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agosto 27, 2006

BOXERS DE RENDA

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Alain Aslan

A sociedade é injusta, olá se é!... Os homens podem ir de boxers ao vidrão enfiar garrafas (a)mandadas com energia semelhante à do consumo líquido. Assomam às sacadas sem outra vestimenta a cobrir-lhes a pele. Quiçá abrem a porta após toque intempestivo. Cirandam pela casa sem escandalizar os filhos. Nas horas mortas do condomínio, enfiam uma T-shirt e descem à garagem ou à arrecadação - encontrando o segurança na ronda, nada ocorrerá salvo a saudação habitual. Recebem amigalhaços de anos para patuscada informal. Mulher não, sendo o íntimo básico de renda como convém.

Não tendo pénis nem do atributo inveja, constato a importância social da conveniente cobertura da pudenda área vaginal. Sendo entusiasta de justos boxers de renda nas cores variadas dos sutiãs, é descriminatório tapá-los de olhares alheios aos do nosso companheiro, arrojo insuportável se num vou-lá-baixo-e-volto-já encontrasse testemunha. A diferença reside no alvo do olhar estranho sendo os boxers de homem ou mulher. Para eles, salvo erecção visível que a arrecadação não suscita, a visão é alargada ao todo, quando muito dirigida aos bonecos ou dizeres provocatórios dos calções interiores. Um “Abrir só para mim e para ti!”, vacas, coelhos, ursos ou outra bonecada zoológica copulando são hilariantes, mas tudo fica por aí. Connosco não – o olhar vai direito ao sabido, e a cor, o desenho da fina renda fica de todo esquecido. O primeiro gesto em tal improvável situação seria cruz rápida com as mãos na área púbica. Um top tapando o peito, para efeitos sociais, teria resumo igual: provocação depravada.

O que neles é mau gosto ou despropósito, em nós é isso e muito mais. Salvo catástrofe reconhecida nos telejornais obrigando a fuga apavorada, os epítetos são, no mínimo, de exibidas, “estar a pedi-las”, escandalosas, estar pílulas ou tara sexual. Ora isto é injusto, olá se é!...

Publicado por Teresa C. às agosto 27, 2006 11:11 AM

Comentários

:)

Beijo!

Publicado por: Katraponga às agosto 27, 2006 02:23 PM

Sou muito sexual. A frase assim não diz nem significa nada, ou quase nada. Enfim.

Posso dizer que está longe, estou longe do que os contextos desta nossa sociedade nos colocam em sexual. Em sexo. Em sexualidade.

Mas para todos os efeitos vivo em sociedade, na sociedade. E bastante bem, sou feliz.

Uma outra palavra, que me parece importante. Uso-a já numa expressão. Esta é uma sociedade "erotizada". Usei as aspas só para a mostrar. Porque não tem aspas. É mesmo erotizada a sociedade. E muito.

Eu que tenho o sexo, a sexualidade como algo de tão essencial, tão integrado na minha vida, mesmo nos periodos que passo sem ter relações sexuais, vejo essa erotização - artificial - como uma espécie de inflação simbólica.

Essa erotização recai sobre o corpo feminino. De forma particular. E já há muito tempo. Estar junto a um corpo de mulher nu, por exemplo, num contexto de uma praia de nudismo, quando é a primeira vez que estamos nesse contexto, deveria ter os constrangimentos normais. Há o cheiro, há as feromonas. Que nos assaltam. Como pinceladas mais fortes numa tela vívida, o corpo nu. Há os comportamentos que queremos ter, queremos ser amáveis, não queremos ser inconvenientes.

Mas não é só isso, o corpo da mulher já se tornou um símbolo, um ícone repetido à exaustão. Mamas, ancas, curvas, a zona púbica, são partes que si próprias se tornaram quase semas, são quase elementos semânticos isolados. Um par de mamas é provavalmente constrangedor por porque é um símbolo poderoso.

E isto é patético. É uma merdinha de um absurdo.

Eu gosto de um bom constrangimento no sítio certo.
Porque é assim. É a vida. Nem é precisa nudez, nem que se note a minha erecção, ou eu chegue a gaguejar. Mas o corpo, o cheiro de uma mulher, a sua voz, o seu estar-ali-irredutível é suficiente, é mais que suficiente, para me quebrar a eloquência, me fazer tropeçar na vaidade.

Não fico preso no corpo às partes. Ou com o olhar perdido, quando me estão a dizer algo.

Por vezes basta um cheiro a meio de uma frase que estou a dizer cheio de cagança. Ou um olhar que me apontam para os meus olhos, a direito.

E para não me desviar do assunto. Lembro-me de um banho que estava a tomar, com roupa, calções compridos, mais exactamente. Um festival de Verão, os chuveiros, dezenas de pessoas, um biombo comprido, rapazes e raparigas, vi que todos teriam mais de 18 anos. E de perguntar, olha, se eu tirar calções e tomar banho como deve ser achas que alguém nota. E ela disse-me, mmm acho que não. E tomei banho nú, facilmente. Se alguém reparou, fez que não notou. Noutras situações, em que [num Portugal do séc XX não há exactamente euforias de Woodsotck] a nudez não seria total mas era feminina, havia discrição suficiente para fazer o mesmo.

