destaque mediático. Antanho, qual o prémio dos torneios? Riqueza. O retirado da equipe adversária só devolvido contra pagamento de resgate. Espaço para descarregar tensões. Ferimentos e mortes. Da seriedade em primeiro lugar. Lérias de cavaleiros mal equilibrados nas montadas. Jogo aristocrático. Dezenas de participantes. A dama não largou a mantilha ou deixou cair o lenço. Mas que não nasceu para jogos e foi incapaz de prevenir o erro, foi visto.
Publicado por Teresa C. às 09:15 AM | Comentários (0)
julho 20, 2006
TELEGRAMA

Autor que não foi possível identificar
Caríssimos: esqueçam o texto abaixo e leiam os comentários!
Publicado por Teresa C. às 09:13 PM | Comentários (0)
IN & OUT

Salvador Martinez
Perturbações da ordem social. Rebeliões. Guerras. Cogitadas, planeadas, discutidas nos gabinetes de quem tem bunkers privados e protecção. Proeminência no mapa mundial. Reconhecimento de supremacia regional. Exibição de força que constranja o direito e regras sociais. Como em São Paulo e um pouco por todo o variegado Brasil os cartéis da droga paralisam pela violência a vida normal dos cidadãos e das leis e do país. Subverter e matar por valiosos punhados de moedas. Tantas, que gentes, malvadas ou não, por elas perdem o tino e a vida em troca de virgens disfarçadas de metal cunhado ou papel mais negro e nojento que petróleo.
“Nós por aqui todos bem, e por aí como vão?” – começo de epístola clássica. Para quem escrevia importava a afirmação inicial – “nós por aqui tudo bem.” A pergunta era de circunstância, não sendo o endereçado do peito. Na resposta era o picaresco de alguma anormalidade relatada a merecer atenção. Estivesse dele também a vida «menos mal» e adiante, até ao sumo da questão que obrigara à pena lidar com a palavra e o papel.
No Líbano e em Israel tudo vai mal. Este unido na resposta musculada ao rapto dos dois soldados israelitas, o povo por ela fugindo das bombas e do desfeitear da vida e da morte. No Líbano é o mesmo em dose exponenciada. O desfeito pelo poder bélico retardou o país vinte anos. Duas décadas de trabalho esforçado jazendo em pedaços de corpos e betão. Foge quem pode, o terror faz dos rostos máscaras tenebrosas, desfazem-se laços e famílias e inserções sociais. Refugiados. Tragédia. Manipulação. Perversidade.
Neste pasmado rincão refugiamo-nos dos valores: verdade, trabalho e responsabilidade. Refugiados da vida. Eles e nós. Mas nós, por aqui, tudo bem.
Publicado por Teresa C. às 06:45 AM | Comentários (8)
julho 19, 2006
ACQUA_R_ELLAS

Bobby Toombs
Ler ao som ali ao lado - Diana Krall - Live in Paris, A Case of You
I used to walk in the shade with them blues on parade
Now I'm not afraid... this rover has crossed over
Now if I never made one cent
I'll still be rich as Rockefeller
There will be goldust at my feet
On the sunny, sunny side of the street
- Do caminho procurava a borda soalheira. Ele quedava-se na sombria.
- Quando a nostalgia baixava, dolente, e dela fazia capa, nunca os olhos humedecia. Ele delas não precisava pela armadura de insensibilidade que o protegia.
- De peito feito para a jornada, pouco, muito pouco a ela pesava o saco de medos e culpas e mágoas que cozido às costas os humanos transportam. O dele estava mais cheio, e, para que o não vergasse, mantinha a hirta postura de quem muito foi calcado.
- Ilusão de tapete fofo e seguro sob os pés era dela. Possuía na directa proporção dos vestidos de soirée. A ele pertencia o expediente de à vida torcer as voltas, da fuga como recurso. Sobrevivência.
- Privada do apelido Rockefeller, tratava o conforto por tu. Ele conjugava precariedade no estar, longe do querer, poder e fazer.
- As diferenças, e o que não sabendo, eram, alimentaram a magia. No momento em que se viram, dela tiveram a ilusão de antiga. Única. Deles. Nunca esmorecida. Até um dia, a muitos dias de blues on parade ou poeira dourada on the sunny side of the street.
Nota: ontem, Diana Krall nos Jardins do Marquês de Pombal - pura magia numa noite de verão, on the sunny side of the street.
Publicado por Teresa C. às 10:53 AM | Comentários (3)
julho 18, 2006
RAPIDINHA

Dave Nestler
Anúncio que diz curto e grosso – “não mude de camisa, mude de desodorizante!”
Publicado por Teresa C. às 05:20 PM | Comentários (4)
TROCAS E BALDROCAS

