« julho 2006 | Entrada | setembro 2006 »

agosto 31, 2006

FÚRIA A DIAS

James W Johnson poe.jpg
James W Johnson

«Qualquer pessoa pode zangar-se, é algo muito simples. Mas zangar-se com a pessoa adequada, no grau exacto, no momento oportuno, com o propósito justo e do modo correcto, isso, certamente, não é tão simples»

Exemplar de Lógica Aristotélica by Murcon

Ora aqui está a perfeita súmula do que senti ao ver-me impedida de aceder nos últimos dias ao «Sem Pénis»!

Publicado por Teresa C. às 06:38 PM | Comentários (3)

agosto 30, 2006

QUANDO ELAS FALTAM

elvgren-03.jpg
Elvegren

Ao princípio estranha-se, depois entranha-se. Antes do último dia de Julho, parece ser a fuga a melhor solução. Displicentemente, substituímos o temor por encolher os ombros e desabafar: “vou de férias, quero lá saber! No regresso se verá.” E vê-se. Pó por todo o lado, máquinas de roupa para engomar, refeições a cozinhar, reabastecimento da despensa por fazer. Sem hipótese de na véspera recorrer ao telefone e pedir: “antes de chegar compre caldo-verde. Ah, e caldos de galinha. Já agora, um requeijão para a tarte do jantar” Mas não. Elas, finas como um alho, põem-se a milhas deste e outros S.O.S. Fazem bem.

Remando com frequência ao arrepio das correntes, a cereja no bolo pelo final de Agosto é não partilhar majestades domésticas. Anos de experiência permitiram-me antecipar o problema e transformá-lo num prazer. Casa minimalista em móveis e objectos, tapete único na divisão que me atura taras e manias, soalho à vista nas restantes. Nas paredes profusa arte de que não prescindo. No chão sobriedade de haveres. Depois, há as toalhitas que «varrem», que «lavam» e as que «limpam o pó». Adeus vassoura, esfregona e espanador. A engomadoria faz o resto, cozinhar é um prazer. Nada mau.

Trato de fruir do acordar tardio sem chave rondando a porta pouco passando das oito. Sem conversa e perguntas e dúvidas existenciais sobre os bifes se recheados ou não. Faço o café ao sabor do dia, não engulo sem escolha o que me é servido. Odiando supermercados, seja qual for o tamanho, passo de raspão pelo mais próximo satisfazendo as necessidades diárias. Dias meus. Sem elas, creiam, não se está nada mal.

Publicado por Teresa C. às 01:26 PM | Comentários (0)

agosto 29, 2006

CABRESTOS DA ALMA

web_PopeBenXVIWhite.jpg

O Vaticano é especialista. No mundo ocidental, é dos poucos regimes ditatoriais sobrantes. Pela autoridade abrange milhões de seres, punindo desobediências pelo pecado mortal ou excomunhão. Noutras religiões vigoram sistemas radicais com crueldade física e moral. No Vaticano, não - é radical, mas subtil (não atrai com virgens ou castiga à pedrada). Justifica por isso, que às determinações obedeçam muitos católicos conformados ou acríticos. Ora, se Cristo alegadamente libertou o mundo espiritual através da tolerância para com as fragilidades humanas e da rebeldia perante normas injustas, são incompreensíveis as danações papais. Quais cabrestos das almas, as regras emanadas da maioria ultraconservadora que rege o mundo católico, por cada apreciação das descobertas científicas tem na manga larga uma condenação.

Passado que foi o negro período das imposições aristotélicas pela vontade papal – à volta da Terra plana girava o sol, é exemplo clássico -, o sistema que me governa, enquanto católica, pouco mudou. Concedo que não vou alimentar fogueira por pensar o que escrevo, mas da outra, da infernal, acreditasse eu nela – assim, como assim, o bilhete só de ida para o Inferno estaria comprado - e neste mundo a vida seria de desbunda total. Para quê, inquiriria o raciocínio lógico, ter vida pura, se pelo pensamento estava condenada?

A bem da sanidade mental, não creio em fogos, purgatórios ou paraísos. Procedendo bem ou mal, guiam-me valores conscientes. Sou católica por crer num Deus que escolhi, após a respectiva apresentação pelos pais e avós e todos os que conheci e já lá vão. Poderia o Deus ter outro nome. Diferentes normas ou predicados. Mas seria à mesma entidade criadora que, no limite do raciocínio científico, significasse o começo e o sentido das coisas - pela fé, pelo pulsar de uma esperança obstinada, pelo magnificente imbróglio que é a civilização.

As células estaminais obtidas sem danos ao embrião, não chegam para convencer as silenciosas figuras que se movem em passo miúdo na sombra dos corredores. São os conselheiros e forças de pressão da Igreja, a par do conservadorismo de Bento XVI, que nos danam ou abençoam – se és obediente “a paz esteja contigo”, se não “ou te arrependes ou estás feito, pá!” Comigo isto não pega. Cabrestos do espírito, não!

Publicado por Teresa C. às 08:43 AM | Comentários (3)

agosto 28, 2006

DO BUSTO PARA CIMA

tatoos.jpg
Autor que não foi possível identificar

Parada no semáforo. O verde preguiçoso aproveito-o para inspecção ao rosto, enviar mensagem rápida, gozar ou fruir da luz e instalar-me no dia. Uma vez por outra, estando o rímel impecável, observo os passantes ou as viaturas paralelas. Foi o caso. A pendura, do busto para cima, dei-a por visão agradável. Inclinou-se e prolongou beijo ardoroso. Ver casais enamorados enternece o meu coração. Discreta, afastei o olhar – momentos em que o mundo é esquecido precisam que o mundo se esqueça deles.

No instante programado, o verde escancarou o cruzamento. Enquanto o casal se compunha, avancei. Nada tendo de santa pousada em toalha bordada num altar, fui curiosa – arrisquei o retrovisor. Teriam estampado no rosto o langor? Tinham. Sorriam. Um olhar na condução, outro na amada. Adivinhei-lhes as mãos afagando as coxas. Alegria. Felicidade. O gosto de «estar com».

Ninguém se interpôs entre nós até ao vermelho seguinte. Como a ternura é bem que prezo recolher, sinto que apenas do respeito pelos afectos o mundo pode esperar redenção. Novo olhar ao retrovisor – do busto para cima eram lindas as duas mulheres. Num beijo glorificaram o amor.

Publicado por Teresa C. às 09:58 AM | Comentários (4)

agosto 27, 2006

BOXERS DE RENDA

200-Sept80.jpg
Alain Aslan

A sociedade é injusta, olá se é!... Os homens podem ir de boxers ao vidrão enfiar garrafas (a)mandadas com energia semelhante à do consumo líquido. Assomam às sacadas sem outra vestimenta a cobrir-lhes a pele. Quiçá abrem a porta após toque intempestivo. Cirandam pela casa sem escandalizar os filhos. Nas horas mortas do condomínio, enfiam uma T-shirt e descem à garagem ou à arrecadação - encontrando o segurança na ronda, nada ocorrerá salvo a saudação habitual. Recebem amigalhaços de anos para patuscada informal. Mulher não, sendo o íntimo básico de renda como convém.

Não tendo pénis nem do atributo inveja, constato a importância social da conveniente cobertura da pudenda área vaginal. Sendo entusiasta de justos boxers de renda nas cores variadas dos sutiãs, é descriminatório tapá-los de olhares alheios aos do nosso companheiro, arrojo insuportável se num vou-lá-baixo-e-volto-já encontrasse testemunha. A diferença reside no alvo do olhar estranho sendo os boxers de homem ou mulher. Para eles, salvo erecção visível que a arrecadação não suscita, a visão é alargada ao todo, quando muito dirigida aos bonecos ou dizeres provocatórios dos calções interiores. Um “Abrir só para mim e para ti!”, vacas, coelhos, ursos ou outra bonecada zoológica copulando são hilariantes, mas tudo fica por aí. Connosco não – o olhar vai direito ao sabido, e a cor, o desenho da fina renda fica de todo esquecido. O primeiro gesto em tal improvável situação seria cruz rápida com as mãos na área púbica. Um top tapando o peito, para efeitos sociais, teria resumo igual: provocação depravada.

O que neles é mau gosto ou despropósito, em nós é isso e muito mais. Salvo catástrofe reconhecida nos telejornais obrigando a fuga apavorada, os epítetos são, no mínimo, de exibidas, “estar a pedi-las”, escandalosas, estar pílulas ou tara sexual. Ora isto é injusto, olá se é!...

