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agosto 12, 2006

EU, Tati

A girl in love.jpg
Autor que não foi possível identificar

Narcísico um texto que fale do próprio? Nem por isso. Antes olhares. Dispersos. Atentos. Vagarosos ou relâmpagos de ocasião. Porque repetido o regresso a um lugar não perco a novidade sentida à mistura com o aconchego das raízes pujantes que me suportam e abrem à vida. Atentando no escrito, menos veloz que o pensado, reconheço ter, entre infinitos defeitos, apego forte à família e aos lugares variados da minha crescença. Os pais vieram da cidade em que viviam para que nascesse na terra familiar. Aqui casaram como os pais e avós e bisavós até longínquas gerações. Aqui me baptizaram e vim de propósito casar. Ao ser mãe fiz o mesmo: na Igreja que tantos anos esteve a cargo do tio bisavô, sacerdote do lugar, procurei para os filhos a benção do Deus em que acredito.

As matriarcas do clã tinham-me por endiabrada em criança, sem parança já mulher. A mãe afirma cansar-se por ver-me rodopiar se há tarefas na lista. Mais afirma: “fizeste tudo muito cedo – casamento, curso, filhos e despachaste o marido.” E tem razão.

O novo que me prende o olhar fica por conta das gentes e das mudanças nos lugares. Hábitos sociais alterados, rostos que desconheço, me cumprimentam e lembro depois, memórias onde figuro e recordo e tenho gosto em rever o rosto-testemunha do que fui. As rugas, o branco no cabelo chegaram a quem me fala, mas o sorriso, os olhos e a voz permanecem e tocam a rebate lembranças. Que fruo com demora. Para eles sou a menina de cujo percurso souberam por atalhos que ignoro. Atribuem-me o nome carinhoso da meninice que logo a seguir emendam, enredando-se em desculpas que me apresso a desfazer. É bom saber que a menina permanece na ternura de quem me quer bem. Como eu lhes quero. E essa menina existe. Quando deixar de a sentir, não sou eu.

Publicado por Teresa C. às agosto 12, 2006 09:55 AM

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Recordar-me?