«Está de escachar»! «É de rachar»! «Está de ananases»! «Derrete os untos»! Nestas pérolas de expressão ruminava o Eça aturdido por omisso, assim de repente, vocabulário elegante e literato. Desculpavam-no os vinte anos, dizia a si próprio, mas que desculpa posso eu dar pela falta de eloquência se duas décadas dobrei e, perante a minha progressiva desintegração, qualquer das frases do Eça revela vigor sem par?
Não há como escapar: “ficando o fogo pega, fugindo o fogo cresce.” E não há bombeiros que cheguem para tanto corpo ardendo, e mato e floresta. Os areais derretem sob untos curtindo ao sol. Os UVs lambem dos corpos a pele. É uma questão de tempo passarem das lambidelas a dentadas no exposto. Só o coberto está salvo, mas quem julga a sombra protectora de mazelas piores, deve mudar de opinião – a reflexão solar dá-se em todas as direcções, venham recambiados os raios da areia ou da água do mar. Nunca a praga “vá para o raio que o parta” esteve tão actual. É que para lá do quebranto, das momices de enfado, do esqueleto ambulando com dificuldade, há os raios que nos partem mais que sessão de Pilates com o implacável Milton do ginásio.
O povo que se arrasta contrariado na labuta diária, mal dá conta dos indigestos petiscos nacionais e internacionais. À sombra e fresquinhos como «loira» no frio, estão os governantes com os padre-nossos e avé-marias bem alinhavados num terço sem ícone pendente. Ninguém dá conta. “A praia estava demais!”, “à noite dormi mal” pela canícula enfiada no leito de quem não a engatou ou deseja, “lá para o norte o mato pegou fogo e vem por aí abaixo.” Nas praias fluviais os mortos iniciaram trágica contagem crescente. Uma menina de doze anos anda por aí sem-rei-nem-roque e quem ouve a notícia encolhe os ombros – “desde que não me caia em casa...” Israel e o Líbano arrasam-se mutuamente, medindo forças desiguais e malvadez semelhante. O Médio Oriente não é destino de férias, “que maçada!” dizem operadores turísticos. O custo do petróleo trepa com fôlego maior que um Syrah das Cortes de Cima na minha, por si frágil, cabecinha. O Cartel do Sal foi apanhado nas redes da Autoridade da Concorrência, e quem achou inocente a concertação esqueceu não servir o cloreto de sódio apenas como condimento.
Mas pela hora da sesta por fazer e da temperatura por descer, quem se rala com aqueles e outros males? Lamento por lamento preferimos os lusos ais. “Ai que não se aguenta! Ai... Ai...”
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julho 17, 2006
LOOK

Jan Bollaert
Homens autores de blogues conheci, rosto a rosto e desde que o «Pénis» existe, quatro: José Carlos Abrantes, André Carvalho, Pedro Mexia e Francisco José Viegas. Todos afáveis. Todos inspirando simpatia. Sendo exíguo o conhecimento dos primeiros, dos últimos o pecúlio de informação é, pela obra publicada, mais alargado. Arrisco a declaração: o Francisco José Viegas e o Pedro Mexia são uma perdição. Uns giraços. Uns pães. Vale-me a ordem social que de ambos me mantém afastada. É que estes homens fulminam uma mulher. Mais poderosos que relâmpagos certeiros de trovoada seca, apetece, com risco de sair chamuscada, roubar-lhes cinco minutos de conversa. Empresa mais árdua do que parece – seres do Olimpo não andam para aí distribuindo converseta a mulheres sem predicados de excelência.
Matutei na causa de tanta sedução concentrada, qual pastilha de Aspirina efervescente ou de vitamina C. A primeira razão, no que me concerne, é óbvia: não são bonitos. Desde logo, me garantem o condimento que necessito: curiosidade. Descobrir o que os faz deixar longe do Keanu Reeves ou do Pierce Brosnan. Porque neste início de avaliação é sobre o aspecto que me debruço, direi que aprecio figuras fora dos ditames estéticos usuais. No Francisco há aquele “je sais bien quoi” reflectido no olhar perspicaz equilibrando encanto e vivacidade lógica. No Pedro é o mistério. A distância. A lentidão dos gestos. E o olhar. Inevitavelmente. Reproduzindo o que a figura sugere.
Do que da escrita de ambos escorre, a matreirice no conúbio das palavras, a postura de voyeur social, a intervenção cirúrgica no exacto momento em que ela é fundamental, impõem-se. Lidas obras literárias dos dois, a lentidão como luxo – não apetece terminar! –, posto-me, queda, perante dotes soberbos. E não. Este arrazoado dispensa qualquer vestígio de bajulação. Nem eles me lêem, nem qualquer dividendo do que escrevo espero. É tão somente impressão forte e pessoal que no anonimato publicito. Abençoada distância a que de ambos me encontro – ficam eles livres de uma basbaca e eu de platonismos sem retorno.
Publicado por Teresa C. às 08:40 AM | Comentários (6)
julho 16, 2006
ADAGI(and)O

Olivia de Berardinis
“Cum satur est felis, se totum lambere gaudet. Bem se lambe o gato, depois de farto.”
E assim é. E sabem-no aqueles que a um gato presta(ra)m vassalagem. E desengane-se quem de um felino se julga senhor. Dele é servo e, provado do dono o bom comportamento, receberá lambidela de afectuosa lixa, pedido de carícias, ronronado sonoro e exultante. O Varandas, o Jeremias e o Tobias são alguns dos muitos mimados cujos donos os referem nos diários blogueiros. O Varandas é pela excelência e referências da dona o mais conhecido. É temperamental, assertivo e não raro deixa a blogosfera com o coração nas teclas pela saúde inconstante. Todos, presumo, dispõem de cantos soalheiros com vista para a mobilidade da rua. Miam, reclamam, são condoídos se os julgados donos evidenciam quebra de forma física ou de espírito.
Lambidelas, ronronados de apurada sonoridade, patas no ar solicitando favores, alimento de qualidade caracterizam gatos e os que publicitação esperam por actos, nome de família ou posição. Arredondada a figura pela ingestão dos privilégios enunciados, de papo para o ar gozam o momento. Como gatos cheiram desconhecidos e, se agradados por antecipadas benesses, passam-lhes pelas extremidades os lombos. Para cá e para lá. Não lhes inspirando lucros futuros, observam os ignotos de longe. Caso neles adivinhem potenciais contraditórios ficará o pêlo eriçado. As unhas, caso teimem os intrusos numa insana aproximação, alongam-se espetadas num arqueio de patas e lombo. Humanos felinos tenho-os por perigosos. Aprecio-lhes a sensualidade gestual, bem como a insinuação subtil e ardilosa. Mas temo-os. Fico de longe. Discretamente, viro as costas. Afasto-me. Antes que deles me torne alimento.
Publicado por Teresa C. às 11:41 AM | Comentários (2)
julho 15, 2006
CORTE E COSTURA