Publicado por Teresa C. às 11:11 AM | Comentários (6)

agosto 26, 2006

ERVA DE CHEIRO

Portrait.jpg
Autor que não foi possível identificar

Os últimos dez dias de Agosto pré-anunciam a rentrée. Prematura concepção, mas sempre assim foi e irá ser. Para mim, já se vê. A praia situo-a de Maio a Julho - tempos houve que penei na primeira quinzena algarvia entre «caragos» e «maralhal» lisboeta em calções. Indefectível de Vale de Lobo em que o Agosto é sofrível, só até Julho o sítio revela esplendor – luz suave, buganvílias escandalosas, o verde novo de final da Primavera, início de Verão. Por essa altura, acartam caixotes ou empalidecem nos serviços os «bifes», holandeses e alemães (os por ali encontrados têm casa própria no local). Empate no encanto e descanso. Passarinhos que no «Favo» vêm comer à mão. O Apolónia de Almansil como melhor supermercado nacional – não acreditando experimentem e depois dir-me-ão! – está no apogeu da excelência, e quem por lá circula fala baixo, tem bom ar e cheira bem.

Tomada a decisão de regressar aos pesos e Kinesis e máquinas de muscular no domingo, esta semana gastronómica foi um arraso, uma perdição. Porque o palato o pedia, porque emagreço em férias, porque não me apetece o aumento de massa muscular, porque é confortável comer sem a preocupação de ingerir as proteínas mínimas compatíveis com a desportiva função. Ao almoço de ontem, sendo excelente a companhia e curtas horas comprimindo a refeição, na rua Tomás da Fonseca a escolha estava feita: Erva de Cheiro. Restaurante pequeno de bom gosto. Discreto e silencioso. Isento de barulhos de cozinha. Frequentado por gente amável a requerer o mesmo que os concidadãos. Funcionários serenos, sem hora racionada para despachar quem chega. Em tudo distante das capelas de Carnide, incluindo o Galito dos alentejanos sabores.

Pregado frito no ponto, açorda aromatizada por ervas frescas, salada viçosa a contento. Desde a alvura das toalhas e a verdura do chemin, ambos gratos a ferro eficaz, ao serviço sem mácula do responsável da sala e da cozinha, os sentidos explodiam e desejavam mais – um vinho a condizer. O apetite sugeria-me um branco arenoso, ali das bandas do Sado; porém, a companhia por razões passageiras era abstémia. Imitei-a. A água fresca destoou. Solidariedade obriga e mais não podia fazer.

Da semana que termina, lembro o jantar de terça no Las Brasitas das Docas – o do Páteo Bagatela virou cantina profissional -, o almoço de quinta pelas magníficas sardinhas e chocos grelhados, partidos miúdos e enfeitados com cebola picada, temperados na cozinha da tasca fina do cais piscatório. Fortes sabores suavizados por um fresco parente-pobre do Alvarinho: Deuladeu. Nenhum destes prazeres preservaria no tesouro dos momentos felizes sem os laços apertados dos infinitos afectos que me ligam a ti e a ti.

NOTA - Retirei com desgosto a ligação ao extinto Tasca da Cultura. Acresço com gosto a do vivo e recomendado Avatares de um Desejo. Mudanças que a blogosfera tem...

Publicado por Teresa C. às 11:30 AM | Comentários (1)

agosto 25, 2006

SEXO A DIAS

chelin Sanjuan 2.jpg
Chelin Sanjuan

He's the highest paid lover in Beverly Hills. He leaves women feeling more alive than they've ever felt before.

Nem bonito, nem feio. Banal. Longe do arquétipo do Richard Gere no American Gigolo. De Armani conhecia o nome, sem que a pele identificasse o corte e a brandura do tecido, bem caído, movendo-se com ele. O bairro suburbano e o desconjuntado berço arredara-o do lustro social a requerer imagem, discurso e atitudes de bom gosto intercaladas no ADN sinusoidal. No início da vida adulta, cuidara de sobreviver. Pés golpeados pelo cascalho do trajecto. Espírito atento, ágil, a pedir mais. Que não vinha. Que obrigava a calos nas mãos. Submissão a regras, a patrões. Dinheiro curto. Sonhos grandes de mais. Fuga à vidinha nos outros costumada com mulher e filharada. Livre dizia. Mas não: aperrado ao próprio umbigo. E isso não é liberdade, antes jogatina batoteira com o alter ego que até nem era mau.

No início descobrira o mundo para lá do bairro, da cidade, da metrópole que, à época, achava hostil. Breves sortidas e o regresso. À cidade. Ao bairro. Num acaso, após amores precários, aproximou-se de mulher desamparada. Caída, de seguida, nos braços dele. Deu-lhe gozo a sedução. O engodo. A adrenalina da simulação. Encantar, ser gostado, mimando para ser mimado. Servido, ao servir. Compensado em géneros ao crescer na mulher a adição. Um maná. Um expediente rentável. Um part time de gozo controlado. Tendo esta e aquela na mão.

Deu lustro ao polimento adquirido e atreveu-se a voos maiores. Com êxito. Sem maçada – para que precisava ele de corpo musculado se a lábia e o desempenho teatral satisfaziam a ilusão do amor romântico de mulheres sem idade e vazio no coração? Elas pagando, caro, o contentamento. Ele canibalizando afectos e sonhos. Falando a linguagem do amor. Desejo encenado. Sexo automático. Gigolo urbano. Banal.

Pelos anos e má vida e sonos trocados, o erecto engodo dava sinais de recusa. Ficava a lábia. E as momices de ternura. E o descaro. E a falência do esquema à vista no horizonte. Ele rejeitava os sinais. Ou fingia... Porque ninguém mais, além do próprio, sabe tão bem o que lá dentro vai.

Publicado por Teresa C. às 11:25 AM | Comentários (6)

agosto 24, 2006

CASA E PUCARINHO

Robert Mcginnis 66.jpg
Robert Mcginnis

Casar merece ponderação. À uma, porque a cerimónia religiosa ou civil ou é presente dos pais ou dívida para lavar e durar até ao secundário dos filhos que não tardarão. Às duas, porque não casar vai deixá-la de trombas o resto da vida e espalmar o desgosto nas ventas em repetidas insinuações. Filhos de imediato ou mais tarde? De ambos o «acidente», dela a decisão cerebral a que o útero obedecerá ou não. Às três, a aliança confere a homens e mulheres o estatuto de desejáveis no mercado dos affairs e dos amores. Aliança no dedo é farol – se alguém os quis e quer, por alguma e excelente razão será -, certificando na medida possível que homossexuais não são. Rematando: o compromisso de casa e pucarinho está longe de afastar os parceiros do mercado das aventuras de ocasião.

A idade dela e dele é item de reflexão. Querem-na tenra, bem fresca e apetitosa? – irão aturar-lhe o crescer, mais os desejos de autonomia, mais a falta de experiência, de cultura e o excesso de gíria. Mais madura (leia-se mais velha)? Hipótese vantajosa – pela lei das probabilidades marchará cedo e trará menos incómodos, salvo as fraldas, tremuras, arrastadeira, a memória esvaída, agenda preenchida por exames e consultas médicas regulares. Idas a consultórios, hospitais e centro de saúde tomam o lugar dos acontecimentos sociais. Nos roupeiros o espaço para roupa de «ir ao médico» será maior que a destinada aos chás com as amigas - também estas terão dificuldade pelas mesmíssimas razões em concertar data para a reunião. Pormenor não despiciendo será o horário das refeições. Pequeno almoço às oito e meia, almoço ao bater do meio-dia e jantar às sete – a medicação obriga e apreciam estar disponíveis antes dos telejornais. As novelas sucessivas ocupam o serão. E depois é sempre assim. Ao domingo, o ramerrão muda por motivo ponderoso – missa dominical.

Ficar só? Não sei, não... Obriga a psique forte e variado entretenimento pessoal sem dependência de outrem. Vantagens são mais que muitas – passarinhar nua pela casa, depilada ou não, máscaras de beleza, refeições, extravagancias domésticas e tristes-figuras sem testemunho censor. Inconvenientes? Assim de repente... Pensando bem... Nenhum!

Publicado por Teresa C. às 10:03 AM | Comentários (7)

agosto 23, 2006

DESCASAMENTAÇÃO

Deborah poynton BeforeTheWedding.jpg
Deborah Poynton

Quando tudo entedia, o próprio acima dos demais, férias ou fim-de-semana não reforçam o ânimo. Seja em parceria com o escolhido ou na mais perfeita solidão, é uso buscar nos outros, mais que no próprio, a dose semanal de reestruturação. Venha o mote, aproxime alma caridosa o isqueiro do motor de arranque e talvez o combustível do entusiasmo carbure emoções e entusiasmos novos. Quem sabe ela lembre cuidar do cabelo e dispense a mola que no cocuruto prende pontas desalinhadas... Ou enfia vestido leve que lhe deixe os membros nus e cozinhe com os cabelos molhados de onde exala aroma frutado... Talvez ele ceda, dispense o guindaste que o ergue do sofá e rume à beira-rio. Acto inédito – cuidar do visual para uma saída a dois, sem que a formalidade estrita do sítio ou massacre pela mulher seja razão.