Eu não saio à rua, mesmo quando o meu corpo pedia olhares de desejo não o fazia, em cidade com pouca roupa. Realmente não o faço. Lembro-me de na figueira da Foz todo o trajecto até a praia ser em tronco nu. Bastou-me uma vez ter ficado com marca de bronzeado nos braços e nunca mais andei com t-shirt. Mas ali, no verão não me sentia em cidade.

É difícil, Tati, compreendo o desabafo, esperar que mude, não a indiscrição - é bom ser-se desejado -, até é bom, por vezes, quando já vamos a fechar a porta sermos nós a apnahar em flagrante um olhar que se apressa a esconder-se, um olhar que olhava com assombro e prazer... [perdi-me]

Mas há olhares que pesam, realmente. E há até os olhares de grupo, que se apropriam, que querem dominar. E essa coisa estranha de o corpo não ser só a pessoa. Não ser ali uma pessoa que saiu à rua. Mas ser um conjunto de partes, de suculências. Bem isto de uma pessoa ser um conjunto de suculências até não está nada mal, hein? [hein??] que raio de som é este.

suculenta é a tua escrita.
e pertinentes e aguçados sempre os teus reparos, desabafos, críticas a tua escrita.
eu que tenho esse pedaço de carne a mais,
tenho admiração pela forma como és concisa, clara e contundente - eu hoje derramei-me por aqui.
um abraço, nuno.

Publicado por: troblogdita às agosto 27, 2006 06:43 PM

Eu pessoalmente acho que é uma doença crónica a forma como muitos homens falam e muitas vezes se dirigem às mulheres vestidas de forma tão "provocadora" que se chega ver a bundinha e o decote da cuequinha pelo vestido, e quando é o fiozinho dental minha nossa... cruz credo, porque homem que é homem tem de babar e condenar (aquela tipa se fosse minha mulher... pá). É uma tristeza, e é uma pena que ainda seja tão incorrecto as pessoas serem e mostrarem como são, como gostam de estar e como a partir daí se desenrolam as relações? a socialização? Não sei muito que lhe diga, por exemplo comprei máquina tal slr, e já fiz dezenas de desenhos sobre nu para anatomia e desenho, muitas pessoas me perguntam porque é que não faço sessões de nú. E eu respondo à parte de tanta confusão, porque ainda não consigo, porque é difícil, e porque recuso-me a ser mais um a mostrar os belos detalhes do corpo feminino.

A beleza está na mulher, na presença da mulher, na voz, na conversa, no riso, nos cheiros, na frontalidade, num gesto peculiar, num interesse comum, na individualidade... e eu ainda não sei como fazer perceber isso e não outra coisa qualquer...

Gosto da tua escrita (não consigo tratar as pessoas por voçê, para mim, com o devido respeito, são todas da minha idade), escreves a punho, com aprumo (coisa rara nestes dias) e clareza. És completamente livre de espírito e isso transmite-te a serenidade e a sensatez necessária para trabalhares as palavras de uma forma muito interessante. O teu blogue é muito interessante (entre melhores que vou lendo por estes dias).

Tem uma boa semana Tati.
:)

Publicado por: Sandro Franco às agosto 28, 2006 01:24 AM

A internet é um mar com ondas que me levam onde eu não espero.

Andava eu à procura de um link para a notícia sobre a proibição do topless em Nice. [lembram-se de há uns tempos haver o costume de sair em "tronco nú" da praia e ir assim pela rua até perto da entrada para o hotel, a casa própri ou não]. Na altura os protesto puritanos contra o à-vontade crescente em andar com a parte de cima ao léu, o o "ao léu" se trazer da areia para a rua, fez com que se proibisse o topless na praia. foi um escândalo. O topless proibido em Nice, em plena Côte D'Azur.

Não encontrei link para essa notícia, de que me lembrei há pouco.

Em vez disso, algo muito mais ligado à minha experiência de tomar banho nu num chuveiro de festival.

Uma rapariga toma banho nua [uma indiana] num chuveiro público, no Fórum social Mundial de 2003, e é violentamente impedida pela polícia. A reação dos jovens é uma manifestação - pelada, obviamente. Que é novamente reprimida.

Aqui vai o link. E um vídeo da manifestação.
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2003/05/253930.shtml

Publicado por: troblogdita às agosto 28, 2006 06:55 PM

A ambos não é demais agradecer o modo como orientam os escritos para novas e brilhantes orientações. Desejo-vos uma belíssima semana que hoje começa.

Publicado por: Tati às setembro 4, 2006 05:33 PM

isto e muito ixitante cem me dera ter uma coisa dessas a minha veira hmmmmmmmmmmmmmmmm...

Publicado por: tiago às novembro 3, 2008 06:25 PM

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