Stanislav Plutenko
“Vossa Excelência que me desculpe, mas é um pulha!” Assim rezava uma missiva em papel amarelado pelos anos, empilhada no meio de outras atadas com um cordel. Uniam emissor e receptor distantes laços familiares que nem por isso dispensavam a formalidade da época nos vocativos convencionados ou evitavam vívida interpelação. Havia sururu doméstico e local se infringidas as normas sociais ou omitida reacção à ofensa ao bom-nome. Apelido-de-bem girando num disse-que-disse na praça pública, escamava a paciência da vítima e obrigava a esfoliar linguarudos. Pela honra se travavam de razões cavalheiros, cavando abismos de ódios, alguns perpassando gerações.
“A classe dirigente deste país que me perdoe, mas Vossas Senhorias são uns pulhas.” Troca-tintas, galifões, compadres e comadres cozinhando as vidas dos pobres que somos todos nós. Vivemos à custa do empréstimo cem mil milhões de euros. Estamos nas lonas e cegos. O crédito mal parado diminui, não pelo maior cumprimento nos pagamentos, mas porque os bancos acresceram rigor e vigilância. E se Portugal subiu dois lugares na lista dos países mais competitivos, classifica-se agora no miserável 43ºlugar – atrás somente a Eslovénia e a Lombardia. A desesperança é pantanosa e, agitando águas pantanosas, movem-se os jacarés. Como dizia alguém, “podemos ir a pique, mas viva a competência!”
“Vossas Excelências são uns trastes!” Não cuidam de cumprir a palavra que perante o povo empenharam. Assim foi provado no último debate na Assembleia sobre o Estado da Nação. Tudo muito competente, eloquente, imponente, polidamente – de (in)verdades tentaram convencer-nos. Acabada a sessão foi ver o Pinto da Costa no hemiciclo em recepção de alto nível. Contavam-se entre os deputados dragões, como quem conta espingardas num paiol. Cachecóis azuis ao pescoço qual bandeira do país – “o Porto é uma nação, carago!”
“Vossas Senhorias são inábeis” Nem a banalidade duns exames do secundário conseguem elaborar sem balbúrdia magnificente. Incorrecções científicas e ditames de correcção que o Eça glosaria como ninguém. O que está correcto é erro, o equivalente é omissão. Foi inaugurada a correcção por tópicos que, mal-comparado, lembra a navegação por cheiro ou a condução por ouvido.
“Cavalheiros – não há pai que vos ature ou servo que vos aguente." O povo está encalacrado entre vós, o mar, as dívidas e Espanha. Seja o país encerrado e aos cidadãos garantida a fuga em tapete voador - cada um tem o seu, não precisa combustível e onde poisar... poisou!
Publicado por Teresa C. às 09:10 AM | Comentários (0)
julho 14, 2006
INTIMIDADES

Autor que não foi possível identificar
Blogues confessionais. Sussurrantes. Murmurando intimidades. Desvendando véus e gazes e tules até da essência, julga quem lê, ficar desnudo o autor. Insinuando-se. Meneando a anca aqui, um requebro nadegueiro ali, uma fenda no véu exibindo da coxa o recorte, o peito de sobra, firme e redondo, pela semi-transparência, levantando o desejo. Ombros lançados para trás e peito tremendo à frente impulsionado pelo vigor da dança. As coxas extremando o obtuso ângulo. E vão abaixo num langor rebolado, e sobem no vagar sabido. O pé arqueado abandonando a sandália, logo após o outro ter caído. E no tamborete do palco que o blogue constitui, lascivamente rodam os membros; de cócoras é proeminente o redondo traseiro alçado, braços apoiados no chão. E debruçam-se, os olhos vertendo luxúria sobre os espectadores (leitores?). No varão ondula o saber - ergue-se num ápice de pernas enroladas, desce com vagar por trejeitos musicados e lentos. É o fundo do cenário, iluminado a preceito, que recebe o desejo inventado. A sensualidade ensaiada ou real. Sendo isto que um blogue ofereça, peca e requer condenação? Não me revejo na descrição, mas especular sobre intenções anónimas não tem contra-indicações. Ou tem?
Publicado por Teresa C. às 09:14 AM | Comentários (2)
julho 13, 2006
TRÁFEGO

Ted Hammond
Inverteu a marcha. Por engano ou mudança de opinião. Irracionalidade súbita. Desequilíbrio no caldo químico neurológico. Acabar num momento o real monstruoso para a fragilidade dos ombros. Miríade de razões. A verdadeira, a tal que duas mortes causou na A2, ia a tarde pelo meio e alguns regressavam a casa, jamais verá luz.
O noticiário televisivo, a reboque – infelizmente o costumado –, foi descobrir uma estrada secundária, porém de abundante circulação, em que as bermas rochosas e de periclitante amontoado apavoram quem no quotidiano ali passa. Será hoje, amanhã que um torpedo metamórfico espalma veículo e ocupantes? Como nos desenhos animados, salvo a diferença: rolado o penedo, quem debaixo dele ficou não regressa, por espasmos, à forma inicial. Mas podem descansar os cidadãos: a autarquia camarária por ali explode dinamite numa valorosa e científica experimentação. Quem nos diz não ser possível que explosão após explosão tudo regresse à forma consolidada e primeva?
As câmaras de vigilância que nas vias de importância reconhecida nos trazem debaixo de olho, não podem ser testemunho em tribunal. Não sou jurista, mas porque existo penso, bem ou mal. Então se um polícia disser que viu o que julga ter visto é aceite como prova em tribunal, o visto realmente visto e com suporte de imagem carece de discussão? Por estas e por outras adoro o tempo que vivo – adivinha-me! Tradução pessoal - não pára de me surpreender.
Publicado por Teresa C. às 08:47 AM | Comentários (0)
julho 12, 2006
(IN)CONJUGALIDADES