Fora ou dentro de casa, percorrendo a via-sacra da «descasamentação», remoem desilusões. Ele e ela. Nenhum pesadelo ou profecia os prevenira para a rotina puída dos dias. O afecto como água choldra. A alma com nódoas de mágoa e mentira e raiva, de sebo dos fritos deglutidos e depois ruminados. A vontade gelatinosa. A memória embrumada do dia em que acreditou amar aquela mulher. Ela o mesmo. E no unto televisivo depositam olhares de quem não vê, pousam o vazio dos sentidos, a miséria da crença de que a vida é mesmo assim. Por cobardia ou razões menores, cegam perante o sonho que aguilhoa a alma e garante dos tesouros o maior – respirar em liberdade. De cabeça erguida enfrentar o mundo. Para o melhor e o pior. “Nada temo, nada devo, aqui me têm. Sim, sou eu! E depois?”

Publicado por Teresa C. às 10:12 AM | Comentários (2)

agosto 22, 2006

LAMBER OS PÉS

Gennadiy Koufay 2.jpg
Gennadiy Koufay

“Outra volta, nova corrida!”, guinchavam nas feiras os encarregados dos carroceis, roletas e carrinhos de choque. Na minha agenda de férias é o mesmo, exceptuando a corrida – isto de remanso amua com pressas e corridas e ansiedades. A parecença está também nas voltas, nas etapas em que dividi o veraneio. Iniciei a terceira. Veremos se lhe evito sobressaltos.

Mais urbana, decidi-me por mergulho em grande estilo e a condizer: papei telejornais e, na hora do jantar, o palato impôs a escolha: pizza. Apetite súbito a que não resisti. Escasso nos meus dias, só pode ter nascido da fartura de gastronomia cuidada em que a segunda etapa me contemplou. Vai daí, veio a pizza e a dificuldade do troco e a caixa de cartão e um molho que não entendi. Empanturrei-me, foi o que foi.

Para o pós-prandial estiquei-me no sofá disposta a dar de mão-beijada às notícias a minha atenção. Apanhei a coisa a meio, o que não atrasa ou adianta pela tepidez das mesmas e frequente repetição. Dizia actriz conhecida nas lides teatrais que ao Filipe La Féria era devido, pela excelência das produções teatrais, “lamber os pés”. Estarreci! Lamber os pés? Sim, nada que perturbe quando pertença do amado que connosco partilhe lençóis. Do La Féria? Doutro qualquer? Um desgosto! “Beijar o chão que pisa” é metáfora conhecida nas Beiras ou em qualquer ponto do país. Mas... “lamber”? Apre que é levar a gratidão longe demais. Mas entendo – as câmaras e holofotes e entrevistadores devem torcer com maior força os neurónios que roupa acabada de lavar à mão. Do mal o menos: não parei a digestão.

Publicado por Teresa C. às 11:15 AM | Comentários (3)

agosto 21, 2006

JOAQUIM ATÉ VER

Yannick.jpg
Yannick

Ele poderia ser o símbolo desta região granítica, dura, de interiores doçuras, hospitaleira e pródiga em verões suaves. Quando homenzinho, chamavam-no para fazer recados – “Ó Joaquim, anda cá!” Invariavelmente resmungava: “Joaquim... até ver!” Daí a alcunha. Daí os olhos postos na carreira do rapaz. Optimismo ou balão cheia de nada?

O Joaquim teimou. Foi ousado. Aos poucos, fez crescer o saldo da conta bancária por mor de trabalho, sacrifício e sentido de oportunidade. Objectivo conseguido e pago, buscava outro maior. E maior. A mulher sempre ao lado dele. Deitando mão ao precisado sem olhar a dificuldades. No presente, são industriais de sucesso. Empresa sólida, centena de trabalhadores, salários e segurança social em dia. O Joaquim Até Ver ultima projecto recente: a abertura de um hotel de charme a partir de quinta e instalações grandiosas em granito aparado do princípio de século.

As Beiras preservam o granito das gentes e ambiente. Não se julgue que o dito significa teimosia tola ou rigidez sem razão. A verdade é ser o granito rocha metarmófica que extremos de pressão e temperatura suportou ao amalgamar quartzo duro, feldspato cinzento e mica brilhante. As pessoas são tal, qual – suportam extremos térmicos, cerram dentes à dor se do trabalho vem o provir, são honestas, conservam a esperança e a honra não julgam palavra vã. Custe o que custar. Com próprio prejuízo ou não.

Na hora de abalar, hoje pela manhã menina, levo o coração cheio – de saudade do que fica, de vontade de partir, de paz e beleza, ansioso pelo que vou encontrar. Mulher da cabeça aos pés - contraditória, insubmissa, frívola, afectuosa, liberta e prazenteira no viver. Assim sou eu e nalguns detalhes de alama semelhante ao Joaquim Até Ver.

Publicado por Teresa C. às 08:35 AM | Comentários (2)

agosto 20, 2006

ISABEL MOURA

Valueva 2.jpg
Valueva

Ela entrava e eu saía da pedicure. Isto de arranjos e eliminação de carradas de inutilidades que a carroça motorizada transportou duas dezenas de vezes, sempre a abarrotar, dá a mulher cuidada ar de fêmea das cavernas num «ai». Antes da partida para novo rumo de férias, achei que tratar de pés e mãos, e uma massagem total era o mínimo que me competia para lides mais urbanas. Cabeleireiro nem vê-lo!, já que o leve ondulado natural não carece de secador ou cuidados especiais.

Os Moura foram empresários têxteis. Tudo começou com o Sr. Jacinto Moura, remediado empreendedor, por adquirir dois teares e com eles o fabrico de cobertores e do sorrubeco para fatos de quentura garantida na meia parte do ano muito fria. O fio usado era grosseiro porque liquidez para a compra dos refinados não havia. A mulher auxiliava a economia doméstica cozendo broa que distribuía na vila. Dá-se o caso de ao vinho a padeira não ser indiferente. A broa ressentia-se, os clientes também, descontando a irregularidade das entregas quando a embriaguez pedia cama e sono.

A Isabel é banal, excepto no ego grande como o mundo. Baixa, larga, loura discreta, nem feia, nem bonita. Banal, havia dito - assim é. Pródiga em grifes requintadas que usa bem à vista. De nariz empinado e olhos vagos de quem filtra do visto o que convém, perde o sentido da visão e do ouvido se um meia-tigela a reverencia num cumprimento de ocasião. Jamais entendi. A família é de boa gente, peneirenta, convenho, desde o crescimento da fabriqueta em teares, rendimento e qualidade de manufacturação. Construíram nos anos trinta do século passado, na avenida principal da urbe, moradias altaneiras, uma para cada herdeiro: o Joaquim, o Virgílio e o Carlos Moura. Este haveria de casar com a Agustinha Correia, senhora minha prima, com solar genuíno, quinta e salões forrados a damasco e cadeirões capittonnè; acima de tudo muito querida e mestra na arte de bem receber. À Isabel Moura conviria o mesmo que a todos: descer à terra e atentar na vida das pessoas comuns, como tantas, como ela, como eu.

Publicado por Teresa C. às 12:26 PM | Comentários (0)

agosto 19, 2006

THOSE WERE THE DAYS I

bowler_philipmorris_beach55.jpg
Bowler

“É tudo sobre sexo, de facto, mas grande parte está longe de ser sensual.”

Numa revista antiga do sótão-maravilha.


THOSE WERE THE DAYS II

E. Goetschel.jpg
E. Goetschel

“Os jeans são um sonho, o príncipe logo se vê.”

Anúncio dos jeans, corte recto, da Levis. Na mesma revista.


THOSE WERE THE DAYS III

Pihillip of Dallas.jpg
Phillip D.

“Quando Deus coloca um sonho dentro do seu coração, Ele vai dar-lhe todos os meios para o realizar. Ouça o seu coração.”

Na citada revista. Ao lado desta coluna, numa outra, recomendam-se remédios para a alma, outros para acabar de vez com as gastrites ou impedir que os frutos secos de um bolo se depositem no fundo.

