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agosto 16, 2006

EMÍLIA DA PRAZER

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Alain Aslan

De tão bela mereceu alcunha: Emília Bonita. Rapariga viçosa, morena na pele e no cabelo sedoso. Para estudos, além da quarta classe era curto o dinheiro dos pais. Da fábrica têxtil não escapou. Antes isso que os pés descalços enterrados na terra para a ceifa e apanha das batatas. Suportar dois quilómetros a pé antes do dia nascer, a neve soprada pelo vento e o frio como foice no rosto, cortava pela base a esperança da vida poder mudar. O passo era corrido, não ouvisse a sirene da fábrica antes de nela entrar. Fosse a chuva torrencial e a chegada tardia, a roupa encharcada secava no corpo e os pés nos botins de gelo.

Urdideiras e caneleiras – tarefas de mulheres. Patrões, empregados de escritório, debuxadores, responsáveis do fio, tecelões de primeira, segunda e terceira. Masculinas as tarefas superiores ou criativas; às operárias esperava-as a repetição dos gestos dispensando o raciocínio. Suportadas as horas de trabalho sem limite definido, e, após a dureza do caminho de regresso, mais havia para as mulheres cumprirem – a lida da casa, os filhos para tratar, dar de comer às galinhas e ao porco. Os homens iam directos ao cultivo do campo de onde recolhiam a restante alimentação de sobrevivência. A noite curta mal dava para aliviar os ossos da crueldade dos dias.

A Emília da Prazer, como a Lurdes do Zé Diogo – rapariga loura e de pele branca de cetim – e tantas outras como estas, pelos dezasseis anos, mais ou menos, sofriam o rito iniciático no mundo operário. Os patrões experimentavam-lhes o corpo após a máquina que as prendia delas ter sentido os dedos. Assédio sexual prolongado não havia – iam directos ao assunto e acabava. Elas perdiam a virgindade, cerravam os dentes e fechavam a boca após a indignidade. Um momento de dor e mais nada, pois era coisa comum e sabida antes da entrada. Gostando da «primeira vez», os patrões e funcionários superiores repetiam no «quarto do fio» o gozo roubado. Ou não. A Lurdes cozia-se aos muros e pinheiros e subia o Batoquedo. O patrão esperava-a no carro numa curva da estrada da serra. Amainada a fome de carne fresca, a Lurdes casou com o namorado que, no entretanto, fechara olhos e ouvidos ao que a aldeia via e murmurava.

Pela Emília perdeu-se de amores o António do escritório. Paixão correspondida. Estava o amante com o casamento insuportavelmente marcado e quis da Emília assentimento para fugirem. Não conseguiu. Ela sonhava casamento na igreja da aldeia, vestido branco, padrinhos e flores à saída. Recusou a fuga sem apagar o amor. Continuaram amantes. Ele casado, ela solitária e engelhada. Até morrer.

Publicado por Teresa C. às agosto 16, 2006 09:42 AM

Comentários

Belo e luminoso, desde a doçura com que se inicia até ao nó na garganta com que se acaba.

Publicado por: troblogdita às agosto 16, 2006 02:31 PM

Bonito e realista.

Publicado por: João Norte às agosto 17, 2006 10:46 AM

Obrigada a ambos. Abraço e beijinho.

Publicado por: Tati às agosto 17, 2006 10:56 PM

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