Carlos Diez
- Vem...
- Vou lá dentro vestir os calções de banho e volto já!
Publicado por Teresa C. às 05:58 PM | Comentários (4)
GENÉRICOS

Michael Carnahan
"As plantas distinguem-se dos animais por só respirarem à noite."
É de «plantas» que a «noite» se faz. Da noite alguns respiram o encanto do silêncio, escutam os vagidos mansos de uma cidade que aos poucos se ajeita e serena. Sem que durma. Sem apagar luzes que esconjuram medos e angústias e solidões. Em que, pela calada, numa rua sem precisar de ser esconsa e desprezada como ruela, se violam direitos e, por isso, vidas. A minha noite recolhe-se. Portas adentro. Rodeada do que me orienta o íntimo. Visito ocasionalmente a «noite». Um jantar, uma volta pelas fragâncias lisboetas que na noite-a-noite me são arredias. Bares de sempre – evito o golpe da alegria fingida, da (in)felicidade aparecida na confusão de corpos e sons. A «noite» de pacote não me sabe bem. Prefiro empacotar-me nos sítios amigos que me acolhem gentilmente.
"Quando um animal irracional não tem água para beber, só sobrevive se for empalhado."
A palha incha figuras supostamente com o poder de vidas alheias nas mãos. Um puxão das rédeas e abanam rumos e seres. O poder é adictício. Bagão Félix confessou sentir a falta do que detinha quando Ministro das Finanças. O dinheiro, cujos vapores movem a engrenagem das bielas e manivelas mundiais, sórdido com frequência, mesmo na modesta escala nacional, inflama quem ao de milhões de gente dá destino. E do poder, aqueles que o manipulam não lamentam o excesso. Que venha mais. Algum que flua entre os dedos, e aqui-d’el-rei que parte de mim se perdeu. É altura de empalhar do poder a memória e pendurar o artefacto na parede mais vistosa do arrumo interior. Odeio empalhados. Empanados também.
"As múmias tinham um profundo conhecimento de anatomia."
Múmias há muitas. Andantes, falantes, galantes até. Mas múmias. Ateimam e teimam e ateimam em seguir preceitos de aço. Antigos. Como eles. Antigos é elogio! Nascidos múmias, isso sim. E o tempo escorrega sem eles. Sofrem-lhe do aço as dores quem os rodeia e partilham caminho. Trágico viver com uma múmia expirando no bafo o fedor. Depois, as múmias não têm idade. O que as conserva? A rejeição à mudança é químico interveniente na mumificação. Convém estar à espreita.
Publicado por Teresa C. às 09:29 AM | Comentários (3)
julho 11, 2006
PEREGRINANDO

Autor que não foi possível identificar
Luxo italiano. Nas grifes, no futebol, no recorte da costa, na arqueologia e museus. A ordem é aleatória, a qualidade é de excelência. A arborização bordeja auto-estradas e vias comuns. Bosques limpos, relvados na base circular do pinheiro manso. Desenhados a compasso: a copa da mansidão verde do pinheiro mediterrânico e o recorte do solo que separa o caule áspero das raízes que imagino portentosas. Não como nas matas lusitanas de norte a sul do país. Pela incúria, envelhecimento das populações, falta de meios, o mato selvagem abafa as árvores de grande porte. O ordenamento do território é de antanho, mal feito, inexistente.
Atravessando o estreito de Bonifácio, que a separa da Córsega, chegamos à Sardenha. Zona autónoma embora incluída na Itália. As villas dos grandes do mundo destacam-se, esparsas, no arvoredo e na costa, reflectidas no espelho de águas cristalinas. Subindo no Mediterrâneo, o belissimo azzurro leva-nos a Portofino. Cosmopolita, ali tão perto da histórica Génova, é a safira da Ligúria. Os verdes separam os ocres e rosa escuro das fachadas do azul do céu. Sempre o azul. Líquido. Gasoso. Igual o fulgor. Os verdes são moldura ou, simplesmente, passe-partout.
Figueira da Foz e Buarcos. Persiste o azul da água e do céu. A imagem fica desnuda sem o contorno da verdura da serra dita de Boa Viagem. Luso, e o Buçaco. A alcantilada Penacova. Rapado o solo, raros arvoredos, o Mondego rega e fertiliza os juncos e papiros da beira-rio. Pela osmose, a água hidrata numa subida curta a base dos montes circundantes. Morreram seis bombeiros tentando salvar o que resta da mancha verde nacional. Fogo sempre posto – pelo desleixo ou pela vontade do homem.
Publicado por Teresa C. às 07:25 AM | Comentários (4)
julho 10, 2006
TELEGRAMA

Olivia de Berardinis
«Não me arrependo de um único inimigo que fiz. Qualquer actor que não se atreva a afazer inimigos deve abandonar imediatamente o ramo.»
Bette Davis
Publicado por Teresa C. às 05:43 PM | Comentários (0)
RUBBISH