Publicado por Teresa C. às 10:06 AM | Comentários (0)

agosto 18, 2006

SENHORAS DONAS REFORMADAS

Beryl Cook cook_ladies_night.jpg
Beryl Cook

Foram professoras primárias ou liceais, funcionárias administrativas, enfermeiras, ou são abastadas donas de casa. Chegam em bandos ao café. Ocupam mesas encostadas e colam as cadeiras à medida que novas aves (galinhas?) procuram poleiro. Viúvas, casadas, solteiras ou divorciadas. Em comum a idade – acima dos quarenta e cinco. Senhoras de bom nome e língua costureira passam a pente de dentes finos quem do café se abeira. Arranjam-se como se o homem da vida delas surgisse em contraluz e fosse direito a uma elevar o rosto que, pelo magnetismo sexual dele, levitaria. De mãos dadas bateriam asas rumo ao sétimo céu. Jamais aconteceu; porém, desistente, nem uma.

Conhecido que entre sem distribuir sorrisos e cumprimentos e beijinhos simulados e ser alvo do escrutínio da cabeça aos pés será impiedosamente acusado de falta de polimento ou de baldes de chá em criança. Não arrisco. A estadia é curta e não tenho como prioridade deixar rasto de antipatias. Aliás, a justiça obriga à lembrança do respeito e dedicação que sempre reservaram à família - se há qualidade que prezo é a gratidão. O sorriso e um bom dia são faceis, converseta é que não. Misterioso é o modo que o bando arranjou de obter reformas antecipadas. Para lá das banalidades dos dias, têm recursos e tempo para ir ao cabeleireiro e às compras a Coimbra. Viajam dentro e fora do país. Todas juntas ou em fracções. O Estado, generoso, paga. Pagamos todos - os cabeleireiros, as compras, a ginástica da língua e o viajar. Abençoada Segurança Social que tais milagres faz!...

Nota - A dificuldade de aceder aos comentários tem solução precária: actualizar a página.

Publicado por Teresa C. às 09:28 AM | Comentários (0)

agosto 17, 2006

ALVEIRADAS

Lindsay Goodwin 1.jpg
Lindsay Goodwin

Esperei-as o dia todo. A manhã acordou cinzenta e assim continuou, dançando loucos os verdes ao ritmo do vento. O ar frio desceu a serra aos rebolões e, ao chegar, «não tinha rei, nem roque». Pinheiros, ciprestes e plátanos, não fora a grossura dos troncos e o entrançado das raízes, a custo mantiveram a majestade vertical. Folhas caídas, pêssegos e nozes no chão. Um estrago.

Aventurei-me ao centro urbano - pouco lucrei. Após as festas populares e feriado, a terra fechou para descanso do pessoal. Papelarias, o café preferido, as lojas em geral e restaurantes encerraram. Gente nas ruas, nem vê-la. Em troca, chuva e vendaval obrigavam a corta-vento e capuz. Vim, como fui – mãos vazias. Ficou adiado o arranjo do candeeiro que me ilumina a leitura.

Num dia feio e a casa mais vazia pela partida de alguns amigos, encontrar capela de bem-comer não foi simples - a maioria encerrou. Como não sou mulher de desfeitas sem lutar, umas dedadas no telemóvel e achei. Já o José Quitério no Expresso classificava o sítio como mais que mera capela - digna Igreja Matriz da restauração. Toque na campainha e à porta fechada surgiu funcionária afável. Na antecâmara, a chefe de sala recebe quem chega. Ambiente sereno, granito nas paredes, prémios, críticas gastronómicas e autógrafos de figuras de nomeada emolduradas. A cozinha está a vista de parte da sala. Ampla, reluz limpeza e arranjo. A farda das cozinheiras é de alvura imaculada. Das entradas à sobremesa, a ementa é de comer e pedir mais, não fosse a abundância das doses. Feijocas à pastor aromatizadas com cominhos na quantidade certa, cabrito guisado com míscaros, arroz de carqueja à mistura com entrecosto tenro, marinado em vinho tinto. Carta de vinhos a contento e sobremesas caseiras. O pudim de ovos, de fatia compacta pela excelência dos ingredientes e cozedura, é manjar sem igual. Preço médio da refeição: dez euros. Acabado o prazer, foi bom sentir chuva miúda escorrer no rosto. As alveiradas não vieram e tão pouco as lembrei.

Publicado por Teresa C. às 09:35 AM | Comentários (3)

agosto 16, 2006

EMÍLIA DA PRAZER

Alain Aslan 3.jpg
Alain Aslan

De tão bela mereceu alcunha: Emília Bonita. Rapariga viçosa, morena na pele e no cabelo sedoso. Para estudos, além da quarta classe era curto o dinheiro dos pais. Da fábrica têxtil não escapou. Antes isso que os pés descalços enterrados na terra para a ceifa e apanha das batatas. Suportar dois quilómetros a pé antes do dia nascer, a neve soprada pelo vento e o frio como foice no rosto, cortava pela base a esperança da vida poder mudar. O passo era corrido, não ouvisse a sirene da fábrica antes de nela entrar. Fosse a chuva torrencial e a chegada tardia, a roupa encharcada secava no corpo e os pés nos botins de gelo.

Urdideiras e caneleiras – tarefas de mulheres. Patrões, empregados de escritório, debuxadores, responsáveis do fio, tecelões de primeira, segunda e terceira. Masculinas as tarefas superiores ou criativas; às operárias esperava-as a repetição dos gestos dispensando o raciocínio. Suportadas as horas de trabalho sem limite definido, e, após a dureza do caminho de regresso, mais havia para as mulheres cumprirem – a lida da casa, os filhos para tratar, dar de comer às galinhas e ao porco. Os homens iam directos ao cultivo do campo de onde recolhiam a restante alimentação de sobrevivência. A noite curta mal dava para aliviar os ossos da crueldade dos dias.

A Emília da Prazer, como a Lurdes do Zé Diogo – rapariga loura e de pele branca de cetim – e tantas outras como estas, pelos dezasseis anos, mais ou menos, sofriam o rito iniciático no mundo operário. Os patrões experimentavam-lhes o corpo após a máquina que as prendia delas ter sentido os dedos. Assédio sexual prolongado não havia – iam directos ao assunto e acabava. Elas perdiam a virgindade, cerravam os dentes e fechavam a boca após a indignidade. Um momento de dor e mais nada, pois era coisa comum e sabida antes da entrada. Gostando da «primeira vez», os patrões e funcionários superiores repetiam no «quarto do fio» o gozo roubado. Ou não. A Lurdes cozia-se aos muros e pinheiros e subia o Batoquedo. O patrão esperava-a no carro numa curva da estrada da serra. Amainada a fome de carne fresca, a Lurdes casou com o namorado que, no entretanto, fechara olhos e ouvidos ao que a aldeia via e murmurava.

Pela Emília perdeu-se de amores o António do escritório. Paixão correspondida. Estava o amante com o casamento insuportavelmente marcado e quis da Emília assentimento para fugirem. Não conseguiu. Ela sonhava casamento na igreja da aldeia, vestido branco, padrinhos e flores à saída. Recusou a fuga sem apagar o amor. Continuaram amantes. Ele casado, ela solitária e engelhada. Até morrer.

Publicado por Teresa C. às 09:42 AM | Comentários (3)

agosto 15, 2006

A TRANCA DA BARRIGA

132-Jan75.jpg
Alain Aslan

“Come filha, come a sopinha toda. A sopa é a tranca da barriga.” Este era dito regional. Uma tranca na barriga é supremo desejo dos que não têm tento no que enfiam pela boca. Entra a sopa, entram comezainas diária que incham e alargam o perímetro abdominal. Dizem indício de obesidade se nos homens ultrapassar 97 cm. Nas mulheres não sei ao certo, mas o que sofrem frente ao espelho é martírio de vida. Para o Vinícius, leve curva da barriga na mulher era essencial. Discordo. Olhamo-la de lado, de frente, e, vislumbrada, voltamos à fomeca, acrescemos abdominais e penamos e bebemos água e tisanas e engolimos pílulas para, passados curtos dias, naufragarmos em sobremesas. A tranca da barriga, hoje, tem nome: banda gástrica. Um horror! Dou loas pelo peso estável, mas sem oitenta abdominais quatro vezes por semana, não passo. E mais: vestimenta que de perfil não me revele somente a curva do peito é maleita.

“Trago-o nas palminhas das mãos.” Outro dito popular. Este não aprecio - subserviência a mais. Sugere lamber botas, amoinar, renunciar à própria opinião. Para isto não sirvo - o meu nariz trai-me e desata a empinar como o do Pinóquio ao mentir.

“Aquele é do pomar de Jesus...” Chiste local e que uso bastas vezes. Ingenuidade serôdia, crendice tola. Venda nos olhos que a patetice, a teimosia, não raro a paixão, ao indivíduo surripiam objectividade e raciocínio escorreito. Todos, uma vez por outra, visitamos o referido pomar. O que não entendo é a associação entre inocência tonta e a idealização de Jesus. Olho vivo para o cinismo humano a tradição preservou-lhe. Será que o princípio de oferecer a outra face a quem numa já bateu, tanto enviesou?

