« HISTÓRIAS DE (DES)ENCANTAR | Entrada | TELEGRAMA »

julho 10, 2006

RUBBISH

Helena Amaral.jpg
Helena Amaral

Foi bonita a festa, pá
fiquei contente
'inda guardo renitente, um velho cravo para mim

Já murcharam tua festa, pá
mas, certamente
esqueceram uma semente nalgum canto de jardim

Sei que há leguas a nos separar
tanto mar, tanto mar
Sei também como é preciso, pá
navegar, navegar

Canta a Primavera, pá
cá estou carente
manda novamente algum cheirinho de alecrim

E houve festa, pá. As gentes folgaram depois do sofrimento e sofreram não fazendo órfã a esperança. Gostei do espírito aberto a sentimentos fortes, ao exemplo de sacrifício de homens novos por uma causa, um objectivo, um povo e um país. Espantaram-se-me les petites celules grises ver Marcelo R.S. de cachecol embrulhando o pescoço, e Eduardo Lourenço pronunciando-se sobre o Mundial dali de Vence, no sul de França, os Alpes Marítimos por trás, o mar ao longe. Disse ele – “Estive sempre ao lado da minha vida distraidamente longa. Nunca estive atento. Vendo bem, vivi em dois registos. Como se a minha vida real não me dissesse respeito. Sempre a fingir que não estava lá, para não estar onde estava. No fundo, sou pouco sério.”

É lição que aprendi ser tolo o meu desprendimento pelo futebol. É energia, é pouco sério, generoso, manipulado. É vida. Ignorá-lo é insensato. Triste foi a fífia de Zidane que o expulsou do campo e fez tombar cedo de mais o pano sobre a sua arte no palco relvado. Feitas as contas, ficaram ajustadas: a França perdeu e a Itália é campeã. Mas a nossa festa, essa foi linda, pá!

Publicado por Teresa C. às julho 10, 2006 10:17 AM

Comentários

Foi mesmo linda, pá!
Ainda que alguns ditos "intelectuais", tão longe das pessoas quanto da realidade, achem que a depressão que aí vem será ainda mais profunda e prolongada...
Da ajuda destas elites da treta, o que pode o povo esperar?!
Mas foi linda a festa, pá!!!

Publicado por: j às julho 10, 2006 10:51 AM

A minha relação com o futebol é estranha. Fui, ao longo dos anos, aprendendo a gostar do desporto. Durante muito tempo passou-me ao lado, havia outros de que gostava muito. Foi o fenómeno, primeiro, que me apanhou. Tanta gente falava tanto de "futebol" que era impossível que o futebol me passasse despercebido. Aos poucos fui vendo futebol, com um interesse crescente. Demorou muitos, muitos anos até que pudesse dizer, como digo hoje, que gosto de futebol. Ainda assim não é, claramente, o meu desporto favorito. Porquê as aspas ali em cima? Porque acho curioso que depois de uma partida de futebol se fale do penalti que deveria ter sido marcado, das declarações polémicas de um treinador, dirigente ou jogador, do excesso de cartões amarelos, de um processo a decorrer nos tribunais, da possível renovação do contrato de alguém... tendencialmente são estes os assuntos quentes. É isto "falar de futebol". E o mais picante que pode haver são "os lances polémicos". Isto é algo que balança entre o aborrecer-me, irritar-me profundamente e causar-me uma náusea valente. Daí a minha relação estranha com o futebol. Porque neste momento até consigo ter uma conversa decente com alguém que goste de futebol. Mas apenas de alguns segundos, a não ser que fale de banalidades. [E eu também consigo falar de banalidades.] Ou que esteja a falar com o meu primo, esse sim, gosta de futebol, sem aspas. E percebe muito do assunto - ao contrário de mim. Porque eu fui educado noutras modalidades. Em que depois de uma partida se fala do que aconteceu em termos desportivos. E em que se acompanha os lances, e ao longo da época o mais importante é o desporto, e... uma série de coisas. O texto era sobre o mundial não era?

Eu no último europeu escrevi sobre como me fazia impressão dizer-se "a nossa selecção", "a selecção". Porque para todos os efeitos esta é a selecção de futebol. Uma entre muitas outras. E já tivemos vários campeões do mundo, em várias modalidades. Temos atletas de grande sucesso, que vestem as cores nacionais. Campeões do mundo. Além de muitos campeões europeus. Claro que o campeonato do mundo de futebol é um fenómeno de projecção mediática a nível mundial. Inigualável. Mas é bom lembrarmo-nos do aspecto desportivo. Eles são atletas de alta competição. Há outros, noutras modalidades, de grande nível. Que chegaram mais longe. Foram campeões.

