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julho 08, 2006

MURMÚRIOS

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Yannick

Sabes como encastelo emoções se dou folga ao filtro lógico. O raciocínio fica inábil. Então, espero respostas imediatas que nem sempre a vida ou tu, os outros ou tu estão dispostos a dar. Por que não podem, eles. Por que não podes, tu. Por que não queres. Por legitimares o silêncio, à primeira vista cómodo, dele ficas refém. E não gosto. Mudo de assunto sem que o essencial perca de vista. E diminuo num milésimo, ou múltiplo dele, o meu afecto por ti. Não o desejo. Não posso evitar.

Por esta altura, deixa-me aninhada no tapete da sala com um beijo e um blue. Sem que mo digas faz um pudim de claras Na cozinha verás que ovos não faltam. Separa, os deuses te ajudem!, das gemas as claras de uma dúzia deles. Regula a velocidade da batedeira para o máximo e, sempre para o mesmo lado, bate até a brancura das claras ficar sólida como ponte que une amantes de corpo e espírito.

Ao ouvir-te barulhar não me movo. Continuo enquistada na metafísica do que não entendo. Dei conta de ligares a 200 ºC o forno.

Estando as claras prontas, junta doze colheres de açúcar e volta a bater em velocidade média.

Pelo silêncio breve percebi não encontrares o caramelo que, sabes, guardo pronto. Abandonei o pensado e centrei-me no que fazias. Sem perguntares, viva!, encontraste o frasco de vidro com o caramelo dourado.

Adiciona um pouco do ouro líquido, o teu gosto manda, porque o meu conheces – lambuzo-me com o aroma, a cor e a textura do açúcar caramelizado.

A doçura dos silêncio harmónicos encanta-me. Desses temos. Dos outros também. Sabem a açúcar queimado que a distracção no tempo reduz a carvão – amargo e negro.

Unta bem com manteiga e polvilha com açúcar a forma de buraco no centro. Enche-a com o preparado e leva ao forno pré-aquecido.

Voltaste e não me esperavas encostada à volta da porta da cozinha. Um sorriso largo. Teu e meu. No forno o pudim crescia. Nós com ele.

Publicado por Teresa C. às julho 8, 2006 12:21 PM

Comentários

Quem é que se lembrou de usar a palavra alquimia para caracterizar a cozinha? Um tipo solitário, alucinado, a pensar que iria, sozinho, descobrir segredos que lhe dariam poderes infinitos, cozinhando ambição e orgulho.

As palavras. Quando elas se misturam assim, com a precisão de quem as vai provando, as usa com doçura q.b., tem com elas intimidade, sabe deixá-las ferver sem deitar fora... é um banquete que é preparado, imensamente nutritivo, delicioso. A dois. A dois, dança-se melhor, parece-me.

Publicado por: troblogdita às julho 10, 2006 10:35 AM

E parece-te bem, amigo. E por falar em sabedoria: que sejam lidos os teus escritos para dela fruir muitos e bons pedaços.

Publicado por: Tati às julho 18, 2006 03:30 PM

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