Publicado por Teresa C. às 10:11 AM | Comentários (1)

agosto 14, 2006

PROVINCIANOS? TODOS NÓS!

PurpleSplendor_Black_sm.jpg

Desengane-se quem pensa ser a vida na província uma pasmaceira total. Nada disso! O tempo estica, concedo, todavia é generoso no proveito. Sofisma é julgar as gentes do país interior desligadas do novo, do que importa e corre no país e no mundo. Aqui assisti a espectáculos sem igual. Bailado, concertos de orquestras belíssimas nos claustros da Câmara, emoldurados por hortênsias de cores e tamanhos improváveis em qualquer ponto do país. Sonoridade perfeita.

O Museu de Arte Moderna tem acervo rico e represenTativo da pintura portuguesa. No Museu Etnográfico são preservadas tradição e cultura local. Na Galeria de Arte, instalada nas catacumbas abobadas do Solar dos Marqueses, corre um ribeiro atrevido sob piso de vidro. Os dourados, os azulejos e os frescos das Capelas e da Igreja Matriz onde concelebraram ontem o Bispo da Diocese – ele e um sacerdote, ambos novos, induziram o pecado em mentes desejosas pela troca do fervor pelo encanto e belas-figuras dos dois -, são, como soe dizer-se, “dignos de ver”. Conferências, cinema, lançamentos de livros, e o semanário da terra são algum do alimento espiritual dos habitantes e(ou) naturais. No mês de Agosto serrano, a cultura não anda de bikini ou vai a banhos. Está pujante de energia, renovada pelo degelo da Primavera.

Nós, que em Lisboa e no Porto alegamos mobilizar cultural e politicamente o país, sofremos de peneiras, soberba e provincianismo. Lá por temos acesso a muito em primeira, por vezes única mão, convém-nos a humildade. Tirando o snobismo das atitudes e vestimentas excêntricas de certos artistas e pensadores, entre eles e um pastor serrano nada sobra em substância que os distinga na profundidade do pensar.

Nas noites suaves e de prata, a música de bandas rock e cantores de qualidade, dispersam harmonia no ar. Mobilizam gentes e educam o gosto. Corpos soltam-se ao ritmo, rebolam ventres e braços agitam-se no ar. O costume. Aqui ou em qualquer lugar.

Publicado por Teresa C. às 10:31 AM | Comentários (3)

agosto 13, 2006

BEIJOS, BEIJOCAS E BEIJINHOS

S. Marshennikov.jpg
Marshennikov

Existe o beijo. Quente, voluptuoso, perdendo quem antes da boca o olhar uniu. Há um beijo especial em cada vida. Inesquecível. Imune à borracha temporal. É felicidade ter ao lado, meses e anos a fio, quem beija assim. Permanecendo «o beijo» intocado nos dias um a um, é laço que não engana – amor isento, na essência, de erosão.

Beijos. A este ou àquele. Ilusões estaladas. Amores que ficaram pelo caminho. Enganos. Beijos aos que são queridos por laços de família ou amizade são comuns. Fiéis. Dados e recebidos com gosto, mesmo se no instante não atentamos na benesse dos afectos partilhados. Beijos há esvoaçantes que enviamos por mail, sms ou telemóvel. Beijos voadores. Nem afloram o recpetor.

Beijoca é outra coisa. Húmida, peganhenta na pele. Por aqui ainda há beijocas. Só as mulheres para cima dos setenta os dão. Dos pêlos do buço espetados esperamos desconforto, mas para uma beijoca nunca estamos suficientemente preparados. As especialistas espalmam a boca na bochecha da vítima que enlambuzam. O embaraço é atroz. Apetece limpar a face no momento. Mas não. Durando a conversa de circunstância, é sentida a «coisa» a secar. Ouvir quem nos fala, nem pensar - não pela monumental seca do linguajar, mas pela falta de um lenço, de álcool ou água que nos livre daquilo que não deixámos de sentir. Os homens não beijocam, repenicam. Por vezes melhor que nós. E sei do que falo...

Beijinhos são... são... etéreas formas de estar. Mal afloram a face. Gesto simbólico que nada quer dizer. Mas é bom distribuir e receber beijinhos como quem apanha confeitos numa boda ou festa popular. “Beijinhos. Até depois!” ou “dá-lhe beijinhos meus.” Porém, numa noite enluarada, fresca, entre lençóis perfumados com alfazema, iniciar um périplo de toques suaves dos lábios pelo corpo amado da cabeça aos pés, numa dolência apetecida é redimir os beijinhos. Fornecer-lhes significado. Doces arrepios numa noite de verão.

Publicado por Teresa C. às 12:09 PM | Comentários (11)

agosto 12, 2006

EU, Tati

A girl in love.jpg
Autor que não foi possível identificar

Narcísico um texto que fale do próprio? Nem por isso. Antes olhares. Dispersos. Atentos. Vagarosos ou relâmpagos de ocasião. Porque repetido o regresso a um lugar não perco a novidade sentida à mistura com o aconchego das raízes pujantes que me suportam e abrem à vida. Atentando no escrito, menos veloz que o pensado, reconheço ter, entre infinitos defeitos, apego forte à família e aos lugares variados da minha crescença. Os pais vieram da cidade em que viviam para que nascesse na terra familiar. Aqui casaram como os pais e avós e bisavós até longínquas gerações. Aqui me baptizaram e vim de propósito casar. Ao ser mãe fiz o mesmo: na Igreja que tantos anos esteve a cargo do tio bisavô, sacerdote do lugar, procurei para os filhos a benção do Deus em que acredito.

As matriarcas do clã tinham-me por endiabrada em criança, sem parança já mulher. A mãe afirma cansar-se por ver-me rodopiar se há tarefas na lista. Mais afirma: “fizeste tudo muito cedo – casamento, curso, filhos e despachaste o marido.” E tem razão.

O novo que me prende o olhar fica por conta das gentes e das mudanças nos lugares. Hábitos sociais alterados, rostos que desconheço, me cumprimentam e lembro depois, memórias onde figuro e recordo e tenho gosto em rever o rosto-testemunha do que fui. As rugas, o branco no cabelo chegaram a quem me fala, mas o sorriso, os olhos e a voz permanecem e tocam a rebate lembranças. Que fruo com demora. Para eles sou a menina de cujo percurso souberam por atalhos que ignoro. Atribuem-me o nome carinhoso da meninice que logo a seguir emendam, enredando-se em desculpas que me apresso a desfazer. É bom saber que a menina permanece na ternura de quem me quer bem. Como eu lhes quero. E essa menina existe. Quando deixar de a sentir, não sou eu.

Publicado por Teresa C. às 09:55 AM | Comentários (0)

agosto 11, 2006

TURCOS E PORRETAS

chelin Sanjuan.jpg
Chelin Sanjuan

Em férias, descuido notícias do país e do mundo. Chegam as do dia-a-dia local. Acho terrivelmente importante o divórcio do Dr. Mesquita e a tristeza da Olguinha, conhecer o pimpolho da Ana e do Rui, ouvir-lhes a descrição do desarranjo das noites em claro e da mama que esvaziada enche mais depressa que balão. E pinga, e ela empapa o leite, e vai a correr para casa. Deliciosas memórias, prisão para quem amamenta. Porém, o sorriso embevecido quando a volumosa fonte é sugada pelo rebento, diz tudo. Para os pais é instante de paraíso.

Das mudanças constatadas, a menor não é a roulotte das farturas entre a Igreja de S. Pedro e o fontanário quinhentista. Para alugar aquele espaço a Câmara deve ter as finanças como as dos portugueses: a zeros ou negativa. Ao ver o preparo da Praça que fora da época das festas votivas é primorosa de bom-gosto, lembrei-me dum vernáculo reservado pelas boas famílias locais a incidentes desagradáveis – “olha a porreta!” Coisa morna, disfarçada, já que «porreta» significa também «macacos» do nariz. Mais feio que uma «porreta» só o ranho nos petizes.

Ao saber que a água tem pouca pressão para as regas particulares enquanto nas cascatas e fontes dos jardins públicos corre em cachões, apeteceu-me (des)cumprimentar o Presidente da Câmara e dois assessores que esta manhã passeavam vistoria ou seduziam munícipes. Num impulso que só por aqui tenho, a expressão que à primeira me ocorreu foi: “ah que «turcos»!” Turcos eram seres viciosos segundo a tradição beirã. Bárbaros. Recolhendo prazer do mal feito. Já a tia Rosinha, solteira, mimosa em tudo menos nos assomos de mau génio, quando uma sem-vergonhice suculenta, carnal, esdrúxula, lhe chegava aos ouvidos, era ouvi-la, entre-dentes, murmurar: “uns turcos. Piores que animais. Uns turcos!” Morreu cedo. Evito supor o que dirá se do além me vir...