Tirando isso, acompanhei os jogos. Alegremente. Gostei quando houve jogadas bonitas. Sofri um pouco. Gostei de ver o apoio à selecção de futebol. Mas tenho algum desprendimento. Ainda algum. Vibrei imensamente, há uns tempos, com a prestação da selecção portuguesa de voleibol na liga mundial. Que conseguiu resultados fantásticos. Não ficou entre as 4 melhores do mundo. Não chegou tão longe. Mas conseguiu, em poucos anos, uma evolução incrível. E jogando contra outras seleçcões mais fortes, mais altas, com mais tradição, jogar muitíssimo bem. E ganhar. E - isto é que é essencial - eu vibro de forma muito parecida a ver um jogo da selecção de futebol de praia, da selecção de voleibol, de uma equipa de beach volley, como com um jogo da selecção de futebol.

O que me emociona, não sou indiferente, são alguns pormenores que não têm a ver com o desporto. Como o apoio imediato à selecção de futebol depois de esta ter perdido o jogo contra a selecção francesa. O que é muito bonito. E não se vê tantas vezes como se gostaria, em relação às equipas de futebol que jogam nos campeonatos nacionais.

Há outras coisas que me causam estranheza. Ontem, logo que a Itália ganhou, ouvi comemorações, carros a apitar e outros sons que me fizeram pensar por uns segundos de irracionalidade, "mas será que afinal foi Portugal que ganhou"? Mas afinal eram portugueses que estavam a comemorar. O que é manter os hábitos do resto do ano. Tal como se comemora a derrota de um rival regional, comemorou-se a derrota da equipa que por duas vezes nos eliminou de uma competição importante. Eu, sinceramente, tenho mais simpatia pelo futebol francês que pelo italiano. E aquelo "súbito" apoio dos adetos portugueses aos italianos é outra das coisas que me causa náusea. É comum ouvir-se de um adepto português que o futebol italiano é "cínico". Isto porque os italianos jogam demasiado à defesa e sempre atentos a qualquer erro do adversário. E muitas vezes ganham um jogo marcando um golo com um único remate, exactamente explorando um erro de um adversário que jogou melhor, criou oportunidades, mas não foi capaz de se superiorizar à defesa italiana. É a isto que se chama o "cinismo" italiano. Expressão que se usa pejorativamente. É comum, quando nas competições europeias joga uma equipa italiana, torcer-se pela outra, exactamente para não torcer pelo "cinismo". Mas agora, porque os outros eram os franceses, os portugueses engoliram tudo o que costumam dizer sobre os italianos. Isto é que é cinismo.

Publicado por: troblogdita às julho 10, 2006 11:44 AM

Imagine-se um corpo num lodaçal, com água até ao pescoço, por baixo, as sanguesugas, que é como dizer a publicidade, o dinheiro, tráfico de influencias, lavagem de dinheiro, lavagem cerebral social, reciclagem de polémicas, serviços notíciosos inteiramente devotados ao assunto, quando de facto de se trata apenas de um jogo, bonito, mas tão cheio sanguesugas que se torna difícil desfrutar-se do prazer que nos dá... estou curioso em relação à primeira página do 24 horas, ''O que eles (políticos) andaram a fazer enquanto pensávamos no mundial''. Hoje na rádio, faltando o diário do mundial, surgiu uma notícia, grande presença de raios ultravioletas pelas horas de grande calor, aconselha-se os cidadãos a manterem-se na sombra ou então o uso de um bom protector solar, recomenda-se tambem especial cuidado com os olhos, os danos podem ser irreparáveis, é aconselhável o uso de óculos escuros com propriedades anti-ultravioletas... Irónico, a cegueira do futebol... É realmente irónico. Fica tambem a coincidência dos Raios Ultravioletas terem escolhido o dia de hoje para sairem à rua, devem ter ficado em casa a ver o mundial nos outros dias...

Publicado por: Ferdinand C às julho 10, 2006 12:54 PM

Não gosto de ver o futebol do nosso campeonato; nunca tive paciência para ver solteiros contra casados. Do futebol só, quase, gosto de ver os jogos da selecção. Foi bonita a festa pá! O troglodita tem razão, não há como a emoção de ver o subir da nossa bandeira nos mastros, quando algum dos nossos atletas fica nos primeiros lugares.

Publicado por: maria às julho 10, 2006 03:17 PM

Mas é bom ter uma festa para esquecermos a realidade durante alguns instantes.

Publicado por: Marco Oliveira às julho 11, 2006 02:20 PM

De festas estamos precisados. Festas a nós, portugueses, que piores e melhores do que julgamos, somos.

Publicado por: Tati às julho 18, 2006 03:27 PM

Comente




Recordar-me?