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julho 18, 2006
TROCAS E BALDROCAS

«Está de escachar»! «É de rachar»! «Está de ananases»! «Derrete os untos»! Nestas pérolas de expressão ruminava o Eça aturdido por omisso, assim de repente, vocabulário elegante e literato. Desculpavam-no os vinte anos, dizia a si próprio, mas que desculpa posso eu dar pela falta de eloquência se duas décadas dobrei e, perante a minha progressiva desintegração, qualquer das frases do Eça revela vigor sem par?
Não há como escapar: “ficando o fogo pega, fugindo o fogo cresce.” E não há bombeiros que cheguem para tanto corpo ardendo, e mato e floresta. Os areais derretem sob untos curtindo ao sol. Os UVs lambem dos corpos a pele. É uma questão de tempo passarem das lambidelas a dentadas no exposto. Só o coberto está salvo, mas quem julga a sombra protectora de mazelas piores, deve mudar de opinião – a reflexão solar dá-se em todas as direcções, venham recambiados os raios da areia ou da água do mar. Nunca a praga “vá para o raio que o parta” esteve tão actual. É que para lá do quebranto, das momices de enfado, do esqueleto ambulando com dificuldade, há os raios que nos partem mais que sessão de Pilates com o implacável Milton do ginásio.
O povo que se arrasta contrariado na labuta diária, mal dá conta dos indigestos petiscos nacionais e internacionais. À sombra e fresquinhos como «loira» no frio, estão os governantes com os padre-nossos e avé-marias bem alinhavados num terço sem ícone pendente. Ninguém dá conta. “A praia estava demais!”, “à noite dormi mal” pela canícula enfiada no leito de quem não a engatou ou deseja, “lá para o norte o mato pegou fogo e vem por aí abaixo.” Nas praias fluviais os mortos iniciaram trágica contagem crescente. Uma menina de doze anos anda por aí sem-rei-nem-roque e quem ouve a notícia encolhe os ombros – “desde que não me caia em casa...” Israel e o Líbano arrasam-se mutuamente, medindo forças desiguais e malvadez semelhante. O Médio Oriente não é destino de férias, “que maçada!” dizem operadores turísticos. O custo do petróleo trepa com fôlego maior que um Syrah das Cortes de Cima na minha, por si frágil, cabecinha. O Cartel do Sal foi apanhado nas redes da Autoridade da Concorrência, e quem achou inocente a concertação esqueceu não servir o cloreto de sódio apenas como condimento.
Mas pela hora da sesta por fazer e da temperatura por descer, quem se rala com aqueles e outros males? Lamento por lamento preferimos os lusos ais. “Ai que não se aguenta! Ai... Ai...”
Publicado por Teresa C. às julho 18, 2006 09:06 AM