Publicado por Teresa C. às 08:18 AM | Comentários (0)

agosto 10, 2006

MARIA BENEDITA

Alexander Rosenfeld.jpg
Alexander Rosenfeld

Castas. Aristocracia rural. Marqueses e condes houve no início do século passado. Foram-se os títulos, desapareceram os herdeiros, ficaram os solares. Tenho para mim, que a fuga dos herdados foi devida à pipa de dinheiro vivo que os gostos de luxo aviaram. Nada sobrando para manter os casarões, foram evitados tectos caídos e portadas partidas numa desolação total poqaue a Câmara assumir o restauro. Os brasões requintam monumentais entradas da biblioteca e outros serviços abertos à população. Granito trabalhado, sempre o granito, orna altas janelas de pincho. Paredes caiadas de branco ou rosa português.

Fábricas têxteis. Construções desmesuradas como brutais contentores de máquinas e operários e ruído, dia e noite, salvo ao domingo. O «fim de semana à inglesa» veio passado mais de metade do século. O trabalho por turnos arrebanhava gentes das aldeias em redor. A pé, nevasse ou fizesse sol, operários do turno de dia, ainda o sol não era erguido, substituíam os da noite amarrados desde o entardecer da véspera ao inferno dos fios corridos nas lancçadeiras. Crianças de dez anos para cima, assim revelassem talento – os menos dotados iam para os campos ou apanhar lenha para as lareiras de chão onde panelas de ferro coziam comida frugal, batatas principalmente – iniciavam a carreira fabril. A fábrica era uma promoção. Só décadas depois os pais aspiravam a salvar os filhos do sacrifício. As condições mudaram: trocaram a comida fria das marmitas pelo refeitório. Creches apareceram mais tarde a cargo dos patrões – os Belinos, os Pratas, os Sampainho e Lima. Para estes a vida era abastada: viagens e usos fidalgos. Os antepassados? Silenciados. Dos Belinos, a avó havia sido forneira.

No lazer matinal, acorrem, agora, ao café mais tradicional a classe média e os sobrevivos da elite. É o caso da Maria Benedita. Mulher de sessenta anos, cabelo grisalho apanhado num carrapito raro de ver hoje em dia. Bonita e elegante, refinada no vestir. Surpreendeu-me vê-la – só em Setembro, após o Agosto fora do país, vinha de Coimbra com a família dar vida à Quinta da Pedra Alta. Lugar de ouro, uma jóia das Beiras. Não entrou no café - preferiu a esplanada num recanto isolado livre de misturas com a meia-tigela. Do tempo das serviçais fardadas e crista engomada resta-lhe a lembrança. Hoje, paga caro os poucos que a servem, sem farda, nem cristas, nem punhos hirtos de goma. A simplicidade como última opção. Ainda brilha a Maria Benedita. Mas não ofusca. E se merece reparo é pelo envelhecer distinto. Uma bela mulher. Mais nada.

Publicado por Teresa C. às 09:24 AM | Comentários (2)

agosto 09, 2006

VESTIDO DE COCKTAIL

Alain Aslan 6.jpg
Alain Aslan

Chama-se João. Apelidos constam do registo que, contudo, ignoro. Há uns vinte anos que o conheço pelos bons ofícios de faz-tudo e anjo da guarda da casa de família. Canalizador, electricista, conserta esquentadores e estores, oleia dobradiças e, especialmente, tem a seu cargo o jardim. Poda videiras e árvores de fruto, cameleiras, sebes de bucho, roseiras, heras, qualquer verde que ciclicamente obrigue a resumo ao essencial. E da rega, melhor dito, do sistema automático de rega caracterizado pelo temperamento intempestivo. Como ajudantes acidentais tem, no caso vertente, dois: o Laurindo e o Angelino. Destes, o primeiro é mais dado ao vinho do que às videiras; o segundo é mais a horta dele e os concursos da televisão. Pelo visto nos anexos e do lixo nas áleas, os três não são demais. Junta à conta calada que em cada regresso acumulam e apresentam após a cerveja de oferta, vem a frase gasta – “Deixei tudo num brinquinho, mas o Angelino pouca ajuda deu. Sabem como é...” No bolso das calças busca a factura que vem à mistura com o forro esburacado. Olhado o forro, atentando no rosto avinhado, quem tem coragem de chamar roubo à soma total? Eu não! O Angelino dá o fora com um limpeza invejável - “Este mês está mau para cá vir; chega a família da Suíça mais os netos, fora as batatas que mirram na terra e têm de ser ensacadas. Depois, estão à porta as Festas, sabe como é...” Sei, se sei!, que o resto da família vem aí para a reunião anual e quem terá o serviço nas mãos sou eu!

Não sendo de adiar o que posso adiantar, enfiei um vestido da colecção de antiguidades que em Lisboa me atafulhavam armários e repousam em paz aqui. Cabelo preso ao alto, havaianas nos pés e “jardim dos meus amores, aqui estou!” Uma dezena de caldeiros enchi-os em menos de um rosário pela varridela esmerada do granito. Molhos de vides enchiam um dos anexos à mistura com teias de aranha, bicharada vária e calma que não me esperava. Avancei com a vassoura empunhada como lança em guerra medieva. Os fios cinzentos das teias caíam como azeitonas maduras. Enredadas no cabelo, braços e pernas não me detiveram e os molhos viram a luz do dia. E as aranhas. E bichos vários. O pior estava para vir: molhos e caldeirões cheios teriam de sumir.

Em vestido de cocktail, só então reparei na minha figura, ajeitei um caldeirão numa mão e vides na outra. Uma viagem até aos contentores do lixo. Duas. Três. Passantes e automobilistas abrandavam ao ver-me. Os conhecidos acenava e sorriam. Ofereciam préstimos – “não, obrigada, isto não pesa” dizia com a leveza que não sentia. Muitos não resistiam e olhavam para trás. Entre os músculos retesados e o êxito alcançado, entendi: não eram as alças finas e o peito saltando traquinas. A transparência do vestido sem vestígios de qualquer peça de lingerie estavam para os caldeirões e as vides como farda de enfermeira para as mentes masculinas. Só para que conste, acabei o serviço como comecei – o mesmo vestido e nada de lingerie.

Publicado por Teresa C. às 09:32 AM | Comentários (3)

agosto 08, 2006

MARIA UMÍDA

Leanne Cerro.jpg
Leanne Cerro

De onde surgiu a ideia de baptizar bebé com nome tão arrevesado não me souberam dizer. Os pais lá teriam razões para assim nomear a criança. Ao tempo, a originalidade não era razão de escolha. Teimosia dos padrinhos, mania do pai ou mãe eram motivos, e o Maria tornava o despropósito do Umída razoável. Pais humildes - um trabalhando a terra, outro nas fábricas locais, ambos sacrificados para à filha dar educação. Fez, à época, o segundo ano do liceu. Mais longe os pais não a puderam levar dada a carestia do colégio, única escola na terra a fornecer o ensino liceal. Ficou em casa, cresceu em altura e formosura. Olhos verde-água, cabelo claro, alta e de corpo esculpido, mais parecendo à mão. A beldade local.

Pobreza e limites familiares enclausuravam a rapariga. Aspirava a mais. O que tinha desesperava-a, o que não tinha desejava de modo tão ardente que o primeiro passo foi casamento aos dezasseis anos de idade com rapaz fora do circuito rural. Zelava o marido pelo sustento dos dois, quando do serviço militar nas colónias recebeu carta de chamada. E lá foi, embarcado com centenas de maçaricos como ele. Menos no regresso, era certo, mas pensamentos negros não convinham ao momento.

Durante a «comissão» da praxe, à beldade era suposto recato, honrando a lonjura e o perigo que sujeitava o respectivo. Pedir a uma garota clausura repetida foi excessivo. Não aguentou - mal dos nervos, tristeza, peso a menos que ida ao médico resolveria. E foi. Uma, duas, muitas vezes. As necessárias para de amores, doente e médico, se perderem. Num ápice, a mancebia pediu casa e pucarinho num apartamento de luxo à renda. Escândalo social. “Onde se viu amancebados arrojarem trocar matas e milheirais por casa montada e filho engendrado já na barriga da mãe?”