Helena Amaral
Foi bonita a festa, pá
fiquei contente
'inda guardo renitente, um velho cravo para mim
Já murcharam tua festa, pá
mas, certamente
esqueceram uma semente nalgum canto de jardim
Sei que há leguas a nos separar
tanto mar, tanto mar
Sei também como é preciso, pá
navegar, navegar
Canta a Primavera, pá
cá estou carente
manda novamente algum cheirinho de alecrim
E houve festa, pá. As gentes folgaram depois do sofrimento e sofreram não fazendo órfã a esperança. Gostei do espírito aberto a sentimentos fortes, ao exemplo de sacrifício de homens novos por uma causa, um objectivo, um povo e um país. Espantaram-se-me les petites celules grises ver Marcelo R.S. de cachecol embrulhando o pescoço, e Eduardo Lourenço pronunciando-se sobre o Mundial dali de Vence, no sul de França, os Alpes Marítimos por trás, o mar ao longe. Disse ele – “Estive sempre ao lado da minha vida distraidamente longa. Nunca estive atento. Vendo bem, vivi em dois registos. Como se a minha vida real não me dissesse respeito. Sempre a fingir que não estava lá, para não estar onde estava. No fundo, sou pouco sério.”
É lição que aprendi ser tolo o meu desprendimento pelo futebol. É energia, é pouco sério, generoso, manipulado. É vida. Ignorá-lo é insensato. Triste foi a fífia de Zidane que o expulsou do campo e fez tombar cedo de mais o pano sobre a sua arte no palco relvado. Feitas as contas, ficaram ajustadas: a França perdeu e a Itália é campeã. Mas a nossa festa, essa foi linda, pá!
Publicado por Teresa C. às 10:17 AM | Comentários (6)
julho 09, 2006
HISTÓRIAS DE (DES)ENCANTAR

Greg Horn
“Um dia tramado!” diria ele ao regressar a casa. Pela manhã, a rotina trabalhada a cada recomeço. Ao almoço, intervalava. Alimento e quebra prazenteira que a cada passo impediam - telefonemas, pedidos de presença, queixas e miminhos. A primeira domesticara-o e ele a ela, salvo as rebeldias inerentes a mulher de pêlo na venta, porém trabalhadeira e pessoa boa. Fora o primo-casamento que ele desarranjara. Injusto comentário! O conúbio estava naquele estado meio-caldo, meio-frigo, fácil de (des)equilibrar. Foi quando ele entrou como a ilusão possível, o desejo (re)descoberto, qual vontade de uma lipoaspiração. Não havendo verba para o cirurgião estético, ele fora o lifting que ela jamais faria dada a continência da vida sacrificada. Divórcio conveniente. A outra viria depois.
Na vida acompanhada por consorte de nomeada, tinha o que para a mulher comum era mais que desejado. Qualquer outra preservaria o achado que o companheiro constituía como ouro moído em cofre de segredo bem escondido. Não ela. A paixão pelo respectivo durara mais que previsibilidade optimista. Já ela se desencantara, quando ele apareceu. Antes, fora uma ilusão precária a dar-lhe sinais do estado relacional: afastara-se objectivamente do companheiro e daí em diante o afecto seria esforçado. Não o abandonaria: homem desprezando-a enquanto pensante, todavia reservando-lhe fidelidade e respeito, é raro. Por esse tempo não se estimava ela por aí além. Indícios esparsos e a crescente consciência de si devolveram-lhe o próprio apreço. Esse foi o mal. Não perdoou ao companheiro a despicienda opinião da sensibilidade e argúcia que a caracterizava. Caiu nos braços do «outro». Num despacho, arrumou a trouxa e ala que se faz tarde. Arranjou casinha e uma vez por outra recebia a visita dele.
De predador não tinha estilo ou vontade. Seduzi-as mais por desenfastio ou exercício de manipulação do que por fé nos próprios recursos para a função. Caíam como moscas apanhadas em mistura de vinagre e mel. Por residentes, (cada uma em su sitio, claro!) contava a primeira e a segunda. Outras havia. Durante a semana, intervalava fantasias calientes de hormonas trintaneiras. A uma fazia «vir», na outra «vinha-se» ele, com a terceira vinham-se os dois. Mais haveria. Ou não. Os anos não perdoam. Procriador de serviço não lhe assentava a especificação. Ilusionista? Amante? Enamorado? Afectuoso espírito e carne leviana? Que interessa?! Ele é a personagem inventada por cada mulher. No palco das ilusões o cair do pano remete-o à (in)consciência. Ilude-a também.
Publicado por Teresa C. às 10:09 AM | Comentários (3)
julho 08, 2006
MURMÚRIOS

Yannick
Sabes como encastelo emoções se dou folga ao filtro lógico. O raciocínio fica inábil. Então, espero respostas imediatas que nem sempre a vida ou tu, os outros ou tu estão dispostos a dar. Por que não podem, eles. Por que não podes, tu. Por que não queres. Por legitimares o silêncio, à primeira vista cómodo, dele ficas refém. E não gosto. Mudo de assunto sem que o essencial perca de vista. E diminuo num milésimo, ou múltiplo dele, o meu afecto por ti. Não o desejo. Não posso evitar.
Por esta altura, deixa-me aninhada no tapete da sala com um beijo e um blue. Sem que mo digas faz um pudim de claras Na cozinha verás que ovos não faltam. Separa, os deuses te ajudem!, das gemas as claras de uma dúzia deles. Regula a velocidade da batedeira para o máximo e, sempre para o mesmo lado, bate até a brancura das claras ficar sólida como ponte que une amantes de corpo e espírito.
Ao ouvir-te barulhar não me movo. Continuo enquistada na metafísica do que não entendo. Dei conta de ligares a 200 ºC o forno.
Estando as claras prontas, junta doze colheres de açúcar e volta a bater em velocidade média.
Pelo silêncio breve percebi não encontrares o caramelo que, sabes, guardo pronto. Abandonei o pensado e centrei-me no que fazias. Sem perguntares, viva!, encontraste o frasco de vidro com o caramelo dourado.
Adiciona um pouco do ouro líquido, o teu gosto manda, porque o meu conheces – lambuzo-me com o aroma, a cor e a textura do açúcar caramelizado.
A doçura dos silêncio harmónicos encanta-me. Desses temos. Dos outros também. Sabem a açúcar queimado que a distracção no tempo reduz a carvão – amargo e negro.
Unta bem com manteiga e polvilha com açúcar a forma de buraco no centro. Enche-a com o preparado e leva ao forno pré-aquecido.
Voltaste e não me esperavas encostada à volta da porta da cozinha. Um sorriso largo. Teu e meu. No forno o pudim crescia. Nós com ele.
Publicado por Teresa C. às 12:21 PM | Comentários (2)
julho 07, 2006
VENENO

