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agosto 02, 2006

BON CHIC, BON GENRE

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Autor que não foi possível identificar

«Go, get the butter.» - Paul (Marlon Brando), in Last Tango in Paris

O uso da manteiga desgostou-me. Não estrelou o filme personagem feminina com dotes e usos domésticos, foi o que foi... Num pico erótico da dança sexual, quando o olhar, os lábios, o cheiro e a exaltação pedem a rendição total, ouvi-lo sugerir manteiga como unguento escorregadio, francamente! De imediato, o entusiasmo volve arrepio. Manteiga sugere puré de batata, formas untadas para cozeduras de bolos, molho bechamel; no melhor dos casos, pão acabado de cozer. A feitura do amor sai prejudicada e a lista mental das compras do supermercado aumentada – “Tal qual! Manteiga falta cá em casa.”

Julguem longínquos os tempos em que durante o acto do amor elas programavam as refeições da semana e detectavam lugares escusos que há muito não viam o pano do pó, e estarão redondamente enganados. Mulher adora ser boazinha. Dar sexo ao homem como quem lhe grelha, sem danos, um linguado. Nele o adormecer é pacato, ela dá da cama um pinote e ainda põe uma máquina de roupa a fazer. “O tempo bem esticado, chega a tudo”, dirá ela, um primor de organização.

Nada releva o mau-gosto de apelar à manteiga para tão prazeroso objectivo. Ou maionese. Ou natas. Ou banha de porco. Há íntimos sabores e prazeres onde a culinária vai mal. Como os pudendos. Ao natural sabem melhor. Como ostras ou berbigão.

Publicado por Teresa C. às agosto 2, 2006 09:20 AM

Comentários

Não que houvesse ali muito nutrir dessa outra cumplicidade, mas num ápice esgotou-se qualquer esperança de um uso relaxado de uma outra frase, "honey, pass me the butter". A cumplicidade de um a cozinhar para o outro, sem a necessidade de ter algo em que incendiar-se, a de uma relação baseada num aprofundar de algo, a do contacto com as emoções do outro. É um exercício interessante pensarmos nele a conzinhar para ela e escapar-lhe essa frase. "Honey, pass me the butter". Ou os dois a comer o pequeno almoço e ele começar só a dizer, "honey, pass me..." Parar e com o braço servir-se. Mas ela perceber o que ele ia dizer. E ficar mais constrangida ainda, porque ele não disse simplesmente o que ia a dizer. Porque se conteve, porque deu importância. Porque foi importante para ele. E porque ele achou que ela se ia importaar. É um grande filme, devo dizer, embora não tenha falado dele. Há um, recente, muito bom. Muito diferente, mesmo muito diferente, mas que me lembrei, neste contexto. "Intimidade". Belíssimo.
http://imdb.com/title/tt0256103/

Publicado por: troblogdita às agosto 2, 2006 11:54 AM

É a minha estreia neste blog, aconselhado por uma amiga, adepta do mesmo.
Que tema interessante....Como sabemos a lingua portuguesa 'é muito traiçoeira' e quantos de nós ao ouvir a palavra 'manteiga' não induzimos o nosso pensar na especialidade gastronómica' que o cinema tão bem deu a conhecer, ainda sem a bolinha no canto do ecran.

Publicado por: Latxo às agosto 2, 2006 01:53 PM

...Brando é... pouco brando. E Maria Schneider deixa-se apagar. E apaga-se, depois do filme. Talvez fosse demasiado pesado fazer um papel daqueles para uma mulher naquela altura. Essa cena terá sido, aliás, determinante. No IMDB surge a informação de que Maria Schneider terá entrado num filme em 2005 enquanto herself, Maria Schneider.
http://www.imdb.com/find?s=nm&q=maria+schneider
Mas depois nem faz parte do elenco. Terá sido uma aparição muito fugaz. Entre os dois filmes, 33 anos de diferença, se bem que este segundo não signifique um regresso. Para Marlon, pelo contrário foi o primeiro de muitos tangos...

Houve algo do texto de que me ficou o sabor durante a tarde toda. Digo sabor no sentido figurado, claramente. Gostei muito, muito da alusão às ostras, e ao berbigão.

Publicado por: troblogdita às agosto 2, 2006 07:15 PM

O último tango em Paris olhado pela cena da gordura láctea, a mim, dá-me um enorme prazer. Não que goste de imaginar/relembrar o acto em si ( acho que nos próximos tempos vou achar que a manteiga tem ranço), mas pelo desconcerto que causou na altura, pela coragem, ousadia e despudor. Obrigada Bertolucci!
"Amant-eiga" com um pouco de imaginação e algum unguento até um "prefixo" se lhe arranja para justificar a sua necessidade na cena.

Publicado por: adalberth às agosto 2, 2006 10:26 PM

Acho que é essa a palavra, adalberth, desconcerto. Eu era um pouco novo, quando vi o filme. E aquela Cena foi desconcertante. Ambígua nas emoções que me provocou. Mas agora dá-me mais prazer olhar para o rosto da ilustração, do que lembrar o da rapariga dessa cena. Que recordo mais com um ricto de dor que com um sorriso relaxado e prazenteito. E mesmo a coluna feminina perfiro-a assim arqueada e receptiva, e não espalmada e esmagada, plana como na cena da manteiga.

Publicado por: troblogdita às agosto 3, 2006 03:04 AM

Opiniões... A manteiga ou outro unguento parece-me estar a mais. Não no filme, mas no real. Havendo gosto nada mais é precisado.

Publicado por: Tati às agosto 6, 2006 10:39 PM

Hajime Sorayama é o autor do quadro.

Publicado por: Paulo às agosto 10, 2007 02:54 AM

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