Anos passados, o divórcio que a esposa nortenha negava por convicções religiosas e convencionais aconteceu quando um filho da amante era crescido e filha estava a caminho. Às tantas, a digníssima esposa considerou filhos a mais para possível reconciliação. Tornaram-se casal honrado num dia de Verão. Ela, deslumbrante em azul diáfano, os miúdos e convidados em festa de arromba nos jardins da moradia que para a nova família o médico forneceu. Tudo rumava à felicidade. Mas não. Ela continuava mulher perdida na opinião dos locais. Famílias reputadas ignoravam-na e pagavam consulta ao marido. Uma mulher de má fama é puta disfarçada, diziam. Desfez uma família, e benção por tão mau-passo o granito das gentes recusava-o. Assim foi até ela não macular a viuvez sendo ainda jovem mulher.

Só, filhos para criar, obteve diploma do ensino superior. Conservou o património legado pelo marido, e se muito era!, trabalhando e fazendo crescer em harmonia os filhos. Ao café mais reputado faz visita diária. Pelas onze, entra a figura esbelta de porte altivo. Numa mesa do canto lê o jornal. Condescende um olhar à distância aos que outrora vendo-a, não a viam. Levanta os magníficos olhos verdes, passeia-os sem parança de monta e regressa ao jornal. Bela, altiva, corajosa. Maria Umída de seu nome. Mulher de bem, digo eu.

Publicado por Teresa C. às 09:43 AM | Comentários (2)

agosto 07, 2006

SALTOS DE PLANTAR COUVES

h_sorayama064.jpg
Sorayama

Domingo nas urbes rurais tem apuro e ritual. Seja tradicional a família e o preguiçar não vai além das nove. Na cozinha, os preparos do almoço em andamento misturam-se com o aroma do café acabado de fazer. A porta-janela da sala da refeição matinal emoldura picos da montanha e dá entrada ao ar fresco da manhã. Calor? Aqui? Nem pensar! É Verão com todos, dá para perceber, mas suores ou incómodos somente para os que ao sol mercam vencimento.

A missa dominical é assunto sério. Antecede-a meia dúzia de larachas no café costumado. O pessoal aprimora a fatiota; se feminino o esmero é maior. À conta do corredor da nave central da igreja, o vestir é o último grito da moda local – pormenor de somenos é há quantos anos foi aquela a moda. Mas usou-se. Usa-se. O bom estado das roupas nem é admiração: cobre o corpo uma dúzia de vezes por ano e no restante fica no guarda-fatos ao lado da mortalha. O desfile faz-se na calçada que separa o estacionamento da «bica» e depois da Igreja. O mulherio espevitou – alças e decotes para a benção do Senhor desnudam seios fartos e costas anchas e redondas. Coisa nunca vista é o penteado das damas. Devem existir por estas bandas multicortes como há multibancos – máquina com buraco para enfiar a cabeça e sair com o cabelo cortado. Inenarrável. Curto, pescoço atrás bem rapado, contornando em comprimento as orelhas, cocuruto composto mas sem abusos. O colorido cabeludo é... é... Só vendo!

Avancei, decidida a enfrentar a prova do café no dia do Senhor. Saia leve e rodada, blusa insinuando o busto e bem cavada em tons pastel. Pernas com bronze ao léu. O cabelo esvoaçante. A rematar tanta leveza chinelas de salto. Ora, reside aqui o cerne da questão: a calçada de granito não foi feita para pontas finas. Que remédio senão prejudicar o porte olhando frequentemente para o chão, não afundasse o salto, ficando a chinela para trás e o pé descalço para a frente. Pecaminoso incidente por manchar a minha fantasiada elegância. Lembrei o chiste agrícola dos que encarreiravam buracos finos para em cada um enterrar raiz de couve – “saltos de plantar couves? Desculpar-me-á menina, mas vê-se que não é daqui!”

Publicado por Teresa C. às 01:26 PM | Comentários (4)

agosto 06, 2006

ROSINHA DOS LIMÕES

Kimberley Dow 1.jpg
Kimberley Dow

Mistério. Desaparecimento. Janelas cerradas. Ainda no Agosto passado, era sabida viva pela entrega regular de mantimentos. Deixados à porta em troca da paga dos últimos, não sendo vista a mão que os recolhia ou como aos da casa chegava o dinheiro. Lata de biscoitos vazia usada como cofre? Gaveta anónima sem cuidados de maior? Esconderijo debaixo do colchão? Ninguém sabia e, aos poucos, aos de fora deixou de importar. Talvez a estranheza dos vizinhos tivesse proveito na forma de papão que, pelo espanto abrindo a boca aos mais pequenos, desse entrada a nova colher de sopa. Quando a miudagem é arredia do comer, desde o avião ao carro na garagem tudo serve para enfiar sustento e garantir crescença.

Era uma rapariga fidalga. Pele branca, caracóis louros emoldurando oval de rosto perfeito. Filha única, desde cedo órfã de pai, caiu como presa inocente nas teias da ditadura materna. Vigiada, proibido era o convívio com moços e moças da idade dela. Diziam as matriarcas visitas da casa que prendas não lhe faltavam. Gabavam-lhe a candura, a beleza e a delicadeza de fala e mãos. Culta, acrescentavam, já que educação a preceito fazia, aos olhos da mãe, parte do dote. Chegada a altura de casar, nenhum pretendente estava à altura da severidade materna. Anos passaram, e a frescura da pele mais o mortiço dos olhos foram eloquentes: à casa faltava um homem que como genro tomasse conta das duas mulheres. Um mecânico candidatou-se à aliança no dedo e casou. O fito era a fortuna da megera; difícil era levá-la à certa.

A Rosinha dos Limões não voltou a ser a mesma. De facto, poucos sabiam como era antes do mecânico. Os abelhudos afirmavam-na destratada pelo marido - a torneira da fortuna fechada nas mãos da sogra dava à casa mau viver. Morrendo a velha, prediziam vida sorridente à Rosinha que aos vizinhos não deixava faltar limões da árvore generosa nas traseiras do quintal. Mas não. Após a morte da mãe deitou-se e fechou as portadas. Por ela perguntavam ao mecânico que lhe atribuía os nervos doentes ao luto recente. Um dia após o outro, e o marido fechou-se em casa. Como a mulher. Fora os víveres à porta e depois sumidos, nada era sabido do casal. Corria a vidinha no rego do costume - fábrica, serviços, uma horta para entreter e dar frescos –, e o esquecimento alheio varreu os da casa dos limões. Um cesto de comida ressequida pelo sol e a tranca na porta deu o sinal: foram-se! Nem cheiro a mortos ou sangue escorrendo no granito da entrada. Nada de suculento. Passado o falatório no café e nas idas e vindas do mulherio aos contentores do lixo, caiu no esquecimento. Arraiais assentes da chegada, dei pela falta e perguntei: “a Rosinha dos Limões curou-se?” – “Não. Foi-se.” Nem uma palavra mais.

Publicado por Teresa C. às 12:59 PM | Comentários (0)

agosto 05, 2006

MARIA DA CRUZ

Bart Lindstrom 4.jpg
Bart Lindstrom

«Don’t you fuckin’ look at me!» - Frank Booth (Dennis Hopper), in Blue Velvet

Ajeitava flores nas campas dos mais chegados. Fruía daqueles doces momentos de ternura em que os amores passados são tão vívidos como os presentes. Memórias. Sorrisos ao lembrar situações picarescas, os olhares cristalizados nas fotografias transbordando vidas que em parte testemunhei. A brisa do final de dia descia mansa da serra.

Acendia a última vela quando ela apareceu. Figura negra, delgada, porte elegante. Andar leve de quem muito transportou em cima de uma rodilha. As mulheres rurais não careceram de ginásios ou livros em cima da cabeça - para lá, para cá, outra vez, outra vez - para interiorizarem a postura correcta. O duro trabalho agrícola desde a infância ensinou-lhes muito – obediência, sacrifício, madrugadas, labores de sol a sol. Pelo meio carregavam: cestas de vime com uvas, azeitonas, batatas, o que fosse na época o produto da terra.

Aproximou-se. Mulher faceira. Rosto corado pelo sol. “A menina que me desculpe, mas não está lembrada de mim?” Que não, respondi, que não estava e me desculpasse pois não duvidava ter obrigação de a reconhecer. “É natural, era pequenina e só vinha de férias, mas parece que ainda estou a ver... Sou a Maria da Cruz. Quando os paizinhos iam ver a andança do trabalho às terras não havia modo de a impedirem de se descalçar e ir para a para o meio de nós. Sempre a fazer perguntas e a imitar com um sacho de brincar os que cavavam as leiras. Dava gosto ver!...”