Barn Dog
Se ele está insuportável por que o futebol correu mal, a PlaySTation pifou, o peixe do jantar tinha as espinhas usuais, foi traído por um(a) colega, à mulher não será fácil recuperar-lhe o ego desvalido. Pode sempre tentar um Atarax na sopa, caso ele se obstine em não ingerir a pílula salvadora. Não resultando a estratégia calmante, em última análise, o melhor é tirar partido da neura dele e divertir-se. Veja o exemplo seguinte, com a vantagem de (re)utilização aprimorada para espectador mais motivado.
Srip Passo-a-passo
Para as iniciantes, o tempo mínimo do strip é um minuto e o máximo, três. Cada peça retirada é um prémio: mostre-a antes de se livrar dela.
O casaco
Tire a primeira peça enquanto movimenta ombros e quadris num balanço suave.
A blusa
Os botões são desabotoados sem pressa. Não olhe para a blusa, mantenha os olhos no parceiro. Tire a blusa, mas antes de se livrar dela passe-a pelo corpo, provocando o espectador.
A saia
Movimentando os quadris e deslizando as mãos, mostre sua saia. Abra o ziper lentamente. Enquanto ela está caindo, atraia a atenção do parceiro acariciando o próprio corpo. Dê um passo lateral e vá “saindo” da saia. Nunca se baixe para apanhar uma peça.
A cinta-liga
Mantenha os joelhos flexíveis e prefira posições que revelem o lado exterior da coxa, uma parte muito sensual do corpo feminino. Para retirar a cinta-liga, apoie o pé na cadeira. Com a postura sempre erecta, abra o fecho da peça e tire-a. Em pé, exiba a peça, esticando-a na frente dos quadris, e arremesse-a.
Os sapatos
Tire um de cada vez, mas quase ao mesmo tempo para evitar sair coxeando.
As meias
Esse momento exige equilíbrio e a cadeira é óptima aliada. Apoie um dos pés no assento e desenrole cada meia pela perna, até a pontinha do pé. Prenda uma das extremidades entre os dedos, estique a peça para mostrá-la e solte. Repita com a outra perna.
O sutiã
Puxe uma alça, depois a outra. Tenha calma. Sente-se na cadeira, de costas para ele. Projecte um pouco o tronco para a frente e levante os quadris subtilmente. Abra o fecho e deixe que ambas as alças escorreguem pelos braços. Retire e contenha-se: nunca mostre tudo de uma vez. Já de frente, abrace o corpo, revelando um seio, escondendo o outro.
A calcinha
De frente ou de costas, desenrole a peça pelo corpo, como fez com a meia. Não se preocupe com a perfeição do movimento: a atenção do seu parceiro nesse momento estará voltada para sua nudez. Tenha à mão uma estola em tecido leve, meio transparente, para se envolver no final da apresentação se desejar.
Nota: amanhã, deixarei a receita do Pudim de Claras
Publicado por Teresa C. às 08:25 AM | Comentários (5)
julho 06, 2006
RAPIDINHA

Alain Aslan
Ri-te, ri-te, que se dez milhões de «caragos» e outras tantos «fosga-se» matassem estavas Esticadinha da Silva.
Publicado por Teresa C. às 04:57 PM | Comentários (3)
(IN)CONFIDÊNCIAS

Gal Or
“Ai de mim que não estou bem! Esquecei, fazei de conta que nem por assomo do pensamento Vos abordei. Nunca, assim estivesse em perfeito juízo, me teria ocorrido misturar sacro com profano.” Não cheguei a implorar ajuda, porém, admito, era esse o impulso, tal qual. Mudei de assunto e refugiei-me na memória doce e sensata do meu pai. Lá em cima, onde pairam os espíritos cuja energia Einstein constatou não ser destruída, pertence ao meu pai a benevolência de uma alma que, agora sem ausência da censura social, discretamente, viveu rendido ao amor.”
Tinha desculpa: o nervosismo pré-jogo. Jogo como os outros - nada para lá de uma redondeza disputada pelos pés de vinte e dois homens crescidos e milhares de gentes empolgadas, estonteadas pelo fulgor do momento, crendo que no relvado estão deuses e nas bancadas miraculados por testemunharem o irrepetível. Coração no comando dos neurónios, estes como recrutas obedientes ao vozeirão do general. No campo e fora dele, misturam-se deuses, milagres, exércitos, roda da fortuna, magia, circo e fantasia. Muita fantasia.
Os milhões que do jogo não despegam os olhares, pretextam a vitória, sendo portugueses, como incentivo à esperança e auto-estima, confirmação da superioridade subjectiva pertencendo ao povo francês. De facto, a todos espera o dia seguinte, a vidinha do costume, as alegrias, mágoas e o trabalho garante da sobrevivência. Hoje, passados pueris impulsos, chamo por Ele. Entrego-Lhe, a doçura de uma oração, a intimidade de um diálogo, a busca de um caminho atento à tolerância e ao amor. Os grandes eventos que arrastam multidões? – momentos criativos susceptíveis de respeito.
Publicado por Teresa C. às 09:51 AM | Comentários (2)
julho 05, 2006
ACQUA_R_ELLAS

