« RALAÇÕES SENTIMENTAIS | Entrada | BAGAS DE SABUGUEIRO »
julho 23, 2006
PÉ NA CHINELA

Keith Garv
O penico caiu em desuso. Para os adultos, quero dizer, que as crianças habituam-se ao asseio via penico e os idosos o dispensam ao sentirem dificuldade em chegarem enxutos à casa de banho. De início, escondido, à medida que a utilidade cresce e as incapacidades também o dito fica, expectante, por baixo ou ao lado da cama. Pela calada do sono, “ó da guarda onde está ele?”, e aliviam junto à cama a bexiga acanhada ou urgente no esvaziar. Entre e a meninice e a velhice o penico fica omisso. Longe vão as «mesinhas de cabeceira» com armário concebido para tão prioritário utensílio. Agora, não. Os penicos foram ultrapassados pelas sanitas. A distância ao leito desfavorece a sanita, enquanto o autoclismo a promove e arrasa o fedor matinal da urina depositada durante a noite, ou ao acordar, para quem a bexiga esticada ao limite não perturba o sono. Facto é que ao abrir o olho pela manhã, um penico substituiria com vantagem o desejo de fada-madrinha masculina que o pendente esvaziasse sem perder o gozo de um manso acordar.
À elegância e ao recato feminino é necessário o sentar. Ora, acocorar-se junto à cama e debitar um chichi vigoroso seria gesto de tão mau gosto que encarquilha o espírito em tal pensar. Com eles a coisa muda. Magister dixit: “Quando um homem se levanta da cama de madrugada – altura em que os valores da tensão arterial e do pulso são os mais baixos –, e vai urinar de pé, corre risco de desmaiar porque ao mesmo tempo que faz força para urinar, o sangue aflui à região pélvica ou da bacia, fazendo baixar a pressão arterial. Se o homem tem mais de 40 anos, a glândula prostática pode estar aumentada e o homem tem de fazer maior esforço para urinar. Por isso, alguns quartos de banho têm na parede as marcas das mãos dos homens que precisam de apoio para se equilibrarem - uma mão segura a parede e a outra o pénis.”
Regressem os penicos. Em porcelana, feitos de um polímero qualquer, desenhados pelo Nuno Baltazar e vendidos com a Lux ou a Caras. Para urinar de madrugada, o penico debaixo da cama é objecto sensato. E ao findar o acto, três pancadinhas na borda do penico, de novo empurrado para debaixo da cama e o feliz regresso à horizontal. Despiciendo não serão os riscos evitados: tropeço no escuro, resfriado ou desmaio.
Publicado por Teresa C. às julho 23, 2006 10:52 AM
Comentários
Em casa da minha avó a mesa de cabeceira do quarto onde eu dormia incluía um espaço próprio para o penico, que se abria com um portinha. Já nem me lembrava disso.
Publicado por: Katraponga às julho 23, 2006 07:42 PM
Acumulo indênticas memórias e se inestéticas, algumas, configuram um tempo delicioso de infância.
Publicado por: Tati às julho 26, 2006 10:17 AM
Figas diabo. Usei quando era puto, mas como os meus avós têm um quintal grande, e vivo perto do pinhal, aprendi essa bela arte do "desenrasca-te". Confesso que essa do penico debaixo da cama ou lá onde for sempre me fez muita confusão.
Publicado por: Sandro Franco às julho 27, 2006 03:04 AM