Preparava-se para o desfiar de lembranças como contas de rosário, e baixei-me volvendo ao acender da vela. “Sabe, o seu paizinho deu-me a terra da Regada por mor de me saber precisada e sem ter onde cultivar para mim. Além de deixar a burra de noite, que nem corte tenho, valha-me Deus!” Que sim, bem havia feito o pai, retorqui. Aqui já se baixara até o olhar dela se postar no meu. Sem desistir: “deu-ma, a menina está a ouvir? Acha bem?” Percebi que sem rosto sério à altura do dela, dali não abalava. “Maria da Cruz – se o pai deu, está dada e muito bem.” Aliviada, despediu-se: “Deus a abençoe e aos seus, e que nada lhes venha a faltar como falta a mim.” Foi-se. Sombria, delgada, elegante. O saco das dúvidas mais leve, o esboço de um sorriso talvez.

Publicado por Teresa C. às 09:57 AM | Comentários (0)

agosto 04, 2006

MULHERÕES

CHERRY.jpg

Mulherão – fêmea que corresponda a um ou mais dos seguintes itens: podre de boa, de coragem, de seios como sacos de cebolas de quilo, nádega maior que folar de Páscoa, mulher nalguma coisa ou qualidade excessiva.

Chegada a casa de veraneio sem os préstimos da Lucinda que atafulhava a despensa e a arca para a chegadas dos senhores, é pretexto para gastronomia ardilosa do colesterol e fígado. Os ares são bons, lugares de bem-comer abundam como pipocas nas feiras, as ementas são uma surpresa que a cozinha apura para os forasteiros. Que não sou. Conhecida desde menina pelos pais fundadores, depois pelos herdeiros do lugar, sinto-me em casa. Sem panelas e fogão. Um delírio de mimos e palato falante: “que se passa?, noite de sábado? festa?, namorado?”

Foi hoje chegada a triste realidade: mergulhar sem escafandro ou botija num mini-hiper-mercado. As capelas do consumo local, lembrando romarias, foguetório e procissão, estão à pinha. “Mete a casquette ou torço-te!” vomitado ao miúdo franzino por um mulherão é coisa de arrepiar. Tivesse um casquette e quem o teria enterrado até às orelhas era eu. Os mulherões trazem tudo à trela: marido, carrinho do supermercado e filhos. Sogros e cunhados não costumam faltar. Falantes. Berrando das cervejas para as bolachas. As células adiposas enfeitam com pneus em pilha os mulherões. Um festival de banha. Um hino à gula e à liderança.

No café tradicional onde os amigos dos amigos, nossos amigos são, os mulherões são outros – louras, penduradas em sandálias de plataforma, bronzeado ao léu e óculos fantásticos entre extensões do cabelo. Origem? – Local. Residência: Luxemburgo, Genéve ou quejandos. São raras, Deo gratias! Ao entrarem mobilizam olhares. O meu incluído. Atónita, engulo o café. Bebo a água. Retomada a conversa, ficam as tiradas humoradas, o querer saber de um ou meio ano passado. Os mulherões passam, a serenidade fica. E venha outro café que o primeiro não contou.

Publicado por Teresa C. às 09:22 AM | Comentários (2)

agosto 03, 2006

BOA_ZONA

Sorayama pin.jpg
Sorayama

Não julguem os menos avisados que possuir casa de família para tempos festivos ou de veraneio é fruição garantida. Também, mas não só... (expressão adorável que intelectuais, políticos e apresentadores popularizaram até parecer roupa batida e esfolada pelo sol). Retomando a idealização comum das segundas habitações: espaços amplos, arvoredo, jardim de garantida privacidade, alamedas frescas para nocturnos enleios. E paz. Serenidade. Arredio o lufa-lufa do resto do ano. Paraíso terrestre. Pois... Chamem-lhe isso...

Na casa de férias o bem-estar vem no pacote. De tão generosa, a minha fornece-me pela mão-beijada dos antepassados o ideal atrás descrito. E, para que a desocupação não entedie ou perca a forma física, garante-me, em simultâneo, vinte e duas janelas e portas-janelas para limpar os vidros e respectivos parapeitos. Mais conto para cuidar – rega farta de plantas decorativas, móveis de pó entranhado, teias de aranha, bichinhos-da-conta fazendo do soalho promenade. Tudo vivo - directamente do produtor, o jardim, ao consumidor, a esfregona e a vassoura.

Menos mal quando há uma Virgínia. Desembaraçada e sem «ais!», «uis!» ou gritinhos histéricos quando as aranhas matriarcas, obesas de alimento e parança, passarinham na parede desafiando a gravidade e dando conta de mais patas que eu de paciência. Em seis horas arrasou a bicharada, ninhos e casulos, aviou vidros e parapeitos. Uma limpeza.

Era dito que as boas mulheres iam para o céu e as mulheres boas para o inferno. A Cila de Lisboa, a Lúcia de Coimbra e a Virgínia daqui garantido têm o céu. E eu? Onde irei parar? Boazinha não sou, e do purgatório presumo um tédio.

Publicado por Teresa C. às 09:06 AM | Comentários (3)

agosto 02, 2006

BON CHIC, BON GENRE

HSpin220.jpg
Autor que não foi possível identificar

«Go, get the butter.» - Paul (Marlon Brando), in Last Tango in Paris

O uso da manteiga desgostou-me. Não estrelou o filme personagem feminina com dotes e usos domésticos, foi o que foi... Num pico erótico da dança sexual, quando o olhar, os lábios, o cheiro e a exaltação pedem a rendição total, ouvi-lo sugerir manteiga como unguento escorregadio, francamente! De imediato, o entusiasmo volve arrepio. Manteiga sugere puré de batata, formas untadas para cozeduras de bolos, molho bechamel; no melhor dos casos, pão acabado de cozer. A feitura do amor sai prejudicada e a lista mental das compras do supermercado aumentada – “Tal qual! Manteiga falta cá em casa.”

Julguem longínquos os tempos em que durante o acto do amor elas programavam as refeições da semana e detectavam lugares escusos que há muito não viam o pano do pó, e estarão redondamente enganados. Mulher adora ser boazinha. Dar sexo ao homem como quem lhe grelha, sem danos, um linguado. Nele o adormecer é pacato, ela dá da cama um pinote e ainda põe uma máquina de roupa a fazer. “O tempo bem esticado, chega a tudo”, dirá ela, um primor de organização.

Nada releva o mau-gosto de apelar à manteiga para tão prazeroso objectivo. Ou maionese. Ou natas. Ou banha de porco. Há íntimos sabores e prazeres onde a culinária vai mal. Como os pudendos. Ao natural sabem melhor. Como ostras ou berbigão.

Publicado por Teresa C. às 09:20 AM | Comentários (7)

agosto 01, 2006

RALAÇÕES SENTIMENTAIS

Peter Buddle.jpg
Peter Buddle

Chegado o calor e os corpos desnudos, bronzeados, peles de brilhante cetim dourado, trapos finos como reveladora segunda pele, é chegada a hora de tocar a sirene que só as mulheres ouvem e fazer jorrar das mangueiras água tormentosa que não deixe vacilar o nosso homem perante o mulherio circulante. Fossemos redutoras, e os homens afirmados comprometidos dividiríamos em três categorias:

- predadores – homens que julgam a poligamia um inalienável direito masculino;

- receptivos - disponíveis para uma aventura mas preferem esperar que ela lhes caia na sopa;

- certinhos – tentam ser fieis mas extremamente vulneráveis ao romance e a tropeçar na alma gémea.

No feminino qualquer dos itens não perde actualidade.

Havendo da infidelidade provas concretas, é a confiança que mais sofre com o golpe. Quando irrecuperável, cedo ou tarde diverge em dois o caminho. Sarada, melhor seria dize-la remendada, o casal pode evoluir e repensar a relação. Aceitar que o outro não nos pertence e tão pouco o queremos por companhia com o afecto partido, é trilho árduo, porém sem digna alternativa para uns, para outros o caminho possível. Ardis, guerrilhas ou reles estratégias somente aviltam quem delas faz uso. E não adianta negar – a farta maioria dos seres espera que a companhia sonhada lhes caia nos braços em voo picado. Caramba! Somos molengões até no tomara-que-caia duma conquista.

P.S. O mundo dos blogues é como outro qualquer para engates de ocasião. Deve ser, digo eu, porque isto de receber um deslize de ciúmes sob a forma de mail é obra! Ora, sossegar alma feminina é gesto que muito me apraz. Vai ver, e o «seu»(?!...) homem anda à cata de meninas bonitas em poses ousadas, que não atem nem desatem como as daqui, estando completamente nas tintas para as palavras que é suposto servirem. Chegadas a este ponto, minha cara, apazigue o espírito – assegure-se de aprimorar as prendas que em si contam e o fascinaram. Ele não repara? Pior para ele!

Publicado por Teresa C. às 09:01 AM | Comentários (9)