Steve Hanks
“Não digas que sim por que sim, tão pouco arrisques o não. Pondera. Faz silêncio sem que lhe empastes o bafo. Emudecer o diálogo não é hesitação, antes perspectivar novos ângulos do questionado. A muitos o silêncio pesa. É insuportável. Calcanhar-de-Aquiles. Constrange quem cala e quem espera – é comum considerar o silêncio, mesmo atinado, como insolente. Anti-social. Acintoso. Provocador.”
Ela sabia do silêncio o medo, sendo curta a intimidade com o interlocutor. Indiciava rubor e precipitava o frívolo para evitar o vazio da voz. Como na metáfora – “para contrariar um oráculo que predissera morrer o filho de Tétis na guerra de Tróia, a criança, de nome Aquiles, foi mergulhada, suspensa pelo calcanhar, num rio egípcio que a tornaria invencível. No fragor de uma batalha. Aquiles foi atingido no seu único ponto vulnerável: o calcanhar que não fora banhado no rio.”
Descontando ribeiros do Gerês, lagoas serranas, alguns mares e oceanos, as águas mágicas em que mergulhara foram afectos – maravilham, alegram, doem e fazem crescer. Apavorava-a o silêncio imposto, a comunicação perdida, paredes entre seres. Gostava de ouvir. Alimentar o diálogo isentando-o de subserviência, concordância primária ou petulância de ocasião. Dispensando o assentir cómodo ou a rejeição irracional.
“Pondera. O silêncio pode ser perfume de intimidade. Cumplicidade. A tua marca. Reflexão. Pergunta-me se temo ou confundo os teus silêncios com deliberadas omissões. Direi que sim. Sei porém, ouvir o silêncio derramar verdade. Linguagem. Assim a entendo. Assim te quero. Assim me habituei a ti. E o amor não é um afecto de receita individual? Para alguns boa porção de amizade, outra de histórico comum, algumas habituações boas e más, desejo sabedor e tolerância comum. Fácil, não é? Porque andará então meio mundo à procura de affairs e outro meio divorciado? A errância que ignora da vida o melhor.”
Publicado por Teresa C. às 08:18 AM | Comentários (7)
julho 04, 2006
LOOK

Autor que não foi possível identificar
Dos acidentes mais comuns com telemóveis, a Siemens destaca:
- deixar cair o telemóvel;
- atirar o telefone ao chão num acesso de raiva;
- a queda do aparelho na retrete;
- esquecer o aparelho no tejadilho do automóvel;
- deixá-lo cair na neve (de preferência em St Moritz).
Este é o comum enjeitamento do bicho falador e GPS de serviço. Mas há os resisitentes – os que sobrevivem a noite de tempestade após terem queda anónima num charco que, mal comparado, mais parecia a lagoa de Albufeira alia pràs bandas de Alfarim ou Meco; a modos que a Meca do nudismo português. Ah valorosos pirilaus e seios pingões que por ali balanceavam! Ah rosadas guidinhas abertas ao sol do meio-dia! Ah ovos estrelados e pilinhas liliputianas visíveis a olho nu, só de muito perto! Tudo saudável, sem infiltrações, ou tesuras cirúrgicas.
Por esse tempo, “La Plage de La Liberté” perto de Saint Tropez expunha o mesmo encimado por rostos de pevide sendo elas, ou de noisette, sendo eles. Nada de muito diferente, não fosse a rude selvajaria dos espreitas meconatos e voyeurs que na Liberté engoliam discretos orgasmos. Cá tudo boçal, lá tudo raffiné. Isto é que nunca entendi – então os franceses que tomam banho de luva de banho em riste, “lavando-se por partes” como cá já não é visto, são requintados? As pevides e os fragiles que nem um bom duche aguentam por dia? Depois, armados em finos, fazem género, exibem o “Bon Chic, Bon Genre” de contrafacção, pintam as unhas de cores surreais, cortam franjinhas à tigela, pele branquinha, leve e fina, corpos anorécticos e look copiado da Marie Claire. Uma penúria!
Ganhando ou perdendo o jogo, em França, às dez e pouco está tudo no choco, e quem arruaçar tem um tiro garantido. Assim sendo, é mal empregue a vitória francesa. Nós sabemos comemorar, berrar, ir motorizados para a rua, com bandeira, apito, bonés de pontas e a sogra e o cão com o focinho fora da janela. As crianças berram, mas, por essa altura. quem lhes liga? Isto não é um jogo de futebol, é a liberdade, fraternidade e igualdade por princípio, e o mesmo por conquista. Até que dava arranjo...
Publicado por Teresa C. às 09:58 AM | Comentários (2)
julho 03, 2006
IN & OUT

Rowena
Há pessoas assim. À nascença, ou em qualquer outra altura escolhida pelos deuses para distribuição de benesses pelos humanos, a equidade foi mentira. E são deuses, olha se era mortal a condição... Soe dizer-se quando num sujeito uma qualidade é arredia que ficou para a cauda na fila da dádiva referida. Penalizado o mortal por duas razões: não desatou a correr para a cabeça da fila por preguiça ou falta de competitividade, e pela qualidade a menos. É o meu caso: distraída desde a aurora da consciência.
Não fique julgado ter-me conformado ao irritante clássico “Sou assim e não há nada a fazer. Paciência...” Paciências só os entretenimentos usuais para olear o tempo. No que às gentes concerne, mais há que puxar pela vida e esticar as pontas da personalidade. Evito a distracção, procuro ser profiláctica, caindo, todavia, em deslizes literais ou metafóricos.
Pancadas. Colisões com o que parecendo imóvel de facto não o é. Obstáculos matreiros que me põem à prova. O que digo está em exposição itinerante nas minhas pernas: nódoas negras nas coxas – as mais massacradas -, na parte inferior das pernas, antebraços e mãos. E o rosto? Esquinas domésticas, previsíveis – diria eu! – dão-me a honra de abandonar o lugar que normalmente ocupam para virem ter comigo. Razão? Sendo noite e conhecendo a palmo o meu habitat, que necessidade tenho de avançar acendendo a luz? Se abri um armário e esqueci fechar de imediato a porta, é natural esborrachar contra ela as partes mais aerodinâmicas do meu rosto: nariz e queixo. Após o acidente é rotina que enfastia a evolução cromática dos hematomas: progridem do roxo ao lilás, ao verde-azeitona e ao amarelo cor-de-caca de bebé.
Com os valores e normativos sociais reajo de modo em tudo semelhante ao descrito. Daí a insensatez de afirmar que os “doutores da bola”, mais abundantes que baratas no Algarve, são peritos em divagarem por redundâncias de discursos ocos e redondos. Não sei se defenderam tese numa Universidade, mas tendo sido os divinos a fornecer-lhes o alento profissional, resta um comentário: “os deuses deviam estar loucos!”
Toca: Louis Amstrong - We Have all the Time in the World
Publicado por Teresa C. às 06:27 AM | Comentários (4)
julho 02, 2006
BAGAS DE SABUGUEIRO

James Knowles
Escarafunchando negrumes colectivos, a desconfiança nas qualidades próprias é mal menor. Verdade é a alma portuguesa conter uma azinheira onde, a qualquer momento, pode surgir a Senhora das Aparições. Na verdade, uma azinheira nem adianta nem atrasa, não embeleza ou acresce energia. É árvore ressequida e modesta. Vale por ser poiso e pelos espinhaços e folhas de bicos salientes a imporem-nos expressões doloridas nas filas dos transportes, nas salas de espera dos centros de saúde, na rua ou em viagem. Entremeados com estes penares, atingimos arroubos místicos de que os passamentos são o expoente maior. Sejam lembrados os da Senhora Dona Amália, da Irmã Lúcia e do mui querido Papa João Paulo II. As multidões quase tocam os céus sem sair do empedrado do passeio. O mesmo nas peregrinações comemorativas dos surgimentos da Senhora na divina azinheira. Fazem e cumprem promessas corpos ajoelhados, sofridos, crentes numa fé inquinada de superstição que consegue, por miraculosa contradição, devolver esperança à vida.
Partilham a azinheira e estimulam empolgantes devoções, personalidades(?) em contextos de emoção excepcional – os magos da selecção, a Floribela, o Tony Carreira, Cavaco e Silva no período eleitoral, o Sócrates como pólo de um indefinido amor/ódio nacional, Pinto da Costa e o Alberto João, o Major Valentim e a Fátima Felgueiras. Perante modelos tão contraditórios, oscilamos entre picos de euforia e ilimitada (des)confiança no que somos, na expecTativa de feitos grandiosos à escala mundial, enquanto o espírito sabujo nada vislumbra na azinheira e diz-se sem sorte. Pela e com a azinheira evoluímos a personalidade colectiva. Quem lá poisa, muda, a azinheira fica.

Autor que não foi possível identificar
Publicado por Teresa C. às 10:58 AM | Comentários (0)
julho 01, 2006
AÇÚCAR

Olbinski
“My dear Moleskine!” Olho-a, palpo a macieza da capa, mergulho o nariz entre as folhas para do aroma saber o «contacto». Mas não a escrevo. Tão pouco ganho coragem para a retirar do leito que a abriga e confiná-la a uma pasta ou mala. Os cadernos de notas rafeiros, que enrolam os bicos das páginas, servem para registos vadios, porém não recolhem valor que obrigue a apurar o desenho das letras. A Moleskine sim. Em tudo que é saco e posso usar, solto caderninhos avulsos. Lápis também. No da praia, do ginásio, na mala e na pasta. Letra imprevisível como o momento ou o teor do registo. Que destino lhes dou? Uma vez por outra dou uso à ideia, à emoção, ao arrazoado. As mais das vezes, nem isso. Repletos, acumulo-os, até o pó entrado pelas frinchas do armário motivar mexida. Eventualmente, sento-me no chão, os cadernos como cartas desembaralhadas, e leio partes, daqui e dali. É para isto que servem: reter momentos e da água que corre o breve cintilar. Ou para, então sim, brincar com a ideia e escrever. Limpos, regressarão ao armário aguardando que eu ou alguém lhes toque e eles falem do tempo que vivi.
Ontem registei: “Perdeu a Argentina e vai a Alemanha à semi-final. Demitiu-se o Freitas do Amaral por oficiais razões de saúde ou pelas que por bem lhe aprouve silenciar. Trocaram-se os pares no governo como corridinho algarvio ou dança ribatejana - a festa do Colete Encarnado arrancou ontem." E quem se lembrará das danças e contradanças da banda socrática se o espírito é de os pegar pelos cornos e fazê-los bailar na arena, para glória e mérito dos forcados, estejam os touros em Vila Franca ou na Alemanha? Viva o espírito de tertúlia, viva a fé mais o peito arqueado, vivam os aficcionados, vivam as pernas rijas, viva a matreirice e a arte lusa, vivamos nós! Docinha como pinhão em mel - até as touradas branqueio...
Publicado por Teresa C. às 08:58 AM | Comentários (3)